Maria Gabriela Llansol: «["] Sinto que o mistério de cobrir vária áreas se desfaz, e uma só das suas gotas se adensa ainda, uma contracção enérgica de doçura que pousou sobre a mesa. Um ramo de roseira aponta para mim, e Eckhart, Suso, Hildegarda, Marie d'Oignies, Marguerite d'Ypres sentam-se à minha volta, observando-me no meu seio despido pelo cansaço."» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Machado de Assis: «Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao lá... / -- Lá, lá, lá... / Nada, não passava adiante. E contudo, ele sabia música como gente. / Lá, dó... lá, mi... lá, si, dó, ré... ré... ré... / Impossível! nenhuma inspiração. Não exigia uma peça profundamente original, mas enfim alguma cousa, que não fosse de outro e se ligasse ao pensamento começado.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Fialho de Almeida: «Que bela a alegria sob os castanheiros dum parque, no coração da vida rústica, pelo braço da franzina miss com quem aos vinte anos se sonha, alta, musical, com maravilhas patrícias de mãos.» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos» § Millôr Fernandes: «Quando um técnico vai tratar com imbecis, deve levar um imbecil como técnico.» Pif-Paf (2004) - «Confúcio disse» - antologia por João Pereira Coutinho § Branquinho da Fonseca: «Foi no Inverno, em Novembro, e tinha chovido muito, o que dera aos montes o ar desolado e triste dessas ocasiões. As pedras lavadas e soltas pelos caminhos, as barreiras desmoronadas, algumas árvores com os ramos torcidos e secos.» O Barão (1942) § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973) .../... «De todo o modo, e independentemente dos juízos que se formulam a respeito das posições que noutras circunstâncias têm sido assumidas pelo Prof. Francisco Moura, com cujas opiniões e atitudes eu mesmo não raras vezes me encontro em discordância, estou certo de que V. Ex.ª concordará com que se trata de uma pessoa merecedora do máximo respeito.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. João Freire Antunes
quinta-feira, maio 14, 2026
domingo, abril 05, 2026
zonas de conforto
Machado de Assis: «Pela janela viu na janela dos fundos de outra casa dous casadinhos de oito dias, debruçados, com os braços por cima dos ombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu com tristeza. / -- Aqueles chegam, disse ele, eu saio. Comporei ao menos este canto que eles poderão tocar...» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» António Ferro: «Os vestidos são os cartazes do corpo.» Teoria da Indiferença (1920) § Fialho de Almeida: «Nenhum canto de natureza infecundo!, o mesmo amor que sobe da terra, a revigorentar os arvoredos, comunica-se aos ninhos, cinge os casais de pássaros, extravasa no ar como nafta de bodas bíblicas, e comunica-se, aspira-se, vai-se infiltrando em toda a parte. Eu bem na sinto! Eu bem na sinto!» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos» § Maria Gabriela Llansol: «["] É o instante físico, dilacerante, em que subo a um monte, e desço um declive. / É um sentimento incrível, o que estás a viver -- diz-me Eckhart, acusando-me com um sorriso. / Mas a sua companhia é doce, ágil, vai dando voltas ou descrevendo curvas à altura do meu sofrimento.» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Branquinho da Fonseca: «É até, talvez, a única coisa sobre que tenho ideias firmes e uma experiência suficiente. Mas não vou filosofar; vou contar a minha viagem à serra do Barroso. / Ia fazer um sindicância à escola primária de V...» O Barão (1942) § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «Dizem-me que se suspeita de uma ligação entre a iniciativa que conduziu aos actos efectuados na capela e a deflagração de explosivos, acompanhada da divulgação de panfletos, ocorrida no dia 31 de Dezembro. Gostaria, porém, de assegurar a V. Ex.ª que, conhecendo de muito perto, como V. Ex.ª sabe, o Prof. Francisco Moura, com quem tenho muito contacto, estou talvez melhor colocado que ninguém para poder considerar completamente absurdo que acerca dele se possa pôr a hipótese de ter qualquer relação com organizações cujos meios de acção sejam dessa natureza.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. João Freire Antunes
domingo, setembro 14, 2025
4 versos de Branquinho da Fonseca
«A rua cheia de luar / Lembrava uma noiva morta / Deitada no chão, à porta / De quem a não soube amar.»
«Naufrágio», Mar Coalhado (1931)
terça-feira, agosto 26, 2025
zonas de conforto
«Para pensar bem é preciso estar quieto. Talvez depois também cansasse, mas a Natureza exige certa monotonia. As árvores não podem mexer-se. E os animais só por necessidade física, de alimento ou de clima, devem sair da sua região. Acerca disto tenho ideias claras e um experiência definitiva.» Branquinho da Fonseca, O Barão (1942)
«Pára o trabalho nos campos, e o homem da terra ergue-se e endireita o espinhaço. Viu-o o jornaleiro que mora diante das Portelas; viu-o e não o conheceu; nem o velho que trazia uma sacola e como pobres que se encontram no caminho se pôs a olhar para ele, sem fala, num mudo espanto.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)
«Os vinte e tal anos ali vividos eram muito, mas não eram tudo. Certas células do corpo pediam-lhe mais. E, passado o momento de fraqueza, o senhor Ventura, ao mesmo tempo que tinha pena de não ficar, sentia pressa de partir.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943)
domingo, agosto 24, 2025
zonas de conforto
«Todos eles vêem uma Sombra no Pobre maravilhoso. Aparece nas eiras e olha com cólera para os homens e para os punhados de milho secos e escassos. Receiam-no e calam-se e o Pobre cala-se, também suspenso, e segue o seu caminho... / -- Tu viste-o? / -- Vi-o! / -- Como é o probe? / -- Mete medo... / -- E que te disse?» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)
«E todo o caminho deixou vaguear os olhos enamoradamente por aquele panorama irreal, como um árabe que fosse chamado a Meca e antes de partir quisesse beber toda a frescura e toda a água do seu oásis. Uma funda nostalgia começou a invadi-lo. E tentou reagir.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943)
«Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez!» Branquinho da Fonseca, O Barão (1942)
quarta-feira, agosto 20, 2025
zonas de conforto
«-- ... Prima Rosa Maria, não é verdade? / -- Sim... -- balbuciou ela recuando um passo. / -- Desculpe! Magoei-a, não? Pelo menos, assustei-a. Sou um estavanado! Chego tarde e ainda por cima lhe prego um susto. Desculpe! Temos ali o meu carro. A minha mãe não pôde vir, mas veio a tia Vitória.» José Régio, Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941)
«Posso fazer algumas economias e, durante o mês de licença que o Ministério me dá todos os anos, poderia ir ao estrangeiro. Mas não vou. Não posso. Durante esse mês preciso de estar quieto, parado, preciso de estar o mais parado possível.» Branquinho da Fonseca, O Barão (1942)
«O lume apaga-se. Ao redor do lar, o criado, o ladrão, a figura tisnada e a mulher passiva e humilde, que mal se atreve a sentar-se à beira da pedra, com a malga nas mãos, para ocupar menos espaço na sua própria casa, confiam não sei em quem e esperam separados pelas cinzas frias... / --A terra é dos probes.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)
sábado, dezembro 07, 2024
o que aconteceu
«E, quanto mais cismo, mais dou razão ao Miguelão da Cabeça da Ponte, que falava como livro aberto, o grande bruxo. Muitas vezes lhe ouvi dizer quanto estava de boa lua, o que nem sempre sucedia: / -- Tempos virão em que o governarão as terras vãs e os filhos das barregãs.» Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922)
«Seja pelo que for, não gosto de viajar. Já pensei em pedir a demissão. Mas é difícil arranjar outro emprego equivalente a este nos vencimentos. Ganho dois mil escudos e tenho passe nos comboios, além das ajudas de custo. Como vivo sòzinho, é suficiente para as minhas necessidades.» Branquinho da Fonseca, O Barão (1942)
«O rapazinho deitou a correr, e lá foi a caminho da serra. Tendo de optar entre os malefícios da alma penada e a biqueira do tamanco do amo, preferia encontrar o defunto capitão-mor. Ainda assim, ia rezando alto quanto sabia da cartilha: os Pecados Mortais, as Obras de Misericórdia, os Sacramentos da Santa Madre Igreja, tudo.» Camilo Castelo Branco, Maria Moisés (1876-77)
quarta-feira, setembro 18, 2024
tempo de novela - Branquinho da Fonseca
«Durante este mês quero estar quieto, parado, preciso de estar o mais parado possível. Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez!» Branquinho da Fonseca, O Barão (1942)
terça-feira, agosto 27, 2024
tempo de novela
«Mas imediatamente ele se debruçou na portinhola e falou num tom mais íntimo: / -- Boa noite! Espero tornar a encontrá-la. Elvas não é assim tão longe de Portalegre! E terei muitíssimo prazer... / Pegando atrapalhadamente nas suas coisas, Rosa Maria afastou-se um pouco. Estava escuro e frio.» José Régio, Davam Grande Passeios aos Domingos (1941) § «Esta hora, sobretudo no Verão, era deliciosa: pelas janelas meio cerradas penetrava o bafo da soalheira, algum repique distante dos sinos da Conceição Nova e o arrulhar das rolas na varanda; a monótona sussurração das moscas balançava-se sobre a velha cambraia, antigo véu nupcial da Madame Marques, que cobria agora no aparador os pratos de cerejas bicais; pouco a pouco o tenente, envolvido com um lençol como um ídolo no seu manto, ia adormecendo, sob a fricção mole das carinhosas mãos da D. Augusta; e ela, arrebitando o dedo mínimo branquinho e papudo, sulcava-lhe as repas lustrosas com o pentezinho dos bichos...» Eça de Queirós, O Mandarim (1880) § «Seja pelo que for, não gosto de viajar. Já pensei em pedir a demissão. Mas é difícil arranjar outro emprego equivalente a este nos vencimentos. Ganho dois mil escudos e tenho passe nos comboios, além das ajudas. Como vivo sòzinho, é suficiente para as minhas necessidades. Posso fazer algumas economias e, durante o mês de licença que o Ministério me dá todos os anos, poderia ir ao estrangeiro. Mas não vou. Não posso.» Branquinho da Fonseca, O Barão (1942)
domingo, agosto 18, 2024
tempo de novela
«Na velhice, o negócio tilintado através de gerações, as andanças de recoveiro, o ver e aturar o mundo, tinham-no provido de lábia muito pitoresca, levemente impregnada dum egoísmo pândego e glorioso.» Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922) § «Entusiasmo-me com a beleza das paisagens, que valem como pessoas, e tive já uma grande curiosidade pelos tipos rácicos, pelos costumes, e pela diferença de mentalidade do povo de região para região. Num país tão pequeno, é estranhável tal diversidade. Porém não sou etnógrafo, nem folclorista, nem estudioso de nenhum desses aspectos e logo me desinteresso.» Branquinho da Fonseca, O Barão (1942) § «O povo atribuíra aquela morte ao capitão-mor de Santo Aleixo de além-Tâmega, por vingança de ciúmes, e propalava que a alma do homicida, de fraldas brancas e roçagantes, infestava aquelas serras. O moleiro das Poldras contrariava a opinião pública, asseverando que a aventesma não era alma, nem a tinha, porque era a égua branca do vigário.» Camilo Castelo Branco, Maria Moisés (1876-77)
domingo, agosto 11, 2024
tempo de novela
«Era noite fechada. Tinha medo de voltar ao monte, porque se afirmava que a alma do defunto capitão-mor andava penando na Agra da Cruz, onde aparecera o cadáver de um estudante de Coimbra, muitos anos antes.» Camilo Castelo Branco, Maria Moisés (1876) § «Na verdade lembro-me de alguns momentos agradáveis, de que tenho saudades, e espero ainda encontrar outros que me deixem novas saudades. É uma instabilidade de eterna juventude, com perspectivas e horizontes sempre novos. Mas não gosto de viajar. Talvez por ser uma obrigação e as obrigações não darem prazer.» Branquinho da Fonseca, O Barão (1940) § «Desciam-lhe umas farripas ralas, em guisa de suíças, à borda das orelhas pequeninas e carnudas como casca de noz; trajava jaleca curta de montanhaque, sapato de tromba erguida; faixa preta de seis voltas a aparar as volutas dobradas da corrente de muita prata -- e, Aveiro vai, Aveiro vem, no ofício de almocreve, os olhos sempre frios mas sem malícia, apenas as mandíbulas de dogue a atraiçoar o bom-serás, as suas façanhas deixaram eco por toda aquela corda de povos que anos e anos recorreu.» Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922)
terça-feira, agosto 06, 2024
tempo de novela
«Não gosto de viajar. Mas sou inspector das escolas de instrução e tenho obrigação de correr constantemente todo o país. Ando no caminho da bela aventura, da sensação nova e feliz, como um cavaleiro andante.» Branquinho da Fonseca, O Barão (1942) § «O comboio parara finalmente na estação de Portalegre. De novo o cavalheiro amável se dirigiu a Rosa Maria: / -- Chegou. Faça favor de descer que eu passo-lhe as suas coisas. / -- Muito obrigada! -- disse Rosa Maria descendo. / O cavalheiro amável estendeu-lhe a caixa do chapéu, o embrulho do presente da velha Leocádia para a menina Lá-Lá, e a pequena mala de couro em que Rosa Maria trazia o indispensável para o primeiro dia.» José Régio, Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941)
quarta-feira, dezembro 12, 2018
vozes da biblioteca
«Só vozes ermas nos campos, ouço-as no calor parado da tarde.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
quarta-feira, julho 23, 2014
nova mas feia
terça-feira, fevereiro 01, 2011
sábado, março 25, 2006
Correspondências #38 - Branquinho da Fonseca a Carlos Queirós
Meu Caro Carlos Queiroz
sábado, junho 18, 2005
Correspondências #5 - José Régio a João Gaspar Simões
Meu caro Simões: