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sexta-feira, maio 16, 2025

Palestina, um crime nas nossas barbas

Se há nação e estado que nunca deveria ser agente, por acção ou omissão, do que se está a passar na faixa de Gaza (nem nos colonatos da Cisjordânia ocupada, já agora), esse seria o povo judeu e o estado israelita, com o perpetrar de um genocídio nas nossas barbas. Nunca como agora o velho cartoon do António foi tão actual, tão verdadeiro, e infelizmente também, cada vez menos exagerado, na sua função satírica.

(Infelizmente palavras como genocídio estão cada vez mais banalizadas, num tempo em que elas, as palavras, valem cada vez menos. Se chamamos genocida a um ladrão pindérico como o Bolsonaro, como designaremos agora Netanyahu: alguidar?, carburador?,  pastel de nata?...)

A partir de agora a bandeira da Palestina vai estar na coluna direita. Perdi por Israel todo o respeito e admiração que em tempos tive. Restam os kibutz, as pequenas comunas que já existiam antes da criação do estado e que continuarão a existir depois dele.

Não se trata com isto, como sabem os que por aqui passam, de desculpar e muito menos "absolver" a barbárie do Hamas -- grupo armado independentista islâmico, e não terrorista na sua essência, mesmo que praticando abjectas acções terroristas, como o são quaisquer ataques a civis; mas o a abjecção do governo israelita traduz-se na multiplicação do terror infligido pelo Hamas. Se fosse a vingança bíblica que queriam, há muito que estavam vingados. Mas é mais que isso: é genocídio praticado por um povo que foi sempre perseguido, de Nabucodonosor a Hitler.

 

quarta-feira, junho 19, 2024

o António é o mais brilhante cartoonista português desde o Rafael Bordalo Pinheiro

 


Marcelo, com fairplay -- e certamente feliz, pois ser (e é-o há décadas) objecto do lápis de António Antunes é um degrau mais (pelo menos) para estar na História em carne e papel, e não ser apenas um nome esquecido.

Também gosto muito das foices e martelos no Saramago, pensando em especial nos que querem esconder o seu evidente neo-realismo, pensando que lhe dá, a ele, Saramago, mais sainete, quando é precisamente o contrário. 

segunda-feira, março 02, 2020

Polanski, grande Polanski

O «Caso Dreyfus» mexeu com a opinião pública francesa e ocidental na última década do século XIX.  Do lado do oficial do exército francês, vítima da maquinação de um canalha, da pestilência anti-semita e do espírito de corpo sem alma ou um patriotismo enviesado, estiveram as pessoas de bem (um conceito que faz rir), ultrajadas com a perfídia; do outro lado do  escândalo, os racistas e a extrema-direita católica ultramontana, refocilavam gozosos e nada interessados pela sorte de um inocente que fora desonrado e condenado: era um judeu, não se perderia grande coisa, mesmo se injustiçado. Com ele e a sua família, que nunca desistiu de o salvar e ilibar, em sua defesa, as pessoas decentes, como foi o caso de Eça de Queirós e, obviamente do grande Zola, que com a carta ao presidente da República desmascara toda a ignominiosa fraude.
O J'Accuse…!, de Zola seria sempre algo que enobreceria o seu autor. O romancista de Germinal era rico e respeitadíssimo -- uma força da natureza. Ao comprar uma guerra com a tropa, o governo, a Igreja e a opinião pública fanatizada, tirou-se de cuidados e obedeceu ao ímpeto ético de homem livre. Esta carga de obus disparada para o centro da conspiração foi decisiva para acabar com uma degradante injustiça, como todos os dissabores que causou ao escritor, a morte inclusive (segundo alguns autores, Zola, encontrado com a mulher morto no quarto, intoxicados durante a noite, foi assassinado em consequência do Caso Dreyfus, já que as saídas de fumo da chaminé estavam tapadas).
Já agora, existe uma edição na Guimarães, com um bom estudo prévio de Jaime Brasil, também seu biógrafo, com várias edições.
O filme teve para mim o mérito de lembrar o coronel Georges Picquart, numa memorável interpretação de Jean Dujardin, um desses homens íntegros para quem o bem e o mal não existe conforme as conveniências. Sem ele, e o seu sacrifício, não teria havido o panfleto de Zola.
Polanski, grande Polanski, um dos meus realizadores, que como Woody Allen e Martin Scorsese, não sabe fazer filmes maus. É um prazer ver-lhe a câmara apaixonada pela mulher, Emmanuelle Seigner.
Produção apoiada financeiramente por judeus, não há nada de reprovável em tal. O que me repugna é que se utilize o drama dos judeus na Europa para que se iniba de condenar a política criminosa do estado de Israel em relação aos palestinos, veja-se o que aconteceu com o cartoon de António…
Uma palavra paras as peruas do #metoo à francesa, ou lá o que é: ver aquelas insignificâncias a ladralhar quando o 'César' foi atribuído ao filme é absolutamente degradante -- aliás o Polanski nem sequer apareceu para não ser linchado, por elas e pela voragem merdiática. Isto tem tudo e não tem nada a ver com o filme; é um sinal dos tempos.



segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Escrever na areia - Comparar o incomparável

Anne Frank teria hoje 73 anos. Ela foi bem real, há amigos e conhecidos que ainda a recordam. O mesmo se passa com a memória de uma parte dos seis milhões de homens, mulheres, crianças, velhos. O seu assassínio a sangue frio -- tal como a execução em matadouro de ciganos, deficientes, homossexuais -- muitas vezes perpetrado com a frieza funcionária que apenas cumpre ordens, ficará como uma das evidências pouco abonatórias da nossa miserável condição humana.
Não quero com isto significar que o Holocausto não possa ser objecto de uma abordagem humorística e satírica. Um notável cartoon de António, há bastantes anos, sugeria que a vítima se tinha tornado em algoz, os judeus israelitas apareciam como carrascos dos palestinianos. É um grande cartoon, concordemos ou não.
Mas...
Nem pensar em comparar o incomparável. É obsceno e revelador da porcaria mental do fanatismo. As pessoas de carne e osso que foram trucidadas pelos nazis têm peso, existiram, somos contemporâneos da sua presença. Abstracções como pastores de camelos, ou filhos de carpinteiros, tocados pelo divino, ficções por mais respeitáveis que sejam as pessoas que nelas crêem, estão por mim relegados para o estatuto do irracional, da milagreirice, das aparições; são para ser discutidas nas igrejas, nas mesquitas, nas sinagogas e não na rua, onde o ar circula. Não me sinto, portanto, obrigado a ser equilibrado e isento no juízo de ambas as manifestações humorísticas. Não seria honesto, não seria decente.