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terça-feira, abril 25, 2017

estante: A TORRE DA BARBELA (1964): entre 'adigestões' e Salazar

repostagem: Entre digestões e Salazar. Ainda a procissão ia no adro, ou melhor: ainda era de dia -- o período mais desinteressante na velha Torre da Barbela --, os poucos visitantes "do costume" iniciavam a ascensão dos seus 32 metros, e já o narrador pusera o caseiro-guia, muito despachado nas suas "lérias de almanaque", em "ascrições latinas", pedras de "prumitiba" ou mortes por "adigestão" para impressionar os excursionistas, que rapidamente se desvanecerão, sem outro interesse na narrativa que não fosse o de pontuar a vetustez e decorrente interesse patrimonial do edifício -- como seria de esperar dum grupo de de excursionistas.
O registo é cómico desde o início: a fila de visitantes a caminho do alto é comparada com uma espécie de lombriga subindo por um enorme tubo digestivo, o próprio monumento:
«A bicha dentro do esófago da Torre contava para si os martírios passados naquela ascensão; uns davam  as has de alívio, outros comparavam com a escadaria do Bom Jesus do Monte, com a Torre dos Clérigos e ainda recordavam a subida ao Santuário de Lamego.» (p.8)

Ao tom farsante, imagens do remanso bucólico do país: o rio Lima, «calão e adormecido», que «nem sabia de onde vinha»; «saudades da Índia à deriva num mar vegetal», Natureza «a queixar-se do reumático», quotidiano vegetativo.

"O dono actual, burgesso" deste "monumento nacional" deixava-o ao abandono: «E talvez fosse melhor assim. Não se industrializava nem se ofendia o sagrado das pedras, testemunhas de feitos extraordinários.» (p.10) O dono da Torre que evoca o Portugal da época -- vasta paisagem para lá de Lisboa -- e o dono dele, Salazar.

segunda-feira, abril 24, 2017

estante: A TORRE DA BARBELA (1964)

1) Talvez até então ninguém se tivesse atrevido a tratar assim a história de Portugal, mesmo sob o resguardo da ficção. Um tour de force romanesco e uma extraordinária e iconoclasta reflexão sobre o país. Tão mais interessante quanto o autor acumulava a arte de ficcionista com o trabalho rigoroso de historiador, sob o nome civil de Ruben Andresen Leitão, especialista do século XIX, estudioso do reinado de D. Pedro V, temas sobre os quais publicou vários trabalhos, sendo de sua lavra os verbetes correspondentes no Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão.

2) É possível que ao longo da relativamente extensa e densa narrativa (304 págs. na minha edição: Lisboa, Círculo de Leitores, 1988), Ruben nos faça perder o pé, mas a desenvoltura estilística é tal-- e sempre competentemente vigiada --, que cada página é uma alegria para quem, como eu, é um gourmet destas coisas.

3) Ruben A, (1920-1975), à medida que o tempo vai passando, afirma-se como um dos grandes da sua geração -- geração que tem, pelo menos, uma vintena de ficcionistas a considerar, e da qual fazem parte Fernando Namora, Jorge de Sena ou Sophia de Melo Breyner Andresen (todos nascidos em 1919), Carlos de Oliveira (1921) ou Agustina Bessa Luís (1922).  Ruben está a envelhecer bem. Melhor do qie outros.

4) Incipit «Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento.»

5) Repostagem (2013): Um país de mortos-vivos. Picaresco e fantástico, A Torre da Barbela, de Ruben A., tem uma originalidade que lhe dá um lugar único no panorama romanesco português, tanto quanto me é dado saber. Calculo que a reacção no ano em que foi publicado (1964) deva ter oscilado entre o estranhamento e a indiferença, que é o que sucede a tudo que esteja fora dos cânones. Nem era romance psicológico à presença, nem neo-realista e muito menos procurava imitar os franceses do nouveau roman. Embora não me pareça a obra-prima que alguns nela vêem, tem o atractivo de ser iconoclasta para com o romance português da época, e é-o com humor. E o autor, recorde-se, além de escritor desalinhado do mainstream, era também historiador circunspecto, nomeadamente do século XIX, sabendo muito bem o que estava a fazer -- literária e até, digamos, politicamente.
Absolutamente marcante, portanto. O que esperar de uma catrefa de personagens de várias épocas que coexistem no mesmo espaço e interagem entre si? 
O guia burgesso e comerciante para turista entreter e, se possível, enrolar, situa-nos no espaço e no tempo; mas logo aparece um Menino Sancho, ser misterioso e disforme, e o lendário Cavaleiro da Barbela: «De cada túmulo, de cada sarcófago ou fosso anónimo eles iam saindo, meio estonteados pelos séculos da História»...
Leio aqui o Portugal profundo de então: um país de mortos-vivos.


6) Informa Liberto Cruz, na minha rica edição, prefaciada por José Palla e Carmo, que A Torre da Barbela foi recusado pela maior parte das editoras. Pudera.

(continua)

segunda-feira, setembro 02, 2013

sinestesia minhota: Ruben A., A TORRE DA BARBELA (1964) #4

E depois há o estilo, preciso, límpido e contido do paisagista Ruben A., como neste parágrafo magistral, em que o narrador se posta ao cimo da torre triangular, pondo-nos diante dos olhos um horizonte minhoto, e cuja sinestesia passámos a compartilhar com os turistas domésticos:

«Respirava-se um ar vivaz que nos poros mais fechados entrava, descarado, à procura de infiltrações para uma dilatação alegre. Defronte, a serra de Arga desdobrava-se em matizes que deixavam ver lugarejos a deitar fumos pelas frinchas de telhados com remendos, e raro em raro, navegava um barquito de viagem a Ponte de Lima e aos Arcos, ajoujado de pipas, sacos de batatas, caixotes de sabão em barra e vassouras empalhadas.» (p. 11)

Um estilo que, neste particular, me lembra muito o de Ferreira de Castro.

edição: Círculo de Leitores, Lisboa, 1988

sexta-feira, agosto 30, 2013

entre digestões e Salazar: Ruben A., A TORRE DA BARBELA (1964) #3

Ainda a procissão ia no adro, ou melhor: ainda era de dia -- o período mais desinteressante na velha Torre da Barbela --, os poucos visitantes "do costume" iniciavam a ascenção dos seus 32 metros, e já o narrador pusera o caseiro-guia, muito despachado nas suas "lérias de almanaque", em "ascrições latinas", pedras de "prumitiba" ou mortes por "adigestão" para impressionar os excursionistas, que rapidamente se desvanecerão, sem outro interesse na narrativa que não fosse o de pontuar a vetustez e decorrente interesse patrimonial do edifício -- como seria de esperar dum grupo de de excursionistas.
O registo é cómico desde o início: a fila de visitantes a caminho do alto é comparada com uma espécie de lombriga subindo por um enorme tubo digestivo, o próprio monumento:
«A bicha dentro do esófago da Torre contava para si os martírios passados naquela ascensão; uns davam  as has de alívio, outros comparavam com a escadaria do Bom Jesus do Monte, com a Torre dos Clérigos e ainda recordavam a subida ao Santuário de Lamego.» (p.8)
Ao tom farsante, imagens do remanso bucólico do país: o rio Lima, «calão e adormecido», que «nem sabia de onde vinha»; «saudades da Índia à deriva num mar vegetal», Natureza «a queixar-se do reumático», quotidiano vegetativo.
"O dono actual, burgesso" deste "monumento nacional" deixava-o ao abandono: «E talvez fosse melhor assim. Não se industrializava nem se ofendia o sagrado das pedras, testemunhas de feitos extraordinários.» (p.10) O dono da Torre que evoca o Portugal da época -- vasta paisagem para lá de Lisboa -- e o dono dele, Salazar.

edição: Lisboa, Círculo de Leitores, 1988

quinta-feira, agosto 29, 2013

uma epígrafe de Sá de Miranda

«Logo os meus olhos ergui / à casa antiga e à Torre / e disse comigo assi: / 'Se Deus não val aqui, / perigoso imigo corre!» -- n'A Torre da Barbela, de Ruben A. (1964)

sábado, maio 04, 2013

um país de mortos-vivos

Picaresco e fantástico, A Torre da Barbela, de Ruben A., tem uma originalidade que lhe dá um lugar único no panorama romanesco português, tanto quanto me é dado saber. Calculo que a reacção no ano em que foi publicado (1964) deva ter oscilado entre o estranhamento e a indiferença, que é o que sucede a tudo que esteja fora dos cânones. Nem era romance psicológico à presença, nem neo-realista e muito menos procurava imitar os franceses do nouveau roman. Embora não me pareça a obra-prima que alguns nela vêem, tem o atractivo de ser iconoclasta para com o romance português da época, e é-o com humor. E o autor, recorde-se, além de escritor desalinhado do mainstream, era também historiador circunspecto, nomeadamente do século XIX, sabendo muito bem o que estava a fazer -- literária e até, digamos, politicamente.
Absolutamente marcante, portanto. O que esperar de uma catrefa de personagens de várias épocas que coexistem no mesmo espaço e interagem entre si? O guia burgesso e comerciante para turista entreter e, se possível, enrolar, situa-nos no espaço e no tempo; mas logo aparece um Menino Sancho, ser misterioso e disforme, e o lendário Cavaleiro da Barbela: «De cada túmulo, de cada sarcófago ou fosso anónimo eles iam saindo, meio estonteados pelos séculos da História»...
Leio aqui o Portugal profundo de então: um país de mortos-vivos.