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segunda-feira, abril 27, 2026

o que está a acontecer

«No Talasnal o Emílio Riço já nos noventa e seis anos de idade morreu com a boca cheia de moscas a apanhar o sol da tarde, e a mulher foi dali levada à força para um asilo da Lousã, mais cega do que uma fraga e com o juízo de todo varrido da cabeça, porque também com mais de noventa anos punha de fora da blusa os sacos vazios das mamas e gritava, Olívia de Ataíde, pura e bela!,» Ascêncio de Freitas, A Noite dos Caranguejos (2003)

«E de repente dobra o ângulo oposto da casa, vem direita a mim. Um breve ruflar de saias compridas no silêncio, desliza imperceptivelmente, traz um molho de couves num braçado, tia Luísa. / -- Já vieste, Paulinho?  / Pára um pouco ao pé de mim. / -- Estás morta! -- grito-lhe eu para o espaço em redor.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«Alguns tentaram abrir as conservas com as chaves apropriadas, mas não conseguiram melhor que esventrá-las depois de terem cortados os dedos nos irregulares e afiados rebordos metálicos. / -- Quem lhes metesse as chaves d'arame pas goelas a baixo! -- resmungou um gigante fardado, grande como um eucalipto, de olhos pequenos e redondos, mal encaixados pela testa curta, as maçãs do rosto avermelhadas e que transmitia a ingenuidade do sorriso de uma criança própria dos simples de espírito.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

quarta-feira, abril 22, 2026

o que está a acontecer

« -- Se quiserem comer comam, se não, comam merda, mas não façam barulho. Julgam que estão na catequese, mas já vão ver como elas mordem!... / Os soldados calaram-se durante uns momentos e prepararam-se para comer, limpando as facas de mato às calças ou enterrando a comprida lâmina na terra seca a fazer de esfregão.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«O carro acelera na tarde quente, a areia da alameda range. Paro, desligo o motor, um silêncio mais desértico. E um pequeno susto insinuado às coisas. São três malas apenas, o resto virá depois. Tomo duas, subo o balcão até meio, vou buscar depois a outra.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«não nos hão-de convencer que volte a censura, isso seria uma desumanidade e agora somos europeus. qualquer iniquidade do nosso peculiar espírito há-de ser corrigida pela europa, para sempre. isto é que é uma conquista. e é como respirar, existir oxigénio e usarmos os pulmões, não se mete requerimento, faz-se e fica feito e não passa pela cabeça de ninguém que seja de outro modo.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

quarta-feira, abril 15, 2026

o que está a acontecer

«sardinhas em molho picante, nougat, doce de maçã, bolacha...Filhos da puta, ainda gozam ca malta! Se calhar esses finórios da administração julgam que isto é alguma excursão com pandeiretas e cervejas geladas... / -- Já vos disse para estarem calados -- rosnou o furriel, que parecia de todos o mais velho.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Está certo. Parte-se carregado de coisas, elas vão-se perdendo no caminho. Se ao menos uma breve ideia. Não tenho. Não é bem a vida que faz falta -- só aquilo que a faz viver. Trago o carro para dentro, vou metê-lo na garagem.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«as ideias, meu amigo, são menores nos nossos dias. não importam. as liberdades também fazem isso, uma não importância do que se pensa, porque parece que já nem é preciso pensar. sabe, é como não termos sequer de pensar na liberdade. é um dado adquirido, como existir oxigénio e usarmos os pulmões.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

quinta-feira, abril 09, 2026

o que está a acontecer

«não se preocupe, continuou, a conversa é mais para o distrair e, se ficar distraído sem reacção, também não lho levo a mal. é o que fez a liberdade, acrescentou. um dia estamos desconfiados de tudo, e no outro somos os mais pacíficos pais de família, tão felizes e iludidos, e podemos pensar qualquer atrocidade saindo à rua como se nada fosse, porque nada é.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

«Soriano ouvia, com interesse, o filho, enquanto utilizava a língua como um palito, ora empolando a face direita, ora a esquerda. Mas já Mercedes saía do quarto, sempre com movimentos apressados. Tinha avivado o pó-de-arroz e dado um jeito mais gracioso ao seu cabelo; no braço trazia uma pele de raposa.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

« -- Chiu! -- mandou o furriel, chefe da equipa de cinco soldados. -- Vocês querem que os "turras" saibam que estamos aqui? -- interrogou com cara de poucos amigos. E sentenciou: -- Vamos lá a falar baixo. // -- "Chouriço de carne em óleo de mendobi", que raio será esta mistela avermelhada?... -- interrogava-se o Torrão, um soldado lingrinhas, uns olhos escuros de pardal brilhando debaixo da pala do quico, lendo o papel amarelo onde estava escrita a ementa:» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

sexta-feira, abril 03, 2026

o que está a acontecer

«um povo assim, está a perceber. pousou a caneta. queria tornar inequívoca aquela ideia e precisava de se assegurar da minha atenção. não tenho muita vontade de falar, sabe, senhor, estou um pouco nervoso, respondi.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

«Soriano e o filho ergueram-se também. O taque-taque do relógio parecia mais nítido, mais corajoso, à medida que o iam deixando sozinho. Os dois detiveram-se no corredor. Paco comentava os numerosos palacetes que estavam a ser construídos em San Rafael, para elementos do Partido Radical.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

« -- O filho da mãe que fez as correias tão estreitas é que devia andar aqui no mato a amargá-las com um saco às costas -- resmungou um soldado. / -- De-de-ve ser pa-pa-ra pou-pou-par -- gaguejou outro em resposta. / -- Chiu! -- mandou o furriel, chefe da equipa de cinco soldados. -- Vocês querem que os "turras" saibam que estamos aqui? -- interrogou com cara de poucos amigos. E sentenciou: vamos lá a falar baixo.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

quinta-feira, março 05, 2026

António Lobo Antunes, para mim

Apanhei o Lobo Antunes no início dos anos 80. Surge num período de renovação da ficção portuguesa, nos temas e modo de narrar, atingindo um público mais vasto (Dinis Machado,  João de Melo, Carlos Vale Ferraz), embora exemplos houvesse já de fuga ao rame-rame discursivo com Nuno Bragança e, antes de todos, Ruben A. Antes de todos, o que não era para todos. Sim, obviamente Memória de Elefante e Os Cus de Judas (ambos de 1979). Com Auto dos Danados (1985), tornou-se para mim evidente que estávamos diante de um grande. Depois distanciei-me, nem sei bem porquê -- necessidade de ler outras coisas e outros autores, provavelmente. Fui mantendo contacto com as crónicas, sempre de nível alto, embora outros cronistas tivessem a minha preferência, por exemplo Augusto Abelaira ou Vasco Pulido Valente. Por vezes era surpreendido pelas letras de canções para o esplêndido Vitorino. Aquelas diatribes com o Saramago irritaram-me, tornaram-.no mesquinho ao meus olhos. Se há coisa que não perdoo, sobretudo num escritor, é a mesquinhez. Lembro-me que o Ferreira de Castro, quando escreveu pela primeira vez sobre o Raul Brandão, afirmou que não o conhecia nem queria conhecê-lo, precisamente por isto. (É claro que viriam a relacionar-se.) Há poucos anos li o Sôbolos Rios que Vão (2010), que alguns apontam como o seu grande livro dos últimos anos. Não me parece, mas não serei taxativo sem uma releitura. Não trocaria uma página do Autos dos Danados por todo o Tôdolos; como não troco o Finisterra  pelo Uma Abelha na Chuva, do Carlos de Oliveira. Continuarei com livros do Lobo Antunes ao longo da vida, os mesmos livros e certamente outros. É o melhor que os escritores nos deixam; é só, na verdade, o que realmente interessa.  

sábado, outubro 25, 2025

o que está a acontecer

«Nas mesas, onde uma turba espessa se coagulava, corria um dar de cotovelos, um cruzar de olhos, um rastilhar mexeriqueiro. / -- Olha. Lá vem o Chumbo. Aquele é o Antero Chumbo. O que escreve. O tipo parece que tem valor. / E era verdade. Isto é, ali ia ele.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

«Esfregaram a cara e os cabelos molhados da transpiração com o lenço verde do regulamento, ou mesmo com o quico camuflado, um bonezinho em feitio de canoa, de aba curta e quebra-nuca para proteger a cabeça dos ardores do sol. / Abriram as latas de conserva das rações E que a Manutenção Militar distribuía para alimentação das tropas em operações.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Do lado oposto à cidade a estrada descrevia uma curva ao longo de muros e cerrados, onde os grilos pareciam, de Verão, o queixume da ilha abafada e em que pairava agora um pasmo solto de tudo menos de mar. As lâmpadas da rede, lá para Porto Pim, faziam mais escura a massa de água que devia rolar enrefegada a um começo de vento levantado, pouco e já duro.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

quarta-feira, outubro 15, 2025

o que está a acontecer

«I-EXPERIÊNCIA / Uma das coisas discutidas no Café Martinho era a virgindade de Antero. / Havia rumorejos quando ele entrava. / Já então um pouco obeso, mas empertigado por aquela volúpia do próprio mérito, que é sugestiva como um cartaz, -- principiava a usar o seu famoso chapéu preto de grandes abas, que implantava um pouco à banda, com audácia, sobre penugens dizimadas pela seborreia.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

«Esqueceram os mil pormenores da instrução de comando, as forças não chegavam para tudo, mas a arma, essa ficou ali à mão de semear... Tiraram lentamente as mochilas de cima dos ombros e morderam os lábios com a dor dos músculos dormentes cortados pelas correias de lona.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Dali à entrada da quinta corria um muro de pedra solta onde espreitavam trepadeiras, e só a uns vinte metros se erguia uma parede nobre com o grande portão verde de padieira grossa, que ao abrir bem até atrás, devido a uma posição mal calculada, batia na borda da sineta arrematada do naufrágio de um veleiro.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

sábado, outubro 11, 2025

o que está a acontecer

«-- Se eu te tivesse conhecido recém-nascida, teria odiado em ti o rosto incaracterístico da criança, balofo, sem vontade, que ri como um ébrio: -- esse rosto divino que 18 anos mais tarde eu havia de amar pela perversidade do seu sorriso, pela voluptuosidade que dele se desprende e voa até aos meus sentidos.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)

«Os homens pararam. Alguns, mais cansados, sentaram-se imediatamente, outros ainda procuraram árvores para aproveitarem a sombra e o encosto dos troncos. Abriram os camuflados, aspirando o cheiro ácido de suor que saía do peito, para se refrescarem.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Estavam quase ao alcance da respiração um do outro: ela debruçada num muro de pedra de lava; ele na rampa de terra que bordava a estrada ali larga, acabando com a fita de quintarolas que vinha das Angústias até quase ao fim do Pasteleiro e dava ao trote dos cavalos das vitórias da Horta um bater surdo, encaixado.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

domingo, outubro 05, 2025

o que está a acontecer

«Entrava em pormenores, Margarida ouvia-o agora vagamente distraída, de cabeça voltada às nuvens, como quem tem uma coisa que incomoda no pescoço, um mau jeito. O cabelo, um pouco solto, ficava com toda a luz da lâmpada defronte, de maneira que a testa reflectia o vaivém da sombra ao vento.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

«Berenice silenciara-se também, nesse recanto deserto da popa do transatlântico: -- angustiada pela dor da partida: -- da partida do seu amante para um mundo que ela ignorava: -- e que só entrevia através duma neblina colorida, onde os seres e as coisas se revestiam de esplendores estranhos.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)

«I.A Primeira Operação / 1. Um comando não tem fome nem sede... Finalmente veio a ordem desejada, murmurada no passa-palavra, da frente para a retaguarda da companhia de comandos: / -- Parar para almoçar, meia hora, a última equipa monta segurança.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

domingo, maio 04, 2025

saiu no JL

António Cândido Franco: «Havia nele qualquer coisa dum Cristo literário, disposto a sacrificar a vida por todos, e dum Saint-Just anónimo, que com indefectível pureza não se perdoava a si e aos outros a menor cedência.» (sobre Luiz Pacheco)

António Carlos Cortez: «Explorando os ambientes e cambiantes de São Salvador da Bahia, Paulo Teixeira sabe bem o que é literatura: povo, oralidade, realismo levado até ao osso; mas sem rasgar à força a arte da elocução, sem artificializar.» (sobre o romance de Paulo Teixeira, Não Digas o que a Baiana Tem)

Carlos Vale Ferraz: «Como escritor sou um dano colateral do 25 de Novembro de 1975.» («Autobiografia»)

Guilherme d'Oliveira Martins: «O Papa Francisco lembrava Gustav Mahler, a defender que a fidelidade à tradição não consistiria em adorar as cinzas, mas em conservar o fogo.»

Maria Fernanda de Abreu: «[...] creio bem que a grande qualidade de Vargas Llosa é herdeira do melhor romance oitocentista, que ele actualiza, reformulando também a herança da literatura indigenista, para contar histórias (quase sempre) do seu tempo e da sua terra.»

Paulo Teixeira: «Somos todos personagens secundárias.» (entrevista a Luís Ricardo Duarte)

JL #1424 -30.4.2025

quinta-feira, abril 17, 2025

Carlos Matos Gomes (1946-2025)

Durante uns breves dias fora e desconectado, a morte de Carlos Matos Gomes -- tantas vezes aqui chamado, em serviço público --, apanha-me como a pior notícia desta Páscoa, pelo inesperado e pela falta que fará na análise de um momento internacional em que a inteligência e a coragem estão em suspenso.

domingo, dezembro 29, 2024

o que melhor e pior me impressionou em 2024: Putin e os asnos do Ocidente, e deste a miséria moral

Apesar de faltarem quase três dias para o fim do ano, e sabermos que a perfídia das indústrias da guerra é ilimitada, e aque té à tomada de posse de Trump seja de esperar qualquer tipo de golpada, arrisco já:

1. O que mais favoravelmente me impressionou. 

1.1.Putin perante os asnos do Ocidente. Sem dúvida, a capacidade de resistência da Rússia pela forma como conseguiu contornar uma preparadíssima ofensiva bélica, não tanto pelas armas, mas nas várias tentativas de estrangulamento económico e político, todas tendo falhado, o que é hilariante no meio da tragédia. Militarmente, Putin optou primeiro pela pressão, no que falhou; depois pela contenção, com custos elevados em vidas e equipamento, porém não varrendo a Ucrânia do mapa, ao contrário do que os israelitas fazem na faixa de Gaza. Depois, a resistência à propaganda manhosa estipendiada pelo complexo militar-indusrial americano: hoje, até um lémure de Madagáscar percebe que a guerra da Ucrânia é um enfrentamento entre russos e americanos e que a Ucrânia é um território em que se combate, com líderes ucranianos que sacrificaram parte do seu (?) povo a interesses estrangeiros, v.g., os dos Estados Unidos e suas corporações.

1.2. A fibra (e os tomates) dos comentadores decentes (o que significa que há comentadores indecentes).  Voltemos a referir-lhes os nomes, uma e outra vez: Agostinho Costa e Carlos Branco em primeiro lugar (dos que têm assento nas televisões). Informados, objectivos, não se deixando intimidar por jornalistas ignorantes e atrevidos nem pelo lixo académico que por aqueles estúdios é despejado. Acrescento ainda os nomes de Mendes Dias e Tiago André Lopes, este da Universidade, uma das poucas excepções para a miséria que a academia enviou para as televisões. Nos jornais, impecável, Viriato Soromenho Marques (ler aqui  a crónica deste sábado no DN); e nas plataformas digitais (pois para as televisões não é convidado, evidentemente) Carlos Vale Ferraz (ler aqui) . Outros existem, felizmente, mas ou são silenciados (onde está o general Pezarat Correia, ainda muito lúcido, nos seus mais de noventa anos?) ou escrevem em media de menor difusão.

2. O lixo

2.1. A miséria moral do Ocidente diante da matança indiscriminada de palestinos em Gaza.

2.2 A cobardia depravada, ignorância, inconsciência, incompetência e oportunismo até à traição da clique que lidera os países europeus mais poderosos (Inglaterra, França. Alemanha e Itália), o seu servilismo canino e as entorses à democracia. Sim, com esta guerra as liberdades regrediram na Rússia -- ela que nunca fora tão livre e próspera como o foi com Putin -- mas regrediram também, e de forma nunca vista desde a derrota do nazismo e do fascismo na Europa Ocidental: manipulação às escâncaras, censura (aos media  russos e às vozes discordantes ou independentes), intervenção nas eleições de países europeus, dentro e fora da UE (Roménia, Geórgia).

O que sairá disto tudo? Não sei. Alemanha e França politicamente nas lonas. A seguir, a própria UE? Ou até à lavagem dos cestos, no final de Janeiro, será vindima? Com criaturas destas é sempre de esperar o pior.

Em tempo: esqueci-me de referir Miguel Sousa Tavares, que, desde o início, honra a profissão do jornalista que foi e tem sido sempre uma das vozes lúcidas do comentário. (visto aqui).

segunda-feira, fevereiro 12, 2024

"dois pobres diabos em Kiev" - ucranianas CCXXIV


Mão amiga fez chegar-me este texto de Carlos Matos Gomes.  Eu não o diria melhor, e uma das razões prende-se com o facto de Matos Gomes, além de militar experimentado, historiador da Guerra Colonial -- em que participou como oficial-comando -- é também o romancista Carlos Vale Ferraz. Aliás basta ler as declarações transcritas pelo pobre ministro da Educação no portal do Governo (agora com logo modernaço) para perceber-lhe a indigência.


«A reportagem do passeio de dois tristes que são ministros da República Portuguesa

deixou-me naquele estado em que perguntamos se nos devemos rir ou interrogar se é verdade o que vemos. Aqueles dois tristes são ministros do governo português? Que raio foram fazer? Anunciar que vão dar uns euros para reconstruir uma escola?

Ninguém acredita que aquelas pungentes figuras de quase sem abrigo tenham ido a Kiev fazer um anúncio que não é mais do que uma promessa que diariamente fazem os mais ignorados presidentes de juntas de freguesia em Portugal. Aquelas duas sombras vagueantes foram em peregrinação a Kiev cumprir ordens. 

A guerra na Ucrânia está num atoleiro de várias lamas, a da corrupção, a das dissidências internas típicas das épocas de derrota, de degradação da sociedade civil, de incapacidade militar, de reconhecimento do que desde o início da aventura se sabia: não se deve provocar o leopardo com uma vara curta e a Rússia era um leopardo, uma superpotência; e por fim há a degradação da boa vontade dos benfeitores que meteram a Ucrânia na encrenca em que está. 

A solução da vivaça Ursula Van der Leyen, do inteligente Borrel, do senhor que está agora de primeiro-ministro em Inglaterra, o quarto ou quinto da mesma peara do Brexit, dos estrategas de Washington, agora ocupados com Israel, foi o de mandar uns pobres diabos a Kiev animar a família de Zelenski. De Portugal zarparam dois espécimes, o habitual viajante Cravinho e o quase desconhecido interlocutor do fero Mário Nogueira dos professores e do assanhado e quase sempre desgrenhado compère que dirige o STOP. A sério: em tempo de eleições, o Partido Socialista entende que é boa propaganda enviar dois figurantes de segunda linha a Kiev, para promover uma criatura desacreditada, uma guerra cada vez mais criticada e cada vez mais identificada com os interesses americanos e menos com os interesses europeus, uma guerra que já é apresentada como a responsável pelas dificuldades de apoio à agricultura e à indústria europeia, responsável pela inflação e pela crise económica?»

segunda-feira, novembro 06, 2023

mais um grande texto de Carlos Matos Gomes

[...] Israel justificou a resistência de todos os palestinianos e que a apreciação da prática política do estado de Israel não pode ser feita através do sofisma de escolher o menor de dois males [...]

 aqui

quarta-feira, outubro 04, 2023

é sempre reconfortante ler Carlos Matos Gomes (ucranianas CCXVI)

Mão amiga fez-me chegar este post de Carlos Vale Ferraz -- que é também o escritor Carlos Matos Gomes --, autor de Nó Cego, um dos grandes romances portugueses do século passado.

Falece-me já a paciência de estar constantemente a denunciar a enxurrada de vigarice mediática e académica a propósito da guerra; prefiro assinalar quem é competente, isento, lúcido e honesto. Há uma meia dúzia no espaço público: entre os militares, repito-me, Agostinho Costa, Carlos Branco, Mendes Dias e pouco mais; entre os académicos, retenho dois nomes (entre pouquíssimos) Marcos Farias Ferreira e Tiago André Lopes; dentre os publicistas portugueses que têm escapado à indigência, contam-se, de forma destacadíssima, Viriato Soromenho Marques, Miguel Sousa Tavares e Carlos Matos Gomes. Não são os únicos, felizmente. Vale a pena lê-los e ouvi-los, sem perdermos tempo com bonecos.

quinta-feira, fevereiro 16, 2023

a Ordem da Liberdade transformada em penduricalho (ucranianas CLXI)

Não sei o que pensarão muitos dos que foram agraciados com a Ordem da Liberdade; mas, passando ao lado da sua extemporaneidade, dá-la ao Zelensky, um tipo que numa versão benigna é co-responsável pelo falhanço dos Acordos de Minsk -- e portanto também desta guerra --, enquanto que para outros não passa duma marionete do Pentágono, é ultrajante.

O que eu para aí pedia, que  Marcelo fosse confrontado com as consequências actuais e futuras da política europeia nesta crise, revela-se afinal uma perda de tempo. O Presidente da República resolveu antecipar-se ao PAN e piruetar-se com mais esta. Palavras para quê?...

PS1 - sempre em biquinhos dos pés, e tendo as costas quentes do amigo americano, só Portugal e a Alemanha, na UE, é que se comprometeram com o envio dos temíveis leopardos. parece que vamos mandar três, assim que os alemães consertem os que estão encostados. Novecentos anos de História deveriam merecer mais respeito.

PS2 - mão amiga fez-me chegar este post de Carlos Matos Gomes, oficial-comando na Guerra Colonial, militar de Abril, historiador e também romancista, autor de um dos grandes romances portugueses do século passado, sob o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz, Nó Cego -- texto não só de quem sabe, mas de quem sabe pensar, actividade que a classe dirigente europeia, ou grande parte dela, pôs em suspenso. Leia-se e medite-se.

sábado, março 12, 2022

sobre os militares (ucranianas XLIII)

Tenho escrito que os militares que têm vindo à televisão, com  raríssimas excepções, são quem pode ajudar-nos a perceber melhor o que se passa; o que sucede inversamente com a maioria dos académicos, incompetentes e/ou parciais, boa parte parte dos que têm aparecido. Como não frequento "as redes", atraso-me mais uma vez. Parece que têm sido muito criticados (por quem?). Tive hoje acesso a um texto de Carlos Matos Gomes, militar, historiador e romancista (Carlos Vale Ferraz), numa plataforma cuja existência eu nem conhecia... 

ucranianas

segunda-feira, setembro 16, 2019

vozes da biblioteca

«Espiava por entre as árvores mirradas a ver se descobria palhotas, deitava uma mirada ao trilho onde assentava os pés.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Lembrava-se vagamente de ter visto, pelo seu casamento, um rosto comprido de menino obstinado, onde brilhavam uns olhos escuros e zombeteiros e se desenhavam uns lábios talvez demasiado grossos, de expressão desdenhosa.» João Pedro de Andrade, A Hora Secreta (1942)

«Desde as quatro horas da tarde, no calor e silêncio do domingo de Junho, o Fidalgo da Torre, em chinelos, com uma quinzena de linho envergada sobre a camisa de chita cor-de-rosa, trabalhava.» Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires (póstumo, 1900)

quinta-feira, janeiro 10, 2019

vozes da biblioteca

«Depois aproximou-se do soldado ferido deitado no chão, com um dos pés transformado numa bola de massa onde se misturavam o coiro preto da bota, a terra castanha empapada em sangue e donde emergiam tendões brancos desligados dos ossos.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Encostando o ombro a uma esquina do velho Teatro Nacional, onde tantas vezes fora aplaudido e ovacionado, pôs-se a ouvir o movimento surdo e enrolado da cidade.» João de Melo, Lugar Caído no Crepúsculo (2014)

«O escritório do Medeiros, director da Comarca, era escuro e desconfortável; uma vulgar secretária de pinho, dois ou três cadeirões com almofadas de palha, um quebra-luz de missanga na lâmpada do tecto e montes de jornais aos cantos; cheirava a pó como num caminho de estio.» Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953)