Mostrar mensagens com a etiqueta Gabriele d'Annunzio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Gabriele d'Annunzio. Mostrar todas as mensagens

sábado, agosto 03, 2024

tempo de reportagem

«Uma noite fria, cortante. Há espadas no luar... Na larga praça, o palácio do governo, branco, tumular espectral, ergue-se, nos meus olhos como uma esfinge. Subo a escadaria, subo, subo muito, subo até D'Annunzio. Corrado Zoli -- o amigo do poeta -- acompanha-me. Eu não o vejo, porém.» António Ferro, O «Século» ouve Gabriel D'Annunzio», O Século, 7-XII-1920) § «Ourém, 13 de Outubro / Ao saltar, após demorada viagem, pelas dezasseis horas de ontem, na estação do Chão de Maçãs, onde se apearam também pessoas religiosas vindas de longes terras para assistir ao "milagre", perguntei, de chofre, a um rapazote do "char-à-bancs" da carreira se já tinha visto a Senhora.» Avelino de Almeida, «Como o sol bailou ao meio-dia em Fátima», O Século, 15-X-1917 § «16 de Março -- Às 7 horas da manhã, a ordenança do capitão I... bate à porta do meu quarto e obriga-me a interromper o sono que principiara meia dúzia de horas antes. Tenho a impressão de que chove. Da rua vem uma luz quase lúgubre -- a luz frouxa e polida das grandes madrugadas de inverno.» Adelino Mendes, «A cidade d'Albert», A Capital, 29-III-1917 

In jacinto Baptista e António Valdemar, Repórteres e Reportagens de Primeira Página, vol. II, 1910-1926, Lisboa, Assembleia da República, s.d.

domingo, junho 01, 2014

rente ao chão

Terra Virgem (1882) é o primeiro livro em prosa de D'Annunzio, muito influenciado ainda pelo chamado verismo literário. O cenário decorre nos Abruzos, região da Itália central, na costa adriática, de onde o escritor era natural, e as figuras que perpassam pela maioria dos contos são seres rente ao chão, vadios, aleijados, raparigas inocentemente sensuais, rapazes largados à sua sorte, acabando por cansar um pouco o desfile de abortos e desgraçado atavismo. Mas há um enlevo para com a paisagem, que em parte condiciona os indivíduos, que acaba por redimir a obra.
O último, Lázaro, sintetiza, no seu inefável horror, boa parte destes contos.

Incipit: «Estava de pé, em frente da barraca, meio embrutecido, amortalhado num fato de malha sujo, que se lhe rugava nas barrigas das pernas esqueléticas; fitava o campo lívido, taciturno, entristecido pelas poucas árvores despidas de folhagem, que se erguiam esguias por baixo dum dossel de nuvens pardacentas, humedecidas pela neblina.»

um parágrafo: «Do céu escurentado tombava uma chuva miúda, persistente, raivosa, que por toda a parte se infiltrava, encharcava até à medula, gelava o sangue.»


Gabriele D'Annunzio, Terra Virgem (Terra Vergine, 1882), tradução de M. L., Lisboa, Editorial Minerva, 1955, pp. 185-186.





sábado, janeiro 19, 2013

LÁZARO

Estava de pé, em frente da barraca, meio embrutecido, amortalhado num fato de malha sujo, que se lhe rugava nas barrigas das pernas esqueléticas; fitava o campo lívido, taciturno, entristecido pelas poucas árvores despidas de folhagem, que se erguiam esguias por baixo dum dossel de nuvens pardacentas, humedecidas pela neblina. Fitava o campo lívido e o clarão sinistro da fome incendiava-lhe o negrume dos olhos. A barraca, coberta de lona encharcada pela chuva, assemelhava-se na penumbra a enorme animal, todo ossos e pele flácida.
Passaram um dia sem comer; os últimos bocados de pão havia-os devorado naquela manhã o filho, esse pequeno monstro humano, de crânio calvo e separado como esférica abóbora. Ele, porém, o mísero, tinha o ventre mais vazio do que o tambor no qual rufava, para atrair os curiosos e exibir o horrível fenómeno a troco dalguns cobres. Não se enxergava, porém, alma viva e a criança jazia dentro da barraca, deitada num montão de velhos farrapos, as pernas contorcidas, o busto deformado, matraqueando os dentes num acesso de febre, enquanto o rufar das baquetas na pele do tambor lhe produzia espasmos dolorosos nos temporais.
Do céu escurentado tombava uma chuva miudinha, persistente, raivosa, que, por toda a parte se infiltrava, encharcava até à medula, gelava o sangue.
rufar do tambor perdia-se sem eco na tristeza do crepúsculo outona; e Lázaro rufava, rufava de pé, lívido, triste, cravando o olhar angustiado na sombra como para descortinar nela algo que devorasse, apurando o ouvido a cada momento na ânsia de ouvir as vaias de alguns borrachos que se aproximassem. Por duas ou três vezes se voltou para examinar o ignóbil farrapo de carne viva, que arquejava estendido por terra, e, de todas, os olhos do mísero fixavam outros onde se lia a suprema dor.
Não se avistava vivalma. A sombra dum cão surgiu duma viela negra, passou com rapidez em frente de Lázaro, cauda entre as pernas, e parou por detrás da barraca para esburgar um osso encontrado Deus sabe onde. O tambor calava-se; rajadas de vento faziam turbilhonar folhas secas arrancadas dos galhos das carvalheiras. Pairou seguidamente pávido silêncio, silêncio apenas quebrado de vez em quando pelo rosnar do cão, o surdo rumor das cordas de água fustigando a lona branca e o estertor da criança -- um estertor que parecia sair duma garganta mutilada.

Gabriele d'Annunzio, Terra Virgem, trad., M. L., Lisboa, Editorial Minerva, 1955.