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segunda-feira, março 30, 2015

A posteridade de H. H.

Não me refiro à posteridade literária, como é óbvio, à perenidade da obra, ao lugar que ela ocupa na poesia. Se tivesse de fazer o difícil exercício de congeminar uma lista com meia dúzia de nomes dos, para mim, maiores poetas da segunda metade do século XX, Herberto Helder faria parte dela, com Alberto de Lacerda, Alexandre O'Neill, António Ramos Rosa, Rui Knopfli e Ruy Belo -- e teria de deixar de fora muitos que me assombram..
A posteridade a que me refiro é outra, a patrimonial e identitária. Percebo perfeitamente o apelo do seu filho, Daniel Oliveira, para que não desatem os poderes públicos ou particulares a homenagear o poeta, com nomes de rua, estátuas e bustos, etc. Guardado porém o decoro temporal necessário para não violentar quer a memória de Helberto Helder, quer a legítima vontade dos seus descendentes, não creio que ele tenha possibilidade de ser acatado.
Os grande autores não se pertencem, é uma banalidade escrevê-lo. E se cada cada vez menos se pertencem em vida (é ver a poesia de HH espalhada por blogues e pelas "redes sociais"), muito menos depois de ela findar. E ainda bem que assim é. Não há como não preservar e assinalar, por exemplo, a casa onde o poeta nasceu e aquela em que morreu (a Rua do Mercado, nº 7, em Cascais). E quem diz estes vestígios palpáveis da memória dele (e, de há muito, nossa), diz outras manifestações inevitáveis que a comunidade imperiosamente não pode deixar de promover.
Como pedir à Madeira que deixe o seu maior poeta entregue apenas aos seus livros? É, entre outras, uma questão de sobrevivência da própria comunidade.

sábado, abril 22, 2006

Antologia Improvável #124 - António Ramos Rosa

Pátria não apenas símbolo mas substância
sempre verde em forte identidade
acorde ideal em nervos massacrados
música em surdina quando a fúria vulgar dos homens [levanta a voz obscena
Às vezes um vagabundo toca uma melodia numa guitarra [ou num búzio
ou um amolador num dia de outono à chuva
extrai três notas da sua pequena gaita
É então que a pátria canta anónima e esparsa
quando a vida é o ramerrão dos dias em que nada [acontece

Só nalguns se gera a consciência desta pátria
mas esses são virtualmente todos a virtualidade viva
e são eles que lançam as linhas ideais
que irão libertá-la da compressão tirânica
e dar-lhe o amplo espaço em que respire inteira

Pátria Soberana seguido de Nova Ficção

António Ramos Rosa

sexta-feira, outubro 28, 2005

Depois de ler O Aprendiz Secreto, de António Ramos Rosa

O construtor sabe que veio do nada e vai para o nada. Provém do magma imemorial das origens e sente que não existe outro futuro para além da poeira cósmica resultante da decrepitude inevitável do planeta. Não lhe basta o instinto vital da procriação. Frui cada corpo como matéria primeva e análoga a si. E luta, incessantemente luta o construtor por uma estética do bem que acolha a beleza e a fealdade imanentes, o sémen e os excrementos que fertilizarão a massa informe resultante da nova agregação do pó. Até à eclosão dum outro universo. Depositário das partículas de nada do construtor.
29-V-2003