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domingo, março 31, 2024

150 portugueses: 16-20

16. Sá de Miranda (1481-1558). Poeta renovador, homem de fibra, "de antes quebrar que torcer".

17. Tomé de Sousa (1503-1579). O primeiro governador-geral do Brasil.

18. Vasco da Gama (1469 - 1524). Um dos nomes míticos de Portugal. A realidade tornará tudo mais complexo.

19. D. Afonso II (1185-1223). Terceiro rei de Portugal.

20- Bartolomeu Dias (c. 1450-1500). O navegador que talvez melhor represente a grande história trágico-marítima.

quarta-feira, junho 28, 2023

Portugal, uma jigajoga na guerra da Ucrânia (ucranianas CXCVI)

 

Quando se diz que uns certos falcões acreditam que uma guerra nuclear na Europa pode ser travada, sem que tal os atinja, estes criaturos do lado, senadores republicano e democrata, já anunciaram que se a Rússia lançar uma arma nuclear em território ucraniano, entrará em guerra com a Nato, ou seja, connosco, sem nos perguntarem nada, como (não) seria de esperar. Tirando os ingleses, o resto é paisagem (aposto que os alemães não foram informados da sabotagem aos Nord Stream).

Independentemente do que estes dois imbecis digam, e do valimento e peso que possam ter em Washington, o que assusta mesmo é a falta de confiança que merece a cúpula política, europeia, e muito em particular, portuguesa, a começar pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, que é um zero à esquerda, e a culminar no Supremo Magistrado da Nação, que saca da cartola números como o da outorga do penduricalho da liberdade ao homólogo ucraniano.

Repito-me: nunca poderemos ignorar que somos vizinhos atlânticos dos Estados Unidos e que  fazemos parte da Nato (da qual, chego agora à conclusão, deveríamos sair); ou seja, membros ou não da Nato, teremos de ter sempre relações amistosas (e já agora, construtivas) com a maior potência mundial do momento. Não ignorando o seu poder e a ausência dele da nossa parte, devemos ser inteligentes e astutos o suficiente para fugirmos à actual condição meros vassalos, como diz o Putin a respeito dos países europeus -- e diz muito bem.

Quanto à União Europeia, gerida por incapazes, somos uns meros papagaios que para lá andamos. A nossas postura pública -- que também aqui deve ser sempre construtiva -- é miserável. Não nos sabemos dar ao respeito, o respeito que exige um estado de novecentos anos, um dos construtores do mundo em que vivemos, país do Infante D. Henrique, de Bartolomeu Dias, Afonso de Albuquerque, Luís de Camões e António Vieira -- coisas que não interessam para nada, diria um neocon neoliberal. O país de Jaime Cortesão mereceria bastante mais respeito do que esta jigajoga.

Quanto à CPLP, divergimos do seu membro mais importante, e creio que também da maioria. O que distingue Portugal dos outros países europeus dá pelo nome de Brasil, mas também Angola, Moçambique, Cabo Verde, etc., em relação aos quais, especialmente os referidos, nos devemos esforçar para não estar em barricadas opostas. É algo que deve ser permanentemente alimentado, em vez de servir para tiradas fanfarronas para dignitários estrangeiros, o alardear das nossas relações especiais com África e América Latina. São tão especiais que eles muitas vezes não nos ligam nenhuma, e é bem feito.

terça-feira, outubro 19, 2021

na estante definitiva


carta de Pero Vaz de Caminha (1450-1500) é na verdade um relatório, um relato sobre o que viu e ouviu na nova terra que era já conhecida pelos portugueses antes de Pedro Álvares Cabral. Atestam-no o Tratado de Tordesilhas (1494) e a circunstância de o principal navegador desta frota ser Bartolomeu Dias, que sete anos dobrara o Cabo. A derrota para oeste serviu para oficializar a posse daquela terra que viria a chamar-se Brasil.

Há dois milagres no que respeita ao documento: um, foi o de ter chegado até nós, não ter ido ao fundo num naufrágio ou perder-se sabe-se lá onde, até ser (re)descoberto no século XVIII, no meio de papelada, sendo impresso apenas em 1817, pelo padre Manuel Aires de Casal.

O segundo milagre é o próprio Pero Vaz, a forma como escreve, reportagem pura, obedecendo à "regra dos 5 w's": what-who-when-where-how (why, se quisermos um sexteto). Fá-lo com a objectividade de um homem a terminar o século XVtalvez porque fora mestre da balança Casa da Moeda do Porto, com funções de escrivão e tesoureiro, o que exigiria qualidades de exposição prática. Talvez por isso, os editores do livro que tenho na mão, Maria Paula Caetano e Neves Águas, tenham escolhido para epígrafe da sua introdução um fragmento do Diário de Miguel Torga: «Diante da carta de Pero Vaz de Caminha até me vieram as lágrimas aos olhos.»

terça-feira, março 28, 2017

da Ponte Salazar ao Aeroporto Cristiano Ronaldo: o país entregue à bicharada

Não que Cristiano Ronaldo não seja credor de enorme admiração, sendo o atleta excepcional que é, um dos maiores futebolistas de todos os tempos. No entanto, nem há distância -- o homem, nos seus trinta e poucos, continua o maior nos relvados -- nem, por muito extraordinário que seja, chegou ainda à categoria de 'mito'.

É verdade que os aeroportos não deixam de ser infraestruturas a que foram dados nomes de políticos que as circunstâncias enobreceram e alçaram acima do nível geral dos congéneres. É o caso notório de Charles de Gaulle, um homem que impôs que o país resistisse à barbárie, ou John Kennedy, cujo assassínio em directo comoveu os seus concidadãos e o mundo, coroando, assim, um carisma que vinha sendo construído, pairando sobre o imaginário utilitarista norte-americano.

Por cá, a atribuição, há dias, do nome de Humberto Delgado ao aeroporto de Lisboa, participa dessa intenção de homenagear alguém que se agigantou e perdurou na memória colectiva, independentemente da pobre condição humana que lhe assistia. Delgado desafiara o todo-poderoso Salazar, galvanizara um povo que há mais de três décadas vivia em ditadura, opressão e pobreza, concorrera a eleições fraudulentas e mesmo assim -- não restam dúvidas -- ganhou-as; foi destituído, perseguido, exilado e, no fim, assassinado pelo mesmo regime que afrontara, e de que ele, militar, fora um dos fundadores, em 1926. Ah, e além disso, dirigiu a criação da TAP. É um nome absolutamente incontroverso.

Podendo haver casos anteriores, dou pela parvoíce logo com a Ponte Salazar. Os untuosos e puxa-sacos (expressão brasileira que adoro) do costume resolveram besuntar o então Presidente do Conselho, em plenas funções, oferecendo o seu nome à espantosa obra de engenharia que ligava as duas margens do Tejo, em Lisboa. E o homem deixou que o besuntassem. Há quase quarenta anos no poder, ele é que era o dono disto tudo, nada no país se fazia contra a sua vontade. Foi uma das fraquezas do Salazar. a humaníssima vaidade.

Depois, o caso caricato do Aeroporto Francisco de Sá-Carneiro, a ponta visível duma epidemia toporreica que atravessou Portugal, não havendo lugarejo que não tivesse a sua Rua Sá Carneiro e, em seguida, o seu beco Adelino Amaro da Costa. Na minha vila de Cascais, uma das praças teve de ser baptizada com o nome do dito, e, para o CDS não ficar atrás, deram ao Amaro da Costa a mais comprida avenida. Não é preciso dizer que o portuense Sá-Carneiro e o alentejano Amaro da Costa nenhuma relação notória tiveram com Cascais, e assim com os trezentos municípios do país que sobram; havia, porém, que marcar pontos políticos e pessoais de vária natureza.


Isto seria só ridículo, se não fosse mais um sinal evidente de como o país está entregue à bicharada, ao descaso, quando não a um rasteirismo sórdido: se há alguém que deveria ter um nome num aeroporto, esse seria Gago Coutinho, para não falar dos restantes pioneiros da aviação. Mas bastaria lembrar os navegadores. Se Portugal tem um lugar de destaque na história universal, este deve-se às navegações dos portugueses e, portanto, não vejo melhor nome para um aeroporto do que os desses homens corajosos e aventureiros que muitas vezes pereceram no mar, como Bartolomeu Dias ou os irmãos Corte Real, entre tantos da mesma estirpe.


Compare-se Aeroporto Gago Coutinho ou Aeroporto Bartolomeu Dias e Aeroporto Cristiano Ronaldo. Não joga, pois não?...


*Já agora, como o velho almirante tinha raízes algarvias, corram a dar-lhe o nome ao aeroporto em Faro, antes que Marcelo se lembre do Cavaco.