Ler o Eduardo Lourenço, ouvi-lo, era acompanhar aquela máquina pensante bem oleada, um raciocínio borbulhante, como escrevi aqui, que procurava analisar por todos os lados o objecto da sua atenção.. É ainda a escola racionalista do velho António Sérgio, que se bifurca em dois sentidos que iriam postriormente refutá-lo, como os discípulos fazem com os mestres: o marxista, António José Saraiva o mais brilhante desse lado; e um outro, também à esquerda, mais idealista, Eduardo Lourenço, também devedor do espírito crítico e antidogmático de José Régio, só para falar dos portugueses.
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terça-feira, dezembro 01, 2020
quinta-feira, novembro 02, 2017
uma carta de António Sérgio
Carta que espelha o ambiente das elites intelectuais no final da República: António Sérgio, elemento da Seara Nova, grupo que se situava na ala mais à esquerda de regime; António Sardinha, o membro mais destacado do Integralismo Lusitano, defensor da monarquia tradicional, cujo órgão era a Nação Portuguesa. No entanto, para além dos pólos opostos em que ambos os grupos se situavam no espectro político, por mais de uma vez convergiram na acção cultural, de que a revista Lusitânia foi um dos exemplos. Sérgio, escreverá o seu artigo polémico na Seara, mas já não obterá resposta de Sardinha, que entretanto falece. É muito interessante verificar que o jovem Castelo Branco Chaves (24 anos) é o mediador deste desentendimento, -- suscitado pelo livro de Manuel Múrias, O Seiscentismo em Portugal (1923) --, uma vez que fora monárquico integralista, sendo o seu primeiro ensaio, um livro sobre Fialho de Almeida, prefaciado por Sardinha. E como explica Luísa Ducla Soares, a editora desta correspondência, Sérgio, instigado pelo brilho do jovem intelectual, tomou a iniciativa de o conhecer, forjando-se uma amizade entre ambos que levaria Chaves para as fileiras da Seara Nova. (aqui)
sexta-feira, fevereiro 26, 2016
microleituras
Trata-se de uma edição artesanal, com imagens produzidas pela oficina de ilustração da Casa da Achada, que publicou a obra.
Incipit: «Eram novos e viviam juntos havia pouco tempo.»
ficha:
Autora: Filomena Marona Beja
título: Os Dez Anõezinhos da Tia Verde-Água
ilustrações: Marta Caldas, Felisbela Fonseca e elementos da oficina de ilustraçao da CA
edição: Casa da Achada - Centro Mário Dionísio
local: Lisboa
ano: 2014
capa: Eduarda Dionísio + oficina de paginação
impressão: Casa da Achada-Centro Mário Dionísio
págs.: 36
também aqui
quarta-feira, fevereiro 24, 2016
uma carta do Padre António Vieira
Carta publicada por Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal (2.ª ed., 1951), recolhida na edição Sá da Costa da Cartas (1951), por António Sérgio e Hernâni Cidade.
Dirigida a Duarte Ribeiro de Macedo, então enviado em França, excelente sobre o ambiente persecutório e o o poder da Inquisição, cuja chaga purulenta ainda hoje se escarva e se escarra na tristíssima sociedade portuguesa.
O retrato do fascinante Frei António das Chagas é esplêndido, bem como a arguta noção de Vieira dos perigos do prègador iluminado e alucinado -- qual pastor tele-evangelista --, o receio pelo que, às mãos da turba poderiam sofrer os cristãos-novos; evocando o massacre dos judeus ocorrido em Lisboa no reinado de D. Manuel I, cujo memorial há uma década foi erigido nesse Largo de São Domingos de nefanda memória, e que hoje, ironia da História, é local de cruzamento étnico das mais desvairadas religiões e dos que não têm religião nenhuma.
ler aqui
quinta-feira, agosto 10, 2006
Caracteres móveis - Oliveira Martins
Não, não vale a pena viver, desde que a vida é para nós apenas uma ocasião de gozo, pois quanto mais se cultiva o espírito mais se demonstra a inanidade do prazer.
«Chambigismo», Dispersos, t. II
(edição de António Sérgio)
Etiquetas:
António Sérgio,
Oliveira Martins
domingo, abril 02, 2006
Correspondências #39 - Jaime Cortesão a Câmara Reys
Querido Amigo:
F.º de Peniche
28.VIII.40
F.º de Peniche
28.VIII.40
Homem! há muito que me não acontecia ler um livrinho, de cabo a rabo, sem outras interrupções que não fossem as da minha nova disciplina de presidiário. E esse foi o volume que V. teve a gentileza de enviar-me sobre o Eça.
Comecei-o a ler à tarde, ou melhor à tardinha, e às 10 horas da noite ainda o lia com sofreguidão, quando a mão da Autoridade, girando o comutador, ceifou o enlevo com que saboreava a sua leitura. Hoje, mal luziu a alva, e a corneta me sacudiu da tarimba, foi para lavar o focinho estremunhado, e continuar o regalo da véspera.
V. foi digno do assunto. E dito isto, estaria dispensado de dizer mais nada, se não quisesse salientar virtudes e... apontar um erro. Primeira virtude: o desassombro. Segunda: o alto e distante lugar que dá ao Antero.
Eu desconhecia o episódio da correspondência com o Ramalho sobre o pedido de intervenção junto do Andrade Corvo. Arre! Foi um acesso pernicioso duma doença que nele era endémica: a frouxidão do carácter. Mas, nem assim! Não há maneira de deixarmos de adorar o canalha!
E verdadeiramente V. leu a alma do Eça com virtuosidade rembrandesca. Pesou até ao miligrama o claro-escuro. Virtude, aliás, queirozeana.
Excelentes as páginas em que evoca a Coimbra do nosso tempo. Se o Aquilino a tivesse frequentado e tentasse descrever, meteria «aldemenos» mais arcaísmos, mas não o faria melhor, com mais vivida reflexão dos sentidos. Uma única coisa lhe levo a mal: que não houvesse uma boa e larga referência a certas das «Cartas de Inglaterra», que, algum dia, na balança do Juízo Final, hão-de pesar, em seu favor, para resgate do seu scepticismo elegante, ladeira por onde resvalou às graves defecções.
Finalmente, a leitura do seu livrinho teve sobre mim efeitos tónicos. Andava caído do físico e da alma. Uma crise hepática e outra palustre conspiraram, conjugando-se, para me abater.
Sinto-me hoje melhor. E em grande parte o atribuo à leitura do livrinho: a essa janela aberta sobre as grandiosas e belas paisagens, onde nos viamos. Principalmente, o ar vivo que sopra das eminências do Antero fez-me bem. É bom sentir a camaradagem dos Santos.
E agora um pedido. Mais um, além do pedido dos trapos e com o mesmo fim. Entre as excelentes obras da Seara, contam-se os seus Cadernos de Estudo e Textos. Ora eu desejava socorrer a indigência dos companheiros, que me deram, não só em indumentária, mas na cultura. Estou-lhes a fazer um curso de História Pátria. Quero, além disso, fornecer leituras elementares, de selecção, a alguns deles, dotados de vivacidade e avidez intelectual.
Naturalmente, também desejo alguns para mim. Começarei por estes e pela oredem da sua urgência:
Crónica de D.
(Parece-me melhor mandar a lista à parte)
-- Crónica de D. João I (Lapa)
-- Líricas de Camões (Lapa)
-- Sobre História e Historiografia (Sergio)
-- O Cosmopolitismo de D. de Gois (Bataillon)
-- História de uma Catedral (Barreira)
-- Duas formas de expressão opostas na hist. da Arte (Jirmounsky)
Estes lhe rogo me envie pelo correio ou, se minha Mulher vier breve, por ela.
Quanto aos outros, enviarei amanhã a lista (bem mais numerosa) e rogo-lhe os faça entregar a minha Mulher.
Os primeiros meta na minha conta... Os segundos meto-os eu na sua, já que são para obras pias, daquelas que contribuem para a salvação das almas.
Cá estou esperando as provas da «Economia da Restauração». Conto enviar ainda um pequeno mapa à pena, para ilustração do primeiro texto.
Os meus repeitos a Sua Esposa e Sogra, minhas Senhoras.
Um grande abraço do amigo mt.º grato
Jaime Cortesão
13 Cartas do Cativeiro e do Exílio
(edição de Alberto Pedroso)
domingo, março 05, 2006
Correspondências #35 - António Sérgio a Joaquim de Carvalho
108, Boulevard Berthier, Paris, 17e
13 de Dezembro [1929]
Meu presado Amigo
Remeto-lhe por êste correio a tradução das Ultimas Conversações do Renouvier. Ficar-lhe-ia muito grato se me encarregasse de mais trabalhos dêste género. A minha situação financeira é neste momento dificílima.
Parece-me tipograficamente mais belo colocar as anotações juntas, no fim do volume, e assim fiz; se não concorda, o remédio é fácil: basta dizer ao tipógrafo que as introduza no texto.
Procurei tornar a tradução mais clara do que o original.
Na Lauda 52, resolvi-me a criar uma palavra: percepcionar, -- para tradução de percevoir, ter percepção, porque perceber tem na nossa língua uma acepção vulgar que é bem diferente*. Parecia-me conveniente reunirmo-nos um dia algum amigos da filosofia, para fixarmos certos pontos de vocabulário filosófico em nossa língua. Há vinte anos quando escrevi a Natureza da afecção, tive de forjar essa mesma afecção. Agora, que decidiu publicar uma biblioteca filosófica, era boa ocasião de fixarmos o vocabulário, para não ficar muito diferente de volume para volume.
Parecia-me conveniente dar à colecção um título, que se imprimiria como sôbre-título em todos os volumes, os quais suponho conviria tivessem um aspecto tipográfico uniforme.
Nas provas poderei ainda fazer quaisquer aperfeiçoamentos.
Parecia-me também interessante levar cada volume um pequeno introito explicativo seu, como director da colecção.
Seus cunhados bem. Um grande abraço do Amigo muito dedicado, grato e admirador
A. S.
*Ver a anotação respectiva, na Lauda 108
António Sérgio no Exílio -- Cartas a Joaquim de Carvalho
(edição de Fernando Catroga e Aurélio Veloso)
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