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quinta-feira, março 05, 2026

António Lobo Antunes, para mim

Apanhei o Lobo Antunes no início dos anos 80. Surge num período de renovação da ficção portuguesa, nos temas e modo de narrar, atingindo um público mais vasto (Dinis Machado,  João de Melo, Carlos Vale Ferraz), embora exemplos houvesse já de fuga ao rame-rame discursivo com Nuno Bragança e, antes de todos, Ruben A. Antes de todos, o que não era para todos. Sim, obviamente Memória de Elefante e Os Cus de Judas (ambos de 1979). Com Auto dos Danados (1985), tornou-se para mim evidente que estávamos diante de um grande. Depois distanciei-me, nem sei bem porquê -- necessidade de ler outras coisas e outros autores, provavelmente. Fui mantendo contacto com as crónicas, sempre de nível alto, embora outros cronistas tivessem a minha preferência, por exemplo Augusto Abelaira ou Vasco Pulido Valente. Por vezes era surpreendido pelas letras de canções para o esplêndido Vitorino. Aquelas diatribes com o Saramago irritaram-me, tornaram-.no mesquinho ao meus olhos. Se há coisa que não perdoo, sobretudo num escritor, é a mesquinhez. Lembro-me que o Ferreira de Castro, quando escreveu pela primeira vez sobre o Raul Brandão, afirmou que não o conhecia nem queria conhecê-lo, precisamente por isto. (É claro que viriam a relacionar-se.) Há poucos anos li o Sôbolos Rios que Vão (2010), que alguns apontam como o seu grande livro dos últimos anos. Não me parece, mas não serei taxativo sem uma releitura. Não trocaria uma página do Autos dos Danados por todo o Tôdolos; como não troco o Finisterra  pelo Uma Abelha na Chuva, do Carlos de Oliveira. Continuarei com livros do Lobo Antunes ao longo da vida, os mesmos livros e certamente outros. É o melhor que os escritores nos deixam; é só, na verdade, o que realmente interessa.  

sexta-feira, novembro 08, 2024

o que está a acontecer - romances sortidos

«-- [...] As pedras são todas da prumitiba, mesmo perto da torreta que leva à casa de defesa ainda se lêem uma ascrições latinas que rezam a sepultura de Dom Martim, morto de adigestão quando duma lampreiada para festejar as vitórias dos primos Barbelas. Tem a Torre trinta e dois metros de altura, é a maór da região e os degraus contam-se em oitenta e nove, com patamares de descanso. A vista lá do alto é grandiosa.» Ruben A., A Torre da Barbela (1964) 

«Aqui se conta da chegada de Jerónimo Caninguili, moço benguelense, à velha cidade de São Paulo da Assunção de Luanda. E de como, enquanto Caninguili dava os últimos retoques à sua Loja de Barbeiro e Pomadas, dita ainda Fraternidade, a menina Alice soltava os pássaros do falecido pai.» José Eduardo Agualusa, A Conjura (1989) 

«Mas o marido gritara qualquer coisa: interrogativa, ela deu meia volta e viu John, que agitava um braço e abria e fechava a boca. Dizendo o quê? E Mary aproximou-se novamente do David, regressando o marido à posição anterior, a máquina preparada. "Talvez o primeiro retrato fique melhor do que o segundo", murmura Giovanni, como se fosse ele o interessado.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores (1959)

terça-feira, outubro 29, 2024

tempo de romance

«As poucas pessoas do costume cumpriram religiosamente aquela invocação sentida do caseiro. Resignadas, aceitavam agora a metódica explicação. / -- Esta Torre não se sabe bem de quantos séculos podemos datá-la, mas o certo é que Dom Raymundo da Barbela (crê-se que tenha sido o primeiro grande home da família da Torre) saiu destas bandas para ajudar com os seus homes as cargas de Dom Afonso Henriques, seu primo colateral.» Ruben A.,  A Torre da Barbela (1964)

«Resoluto, Manuel da Bouça levantou-se e, pisa aqui, arrasta ali o pé dolorido, atravessou o pinhal. / Quando, porém, o outeiro, em curva suave de ventre feminino, se cosia ao sinuoso caminho que dava acesso à aldeia, deteve-se, meditativo, a contemplar a sua casita, quase debruçada no Caima.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Encostou-se ao pedestal da estátua, tirou o lenço da cabeça e olhou para o marido. Este baixou-se um pouco, apontou demoradamente a máquina e disparou por fim. / Mary virara-se outra vez de costas e Giovanni quis adivinhar-lhe a direcção dos olhos, acompanhá-los depois no voo extasiado que terminava na torre do Palazzo Vecchio.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores (1959)

sábado, outubro 26, 2024

tempo de romance

«Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses. Ele -- chamar-te-ás John, decidiu -- recuar dois ou três metros, e ela -- Mary -- dirigia-se devagar para os degraus do palácio, sob o olhar indiferente do David.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores (1959)

«Dava a impressão de que tudo degenerava; mesmo os turistas já só faziam perguntas à toa, alimentando o orgulho com que o caseiro da Barbela desfiava aquela lengalenga sem reparar no nariz pacóvio dos viajantes. / -- Aqui estamos em frente da Torre. Meus senhores, peço que se descubram e ao mesmo tempo um minuto de silêncio pela alminha dos Senhores que já lá estão.» Ruben A., A Torre da Barbela (1964)

«Um ponto negro, pouco maior do que cabeça de alfinete, mas tão doloroso como raiz de dente. Com muito cuidado, devagar, para que a lâmina não resvalasse, extraiu o espinho. E uma gota de sangue veio borbulhar no orifício que ele deixara. / Lá em baixo, no campanário, o relógio deu três horas.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

quarta-feira, maio 08, 2024

sofismas 'woke'

Sou leitor assíduo de Paula Cardoso, apesar de muitas vezes, ou quase sempre, discordar dela. Com isto, já estou a fazer um elogio à sua escrita e à sua profundidade, uma vez que me prezo de ser leitor exigente, sendo poucos os cronistas que não dispenso, concorde ou não com eles, como, para me ater ao DN, Viriato Soromenho Marques e Luís Filipe Castro Mendes, ou, no resto, a brilhantíssima Carmen Garcia, ou Henrique Raposo, José António Saraiva, Miguel Sousa Tavares, pelas mesmas ou outras razões. Como se vê, sou ecléctico. Cresci, como leitor, a ler os melhores: Augusto Abelaira, Eugénio Lisboa, Henrique Barrilaro Ruas, Vasco Pulido Valente ou Vítor Cunha Rego -- nunca perdendo de vista que a crónica é um nobre género jornalístico mas também literário, e que o seu inultrapassado cultor foi (e é) Eça de Queirós.

Leio-a sempre que me aparece, e raramemte concordo, pois parte do pressuposto, para mim errado, de que em Portugal os negros são objecto de racismo por serem negros -- provavelmente sistémico, importação de uma americanice que não se aplica a Portugal, mas aos estados americanos, como Brasil e Estados Unidos, cuja economia se alicerçou em mão-de-obra escrava. Em Portugal há racismo, sim, mas os seu alvo é a comunidade cigana; há xenofobia (aversão, geralmente causada por medo do desconhecido), que talvez possamos considerar uma espécie de racismo, mas as suas vítimas tanto são brasileiros e cabo-verdianos como moldavos ou ucranianos, não tem que ver com a cor da pele. E há, de facto, um racismo classista, que atinge os pobres, que são de todas as cores, mas com especial incidência nos imigrantes, obviamente os mais pobres e desprotegidos. Vivo num bairro de classe média, entre a média-baixa e a média-alta. A realidade que observo desmente-o quotidianamente; mas não quero desvalorizar episódios pontuais de racismo, nem o sofrimento que eles causaram a quantos o sofreram. O meu ponto, empírico, é a de que o racismo em Portugal tem aqueles contornos, e não os que nos vêm sendo impingidos por via anglo-saxónica.

Mas não é essa a questão que motiva este post, antes o característico argumentário woke, ou seja, de distorção da realidade e ocultação de aspectos menos palatáveis do pobre wokismo. A dada passo, a cronista escreve que este passou 

«a ser entendido como expressão de um movimento extremista, que prega a sua superioridade moral através de ideias progressistas que pretende impor aos outros. / É também por causa desta ficção narrativa que o racismo e o argumentário anti-imigração se propagam. Defender Direitos Humanos tornou-se “woke”. Lembrar que as vidas negras importam tornou-se “woke”. Recordar que todas as estatísticas desligam o fenómeno da criminalidade da imigração tornou-se “woke”. Combater ataques contra imigrantes tornou-se “woke”. Denunciar o racismo tornou-se “woke”.»

Vejamos. Só o tema do alegado progressismo das ideias -- frequentemente associadas a uma prática pública de censura e cancelamento -- daria um ensaio substancial. 

Vamos antes aos sofismas e até às mentirolas. 

Com que então, defender os direitos humanos tornou-se woke? -- resta saber se todos temos o mesmo entendimento do que sejam direitos humanos, ou melhor, de que forma eles se salvaguardam e aplicam -- e não temos. Há tempos, uma antiga deputada do BE dizia que a questão ponderosa das casas de banho para transnão-sei-o-quê era uma questão de direitos humanos, um problema que afecta 0,000001 dos jovens e que qualquer escola digna desse nome resolve com a maior das facilidades, como a resolveu a escola que os meus filhos frequentaram -- com bom senso, algo que a senhora BEwoke não tinha, até porque o que ela no fundo queria era criar um caso, fazer activismo.

Defender que as vidas negras importam, também se tornou woke? Extraordinário...

Recordar que todas as estatísticas desligam o fenómeno da criminalidade da imigração também? ? Eu devo viver noutro planeta.

Combater ataques contra imigrantes tornou-se “woke” ainda -- delirío, ou intenção de associar o pensamento crítico à extrema-direita? este tipo de associações espúrias parecem ter sempre bom acolhimento. Por exemplo, o governo do Netaniahu fá-lo, e até com sucesso junto dos mais sensíveis e medrosos, quando sustenta que criticar o governo de israelita é uma manifestação de antissemitismo.

Finalmente, de acordo com Paula Cardoso, "denunciar o racismo tornou-se woke". O despropósito (ou vitimização?) anula-se a si próprio.

Os wokes são useiros e vezeiros no distorcer da realidade, de modo a servir o seu "activismo". São inclusivamente manipuladores e censores. O que é woke, é, por exemplo, retirar das bibliotecas as bandas-desenhadas do Astérix e do Lucky Luke, já nem me lembro porquê; censurar os livros da Enid Blyton; querer reescrever os textos de Mark Twain ou Monteiro Lobato, retirar obras de arte de museus e galerias -- isto não é progressismo, é censura e reaccionarismo à soltaO que é woke é ser-se anacrónico em História, com opiniões semianalfabetas sobre os Descobrimentos (historiador-woke é um oxímoro). O que é woke é a criação de palavras e expressões estúpidas como presidenta ou dizer portuguesas e portugueses. -- e um longo etecetera. 

Tudo pode e deve ser debatido, mas de boa-fé.

quarta-feira, julho 05, 2023

"O Bosque Harmonioso"

Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso (1982) Um manuscrito alegadamente do século XVI, de Cristóvão Borralho, desconhecido navegador, companheiro de Fernão Mendes Pinto, amigo de Leonardo da Vinci. Trata-se de «O Bosque Harmonioso«, relato de viagens pelo Oriente e não só: Borralho relata também uma ida à Lua, apanhando os ventos favoráveis do cimo das cordilheiras do Tibete para alcançar o planeta satélite, onde encontrará uma outra humanidade. O pouco que se sabe dele vem noutro manuscrito de um seu panegirista, Gaspar Barbosa, com anotações anónimas em caligrafia do século XVIII,vindo ambos parar às mãos do protagonista deste breve romance, Arnaldo Cunha. E a partir daqui, ganhamos uma trama cheia de alçapões muito bem e abelairianamente explorada  (qual morte do autor, qual carapuça! -- o único autor morto aqui é o pobre Arnaldo Cunha, também narrador --; o autor Abelaira, mesmo post mortem, assiste e convive, tem de conviver!, com o leitor, que se apropria do texto como bem entende, sem o trair, claro). A dúvida sobre a autoria do «Bosque Harmonioso» quinhentista instala-se (a Inquisição a operar benemèritamente, ámen.): será Borralho, ou este uma criação de Barbosa -- ou, ainda, tudo não passará de um monumental embuste do anónimo de Setecentos?

Estas as cogitações que no último quartel do século XX se põem ao protagonista -- a ele e à amante, além de um amigo comuno-esquerdista, divergente de Arnaldo / Abelaira da esquerda realista, que hoje, 2023 acredito seria a esquerda desencantada --, num pano de fundo político de retoma da direita, com o triunfo da AD, de Sá Carneiro.

* O incipit é um excerto do manuscrito inicial: «Embarquei-me enfim com a minha fazenda numa nau que ia com muitos cavalos e pimenta em que era capitão Dias de Almeida, de alcunha o Tigre, filho do conde de Alcântara, o qual carregava a ossada do pai para Goa, donde seguiria para Coimbra, dando cumprimento a uma ordem de El-Rei Dom Manuel.» (Situado no Oriente, no século XVI, tendo como narrador Cristóvão Borralho -- Que nome se dá a um falso incipit?)

É no segundo capítulo que entra em cena Arnaldo Cunha -- «Devo prosseguir?» -- o narrador coetâneo, angustiosa personagem, duvidosa do seu lugar no mundo, enquanto homem, profissional e autor: «Sim, não sou nada e não sei nada, limito-me a dar as minhas aulas menos mal, consigo (talvez) interessar os alunos inteligentes (alguns alunos inteligentes). Mas não vou muito além. E, preguiçoso, nunca pude aprofundar nada, jamais nas minhas leitura levo um assunto até ao fim.» Os manuscritos do romance desconhecido e a biografia coeva do autor ignoto pode ser uma oportunidade para sair da irrelevância existencial, pelo apuro e aprumo da obra. Não só culto e muito lido -- Ovídio, Boccaccio, quem sabe Santo Anselmo?... --, suscita paralelismos com Rabelais e parece antecipar, pelo espírito ricamente intuitivo, Pascal, Leibniz, Montesquieu, Voltaire, Swift, e até Proust, e até Henry Miller... Para não falar da teoria da deriva continental, de Wegener. Não um exímio estilista, antes um encorpado mas subtil escritor: «A intenção de dizer certas coisas como se não as dissesse, uma indiscutível arte da entrelinha, uma aguda inteligência de dizer o não dito.» Arnaldo não é intelectualmente coxo, como se vê, mas um calaceiro da pior espécie, que bem gostaria de medir-se neste estudo biográfico com o Huizinga (que Abelaira traduziu) de Erasmo ou o Lucien Febvre de Lutero, mas não tem ilusões; e ademais, de que vale o esforço? No findo, nada parece valer a pena, em momentos de desânimo. 

Por outro lado, em colóquio regular com Irene, relação recente fora do casamento, alvitra-se que tanto romance como biografia podem ser uma falsificação desse anónimo do século XVIII, disfarçando o papel; e o que era uma intuição ou inteligência aceradas, não passaria em várias situações, de plágio. O desafio é, porém, tentador: «Uma obra (O Bosque Harmonioso), um comentário dela (o manuscrito de Barbosa), as anotações do século XVIII. Como -- a comparação parece-me justa -- uma catedral a enriquecer-se progressivamente com as idades, com os estilos diferentes. Um edifício vivo, um todo trabalhado pelo tempo.» 

* Tempo tal como a História, tantas vezes enganosa, fugidia e aldrabada, mesmo que por bem: «[...] assim procederam os monges de Alcobaça quando forjaram as cortes de Lamego. Ao tornarem-se reais, as cortes de Lamego produziram um futuro diferente daquele que existiu sem elas. E criando outro futuro, cimentaram a independência de Portugal com novos e dinâmicos argumentos.» É exacta e esplendidamente isto. E, num assomo genial, uma pergunta de verdadeiro leitor, trazendo à superfície a preocupação de autor, que gostariam uns tantos estivesse morto, mas aqui vivinho da costa, Abelaira aos saltos transmudado em: «-- Estranha coisa -- digo. -- Se O Bosque Harmonioso datar do século XVI consideramo-lo. Escrito posteriormente, não. [...] Preciso de conhecer a data de O Bosque para saber se devo ou não emocionar-me?»

*Ainda: um humor e pensamento ginasticados e muito abelairianos, o Abelaira de «Escrever na Água» e «Ao Pé das Letras», crónicas políticas e literárias, que aqui se encontra; algum brejeirismo remetido a Borralho. mas não só. Se O Bosque Deleitoso (século XVI) é uma obra de celebração mística, O Bosque Harmonioso  ganha evidentes conotações eróticas: «Que é o desejo? A blusa transparente, os bicos escuros... Borralho desaparece do campo da minha consciência, desaparece a blusa da Irene, tiro-lhe a saia. Eis o bosque harmonioso, as aves cantam docemente.»

* Frouxo na vida, frouxo no amor. Alguma lamechice sentimental, que se prende com a insegurança amorosa de Arnaldo é o pior deste breve romance; a forma como é resolvida, porém, redime-o; tal como a conclusão retirada pelo narrador no explicit, apaziguando o porquê e o para quê: «Saber que a vida não tem sentido e no entanto continuar a procurá-lo. / A amargura. A serenidade.»   

* Uma excelente análise, por Carlos Machado pode ser lida no suculento Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa, dirigido por Carlos Reis; texto que propositadamente li depois de terminado este.

segunda-feira, janeiro 02, 2023

caracteres móveis

«Mary virara-se outra vez de costas e Giovanni quis adivinhar-lhe a direcção dos olhos, acompanhá-los depois no voo extasiado que terminava na torre do Palazo Veccchio.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores (1959)

«No Verão aumentava o movimento: os carros rodavam, ali perto, na estrada de Viana para a Ponte, pela margem esquerda, e tentavam-se a espreitar.» Ruben A., A Torre da Barbela (1964) 

«O modo altivo como ela recebeu as cortesias da nobreza -- velha nobreza, que para ali viera em tempo de D. Dinis, fundador da vila -- fez que o mais novo do préstito, que ainda vivia há doze anos, me dissesse a mim: "Sabíamos que ela era dama da Senhora D. Maria I; porém, da soberba com que nos tratou ficámos pensando que seria ela própria a rainha."» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

domingo, julho 18, 2021

a arte de começar

 «Embarquei-me enfim com a minha fazenda numa nau que ia com muitos cavalos e pimenta em que era capitão Dias de Almeida, de alcunha o Tigre, filho do conde de Alcântara, o qual carregava a ossada do pai para Goa, donde seguiria para Coimbra, dando cumprimento a uma ordem de El-Rei Dom Manuel. Levávamos connosco  o Vasco Pereira, pai de Diogo da Costa, alcaide-mor de Pinhel, aquele mesmo que logo no ano seguinte havia de falecer em Goa do coice dum cavalo. E, velejando desde as seis horas da manhã, com ventos bonanças, avistámos uma vela que nos pareceu uma galeota turca e seguimo-la marcados pela sua esteira para a abalroarmos, mas ao cair da noite pôs-se uma calmaria que não nos deixou navegar mais e decidiu então Dias de Almeida aguardar pela madrugada.»

Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso (1982)

terça-feira, setembro 22, 2020

a arte de começar - Augusto Abelaira (1926-2003)




«Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses. Ele -- chamar-te-ás John, decidiu -- recuara dois ou três metros, e ela -- Mary -- dirigia-se devagar para os degraus do palácio, sob o olhar indiferente do David. Encostou-se ao pedestal da estátua, tirou o lenço da cabeça e olhou para o marido. Este baixou-se um pouco, apontou demoradamente a máquina e disparou por fim.»

A Cidade das Flores (1959)

sexta-feira, julho 31, 2020

um parágrafo de Augusto Abelaira

«Sem querer, tinha os olhos postos no palácio. Um país onde isto não existe. Sim, sem Santa Maria Novella, sem Masaccio, sem sol. "Um país onde eu desejaria ter nascido, ter sido jovem. Um país onde também não teria sido ninguém, mas apenas porque não sou ninguém."»

A Cidade das Flores (1959)

segunda-feira, dezembro 02, 2019

um parágrafo de Augusto Abelaira

«Fazio desviou os olhos do casaco azul, já coçado, do amigo, folheou sem grande atenção um jornal. As notícias do estrangeiro: Chamberlain dirigindo-se a Mussolini no banquete do Palácio de Veneza: "É um prazer observar esta Itália poderosa e progressiva que surgiu sob a direcção e inspiração de Vossa Excelência", as tropas nacionalistas a setenta quilómetros de Barcelona. As notícias do país: Alguns guerrilheiros mortos na Abissínia, a inauguração dum quartel, uma frase: "A igualdade perante a lei é concedida a todos aqueles que ajudem a causa nacional e não recusem a sua colaboração ao Estado". Não estivesse a frase sublinhada por Domenico, e Giovanni não teria dado por ela.» A Cidade das Flores (1959)

quinta-feira, junho 06, 2019

vozes da biblioteca

«As irmãzinhas haviam-na abandonado num camarote sem ar e sem vigias: uma luz mortuária por cima da cabeça, sacos de plástico para o enjoo arrumados numa bolsinha fatídica, o beliche estreito e uma mistura dos cheiros que só existem nos barcos -- salitre, tintas quentes e o amoníaco entorpecente das latrinas muito próximas.» João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas (1988)

«Como se as pupilas que todos os dias o viam o esmagassem: pupilas de escravos, pupilas de homens que temiam dizer o que pensavam -- homens mutilados.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores (1959) 

«Quanto ao pequeno drama pessoal de Nacib, sùbitamente sem cozinheira, dele apenas seus amigos mais íntimos tomaram conhecimento imediato, sem lhe dar, aliás, maior importância.» Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela (1958)

quarta-feira, março 14, 2018

«Desviou com desagrado a vista do Rapto das Sabinas e lentamente desceu as escadas, procurando no chão o movimento veloz da sombra de uma nuvem.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores (1959)

«No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póstumo, 1901)

«Era um aldeão: tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875)

segunda-feira, março 12, 2018

«Nem grande escritor, nem filósofo, nem cientista, mas um desses homens que, embora sem génio criador, souberam perceber qual a orientação dos ventos.» Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso (1982)

«Por debaixo da triplicada cornija do mostrador havia uma medalha com uma dama cor de laranja, vertida de vermelhão, decotada, com uma romeira e uma pescoceira crassa e grossa de vaca barrosã, penteada à Pompadour, com uma réstia de pedras brancas a enastrar-lhe as tranças.» Camilo Castelo Branco, Eusébio Macário (1879)

«As bochechas balofas e trémulas, dilatadas pelo calor do Estio, ressumavam-lhe um suco oleoso, que descia em regos pelos três rofegos da barba e vinha aderir a camisa às duas grandes esponjas, que formavam os seios cabeludos do nosso amigo atribulado.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)


sexta-feira, maio 05, 2017

começar

Em João Pedro de Andrade o interdito vela-se por detrás da frase anódina -- o título da novela, aliás excelente, põe-nos de sobreaviso.  Do livro de estreia, que não o primeiro, de António Lobo Antunes, uma torrente, contrário ao que pareceria desejável. A mestria é, porém, tanta, que é o longo incipit que nos fica à maneira de fim de rebuçado. Augusto Abelaira, em maré de XVIIª (1983), põe-nos a bordo de uma nau quinhentista. Não se trata, contudo, de um romance histórico, antes um afloramento da reconhecível faceta irónica e crítica do autor -- tanto quanto me lembro da leitura, com décadas. O incipit de António Alçada Baptista dá a medida do catolicismo light do romance, aliás intragável. Finalmente, o de Miguel Barbosa reitera um coloquialismo que em tempos deu frutos.

1942: «Desde o inverno que Jaime andava a falar na visita do seu sobrinho Luís.» João Pedro de Andrade, A Hora Secreta

1979: «Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do rinque de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.» António Lobo Antunes, Os Cus de Judas

1982: «Embarquei-me enfim com a minha fazenda numa nau que ia com muitos cavalos e pimenta em que era capitão Dias de Almeida, de alcunha o Tigre, filho do conde de Alcântara, o qual carregava a ossada do pai para Goa, donde seguiria para Coimbra, dando cumprimento a uma ordem de El-Rei Dom Manuel.» Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso

1994: «A letra de Deus nem sempre é decifrável e ninguém conhece a língua em que escreveu a alma humana.» António Alçada Baptista, O Riso de Deus

2010: «Eu tinha chupado a vida por uma palhinha e o que restava dela e de mim era um monte de ossos de algum sebo!» Rusty Brown (aliás, Miguel Barbosa), Os Crimes do Buraco da Fechadura

(o título: Os Cus de Judas)

segunda-feira, maio 01, 2017

começar

Escolher um início de narrativa, esquecendo todo o livro que vem a seguir, é difícil, Nestes cinco livros há de tudo para mim: o excelente (As Primeiras Coisas) e o detestável (Aldeia das Águias); o indiferente (A Cidade das Flores), o desafiante (A Torre da Barbela) e o intrigante (A Voz dos Deuses). 
Se Ruben A. consegue levantar a sobrancelha, impelindo-nos à leitura interessada e Bruno Vieira Amaral introduz um problema individual, com todas as possibilidades em aberto, em oposição ao bocejar existencialista que se desenrolará em Abelaira, o de João Aguiar traz consigo uma ressonância trágica, seca e límpida, algo que os adjectivos de Guedes de Amorim são incapazes de emprestar àquele crepúsculo.
Não tivesse eu uma opinião formada sobra cada uma das obras e a minha escolha seria a mesma? talvez não.

em 1939: «Rápido, roxo e frio vinha o crepúsculo.» Guedes de Amorim, Aldeia das Águias

em 1959: «Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores

em 1964: «Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento.» Ruben A., A Torre da Barbela

em 1989:  «Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale.» João Aguiar, A Voz dos Deuses

em 2013: «Quando, em finais dos anos noventa, voltei costas ao Bairro Amélia, com os seus estendais de gente mórbida, a banda sonora incessante das suas misérias, nunca pensei que a vida me devolveria ao ponto de partida.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas

em tempo -- título preferido: Aldeia das Águias).

quarta-feira, abril 26, 2017

estante: A CIDADE DAS FLORES (1959)

Compreende-se o entusiasmo dos leitores de 1959, quando se depararam com um romance que retratava um beco sem saída da juventude na Itália de Mussolini, mas que de facto reflectia o sufoco insuportável que experimentavam no Portugal de Salazar.

O romance de estreia de Augusto Abelaira (1926-2003) envelheceu mal, porém. Personagens problemáticas e palavrosas, narrador palavroso e problemático; atmosfera cinzenta, espelho do cinzentismo do país nos anos cinquenta. Portugal deveria ser então irrespirável para os jovens urbanos da classe média. Li-o sem um frémito. 

A modorra anuncia-se desde o incipit«Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses.»


A angústia existencial é dada, na mesma época, com outra desenvoltura e traquejo por Vergílio Ferreira (é o ano de Aparição, talvez também sobrevalorizado em face de outros, anteriores e posteriores, hei-de pensar nisso), dez anos mais velho. 


O Abelaira ironicamente problematizador e estimulante que conheço das crónicas, literárias («Ao Pé das Letras») e políticas («Escrever na Água»), não me apareceu, ao contrário do sucedido com outro livro seu, lido há muitos anos e a pedir novo encontro: O Bosque Harmonioso (1982). O posfácio à segunda edição, de 1961, é, aliás, exemplo dessa qualidade de Abelaira.

quinta-feira, outubro 08, 2015

turvação

«Tareja deixou então tombar o xaile que lhe cobria os alvos ombros e demorou algum tempo a resguardá-los de novo e isto com tanta graça que os olhos de Afonso se turvaram.»

Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso (1982)

sábado, março 07, 2015

uma alma desejosa de se corrigir

«-- Fez-vos bem a santa missa de ontem? -- quis saber Tareja.
-- A missa só por si não sei, mas Deus, que nunca abandona quem procura emendar-se, pôs no meu caminho a vossa presença, e ela, sim, deu segurança ao meu ânimo e todo o santo dia conheci pensamentos castos como convém a uma alma desejosa de se corrigir.
Tareja deixou então tombar o xaile que lhe cobria os alvos ombros e demorou algum tempo a resguardá-los de novo e isto com tanta graça que os olhos de Afonso se turvaram.»

Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso (1982)

sábado, novembro 22, 2014

tenho saudades do Abelaira

«Nem grande escritor, nem filósofo, nem cientista, mas um desses homens que, embora sem génio criador, souberam perceber qual é a orientação dos ventos. Um jornalista de qualidade, diríamos hoje. E, neste sentido, talvez a expressão soube perceber também se revele incorrecta. Não terá percebido nem deixado de perceber. Tanto poderia afirmar que A é B como A não é B. Mas disse que A é B e acertou sem dar por isso porque a História também escolheu que A é B. Se quiserem: atirou uns tiros ao acaso e caiu um pato.»

Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso (1982)