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segunda-feira, novembro 21, 2022

o primeiro Tintin, o Tintin de sempre


Lisboa, 1925. Durante as semanas em que o Repórter X enviava as suas reportagens de Moscovo, o interesse dos leitores era tal, que a revista
ABC publicava uma segunda edição e acrescentava na capa: “Revista Portuguesa na Rússia”. Não se sabe se Reinaldo Ferreira, o homem por detrás do ‘X’, esteve de facto na pátria dos sovietes, os historiadores dividem-se; no entanto, pela verosimilhança do relato, o mais famoso enviado do jornalismo português sabia do que falava.

Também o jovem Hergé (1907-1983) nunca pusera os pés na pátria de Lénine, mas o relato do recém-criado Tintin foi um enorme êxito popular. Surgido no Petit Vingtième, suplemento infantil do jornal católico Le Vingtième Siècle, de Bruxelas, a partir de Janeiro de 1929, Tintin no País dos Sovietes conheceu uma edição em álbum, logo se esgotando; no entanto, só em 1973 a editora Casterman faz sair uma nova edição, com Tintin no Congo e Tintin na América, sob a designação de «Archives Hergé». Por um lado, o pendor antibolchevique não caía bem na intelligentsia ocidental complacente com o regime, com a designação de anticomunista a revestir-se de anátema incómodo; por outro, a circunstância de Hergé, simpatizante do movimento rexista belga, ser detido após a libertação sob a acusação de colaboracionismo, também não facilitara as coisas. No início da década de 1970, porém, Hergé já era consensual, e Tintin uma personagem reconhecidamente humanista. Além disso, o prestígio que a União Soviética exercera na década de trinta, vinha ruindo paulatinamente, também por obra de escritores como Koestler, Orwell e Soljenítsin.

O que há do Tintin que todos amamos neste trabalho de juventude é o que veremos na próxima semana.

***

O que faz de Tintin uma série tão apreciada ao longo das gerações, perguntávamos na semana passada?

Desde logo, as características da personagem, herói moderno com virtudes antigas: Tintin é corajoso, é leal, é intrépido, é justo, é compassivo e é casto. E deve acrescentar-se a mestria de Hergé: um engenho aprimorado da narrativa, misturando o apelo da actualidade com uma visão humanista e um apurado sentido do gag. Milu é a perfeita personagem adjuvante, função que mais tarde repartirá com o Capitão Haddock.

Todas essas qualidades aparecem em Tintin no País dos Sovietes. Sim, é um trabalho dum jovem, mas o talento já se manifesta, apesar das puerilidades e da influência do catolicismo reaccionário. Se as pranchas são vulgares quanto à disposição das vinhetas, estão bem conseguidas no dinamismo da composição, contribuindo com eficácia para o ritmo vertiginoso da narrativa, nas suas 137 folhas: na segunda prancha deparamos com o primeiro vilão e a primeira explosão; na terceira, a primeira detenção; na quinta, a primeira cena de pancadaria e o primeiro disfarce; à sexta, a primeira perseguição automóvel…

Obra de propaganda, é verdade, mas se pesquisarmos os delírios propagandísticos que se seguiram, veremos que Tintin no País dos Sovietes é mesmo aquilo que é: uma brincadeira de crianças.


Tintin no País dos Sovietes

Texto e desenhos: Hergé

Difusão Verbo, Lisboa, 1999

Agosto de 2019







quinta-feira, março 17, 2022

e por falar em criminosos de guerra (ucranianas XLVIII)

 1. Antes de mais, a degradação da linguagem, que não é desta guerra, mas uma manifestação de uma doença social, potenciada pela hipercomunicação: as palavras já não são apenas polissémicas, mas adaptam-se e moldam-se a uma pretensa realidade que supostamente pretendem significar. Por exemplo, os antivacinas: em vez de se qualificarem temerários ou irresponsáveis, chama-se-lhes negacionistas. Para generalidade das pessoas, não passa de um epíteto; mas é mais que isso, pois, como é consabido, um negacionista é (era...) quem nega o Holocausto perpetrado pelos nazis.

Vivemos, pois, num mundo em que o diálogo se torna quase impossível, pela forma como se manipula a linguagem, por perversidade ou captação de atenção por razões nada nobres (notoriedade fácil, nos casos individuais; o vil metal quando se trata de empresas; a manipulação, quando passamos à política). O Orwell foi o primeiro o dos primeiros a chamar a atenção para essas entorses dolosas.

2. A propaganda e o abandalhamento do discurso tem sido uma constante nesta guerra, dos dois lados, mas principalmente da parte militarmente mais fraca, a Ucrânia, que conta com o serviço da generalidade dos mérdias ocidentais. Neste contexto, em abstracto, não suscita especial censura, pois quem não tem cão caça com gato.

3. Crimes de guerra praticam-se em todas as guerras -- a guerra, levada aos extremos, é a bestialidade sem freio. Não tenho nenhuma dúvida de que russos e ucranianos -- ocasionalmente, apesar de tudo -- os possam ter cometido. Tenho sérias dúvidas de que o comando no terreno, a hierarquia militar ou a direcção política apontem nesse sentido, em especial do lado dos russos, os mais poderosos entre os contendores. No entanto, shit happens...

4. Repetindo-me: quando se coloca armas pesadas junto a um alvo sensível (escolas, hospitais), para atrair a contrarresposta do inimigo (originando as parangonas na imprensa), sabendo-se que ela causará esse dano "colateral", quem é aqui o criminoso?

5. Por falar em criminosos de guerra, aquela anedota que é presidente dos Estados Unidos foi cúmplice da invasão do Iraque -- essa sim, uma guerra totalmente injustificada, um crime cometido aos olhos de todos, com base em mentiras. Quer isto dizer que há uma justificação para esta guerra? Sim, há, por muito que custe, mas fica para outro post

ucranianas

segunda-feira, junho 03, 2019

vozes da biblioteca

«A minha mãe, viúva, vendo-se sem marido e sem amparo, resolveu-se chegar aos bons para ser um deles, e foi viver para a cidade, onde alugou um buraco, e começou a fazer comida para os estudantes, e a lavar a roupa dos moços de estrebaria do comendador da Madelena, e assim começou a frequentar as cavalariças.» Anónimo, Lazarilho de Tormes (1554) (trad. Ricardo Alberty)

«Acontece que, como sabem, sou muito vulnerável à beleza feminina.» Philip Roth, O Animal Moribundo (2001) (trad. Fernanda Pinto Rodrigues)

«Winston Smith, de queixo fincado no peito num esforço para fugir ao vento impiedoso, esgueirou-se rápido pelas portas de vidro da Mansão Vitória; não tão rapidamente, porém, que pudesse impedir um turbilhão de terra entrar com ele.» George Orwell, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1949) (trad. L. Morais)

sexta-feira, março 22, 2019

vozes da biblioteca

«Durante muito tempo fui para a cama cedo.» Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido -- Do Lado de Swan (1913) (trad. Pedro Tamen)

«-- Tira então os óculos -- disse Tortose a Pierrot -- tira os óculos se queres ter cara para o emprego.» Raymond Queneau, Pierrot Meu Amigo (1942) (trad. Manuel Pedro)

«Era um homem dos seus cinquenta anos, tão avantajado que há alguns anos lhe era impossível levantar-se da cadeira sem ajuda e no entanto, conservava a harmonia das formas, chegava mesmo a ser belo na sua corpulência; porque os Birmaneses, ao invés dos homens brancos, que ganham rotundidade e protuberâncias, engordam simetricamente, lembram frutos suculentos.» George Orwell, Os Dias da Birmânia (1934)  (trad. Maria da Graça Lima Gomes)

quarta-feira, março 06, 2019

vozes da biblioteca

«É um comboio de via reduzida o que ali tomamos depois de prolongada espera, numa paisagem varrida pelo vento e desprovida de encantos.» Thomas Mann, A Montanha Mágica (1924) (trad. Herbert Caro)

«O sr. Jones, da Quinta Senhorial, fechara os galinheiros ao fim do dia, mas estava demasiado bêbado para lembrar-se de trancar as portinholas de passagem para os animais.» George Orwell, Animal Farm (1945) (trad. minha)

«Uma fotografia da época mostrava um adolescente pálido e desajeitado, com os cabelos cortados em escova, vestido com um fato de comunhão mal talhado: um rapazinho que se esforçava por dissimular a sua timidez sob uma aparência estúpida.» K. H. Poppe, A Guerra das Bananas (trad. Luís de Sttau Monteiro)  

segunda-feira, outubro 22, 2018

os amores inúteis #37

A aguda lucidez do Orwell.

quarta-feira, junho 01, 2011

porque não voto no PCP / CDU

Não vale a pena, francamente, gastar muito latim com o PCP. Ideologicamente firme, com a firmeza de uma seita,  a sua perversão doutrinária, para quem tivesse dúvidas quanto à teoria, já foi demonstrada na prática, através de todas as uniões soviéticas, chinas, albânias, cubas e coreias do norte deste mundo. O marxismo-leninismo faz-me lembrar a santa madre igreja e a sua inquisição, quando impunha a fogueira como penitência; neste caso, em nome de um horizonte social beatífico, foram impostos os regimes mais repressivos e tirânicos que o século XX conheceu, com excepção do nazismo (nada se compara com o nazismo). Como disse o Júlio Pomar quando acompanhou Soares em visita à URSS: "ver para descrer". Mas nem é necessário ir ver: basta ler, do pensamento e prática intolerantes de Marx, ao Avante! do mês passado, a propósito da questão síria; ou, se quiserem, ler o Orwell, o Koestler, o Soljenitsine... Não mudaram, não querem mudar. Estão no seu direito; mas numa sociedade livre serão sempre residuais.

quarta-feira, julho 06, 2005

Antologia Improvável #26 - Miguel Serras Pereira

DE CORPO INTEIRO

Para o Eduardo Lourenço

Era só não amar que não podia
o rio certas cidades ruas a infância
e a espanha de george orwell e outra frança
línguas mortas e estrelas que nasciam

despedaçado em quantas não sabia
partes de si de corpo inteiro ou campos
onde o mundo flutuava ao fundo e em branco
de novo na distância desabrida

que os dias idos sem fim iam rasgando
de regresso à sua frente enquanto havia
em cada rio sempre outra encruzilhada

lá onde morria o seu amor de tanto
querer sem resto arder em quanto amasse
pois era não amar que não podia

O Mar a Bordo do Último Navio