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terça-feira, outubro 15, 2024

há monstros na floresta e mistérios debaixo da cama

Chega-me da Gradiva um presente de Natal antecipado, creio que o primeiro trabalho publicado por Bill Watterson (Washington DC, 1958) desde que suspendeu a publicação de Calvin & Hobbes, em 1995. Desta vez, apenas o texto é seu, e os desenhos do caricaturista  John Kascht, aqui co-autor e extraordinário ilustrador.

Trata-se de Os Mistérios, uma alegoria sobre o medo, que nos assola a todos, das eras mais antigas até ao presente -- quando, após a euforia das conquistas científicas, julgando-nos invencíveis, quase imortais, verificamos que afinal continuamos pasto para guerras e vírus, receosos do mistério  que é o outro, desconhecido e diferente, e contra quem novos muros se erguem; e (in)conscientes de uma nova devastação ambiental com marca demasiado humana. No mundo medieval, antes da modernidade, a floresta era o lugar interdito, onde habitavam criaturas misteriosas e assustadoras; tal como os mares eram povoados por seres fantásticos, monstros marinhos. No fundo, em face do desconhecido e do inalcançável, continuamos pré-modernos. Façamos o que fizermos, o mistério continuará. O Homem diante do horizonte infinito e eterno; 

segunda-feira, junho 05, 2023

um rapaz e o seu cocker

Criados em 1959, pelo belga Jean Roba (1930-2006), Boule e Bill, um rapazinho de sete anos e o seu cocker spaniel, são das personagens mais populares da BD francófona. As camadas de ternura aplicadas por Roba em cada vinheta, recriando um universo idílico numa família de classe média, com pais disponíveis, mesmo quando têm de impor regras, à criança (os tpc) e ao animal (o banho…), conjugadas com um humor por vezes desenfreado, foram ingredientes seguros desse êxito. Para Roba, o mundo já era suficientemente agreste para que os seus gags não permitissem essa distensão de humor sobre um tempo em que a vida é um recreio permanente, mesmo com vacinas e banhos obrigatórios…

As personagens inspiraram-se no filho do autor e no cão da casa, o que explica a quase beatítude que a leitura destas pequenas histórias proporciona, na procura duma inocência que só existiu no tempo em que os animais falavam. Numa entrevista a Hugues Dayez (Le Duel Tintin-Spirou, 1997), Roba afirmou: «acredito que o homem, num passado longínquo, pôde falar com os animais, e que esse privilégio foi-lhe subtraído. É isso uma maldição? Creio que sim.» Por vezes, encontram-se pontos de contacto com o Calvin de Bill Watterson. Bill não fala, mas pensa, e em pensamento dirige-se a nós, leitores.

A dupla continua, pelas mãos do francês Verron (Grenoble, 1962). Os álbuns de Boule e Bill estão inéditos em Portugal.


60 Gags de Boule et Bill

texto e desenhos: Roba

edição: Dupuis, Marcinelle, 1962

(Setembro de 2019)