Apanhei o Lobo Antunes no início dos anos 80. Surge num período de renovação da ficção portuguesa, nos temas e modo de narrar, atingindo um público mais vasto (Dinis Machado, João de Melo, Carlos Vale Ferraz), embora exemplos houvesse já de fuga ao rame-rame discursivo com Nuno Bragança e, antes de todos, Ruben A. Antes de todos, o que não era para todos. Sim, obviamente Memória de Elefante e Os Cus de Judas (ambos de 1979). Com Auto dos Danados (1985), tornou-se para mim evidente que estávamos diante de um grande. Depois distanciei-me, nem sei bem porquê -- necessidade de ler outras coisas e outros autores, provavelmente. Fui mantendo contacto com as crónicas, sempre de nível alto, embora outros cronistas tivessem a minha preferência, por exemplo Augusto Abelaira ou Vasco Pulido Valente. Por vezes era surpreendido pelas letras de canções para o esplêndido Vitorino. Aquelas diatribes com o Saramago irritaram-me, tornaram-.no mesquinho ao meus olhos. Se há coisa que não perdoo, sobretudo num escritor, é a mesquinhez. Lembro-me que o Ferreira de Castro, quando escreveu pela primeira vez sobre o Raul Brandão, afirmou que não o conhecia nem queria conhecê-lo, precisamente por isto. (É claro que viriam a relacionar-se.) Há poucos anos li o Sôbolos Rios que Vão (2010), que alguns apontam como o seu grande livro dos últimos anos. Não me parece, mas não serei taxativo sem uma releitura. Não trocaria uma página do Autos dos Danados por todo o Tôdolos; como não troco o Finisterra pelo Uma Abelha na Chuva, do Carlos de Oliveira. Continuarei com livros do Lobo Antunes ao longo da vida, os mesmos livros e certamente outros. É o melhor que os escritores nos deixam; é só, na verdade, o que realmente interessa.
quinta-feira, março 05, 2026
sexta-feira, dezembro 26, 2025
o que está a acontecer
«Stalines a carvão antipatizavam connosco nas esquinas. E o rio desmaiava em Caxias, sufocado pelas asas dos pássaros, com penedos de petroleiros imóveis sob a ponte. / Na segunda quarta-feira de Setembro de mil novecentos e setenta e cinco, o despertador pescou-me às oito horas do meu sono, do mesmo modo que as gruas do cais trazem à superfície os automóveis peludos de limos que não sabem nadar.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)
«O povo, porém, depois de fazer reverência a Jesus, voltava-se contra a face esquálida do justiçado e clamava, fremente de rancor: "Estás nas profundas do Inferno, patife!" / E os gaiatos aporfiavam em acertar-lhe com pelouros de lama, lucrando aplausos e gargalhadas do auditório os mais certeiros.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)
«Era uma ideia vaga; mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-me as tonteiras de um jornal, que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita. / Pois, por isso mesmo, vou: -- pronunciei-me.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)
quarta-feira, dezembro 24, 2025
o que está a acontecer
«Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)
«Defronte daquele altar, na outra esquina da Fancaria, arvoravam o espeque rematado pela cabeça de Domingos Leite, que parecia olhar para Jesus Cristo com as pálpebras roxas e entreabertas; e a primorosa escultura do Redentor, olhando para o povo, parecia chorar.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)
«Apesar dos jipes da polícia patrulhando as ruas, ciganos carregados de tachos e cadeiras assaltavam os apartamentos vagos do centro. Nasciam infantários nos prédios em ruína, com crianças sentadas no soalho a engordarem de sanduíches de caliça.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)
sábado, dezembro 20, 2025
o que está a acontecer
«Se Castela percebeu estes escabrosos dizeres do colaborador da Monarquia Lusitana tanto como nós, decerto não reconheceu o que o frade lhe inculcava, e sobejamente demonstrou no seu proceder subsequente pouquíssima reverência aos avisos do céu.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)
«Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens, nem as suas impressões pois tinha muito que ver!» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)
«Desde Abril do ano anterior que a tropa e os comunistas se aproximavam das fachadas dos prédios, erguiam o membro como animais para urinar, e abandonavam nas paredes um mijo de vivas e morras que se contradiziam e anulavam, logo coberto por cartazes de comícios e greves, fotografias de generais, propaganda de conjuntos rock, cruzes suásticas, ordens de boicote ao governo e convites de retrete, dedos de letras entrelaçadas num namoro que o Outono do tempo desbotava.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)
sexta-feira, dezembro 12, 2025
o que está a acontecer
«Só a avó, já doente do cancro, navegava ao acaso na poltrona de inválida, de radiozinho de pilhas encostado às farripas da orelha, contemplando a sorrir, sem entender, os democratas que de quando em quando rebolavam aos encontrões no corredor e vasculhavam o resto das pratas com o cano dos revólveres, repetindo os discursos estranhos dos altifalantes dos cegos.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)
«Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo -- entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse ao menos ia até o quintal.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)
«Dá o cronista-mor do Reino razão plausível do altar provisório nestes tortuosos termos: Foi para que, com a duplicada presença de Cristo sacramentado e crucificado, reconheça Castela que para uma de suas traições se nos duplica Cristo para defensa.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)
quinta-feira, julho 17, 2025
o que está a acontecer
«-- Sim, lutadora. Julgas que é fácil ser-se mulher dum oficial da marinha que não tem navios para se fazer ao mar? Julgas que é fácil ser-se mulher de um oficial da marinha que sonha com Índias e Vascos da Gama e que passa as noites a fazer as palavras cruzadas do jornal? Não é nada fácill, amigo Gonçalo, mesmo nada fácil...» Luís de Sttau Monteiro, Angústia para o Jantar (1961)
«Quanto a nós, visitávamos aos domingos os tios que sobravam do naufrágio da família, presos no Forte de Caxias por sabotagem económica, a verem as marés do Tejo a subirem e descerem na muralha entre grades de celas e sovacos de pára-quedistas.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)
«Pensou que levaria em breve o dedo ao gatilho da arma pronta a disparar; que o dedo e o queixo lhe tremiam sem controlo -- e o medo da noite e da morte, o infernal e nocturno medo de morrer, convertera já todo o seu corpo no corpo de um prisioneiro de guerra.» João de Melo, Autópsia de um Mar de Ruínas (1984)
domingo, julho 13, 2025
o que está a acontecer
«Semelhantes aos cães das praias, que trotam rente ao mar a perseguir um cheiro imaginário, juntavam-se nos montes do Alentejo para ladrar o socialismo aos camponeses sob um projector poeirento; percorriam o país em camionetas escavacadas a ameaçar os lojistas com as pupilas vesgas das metralhadoras; arrombavam as casas à coronhada brandindo mandados de captura diante de narizes estupefactos.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)
«O criado aproximou-se e pôs uma garrafa de vinho sobre a mesa, ao lado de três já vazias. O filho do oficial da marinha encheu os dois copos, bebeu o dele e encostou-se outra vez à mesa, apoiando a cabeça numa das mãos. Esperou que lhe passasse, no estômago, o ardor causado pelo vinho e continuou: / -- Minha mãe, coitada, que não era oficial da marinha, era a lutadora da família! / O amigo sorriu. / -- Lutadora?» Luís de Sttau Monteiro, Angústia para o Jantar (1961)
«Lembra decerto um gafanhoto com as patas tensas e à escuta, pois fizera-se verde no seu espanto antes de rastejar à pressa no meio do capim. O soldado soube então que o pânico começaria a castigar as suas tripas. Terei de gritar de novo?, pensou.» João de Melo, Autópsia de um Mar de Ruínas (1984)
terça-feira, julho 08, 2025
o que está a acontecer
«O criado aproximou-se e pôs uma garrafa de vinho sobre a mesa, ao lado de três já vazias. O filho do oficial da marinha encheu os dois copos, bebeu o dele e encostou-se outra vez à mesa, apoiando a cabeça numa das mãos. Esperou que lhe passasse o ardor causado pelo vinho e continuou: / -- Minha mãe, coitada, que não era oficial da marinha, era a lutadora da família!» Luís de Sttau Monteiro, Angústia para o Jantar (1961)
«Logo a seguir, o vulto de um anjo da guerra pareceu flutuar ali mesmo à sua frente, tinha asas de néon e levitava como um pirilampo em redor das lâmpadas. Através da mira da arma, é uma silhueta sem forma nem espessura que se enrola sobre si, tropeça, segura-se à escuridão para não cair e depois salta para diante.» João de Melo, Autópsia de um Mar de Ruínas (1984)
«Logo a seguir à revolução, em Abril do ano anterior, civis barbudos e soldados de cabelo comprido e camuflado em tiras vigiavam as estradas, revistavam automóveis, ou desfilavam lá em baixo, em bando, nas pracetas, comandados por um desses microfones incompreensíveis de sorteio de cegos que o marxismo-leninismo-maoismo reciclara.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)
domingo, julho 06, 2025
o que está a acontecer
«Na segunda quarta-feira de Setembro de mil novecentos e setenta e cinco, comecei a trabalhar às nove e dez. Lembro-me não por ter uma memória por aí além ou escrever o que me acontece num diário (nunca me interessaram diários ou poemas ou patetices dessas) mas porque foi o meu último dia de consultório antes de fugirmos para Espanha.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)
«1. "Quem vem lá?, Bradou ele na direcção dos passos que chapinhavam do outro lado da morte. Do lado de lá da morte havia apenas uma sebe de bambus já mortos no escuro, e uma espécie de tumor na sombra fazia supor que uma enorme cabeça degolada andava à solta na noite.» João de Melo, Autópsia de um Mar de Ruínas (1984)
«GONÇALO E ANTÓNIO - Meu pai dizia-me que da janela da repartição onde trabalhava se via o mar... / -- Que fazia teu pai? / -- Que fazia meu pai? Não fazia nada, era oficial da marinha. Entrava na repartição às 10 e saía às 6... Lá o que ele fazia na repartição não sei... Preenchia papelada ou sonhava com navios... sei lá... talvez olhasse para o mar através da janela... Quando chegava a casa lia o jornal, fazia as palavras cruzadas e ia para a cama. Era oficial da marinha, digo-te eu...» Luís de Sttau Monteiro, Angústia para o Jantar (1961)
quinta-feira, novembro 30, 2023
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«E lá fora, indiferente à música fosca que os altifalantes embaciavam, aos lamentos viúvos do boi-cavalo, à jovialidade de pandeiretas cansadas dos excursionistas e ao pasmo da minha admiração comovida, o professor preto continuava a deslizar imóvel no rinque de patinagem debaixo das árvores com a majestade maravilhosa e insólita de um andor às arrecuas.» António Lobo Antunes, Os Cus de Judas (1979) / «Fraco de sangue, embora até ali sobranceiro por causa dos seus interesses nos caminhos-de-ferro, e na finança, o genro viera morrer-lhe a casa, numa fuga espantada, quando os depositantes fizeram a primeira corrida à caixa do banco de que era director e accionista.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961) / «O tempo estava morno, impregnado dessa quietude de natureza exaurida que se encontra num baque ondulante de folha, ou na água que corre inutilmente pela terra eriçada de canas donde a bandeira do milho foi cortada.» Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954)
terça-feira, novembro 28, 2023
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«Senhoras idosas vestidas de azul, com tabuleiros de bolos na barriga, ofereciam travesseiros mais poeirentos do que as suas bochechas folhadas, perseguidas pelo fastio pegajoso das moscas.» António Lobo Antunes, Os Cus de Judas (1979) / «Um homem pode andar por cá a vida toda e nunca se achar, se nasceu perdido.» José Saramago, Levantado do Chão (1980) / «Uma voz canta ao longe, na dispersão do entardecer.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
domingo, julho 11, 2021
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«Enquanto lavava os dentes, o espelho da casa de banho mostrou-me cruelmente os estragos, de capela abandonada, dos anos.»*
«Numa mercearia ao lado, a gente da geral comia pão com queijo e decilitrava.»**
«Os meus amigos já lá não estavam, as pessoas que eu amara tinham morrido, a idade não me permitia voltar aos lugares queridos -- a escola primária, o parque, o campo de futebol, a varanda da minha casa fustigada pelo sol das três da tarde -- sem sentir que o meu corpo era demasiado grande para o tamanho desses espaços na memória, que eu era demasiado novo para o conforto da nostalgia, demasiado velho para reviver sem culpa certas alegrias da infância.»***
* António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)
** Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)
*** Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)