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quarta-feira, abril 01, 2026

Vitorino Nemésio, escrever como se respira

Vitorino Nemésio (1901-1978) é, consabidamente, um dos maiores escritores portugueses, não apenas do século passado. Grande como poeta, ensaísta, historiógrafo, atrevo-me a dizer (e não sou o único), que escreveu o  mais extraordinário romance da nossa literatura, Mau Tempo no Canal (1944). É um real atrevimento, sabendo que poderíamos convocar para esta distinção umas boas duas dezenas, pelo menos, de outras extraordinárias narrativas. A Nemésio eu poderia juntar, sem dificuldade um ou mais títulos de Camilo, Júlio Dinis, Eça, Aquilino, Castro, Redol, Manuel da Fonseca, Vergílio Ferreira, Sena, Saramago, Cardoso Pires -- os grandes romances dos grandes.

Sem justificar, como deveria, a minha escolha por esta obra(-prima) do poeta de O Bicho Harmonioso (1938), apetece-me aludir ao seu estilo, que nos aparece como uma dádiva: Nemésio escreve como respira, sem se dar por isso, do mais trivial às mais profundas elucubrações, do breve registo oral às mais inesperadas ou cintilantes metáforas, com a naturalidade da água que corre; o que não sucede com a maioria dos seus pares, incluindo os atrás referidos, a não ser nos seus grandes momentos, que felizmente abundam. Como Nemésio, muito poucos me dão essa sensação num romance encorpado como a história de Margarida Clark Dulmo e João Garcia; talvez, apenas o melhor Eça, e Machado de Assis, do outro lado do Atlântico. 

sábado, agosto 02, 2025

o que está a acontecer

«Mas o grito ainda ecoava, morria aflito e longo. Sentiu os homens agitarem-se na cela comum do rés-do-chão. Perto, soltou-se uma voz lamentosa e resignada: / -- Cala-te, Doninha! / Em baixo, de pé sobre o parapeito de uma das janelas, um homem completamente nu, mãos escuras enclavinhadas nos varões das grades, voltou a gritar.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

«Mas a mãe portuguesa é capaz de grandes crueldades protestantes, de um desprendimento que, por ser inesperado e um tanto alheio à sua natureza, é de mais difícil digestão. No entanto, sei-o hoje, a minha mãe sofria com o revés na minha vida e não queria que o excesso de afagos a tornasse cúmplice moral da derrota.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

«À volta dele criou-se assim uma espécie de mitologia que julgo digna de crónica, embora queira penitenciar-me de ser eu a escrevê-la, pois a um neto de campino nunca deveria ser permitido o acesso a certos meios de expressão que o progresso, sorrateiramente, enfiou pelas nossas fronteiras. / Acuso-me deste ultrajeAlves Redol, Barranco de Cegos (1961)

terça-feira, julho 29, 2025

o que está a acontecer

«Um grito encheu a cadeia. / Num sobressalto, o rapaz ergueu-se da sonolência em que jazia sobre a tarimba e foi até às grades. Alquebrado de torpor, a princípio nada compreendeu. Viu, confusamente, os canteiros cheios de flores, as árvores e, para lá do jardim, o edifício amarelado dos Paços do Concelho.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

«Resignou-se. Na altura, acusei-a intimamente por me ter recebido assim. Aproveito esta ocasião para corrigir esse erro. Convencemo-nos de que  as mães católicas sofrem muito quando os filhos varões saem de casa e estão sempre desejosas de um regresso para o qual contribuem com pequenas artimanhas, censuras às noras e outras armas do arsenal da mãe latina.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

«Ouvi chamarem-lhe santo homem, com unção e humildade; mas ouvi também minha avó, de lágrimas nos olhos e ódio na boca, amaldiçoá-lo por mais de uma vez, como se de um tirano falasse. Dum tirano irremediável que nada, nem ninguém, pudesse apear do mesmo trono onde morava Deus.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)  

terça-feira, julho 22, 2025

o que está a acontecer

«Pensou que um gesto assim lhe ficaria de memória para o resto dos seus dias. Além disso, pensou ainda, havia o pavor do próprio grito: violar aquela noite de água e árvores adormecidas e sem nome, destravar a guilhotina em repouso sobre o sono das casernas e fugir de mãos no ar, apanhadas pelo crime.» João de Melo, Autópsia de um Mar de Ruínas (1984)

«Não sei se ela o chegou a ler (num daqueles arroubos românticos que, em ocasiões anteriores, me tinham levado a recitar um soneto insidioso de Camilo Pessanha com o Tejo em fundo, é possível que eu lhe tenha lido um desses poemas, encostado às suas coxas nuas, beijando-lhe os seios, dois filhos gémeos da gazela) mas, ainda que não tenha sido assim, a visão daquele livro atirado para o lixo transportou-me para o interior de uma canção de Chico Buarque.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

«(Eu e Diogo Relvas preferimos as águas apauladas. E cá estamos) / Contaram-me que uma tarde de domingo, daquelas em que meu avô, seu criado e maioral das éguas, vinha aviar o alforje para quinze dias de Lezíria, o patrão Diogo nos viu juntos e se dignou, sem nojo, concretizar uma carícia nos cabelos encaracolados da minha cabeça de menino pobre.» Alves Redol, Barranco de Cegos (12961)

sábado, julho 19, 2025

o que está a acontecer

«BREVE NOTA DE CULPA - Conheci Diogo Relvas. / Julgo que me lembro de tê-lo visto passear por Aldebarã, a cavalo, numa das vezes, não sei se a última em que estive em casa do meu avô. Já lá vão quase cinquenta anos, tempo suficiente para que um lago se torne num pântano ou uma estrela distante e misteriosa se transforme num mundo corriqueiro, ambos possíveis por obra dos homens.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

«Houve até um momento patético que, a esta distância, vejo como relato ilustrativo desses tempos não muito conturbados. No dia em que saí de casa, pondo fim a uma vida em comum de oito anos, encontrei no caixote do lixo o exemplar de Os Versos do Capitão, de Pablo Neruda, que há muito tempo, apaixonado e previsível, oferecera a Sara.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

«Assestar uma metralhadora, do alto de um posto de sentinela, sobre essa coisa difusa, homem ou bicho, seria sempre um acto muito superior à sua vontade; um gesto tão grande como a destruição do mundo, pensou. Pensou que um gesto assim lhe ficaria de memória para o resto dos dias.» João de Melo, Autópsia de um Mar de Ruínas (1984)

domingo, junho 15, 2025

o que está a acontecer

«E lá ia, que remédio!, de balde ao ombro, a espreitar alguma maracha que precisasse de engravatada, por oscilação de terras, ou canteiro mais soberbo por desequilíbrio da gleba. Bem regara aquela maldita com o seu suor; longas horas de repouso tinha perdido à sua volta. Mas também a alegria de ver todo o arrozal farto de espigas o dava por bem pago no fim do contrato.» Alves Redol, Gaibéus (1939)

«Porque diabo este pacóvio largou tudo e abalou também? / E os outros, -- toda a malta da terceira, imunda, sórdida -- miseráveis, porque trocam a sua pobreza livre pela escravidão? E eu?» Joaquim Paço d'Arcos, Diário dum Emigrante (1936)

«Às quatro paredes brancas, seguiam-se a capoeira da criação e o quintal, mui cultivado, muito verde -- as couves gordas, os feijoeiros abraçados às estacas e as ervilhas cheias de garridice por terem flores como violetas.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) 

segunda-feira, setembro 30, 2024

tempo de romance

«O chantre estimava-o. Chamava-lhe "Frei Hércules". / -- "Hércules" pela força -- explicava sorrindo -- "Frei" pela gula. / No seu enterro ele mesmo lhe foi aspergir a cova; e, como costumava oferecer-lhe todos os dias rapé da sua caixa de ouro, disse aos outros cónegos, baixinho, ao deixar-lhe cair sobre o caixão, segundo o ritual, o primeiro torrão de terra: / -- É a última pitada que lhe dou.» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/80)

«Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas de opinião. / Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo.» Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)

«Arrastava-me até casa, subia às apalpadelas, despia-me rezando fragmentos de velhas orações; e adormecia dum sono que parecia não dever ter fim. Mas outras noites, cansava-me: Depois de ter começado as minhas deambulações onanísticas -- sentia que me seria impossível prosseguir. Resolvia, então, renunciar, e acabar a noite como qualquer outro.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934)

«Foram pouco a pouco erguendo-se para o céu, avolumando-se, os vultos das duas serras. Eram agora duas ilhas extensas, negras de cor, encosta a pique sobre o mar, o que aparentavam ser. / Mas no mar não há visões definitivas. Atrás de uma logo outra se forma, todas diferentes, variadas. Ilhas de ainda há pouco não sois mais agora do que os baluartes soberbos, altaneiros, da terra que vos destacou para indicar caminho ao mareante.» Joaquim Paço d'Arcos, Herói Derradeiro (1933)

«De quando em quando, o desânimo vencia-o -- o desânimo e as sezões. / Se a terra fosse sua, quantas vezes se deixaria ficar na poisada a refazer o corpo. Mas se não andasse, quem havia de cuidar daquilo?... / Nunca patrão algum lhe atirara remoque por desmazelo no trabalho. Ele pertencia à família dos Milhanos de Marinhais, sempre famosos no Ribatejo como arrozeiros sabidos e safos de mândria.» Alves Redol, Gaibéus (1939) 

sábado, setembro 14, 2024

tempo de romance

«O seu único amigo era o chantre Valadares, que governava então o bispado, porque o senhor bispo D. Joaquim gemia, havia dois anos, o seu reumatismo, numa quinta do Alto Minho. O pároco tinha um grande respeito pelo chantre, homem seco, de grande nariz, muito curto de vista, admirador de Ovídio -- que falava fazendo sempre boquinhas, e com alusões mitológicas.» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/80) § «De três bicas, manando de rosáceas num pano de gracioso corte, com o entablamento coroado por pirâmides e um frontão em que se vazava uma guarita de santinho, apenas uma escorria no tempo da seca. Se pelos meses de águas vivas todas três brotavam, na tristeza das horas sem luz, à borda do silêncio revessado pelo convento, seu gorgolão era grave como uma salmodia de monges.» Aquilino Ribeiro, A Via Sinuosa (1918) § «Quantas noites não pregara olho a traçar planos para os canteiros da ponta de baixo que pareciam avessos a receber frescura? Então, erguia-se da esteira para percorrer o arrozal, levando as estrelas por camaradas mais a endecha da água e o zangarreio das rãs.» Alves Redol, Gaibéus (1939) § «As leis dos césares, pelas quais se regiam os vencidos, misturaram-se com as singelas e rudes instituições visigóticas, e já um código único, escrito na língua latina, regulava os direitos e deveres comuns quando o arianismo, que os Godos tinham abraçado abraçando o Evangelho, se declarou vencido pelo catolicismo, a que pertencia a raça romana.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

quarta-feira, setembro 11, 2024

tempo de romance

«Primeiro, de bandeirolas a tirar miras para o erguer das travessas e a mandar homens na rebaixa, até os tabuleiros poderem receber uma lâmina de água para a sementeira; depois, a dirigir aquele caudal que todos os dias entrava Lezíria dentro, pela regadeira mestra, não fossem afogar-se os pés de arroz ou morrer alguns por míngua.» Alves Redol, Gaibéus (1939) § «Depois de ter corrido a cidade, recomeçava: Preferia os becos, as sombras, os cantos e as escadinhas escusas. E envolvia no mesmo ódio furibundo as luzes dos cafés e os raros transeuntes normais que recolhiam. Era pela antemanhã que o meu delírio atingia o auge.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934) § «-- Lá está! -- grita uma voz, louca de alegria. Era certo. Pela proa, um pouco aberto por bombordo, despontava de facto no horizonte um pequeno recorte de costa, ilhota perdida ou cimo de monte, cume de serra afinal.» Joaquim Paço d'Arcos, Herói Derradeiro (1933) § «À esquerda, para lá ainda da falda do outeiro, esbranquiçava, por entre a ramagem estática, o casario da aldeia. Desse lado, certamente de debicar os brincos vermelhos das cerejas, um gaio vinha, de quando em quando, esconder no pinhal o cromatismo da sua plumagem. "Chuá! Chuá!" E era o único grito que quebrava o silêncio, também volátil, das velhas árvores em êxtase.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) § «O destoante casario campeava, porém, já fora da catedral e formava, com o seu largo abraço saindo-lhe discretamente dos flancos, uma como que cintura defensiva lançada à roda da venerável cabeceira do templo, onde resplendia ainda o diadema estilhaçado das capelas góticas.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

segunda-feira, setembro 09, 2024

o menino Ferreira de Castro

As terras têm o seu património, natural, etnográfico, arquitectónico. O legado literário em geral dá-lhes, porém, mais densidade. Amarante, com Pascoais, Vila do Conde tem Régio e o irmão Júlio/Saul Dias, Rio Maior e Ruy Belo, a Vila Franca de Xira de Alves Redol. Oliveira de Azeméis tem Ferreira de Castro, e a autarquia editou, no ano seguinte ao centenário do seu nascimento, uma BD para as crianças, da autoria do conterrâneo Manuel Matos Barbosa (1935), um nome do cinema de animação e do documentalismo.

Castro tem excesso de biografia: aos 12 anos emigrou sozinho para o Brasil, sendo enviado para um seringal na Amazónia. Dessas experiências extrairá matéria para dois extraordinários livros, que irão renovar o romance português, abrindo portas ao neo-realismo: Emigrantes (1928) e A Selva (1930). Porém, verdadeiro escritor, não se ficaria por aqui: Eternidade (1933) encerra um fundo existencialista numa narrativa de cunho social; A Lã e a Neve (1947), friso romanesco que é talvez o seu romance mais perfeito; ou A Missão (1954), uma novela que é uma jóia de problematização psicológica.

Como se fosse pouco, este autodidacta, foi durante décadas o escritor português mais traduzido, duas vezes proposto para o Nobel da Literatura, entre muitos outros factos que aqui não cabem. Mas o cerne dessa vocação está na primeira infância, na aldeia natal de Ossela, e Matos Barbosa, com um traço límpido e tons suaves, foi feliz em mostrá-lo.

O José Vai à Escola

texto e desenhos: Matos Barbosa

edição: Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis, 1999

(Novembro, 2019)




sábado, agosto 31, 2024

tempo de romance

«O piedoso intuito não desculpava, porém, a teratologia arquitectónica daquela fachada de prédio burguês, hediondo alinhamento de caixilhos envidraçados, irreverentemente sobrepostos às admiráveis arcaturas inferiores com ogivas que brotavam de esbeltos colunelos geminados.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920) § «E sem dúvida falou e abendiçoou aos verdilhões, arquitetravós desses que aí andam na figueira a debicar os figos lampos. Quando para aqui vieres, que a tua mente esteja pura, Libório; este retiro -- sabes? S. Francisco de Assis foi Jesus que voltou ao mundo de pobrezinho -- é tão inspirado como o Horto das Oliveiras.» Aquilino Ribeiro, A Via Sinuosa (1918) § «Porém essas noites não eram minhas. Estas começavam sempre mais tarde, exigiam-se só, e requeriam disposições extraordinárias. Eu andava então horas e horas entregue a uma espécie de devassidão -- não acho outra palavra -- durante a qual vivia, por assim dizer, todo o meu passado e todo o meu futuro.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934) § «-- S'o patrão não andasse de fogo no rabo por mor do rancho, seis dias de molho dava-lhe uns saquitos bem bons. Assim... ainda adrega uma seara como por aqui não há outra. / Andava por oito meses que corria aqueles combros de alto a baixo.» Alves Redol, Gaibéus (1939)

quinta-feira, agosto 22, 2024

tempo de romance

«Ninguém o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral não era estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes. / Nunca fora querido das devotas: arrotava no confessionário, e tendo vivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera por isso, logo ao princípio, qause todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmão, tão cheio de lábia!» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/80) § «Noites havia, sim, em que simplesmente apreciava a noite: O aspecto de mascaradas, ou desmascaradas, que certas casas têm a certas horas; o silêncio das ruas e a sonoridade das pedras; os vultos que se esgueiram, ou esperam às esquinas, ou se cosem às paredes, ou nos roçam o ombro, ou nos pedem lume, ou falam alto; e depois esboços de paisagens, ou transfigurações inesperadas de coisas que à luz do dia são banais.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934) § «Junto à amurada iam-se formando grupos, trocavam-se comentários, faziam-se previsões. / -- Às 9 horas estamos atracados. / -- Nem para lá do meio-dia. / Assestam-se os binóculos, perscruta-se o horizonte, levantam-se falsos alarmes -- um fumo de vapor rapidamente disperso, instantes tomados por nesga de terra -- não se abafa a paciência que de todos aqueles peitos transborda.» Joaquim Paço, d'Arcos, Herói Derradeiro (1933) § «E lançava vista sobre o manto de panículas aloiradas, que os camalhões percintavam e a aragem branda enrugava, como mareta em oceano de oiro. / Mais além e aqui, uma mancha ou outra de verde a denunciar o cromo que o sol lhe arrancava, indício de algum cabeço que as enxadas, no armar da terra, não haviam derrubado.» Alves Redol, Gaibéus (1939) 

terça-feira, agosto 13, 2024

tempo de romance

«O pinhal, todo de troncos grossos, casca áspera e gretada, adormecia austeramente no silêncio da tarde primaveril. As suas pinhas dir-se-iam incopuladas ou corroídas por antídoto malthusianista, pois cá em baixo, no solo castanho e acidentado, nenhum pinheiro infante erguia para o céu os bracitos verdes.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) § «Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica -- que o detestava -- costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado: / -- Lá vai a jibóia esmoer. Um dia estoura! / Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe -- à hora em que defronte, na casa do dr. Godinho, que fazia anos, se polcava com alarido.» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/80) § «Homem de muitas letras, já ruço, mas ainda de bom garbo nos seus setenta anos, sãos de alma e de corpo, antes de abrir Horácio, aprazia-lhe lembrar num doce tom de iluminado: / -- Neste sítio, Libório, descansou o grande padre S. Francisco de jornada para Compostela.» Aquilino Ribeiro, A Via Sinuosa (1918) § «De pá ao alto, descansada no ombro, o "seu Arriques" já pensava na volta a casa, pois da sangria à recolha do bago poucas semanas iam. / -- Que rica seara! Andei-me nela que nem sombra atrás d'alma penada, mas o patrão arrinca para cima de quarenta sementes. Se os outros a pudessem comer coa inveja...» Alves Redol, Gaibéus (1939)

sexta-feira, agosto 09, 2024

tempo de romance

I. «O gosto de vaguear de noite...» «O gosto de vaguear de noite, a horas, mortas, era agora o mais querido dos meus prazeres melancólicos. Desde muito novo desenvolvo reais qualidades inventivas em tal género de prazeres: Mas qualidades que sobretudo se revelam no pormenor ou na maneira.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934) § »Rancho». «Ia já para três dias  que o tractor parara e a regadeira não via pinga de água trasfegada do Tejo. / O arrozeiro, apertado pelo patrão, andava numa dobadoura, por marachas e linhas, a deitar olho aos canteiros de espiga mais loira, fazendo piques, agora aqui, agora ali, para que as águas fossem caminhando para a vala de esgoto e os ranchos pudessem meter foices no arrozal.» Alves Redol, Gaibéus (1939) § I.I.«No mar sereno, chão, quase estanhado, de rara mansidão em tais paragens, avançava o Angola, rumo ao Tejo. Mal se espalhavam ainda por sobre a imensa planície líquida as primeiras claridades da manhã. Apagavam-se no céu a esvair-se em rosa e azul estrelas retardatárias no fugir.» Joaquim Paço d'Arcos, Herói Derradeiro (1933) § I.I.«Preta e branca, preta e branca, o preto mui luzidio e muito níveo o branco, a pega, de cauda trémula, inquieta, saracoteava entre carumas e urgueiras, esconde ali, surge aqui, e por fim erguia voo até à copa alta do pinheiro, levando no bico ramo seco ou graveto.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) § «Sentado na borda do tanque, que uma figueira toldava de deleitável sombra, instruía-me o senhor padre Ambrósio da latinidade.» Aquilino Ribeiro, A Via Sinuosa (1918) § I. «Era a hora de Matinas. A sineta do claustro tangia, a convocar os capitulares para o coro, quando Luciano passou da sua alcova à biblioteca, entreabrindo uma pequena porta e afastando uma massa rígida dum brocado que descia do lambrequim em pregas hirtas, adornado de eucarísticos lavores de seda e oiro.»  Manuel RibeiroA Catedral (1920) § I. «Foi no Domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo "comilão dos comilões".» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/80)  § I. «José das Dornas era um lavrador abastado, sadio e de uma feliz disposição de génio, que tudo levava a rir, mas desse rir natural, sincero e despreocupado, que lhe fazia bem, e não rir dos Demócritos, de todos os tempos -- rir céptico, forçado, desconsolador, que é mil vezes pior do que o chorar.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867)

sábado, março 23, 2024

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«Durante um ano, Doninha só deu sinais de vida altas horas da noite, todo nu às grades da cadeia, com aqueles gritos uivados para a vila.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

«E por aqui, por ali, ladeando o ilhéu Chão ou a caminho do Porto Santo, pequenas canoas abriam para o céu a sua asa branca.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Fincou a pá num calhote de dividir as águas e ficou-se à espreita, enrolando um cigarro.» Alves Redol, Gaibéus (1939)

quarta-feira, março 06, 2024

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«Adiante de mim caminhava, levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até às abas recurvas do chapéu donde fugiam anéis de um cabelo crespo, ressumava elegância e a familiaridade das coisas finas.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Já o Cirilo tendeiro, que vagueava de terra em terra, erguera dos amassadoiros do linho o seu mostruário de bonitezas.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«Um dia, sem perceberem como, tão dados eram à boa paz e ao improviso, faltava-lhes a mama e saltavam, de rompão, para a violência, como lobos acossados.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

domingo, fevereiro 11, 2024

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«Algumas vezes também o haviam tentado essas estradas líquidas que cortavam a selva imensa, mas sempre um pavor instintivo, amálgama do que se dizia de febres perigosas e de vida bárbara e instável, o detivera em Belém.» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Era o mal ruim da Índia, do Brasil e das outras terras descobertas, todas a porem a teta na boca de quem se habituara a luxar, sem suor que lho merecesse.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

«Fora, no Largo de S. João, andava o povo de alevante, como se o campanário houvesse soltado voz de franceses à vistaAquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

domingo, janeiro 28, 2024

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«E depois queixam-se do destino, deduzia Diogo Relvas, quando eles próprios o talham com a preguiça, o aborrecimento e a poltranice que lhes amerdalha o sangue.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

«Mas também era certo haver enigmas no mundo dos fenómenos, para os quais a melhor forma de decifração são ainda as chaves absurdas... -- e o senhor abade assim matutava quando Feliciana apareceu com a moça a pedir os exorcismos.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«Pintou-lhe o melhor que pôde a vantagem de ser brevemente uma viúva rica e a liberdade que teria então de escolher um marido mais galhardo.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)

quinta-feira, janeiro 25, 2024

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«A densidade calcária decresce tanto que podem ambos flutuar (a criança e o osso de baleia) sobre murgos biliosos, caules de gisandra, líquenes, doenças vagarosas.» Carlos de Oliveira, Finisterra -- Paisagem e Povoamento (1978)

«Acompanhava-o a restolhada dos passos, lenta e pesada, um soluço ou outro, irreprimido pelos familiares do defunto, e a nuvem de poeira que o cortejo deixava na estrada, encontrando-se ainda com a que fora levantada pelas carruagens postas à disposição da gente da cidade, incapaz de dar mais de dois passos pelo seu próprio pé.»  Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

«Vagueei pelas salas que teriam sido elegantes no tempo de Marcos e Raquel, mas que definhavam agora numa atmosfera de abandono e desolação, não porque Carlota estava morta, mas porque Carlota, que era filha da adolescente do retrato, se desinteressara de tudo, se fechara numa reclusão definitiva e magoada, só a grande estufa de begónias despertava os gestos dos seus dedos cobertos de anéis.» Helena Marques, O Último Cais (1992)

segunda-feira, janeiro 15, 2024

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«Ela faz que não ouviu; apesar da penumbra do quarto, Elói adivinha o que lhe vai na cara.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

«Golpe num pé, infecção, Santa Casa, falecera de tétano aos dez dias de internado a uivar pela mulherzinha da sua alma.» Aquilino Ribeiro, Volfrâmio (1943)

«Uma estudantina ruidosa, com grande acompanhamento de pares, tocadores de guitarras e violas a abrir a marcha, levando os instrumentos cheios de fitas de seda, arrastara-o até ao Rossio, como se não pudesse fugir à avalanche de alegria que desembocava de todos os lados da praça.» Alves Redol, Os Reinegros (c. 1944/1972)