«É lei de Deus este aspirar imenso...»
Sonetos Completos (1886) - «A Santos Valente»
conservador-libertário, uns dias liberal, outros reaccionário. um blogue preguiçoso desde 25 de Março de 2005
«É lei de Deus este aspirar imenso...»
Sonetos Completos (1886) - «A Santos Valente»
«Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado,»
Sonetos Completos (1886) - «A M. C.»
«Ah! se Deus a seus filhos dá ventura / Nesta hora santa... e eu só posso ser triste... / Serei filho, mas filho abandonado!»
Sonetos Completos (1886) - «Lamento»
«Pelo mundo procuro um Deus clemente, / Mas a ara só lhe encontro... nua e velha...»
Sonetos Completos (1886) - «Ignoto Deo»
«Inundem-me d'amor teus olhos -- céu e luz --»
Primaveras Românticas (1872)
«Que importa o nome, a fala, / Que importa um eco ou voz, / Se quem dá nome ao nome / -- O amor -- têmo-lo nós?»
Primaveras Românticas (1872)
«Falar do amor... do amor! o sempre-mudo! /Se é segredo entre dois, como dizê-lo, / Sem divulgá-lo, sem que o ouça tudo?»
Primaveras Românticas (1872)
«O Amor que nome tem? real, jamais o teve...»
Primaveras Românticas (1872)
Queriam-nos mais europeus, sem deixarmos de ser portugueses. Os mais expeditos, ambiciosos, aventureiros emigraram; os outros ficaram, agarrados à enxada. Salazar ajudou bastante, até que, faz hoje quarenta anos, Mário Soares assinou a nossa inevitável adesão à CEE, no claustro dos Jerónimos
Imagem magnífica a da cerimónia no vetusto monumento doutras eras, e também túmulo do venturoso Manuel I: o que éramos e o que queríamos ser. Numa geração, passámos da enxada ao 5G.
Como escreveu o Almada Negreiros, "Coragem portugueses", etc.
| Rui Ochôa |
| Rafael Bordalo Pinheiro |
Escritor
completo, cultivou todos os géneros literários: é o efabulador romântico de Romance de um Homem Rico (1861) e Amor de Perdição (1862), o escritor
realista de A Queda dum Anjo (1866) ou
O Retrato de Ricardina (1868), o
romancista “histórico” de A Filha do Regicida (1875), o autor
ironicamente à la page com o
naturalismo em Eusébio Macário (1879)
e A Corja (1880); é o poeta de Nas Trevas (1890); o dramaturgo de O Morgado de Fafe em Lisboa (1861); o
folhetinista de cordel de Maria! Não me
Mates que Sou Tua Mãe (1841); o polemista de O Clero e o Sr. Alexandre Herculano (1850) ou Vaidades Irritadas e Irritantes (1866); o memorialista das Memórias do Cárcere (1862); o crítico de
Esboços e Apreciações Literárias
(1865); o biógrafo de D. António
Entre as convulsões da Guerra Civil e a agonia do Ultimato, o Portugal do século XIX, dos Cabrais à Regeneração, espelha-se na obra de Camilo. Mas, erudito, vem de trás, das crónicas vigiadas de Fernão Lopes aos cartapácios fantasiosos de Frei Bernardo de Brito; prosador exímio e mestre da língua, é herdeiro do Padre António Vieira e está também na génese de Aquilino Ribeiro; instável, sarcástico, violento e ao mesmo tempo lírico, encerra uma verdade envolta em fingimento que não deixa indiferente o leitor do século XXI.
É um dos génios tutelares da cultura portuguesa. O seu nome próprio, Camilo, tem dimensão idêntica aos de Camões, Vieira, Bocage, Garrett, Antero, Eça, Cesário ou Pessoa. Amor de Perdição emparceira em peso e relevância canónicos com Os Lusíadas, Menina e Moça, Viagens na Minha Terra, Os Maias, O Livro de Cesário Verde, Só, Clepsidra, Mensagem, Andam Faunos pelos Bosques, A Selva, Mau Tempo no Canal, Sinais de Fogo, Para Sempre – clássicos absolutos. Escritores como Teixeira de Pascoais, Aquilino, Vitorino Nemésio, José Régio, João de Araújo Correia, entre muitos outros de primeira água, sentiram-se interpelados pelo génio do «colosso de Seide», dedicando-lhe estudos de amplitudes várias; também artistas plásticos como Roque Gameiro, Stuart Carvalhais, Francisco Valença, Leal da Câmara, Diogo de Macedo, Tom, João Abel Manta ou Mário Botas não lhe ficaram indiferentes.
O tempo, ele próprio – em boa parte graças aos jornais e às bibliotecas itinerantes, primeiro, ao audiovisual e aos curricula escolares, depois – encarregou-se de tornar o acervo literário de Camilo em elemento identitário dos portugueses, o que se verifica quando a cultura popular se deixa impregnar pela criação erudita, e vice-versa. Esse intercâmbio fecundo é a glória dos criadores: por um lado assegura a perenidade do seu nome e de parte da sua obra; por outro, acrescenta densidade à comunidade nacional em que o autor e os seus livros se fizeram.
O
legado artístico camiliano constitui-se como património incomparável. O mesmo
se passa com outras manifestações seculares equivalentes em importância: das
cantigas de D. Dinis e os autos de Gil Vicente à obra romanesca dos nossos maiores
escritores contemporâneos; das gravuras rupestres do Vale do Côa aos projectos
de Siza Vieira, passando pelos painéis de Almada Negreiros; das sonatas de
Carlos de Seixas às sinfonias de Luís de Freitas Branco e à guitarra de Carlos
Paredes; dos retábulos da escola de Nuno Gonçalves às telas de Júlio Pomar, dos
retratos de Columbano aos cartoons do
seu genial irmão, Rafael Bordalo Pinheiro – a cultura portuguesa não é susceptível
de ser apreendida sem estas, e outras, manifestações do espírito. Assim com
Camilo Castelo Branco.
Texto inédito, datado de 31-V-2010
O Panteão Nacional é demasiado acanhado para Eça de Queirós. Sim, é verdade, estão alguns dos muito grandes, por exemplo génios como Aquilino Ribeiro e Amália Rodrigues, a quem os portugueses devem tanto como ao grande romancista, enorme cronista e incomparável estilista. No entanto, para além de faltarem por lá muitos, outros há que não se percebe por que lá repousam, para além das comezinhas circunstâncias políticas, que, a propósito, o mesmo Eça detestava -- para não falar das comezainas dos novos-ricos hi-tech.
Mas nem é uma questão de companhias: quando Camilo passar ao Panteão, o que a partir de agora se torna obrigatório, ou Júlio Dinis -- e assim lá estarão reunidos os três grandes romancistas portugueses do século XIX --, não serei eu quem irá contestar a decisão. Mas os autores de Amor de Perdição e A Morgadinha dos Canaviais são outra loiça, e por sinal bem diferente entre si, felizmente -- e viva a diversidade...
O problema é que trasladar Eça de Queirós para o Panteão, além de ser ridículo, depois de há pouco mais de trinta anos os restos mortais estarem por um triz destinados à vala comum -- não fora o alerta da imprensa --, o seu espírito crítico e com pouca paciência para os arrivismos protagonizados pelo pessoal político, a politicalha monárquica ou a jacobinagem republicana, obrigaria a que se usasse de parcimónia no estadulho deputo-ministerial que se vai empoleirar no frágil esqueleto. Que parte da família em sequer o tenha percebido é quase grotesco, mas também não é de admirar -- refrão: "Como és belo, meu Portugal", canta, irónico e sarcástico, Luís Cília...
Há pessoas, há espíritos, há intelectos, há sensibilidades incompatíveis com tanto conselheirismo. Antero de Quental é outro caso de incompatibilidade com o Panteão (ainda por cima com o Teófilo por perto, o parvónio, como lhe chamava...) Ponham lá o Cesário Verde e o António Nobre, ainda maiores poetas do que o divinalmente furibundo Antero, que jaz em paz em Ponta Delgada.
Ou o José Afonso, outro para quem o edifício de Santa Engrácia seria como se jazesse no gavetão das luminárias nacionais. Como se poderia fazer do homem que revolucionou a nossa música, miscigenando-a, ele próprio um revolucionário limpo, num berloque da pátria?
Antes a vala comum, para onde deixaram ir o Bocage -- sabendo-se nessa altura quem e o que era Bocage, destino de que Eça se salvou, por um triz. ( refrão: "Como és belo, etc.)
Mas o povo fica feliz -- excepto os bairristas de Baião (ai o turismo...) -- e os acácios impantes, com o assuntozinho despachado, e ala que se faz tarde para a açorda.
21. Camilo Castelo Branco (1825-1890). Ao cabo de quase novecentos anos, a língua é o maior património dos portugueses; ainda mais do que a sua História, real e mitificada, pois o país pode acabar (nada é eterno), mas a literatura, forjada a partir dessa mesma língua, ficará, mesmo depois de a língua morrer também. Por isso são tão (ou mais, quanto a mim) importantes os grandes escritores (em sentido lato) do que os guerreiros e navegadores que construíram Portugal e a ideia dele. E assim sendo, Camilo, porventura o maior do século XIX (junte-se-lhe Garrett, Herculano, João de Deus, Júlio Dinis, Antero, Oliveira Martins, Eça, Cesário, Fialho e Nobre), é uma presença evidente, por muito exígua que esta lista ainda mais fosse.
22. D. Dinis (1261-1325). Poeta, guerreiro, governante, sexto rei de Portugal, e um dos mais amados.
23. D. Fernando (1345-1383). Nono rei de Portugal, um grande monarca com uma política externa desastrosa. A sua consorte, Leonor Teles (de Meneses), é a mulher mais odiada da nossa história.
24. Garcia de Orta (c. 1501 - 1568). Produto dos Descobrimentos e da expansão imperial, cristão-novo, médico, botânico e farmacêutico. Um dos homens do seu tempo, à escala global.
25. Infante D. Henrique (1394-1460). O mítico Navegador, mas homem bastante prático
Os que escrevem com as vísceras, como qualquer verdadeiro escritor.
Os que trabalham o idioma.
Os mortos, pois as baixezas que tenham cometido são já do outro mundo. (Uma excepção nesta lista.)
Os bravos, os que tomaram posição, fosse ela qual fosse.
Os que me dão prazer, emocionam e divertem.
São alguns, só em língua portuguesa, um título para cada autor -- e só portugueses porque calhou.
Num próximo post, direi mais qualquer coisa; daqui a uns dias, mais 51 (chama-se a isto estar de férias).
1. Almeida Garrett (1799-1854), Frei Luís de Sousa (1844) - 45 anos
2. Alexandre Herculano (1810-1877), Eurico o Presbítero (1844) - 34 anos
3. Camilo Castelo Branco (1825-1890), Amor de Perdição (1862) - 37 anos
4. Ramalho Ortigão (1836-1915), Rei D. Carlos, o Martirizado (1908) - 72 anos
5. Júlio Dinis (1839-1871), A Morgadinha dos Canaviais (1868) - 29 anos
6. Antero de Quental (1842-1891), Bom Senso e Bom Gosto (1866) - 22 anos
7 . Eça de Queirós (1845-1900), A Cidade e as Serras (1901)
8. Cesário Verde (1855-1886), O Livro de Cesário Verde (1887)
9. M. Teixeira-Gomes (1860-1941), Agosto Azul (1904) - 44 anos
10. António Nobre (1867-1900), Só (1892) - 25 anos
11. Raul Brandão (1867-1930), Húmus (1917) - 50 anos
12. Manuel Laranjeira (1877-1912),
13. Manuel Ribeiro (1878-1941), A Catedral (1920) - 42 anos
14. Jaime Cortesão (1884-1960), Memórias da Grande Guerra (1919) - 35 anos
15. Aquilino Ribeiro (1885-1963), Andam Faunos pelos Bosques (1926) - 37 anos
16. Fernando Pessoa (1888-1935), Livro do Desassossego (1982)
17. Fidelino de Figueiredo (1888-1967), Um Coleccionador de Angústias (1951) - 63 anos
18. Assis Esperança (1892-1975) - Servidão (1946) - 54 anos
19. José de Almada Negreiros (1893-1970), A Cena do Ódio (1915) - 22 anos
20. Ferreira de Castro (1898-1974), Emigrantes (1928) - 30 anos.
21. Francisco Costa (1900-1988), Última Colheita (1987) - 87 anos
22. José Rodrigues Miguéis (1901-1980), Gente da Terceira Classe (1962) - 61 anos
23. Vitorino Nemésio (1901-1988), Mau Tempo no Canal (1944) - 43 anos
24. José Régio (1901-1969), Páginas de Doutrina e Crítica da «presença» (1977)
25. João Pedro de Andrade
(1902-1974), A Hora Secreta (1942) - 40 anos
26. Saul Dias (1902-1983), Obra Poética (1980) - 78 anos
27. Tomás de Figueiredo (1902-1970), A Toca do Lobo (1947) - 45 anos
28. Armindo Rodrigues (1904-1983), Voz Arremessada ao Caminho (1943) - 39 anos
29. Branquinho da Fonseca (1905-1974), O Barão (1942) - 37 anos
30. António Gedeão / Rómulo de Carvalho
(1906-1997), Poemas Póstumos (1983) - 77 anos
31. Fernando Lopes-Graça (1906-1994), A Caça aos Coelhos (1940) - 34 anos
32. Alberto de Serpa (1906-1992), Drama -- Poemas da Paz e da Guerra (1940) - 34 anos
33. Carlos Queirós (1907-1949), Desaparecido (1935) - 28 anos
34. Miguel Torga (1907-1995), Bichos (1940) - 33 anos
35. Joaquim Paço d’Arcos (1908-1979), Ana Paula (1938) - 30 anos
36. Manuel da Fonseca (1911-1993), Cerromaior (1943) - 32 anos
37. Alves Redol (1911-1969), Barranco de Cegos (1961) - 50 anos
38. Políbio Gomes dos Santos (1911-1939), A Voz que Escuta (1944)
39. José Marmelo e Silva (1911-1991), Sedução (1937) - 26 anos
40. Vergílio Ferreira (1916-1996), Para Sempre (1983) - 67 anos
41. Manuel Ferreira (1917-1992), Hora di Bai (1962) - 45 anos
42. Fernando Namora (1919-1989), Retalhos da Vida de um Médico (1949) - 30 anos
43. Jorge de Sena (1919-1978), O Indesejado (António, Rei) (1951) - 32 anos
44. Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Contos Exemplares (1962) - 43 anos
45. Ruben A. (1920-1975), O Mundo à Minha Procura (1964-66-68) - 44 anos
46. José Saramago (1922-2010), O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) - 62 anos
47. Dinis Machado (1930-2008), O que Diz Molero (1977) - 47 anos
48.
Rui
Knopfli (1932-1997), Mangas Verdes com Sal (1969) - 37 anos
49.
Ruy Belo (1933-1978), Homem de Palavra[s] (1969) - 36 anos
50. Maria Isabel Barreno (1939-2016), Maria Teresa Horta (1937), Maria Velho da Costa (1938-2020), Novas Cartas Portuguesas (1972) - 33, 35 e 34 anos
em tempo: (17/VIII):
prevalência evidente do romance e da poesia;
curiosidade: o autor mais velho à época de edição, Francisco Costa, 87 anos, esteve para ser o mais novo, com vinte, uma vez que hesitei entre o livro de estreia, o magnífico Pó (1920), e o último.
2. Continuar: «Na história da estética portuguesa do século XIX, onde situar com mais evidência as primeiras correspondências a uma "arte útil"?» Cap. I: «Até finais de 1935: motivações e primórdios de um trajectória de inspiração marxista» (pp. 11-22).
| Roberto Nobre, A Cega Sanha do Povo (1935) - Museu de Faro |
| António Lopes, Companheiros |
| Diego Rivera, História de Cuernavaca e Morelos. Plantação de Açúcar |
Segue-se a norma adoptada em Angola e Moçambique, que é a da ortografia decente.