Mostrar mensagens com a etiqueta Bernardo Pires de Lima. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bernardo Pires de Lima. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, março 28, 2022

os cartoonistas percebem melhor (ucranianas LV)

1. Nesta altura do campeonato, até os distraídos já perceberam a guerra entre os Estados Unidos e a Rússia. Claro que nem todos. Este fim-de-semana, uma jornalista do "internacional", Márcia Rodrigues (RTP), perguntava a um pacífico comentador como explicava ele a "capitulação" do exército da Rússia -- "capitulação", o que somos obrigados a ouvir; na sic, um Henrique Burnay (creio que é este o nome) dizia que a Ucrânia fizera uma "opção pelas democracias" e que os russos não gostaram. Assim, com esta candidez. Já o sempre atento Bernardo Pires de Lima, na Antena 1, depois de muito instado a responder se não havia aqui também uma luta em torno dos recursos, como o gás natural, lá teve de dizer: "Mas sempre houve!" Ah... Afinal, a muito custo, pese embora os militares, em geral, que têm demonstrado e problematizado o conflito num grau de complexidade que não se compadece com "análises" saloias à Milhazes, lá vão lentamente admitindo que o choque que aqui se dá é entre dois imperialismos, um na defensiva (a Rússia) outro ao ataque (os Estados Unidos). É muito complicado, não é?, tudo ao contrário do que parece: a Rússia ataca, e está na defensiva... Esoterismos... Por isso tem sido tão fácil enganar as pessoas.

2. o cartoon de Thais Linhares (daqui)


 

terça-feira, fevereiro 15, 2022

mais notas sobre a Ucrânia

 1. Hoje. A retirada parcial de tropas, parece que previamente calendarizada, não pode deixar de ser lida como um gesto de boa-vontade por parte da Rússia, no dia em que recebe o chanceler alemão, e ao mesmo tempo de prudência em face das fortes sanções económicas  dos Estados Unidos e da UE, no caso de uma invasão. Invasão que, de acordo com analistas militares que tenho ouvido, se efectuaria ou efectuará em caso de provocação do lado da Ucrânia, v.g. um ataque militar contra os russos do Donbas.

2. A estratégia russa.  No entanto, nem as preocupações permanentes da Rússia se dissipam, nem a estratégia de rapina norte-americana previsivelmente se aplacará. Não podendo os Estados Unidos defrontar militarmente a Rússia sem que isso provoque uma guerra mundial, a estratégia de desestabilização do regime passa pela tentativa de asfixia económica, que a breve prazo terá consequências para o establishment russo, e isso foi certamente tido em conta pelos russos.

2.1. Tudo isto é especulação, espera-se que da boa; aliás, o que de válido pode haver nas últimas linhas não se deve a mim, mas ao major-general Carlos Branco, que tem sido cristalino.

3. Conceitos estratégicos. Os países movem-se por interesses permanentes, independentemente de quem esteja no poder, sendo os mais determinantes os que são condicionados pela Geografia e pela História. As questões económicas, sendo importantes, e também estratégicas, são conjunturais. A Rússia, várias vezes invadida ao longo dos séculos, tem uma sensibilidade especial na preservação do seu espaço (tal como, por exemplo os países bálticos o têm em relação à própria Rússia, ou a Polónia, sua "inimiga" (ou competidora) histórica). 

4. A estratégia americana. Para além da rapina (im)pura, a partir da altura em que os EUA tomaram uma posição de condicionamento do país, bases militares na Ásia Central, adesão dos países ex-URSS à Nato, entre outras, os russos obviamente desconfiam. Até no tempo de Ieltsin, no meio do marasmo, eles não deixaram de vincar a sua posição em face aos Estados Unidos, com a ocupação do aeroporto de Pristina, para embaraço dos "aliados" americanos e a sua costumeira má-fé.

5. Ainda os comentadores. Do que tenho lido e visto, a generalidade dos comentadores é uma de três coisas: incompetente, vesga, ou intelectualmente desonesta. Incompetentes, quando se comenta sem ter conhecimentos da história da região e dos interesses estratégicos; vesgos quando se deixam toldar pelo sentimento anti-Putin, alvo, de resto, de uma propaganda negativa fortíssima, sem perceberem ou não querendo perceber, que o problema está muito para lá de Putin; e a pura desonestidade intelectual, endossando a posição americana e o seu instrumento da Nato, sem se referirem a todos interesses, claros e obscuros, que estão por detrás. 

Ainda hoje na rádio, ouvindo um português que vive na Ucrânia, insuspeito de simpatia por Putin, dizia que enquanto que a adesão à UE é uma aspiração colectiva, ninguém está propriamente interessado em aderir à NATO; a sua conclusão (óbvia conclusão para qualquer observador minimamente informado e isento) é a de que o país (e o seu povo) está a ser usado para interesses que não são seus. Também posso falar da cabeleireira ucraniana da minha mulher, bastante consciente dos vínculos históricos entre ucranianos e russos, para se deixar impressionar pelos protestos de defesa da Ucrânia dos Estados Unidos e os cãezinhos amestrados da Nato.

É por isso que, exceptuando os analistas militares, que sabem do que falam, e casos muito raros de comentadores isentos e honestos, como o da académica Sónia Sénica, conhecedora da história e cultura da região, a maioria daqueles são confrangedores. Ouvir Pires de Lima ou um porta-voz do Pentágono é a mesma coisa; no Domingo, no habitual debate entre João Soares e Miguel Poiares Maduro, ver este a fazer-se de ignorante, talvez por medo de tomar uma posição isenta, ou ainda ontem, Lívia Franco, outra comentadora habitual, em conversa de café, aos saltinhos e aos papéis, querendo fazer parecer que não*, foram alguns dos muitos espectáculos tristes do acompanhamento mediático desta crise. **

* Só vi a parte final do painel, em que um outro militar, cujo nome não retive, marcou a habitual diferença da seriedade e do estudo.

** Gosto muito mais de elogiar do que atacar, mas não posso deixar passar em claro o que considero ser intervenções de comentadores impreparados ou parciais, medíocres ou enganosos num assunto tão sério como este. Vir para a televisão falar sobre uma crise com esta magnitude, não é propriamente o mesmo que ser convidado do Cabaré da Coxa.

domingo, abril 09, 2017

as linhas vermelhas de Obama, a falta de linha de Trump, do sr. Bernardo Pires de Lima e do sr. José Cutileiro

Estou convencido de que a inacção de Barack Obama relativamente ao ataque químico ocorrido na Síria há uns anos se deveu às fundadas dúvidas sobre a autoria dessas acções, como qualquer pessoa intelectualmente decente e honesta, que não esteja directa ou indirectamente no teatro de guerra. E o mesmo se passa agora, como diz Tulsi Gabbard, mulher aliás admirável
Trump, que não é decente nem honesto e, intelectualmente, é duvidoso que seja alguma coisa, ensaiou a fita dos últimos dia na Síria. Está no papel dele, assim como Putin no seu. 
Nada disto é estranho; pelo contrário, é velho e revelho, e perigoso na medida em que pode haver sempre algo que corra mal nesta aparente encenação bélica.

Agora, insuportável, insuportável é ler e ouvir alguns especialistas, como me tem sucedido (ainda há pouco na rádio) a darem os ataques químicos como realizados pelo lado de Assad, quando não têm nenhuma prova, nem sequer a evidência, de que tenha sido assim. 
É o caso de Bernardo Pires de Lima, uma Hillary Clinton de trazer (cá) por casa, ou do aposentado embaixador José Cutileiro, com uma posição anti-russa que parece patológica. 
Todos podemos ter as nossas opiniões, preocupações, simpatias e antipatias -- o que não é admissível é que comentadores apresentados com o selo de garantia académica, como Lima, não passem de câmara de eco do bruaá mediático-propagandístico. 

No programa «Visão Global», da Antena 1, diz este senhor qualquer coisa como: 'O ataque químico perpetrado pelo presidente Assad'..., etc.; assim como o de há cerca de três anos, que originou as tais linhas vermelhas de Obama. Como raio sabe ele? Pois não sabe!, porque os únicos a sabê-lo são os beligerantes. Lima tem a obrigação de saber que nestes conflitos as partes chegam a provocar ataques no seu lado, para comprometer o inimigo. É maquiavélico, mas é vulgar. Se não sabe, é incompetente para ser comentador na rádio pública; como não acredito que o não saiba, é pior.