«No Talasnal o Emílio Riço já nos noventa e seis anos de idade morreu com a boca cheia de moscas a apanhar o sol da tarde, e a mulher foi dali levada à força para um asilo da Lousã, mais cega do que uma fraga e com o juízo de todo varrido da cabeça, porque também com mais de noventa anos punha de fora da blusa os sacos vazios das mamas e gritava, Olívia de Ataíde, pura e bela!,» Ascêncio de Freitas, A Noite dos Caranguejos (2003)
«E de repente dobra o ângulo oposto da casa, vem direita a mim. Um breve ruflar de saias compridas no silêncio, desliza imperceptivelmente, traz um molho de couves num braçado, tia Luísa. / -- Já vieste, Paulinho? / Pára um pouco ao pé de mim. / -- Estás morta! -- grito-lhe eu para o espaço em redor.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
«Alguns tentaram abrir as conservas com as chaves apropriadas, mas não conseguiram melhor que esventrá-las depois de terem cortados os dedos nos irregulares e afiados rebordos metálicos. / -- Quem lhes metesse as chaves d'arame pas goelas a baixo! -- resmungou um gigante fardado, grande como um eucalipto, de olhos pequenos e redondos, mal encaixados pela testa curta, as maçãs do rosto avermelhadas e que transmitia a ingenuidade do sorriso de uma criança própria dos simples de espírito.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)