Mostrar mensagens com a etiqueta Camilo Castelo Branco. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Camilo Castelo Branco. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, abril 01, 2026

Vitorino Nemésio, escrever como se respira

Vitorino Nemésio (1901-1978) é, consabidamente, um dos maiores escritores portugueses, não apenas do século passado. Grande como poeta, ensaísta, historiógrafo, atrevo-me a dizer (e não sou o único), que escreveu o  mais extraordinário romance da nossa literatura, Mau Tempo no Canal (1944). É um real atrevimento, sabendo que poderíamos convocar para esta distinção umas boas duas dezenas, pelo menos, de outras extraordinárias narrativas. A Nemésio eu poderia juntar, sem dificuldade um ou mais títulos de Camilo, Júlio Dinis, Eça, Aquilino, Castro, Redol, Manuel da Fonseca, Vergílio Ferreira, Sena, Saramago, Cardoso Pires -- os grandes romances dos grandes.

Sem justificar, como deveria, a minha escolha por esta obra(-prima) do poeta de O Bicho Harmonioso (1938), apetece-me aludir ao seu estilo, que nos aparece como uma dádiva: Nemésio escreve como respira, sem se dar por isso, do mais trivial às mais profundas elucubrações, do breve registo oral às mais inesperadas ou cintilantes metáforas, com a naturalidade da água que corre; o que não sucede com a maioria dos seus pares, incluindo os atrás referidos, a não ser nos seus grandes momentos, que felizmente abundam. Como Nemésio, muito poucos me dão essa sensação num romance encorpado como a história de Margarida Clark Dulmo e João Garcia; talvez, apenas o melhor Eça, e Machado de Assis, do outro lado do Atlântico. 

sábado, janeiro 24, 2026

o que está a acontecer

«Moram as Teles, e as Teles odeiam as Sousas. Moram as Fonsecas, e as Fonsecas passam a vida, como bonecas desconjuntadas, a fazer cortesias. Moram as Albergarias, e as Albergarias só têm um fim na existência: estrear todos os semestres um vestido no jardim.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Eu vou à frente, que esse aí está às escuras, tem as janelas de dentro trancadas. Dá como este para o caminho. A cama é alta. É um leito. Antiga, sim. A senhora conhece que é de cana! Pois será, será. Deitaram-lhe esse verniz, também mo disseram.» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

«E a história. E história assim poderá ouvi-la a olhos enxutos a mulher, a criatura mais bem formada das branduras da piedade, a que por vezes traz consigo do céu um reflexo da divina misericórdia: essa, a minha leitora, a carinhosa amiga de todos os infelizes, não choraria se lhe dissessem que o pobre moço perdera honra, reabilitação, pátria, liberdade, irmãs, mãe, vida, tudo, por amor da mulher  que o despertou do seu dormir de inocentes desejos?!» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

domingo, janeiro 18, 2026

o que está a acontecer

«Mora a qui a insignificância, e até à insignificância o tempo imprime carácter. Mora aqui, paredes meias com a colegiada, o Santo, que de quando em quando sai do torpor e clama: -- O inferno! O inferno!. Mora um chapéu, uma saia, o interesse e plumas.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Este quarto não valerá a pena a senhora vê-lo, é interior, tem duas camas de leito. A senhora não gostará dele, pois não? Este aqui é um bom quarto. Cama de casal. Que às vezes já se tem deitado aí uma pessoa só. Com licença.» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

«Dezoito anos!... E degredado da pátria, do amor e da família! Nunca mais o céu de Portugal, nem liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem reabilitação, nem dignidade, nem um amigo!... É triste! / O leitor decerto se compungia; e a leitora, se lhe dissessem em menos de uma linha a história daqueles dezoito anos, choraria! / Amou, perdeu-se, e morreu amando.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

segunda-feira, janeiro 12, 2026

o que está a acontecer

«Paciência... paciência... Já a mentira é de outra casta, faz-se de mil cores e toda a gente a acha agradável -- Pois sim... pois sim... / Cabem aqui seres que fazem da vida um hábito e que conseguem olhar o céu com indiferença e a vida sem sobressalto, e esta mixórdia de ridículo e de figuras somíticas.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Dezoito anos! O arrebol dourado e escarlate da manhã da vida! As louçanias do coração que ainda não sonha em frutos, e todo se embalsama no perfume das flores! Dezoito anos! O amor daquela idade!  A passagem do seio de família, dos braços de mãe, dos beijos das irmãs para as carícias mais doces da virgem, que se lhe abra ao lado como flor da mesma sazão e dos mesmos aromas, e à mesma hora da vida!» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

«A senhora está a olhar pra esta sala? É grande, é, e tem esta mobília toda, e tão alta que quase chega ao tecto. Comprámo-la com a casa. Foi quando chegámos da Alemanha, já fez agora um ano. Entre por aqui, entre. Cuidado com o degrau.» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

sexta-feira, janeiro 02, 2026

zonas de conforto

Vergílio Ferreira: «Uma melancolia suave. Não desesperante. suave Compreende-se a "vontade de chorar por nada". É o súbito espaço vazio, a vertigem. A solidão. A solidão de não se estar sempre connosco. As gerações futuras deverão desembaraçar-se do tempo. Parece que já o tentam.» Conta-Corrente 1 (1980) § Machado de Assis: «Um dia de manhã, cinco depois da festa, o médico achou-o realmente mal; e foi isso que ele lhe viu na fisionomia por trás das palavras enganadoras: / -- Isto não é nada; é preciso não pensar em músicas...» Histórias sem Data (1884) -- «Cantiga de esponsais» § Aquilino Ribeiro: «Seroava-se nas lojas das vacas e aos sábados batia-se a ribaldeira até as Três Marias empalidecerem no céu. Invernos inteiriços como os dos lagartos. Mas, ah, logo que se ouvia a corcolher: tem-te lá, tem-te lá, Barrelas vazava-se por esses caminhos de Cristo em votos e romarias.»  O Malhadinhas (1922) § Camilo Castelo Branco a Eduardo Costa Santos (1867): «Relativamente aos abatimentos, que o meu amigo faz aos livros que por aí tenho, são eles tamanhos que não os aceitaria eu. É certo que autorizei o Eduardo a abater, mas também com abatimento da percentagem que lhe designei. Sem isso não terão eles tão desgraçado fim. Prefiro recolhê-los porque merecem mais alguma estima. Do seu muito amigo // C. C. Branco // 30 de Julho 67.» in António Cabral, Homens e Episódios Inolvidáveis (1947) § António Ferro: «OBRAS DO AUTOR - Alguns papéis ao vento e muitos na gaveta...» Teoria da Indiferença (1920§ Jorge Amado: «Deixo de lado o grandioso, o decisivo, o terrível, o tremendo, a dor mais profunda, a alegria infinita, assuntos para memórias de escritor importante, ilustre, fátuo e presunçoso: não vale a pena escrevê-las, não lhes encontro a graça.»  Navegação de Cabotagem (1992)

quinta-feira, janeiro 01, 2026

as minhas melhores leituras e releituras de 2025 (tanto quanto consigo lembrar-me...)

leituras:

As Mãos Sujas, Jean-Paul Sartre

Camilo Visto por José Régio (ed. Manuel Matos Nunes)

Cartas a um Jovem Poeta, Rainer Maria Rilke

Chiquinho, Baltasar Lopes

Lições da História, Edgar Morin

Na Senda da Poesia, Ruy Belo

O Essencial sobre Manuel Maria Barbosa du Bocage, Daniel Pires

O Príncipe com Orelhas de Burro, José Régio

Poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen

O Livro dos Cavaleiros, Augusto Casimiro

Sonetos, Bocage (edição de M. Pinheiro Chagas)

Tempos Interessantes, Eric Hobsbawm


releituras:

Aquele Grande Rio Eufrates, Ruy Belo

Cardoso Pires por Cardoso Pires, José Cardoso Pires com Artur Portela, Filho

Cartas Portuguesas, Sóror Mariana Alcoforado

Frango com Ameixas, Marjane Satrapi

Homem de Palavras[s], Ruy Belo

Novas Cartas Portuguesas, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa

O Delfim, José Cardoso Pires

Sonho de uma Noite de Verão, William Shakespeare

Terra Fria, de Ferreira de Castro

Transporte no Tempo, Ruy Belo

o que está a acontecer

«São 17 deste mês de Julho, ano de graça de 1843, uma segunda-feira, dia sem nota e de boa estreia. Seis horas da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço. Chego muito a horas, envergonhei os mais madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

«E, assim que a noite se fechava, e a lâmpada do altar vasquejava os lampejos finais, ninguém se afoitava a transitar naquelas ruas de encruzilhada, desde que se divulgou que os demónios, a horas mortas, marinhavam, como bugios, pelo barrote onde a cabeça do regicida apodrecia.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

«A ambição não avança um pé sem ter o outro assente. a manha anda e desanda, e, por mais que se escute, não se lhe ouvem os passos. Na aparência é a insignificância a lei da vida: é a insignificância que governa a vila.» Raul Brandão, Húmus (1917)

sexta-feira, dezembro 26, 2025

o que está a acontecer

«Stalines a carvão antipatizavam connosco nas esquinas. E o rio desmaiava em Caxias, sufocado pelas asas dos pássaros, com penedos de petroleiros imóveis sob a ponte. / Na segunda quarta-feira de Setembro de mil novecentos e setenta e cinco, o despertador pescou-me às oito horas do meu sono, do mesmo modo que as gruas do cais trazem à superfície os automóveis peludos de limos que não sabem nadar.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

«O povo, porém, depois de fazer reverência a Jesus, voltava-se contra a face esquálida do justiçado e clamava, fremente de rancor: "Estás nas profundas do Inferno, patife!" / E os gaiatos aporfiavam em acertar-lhe com pelouros de lama, lucrando aplausos e gargalhadas do auditório os mais certeiros.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

«Era uma ideia vaga; mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-me as tonteiras de um jornal, que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita. / Pois, por isso mesmo, vou: -- pronunciei-meAlmeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

quarta-feira, dezembro 24, 2025

o que está a acontecer

«Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

«Defronte daquele altar, na outra esquina da Fancaria, arvoravam o espeque rematado pela cabeça de Domingos Leite,  que parecia olhar para Jesus Cristo com as pálpebras roxas e entreabertas; e a primorosa escultura do Redentor, olhando para o povo, parecia chorar.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

«Apesar dos jipes da polícia patrulhando as ruas, ciganos carregados de tachos e cadeiras assaltavam os apartamentos vagos do centro. Nasciam infantários nos prédios em ruína, com crianças sentadas no soalho a engordarem de sanduíches de caliça.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)  

sábado, dezembro 20, 2025

o que está a acontecer

«Se Castela percebeu estes escabrosos dizeres do colaborador da Monarquia Lusitana tanto como nós, decerto não reconheceu o que o frade lhe inculcava, e sobejamente demonstrou no seu proceder subsequente pouquíssima reverência aos avisos do céu.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

«Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens, nem as suas impressões pois tinha muito que ver!» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846) 

«Desde Abril do ano anterior que a tropa e os comunistas se aproximavam das fachadas dos prédios, erguiam o membro como animais para urinar, e abandonavam nas paredes um mijo de vivas e morras que se contradiziam e anulavam, logo coberto por cartazes de comícios e greves, fotografias de generais, propaganda de conjuntos rock, cruzes suásticas, ordens de boicote ao governo e convites de retrete, dedos de letras entrelaçadas num namoro que o Outono do tempo desbotava.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

sábado, dezembro 13, 2025

zonas de conforto

Vergílio Ferreira: «Vejo as ervas no jardim abandonado, uma cadeira desmantelada no terraço do pavilhão. Ao longe, o mar de um tempo muito antigo. Há só dez anos que ali vou, e todavia tudo recuou já muito. Assim, em momentos bruscos, estampa-se-me a visão flagrante do irremediável.» § Jorge Amado: «Publico esses rascunhos pensando que, talvez, quem sabe, poderão dar idéia do como e do porquê. Trata-se, em verdade, da liquidação a preço reduzido do saldo de miudezas de uma vida bem vivida.» Navegação de Cabotagem (1992) § José Duarte: «Não acham que é muita... / Música... / para tão poucos minutos?» Cinco Minutos de Jazz (2000) § Machado de Assis: «E diziam-lhe que não era nada, que eram macacoas do tempo; um acrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o boticário lhe dava no gamão, -- outro que eram amores. Mestre Romão sorria, mas consigo mesmo dizia que era o final. / "Está acabado", pensava ele.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Manuel Tiago: «Ao Lambaça, que julgava ter de fazer passar a fronteira a algum importante dirigente, André parecia uma criança insignificante e inofensiva, diminuindo, quase ao ridículo, a incumbência. A André, o aspecto e a expressão de Lambaça avivavam desconfiança e prevenções acerca do seu carácter.» Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § Camilo Castelo Branco a Eduardo Costa Santos (1867) .../... «A maior parte dos livros que me propõe em troca, a tenho nas Memórias da Academia. Outros, afora aqueles, já os possuo, e alguns não interessam ao género dos meus estudos.» .../... in António Cabral, Homens e Episódios Inolvidáveis (1947)

sexta-feira, dezembro 12, 2025

o que está a acontecer

«Só a avó, já doente do cancro, navegava ao acaso na poltrona de inválida, de radiozinho de pilhas encostado às farripas da orelha, contemplando a sorrir, sem entender, os democratas que de quando em quando rebolavam aos encontrões no corredor e vasculhavam o resto das pratas com o cano dos revólveres, repetindo os discursos estranhos dos altifalantes dos cegos.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

«Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo -- entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse ao menos ia até o quintal.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

«Dá o cronista-mor do Reino razão plausível do altar provisório nestes tortuosos termos: Foi para que, com a duplicada presença de Cristo sacramentado e crucificado, reconheça Castela que para uma de suas traições se nos duplica Cristo para defensa.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

segunda-feira, dezembro 08, 2025

o que está a acontecer

«I- De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas suas viagens. -- Parte para Santarém. -- Chega ao Terreiro do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede. -- A Dedução Cronológica e a Baixa de Lisboa. - Lord Byron e um bom charuto. - Travam-se de razões os ílhavos e os bordas-d'água -- os da calça larga levam a melhor.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

«Olho-o um instante, olho a casa, circunvago o olhar. Preparar o futuro -- o futuro... E uma súbita ternura não sei porquê. Silêncio. Até ao oculto da tua comoção. Preparar o futuro, preparação para a morte.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«No intuito de expiar o sítio, segundo a pia frase de Fr. Francisco Brandão, ergueu a piedade um altar encostado à seteira por onde o regicida abocara a escopeta, e aí foi arvorada aquela milagrosa imagem do Crucificado, que despregou a mão revolucionária no dia em que o duque bragantino foi aclamado rei.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

terça-feira, dezembro 02, 2025

o que está a acontecer

«I. Ainda os membros dispersos do cadáver de Domingos Leite Pereira apodreciam nos postes, quando saiu uma procissão de triunfo a desempestar especialmente as Ruas dos Torneiros e da Fancaria.»  Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

«Um silêncio súbito, silêncio da terra. Só vozes ermas dos campos, ouço-as no calor parado da tarde. Reparo agora melhor no pequeno jardim. Uma selva bravia. As plantas selvagens irromperam de todo o lado, aos cantos dos muros à volta, junto à casa. Há algumas armações de madeira ainda, já apodrecidas, suspensas de arames, sem flores.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«Fez-se um silêncio de expectativa risonha. E o professor, debruçando sobre a secretária os bigodes pendentes e amarelados, perguntou-lhe: -- Quais regras da ciência? -- E ele, entreabrindo os lábios finos que nunca se sabia quando sorriam ou se apertavam de contrariedade, respondeu: -- A observação e a experimentação. -- Ah, muito bem, e como foi que o senhor observou e experimentou a alma dos animais? -- Como, senhor doutor? Pessoalmente --. E foi uma gargalhada geral.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póst., 1979)

domingo, novembro 16, 2025

zonas de conforto

Vergílio Ferreira: «Penso pouco na morte, hoje, começa a ser-me um fenómeno natural. Um certo cansaço? Uma fadiga de tudo. Estar. Ser, olhando erradiamente, ler talvez. A sensação de que tudo está feito.» Conta-Corrente 1 (1980). § José Bacelar: «Ora a Vida, todos o sabem, é uma coisa infinitamente complexa. Os lados, as facetas das coisas (facetas umas habituais, outras raramente apontadas) são em número infinito. Por outro lado, em número infinito (porque o homem é vário) são também os pontos de vista. E o espírito livre não pode por isso admirar-se de que as coisas sejam olhadas pelos homens de maneiras quase sempre muito diferentes.» Arte, Política e Liberdade (1941) § Machado de Assis: «O dia não acabou pior; e a noite suportou-a ele bem, não assim o preto, que mal pôde dormir duas horas. A vizinhança apenas soube do incômodo, não quis outro motivo de palestra; os que entretinham relações com o mestre foram visitá-lo. «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884) § Camilo Castelo Branco a Eduardo Costa Santos (1867): «Meu amigo: // D. Ana e eu lhe agradecemos mui cordialmente a oferta de um laborioso e utilíssimo trabalho. Na 2.ª edição do "Cavar em Ruínas", se se fizer em minha vida, farei menção da nota do meu amigo» .../... in António Cabral, Homens e Episódios Inolvidáveis (1947) § Jorge Amado: «Consciente e contente que assim seja, reúno nesta Navegação de Cabotagem lembranças de alguém que teve o privilégio de assistir, e de por vezes participar, de acontecimentos em certa medida consideráveis, de ter conhecido e por vezes privado com figuras determinantes.» Navegação de Cabotagem (1992) § Manuel Tiago: «André era também baixo, magro e moreno. De cabeça descoberta, os cabelos tombavam sobre a testa. A expressão contraída mais destacava a sua juventude. / Desagradaram nitidamente um ao outro.» Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § José Duarte: «Amanhã... / Billie cantará para vocês... / e para mim aqui sozinho». Cinco Minutos de Jazz (2000)

sexta-feira, agosto 22, 2025

o que está a acontecer

«Todo o trabalho insano é este: reduzir a vida a uma insignificância. Tapá-la, escondê-la, esquecê-la. O sino toca a finados, já ninguém ouve o som a finados. A morte reduz-se a uma cerimónia, em que a gente se veste de luto e deixa cartões de visita.» Raul Brandão, Húmus (1917) 

«Disso dependiam todos os projectos que ele formara, desde o casamento de Deolinda, não com um valdevinos sem eira nem beira, mas com homem digno e de teres e haveres, até a velhice tranquila, numa casa grande, de telha francesa, lá em cima, nos Salgueiros -- uma casa em cuja salgadeira metesse dois porcos alentejanos.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Disse-me a dadivosa viúva de Vilalva que os livros estavam na adega havia mais de trinta anos, desde que o seu cunhado, que estudava para padre, morrera héctico; que o seu homem -- Deus lhe fale na alma -- mandara calcar o quarto onde o estudante acabara, e atirou para as lojas tudo o que era do defunto -- trastes, roupa e livralhada.» Camilo Castelo Branco, A Brasileira de Prazins (1882)

segunda-feira, agosto 18, 2025

o que está a acontecer

«Silêncio. Ponho o ouvido à escuta e ouço sempre o trabalho persistente do caruncho que rói há séculoa na madeira e nas almas. // 15 de Novembro // Debaixo destes tectos, entre cada quatro paredes, cada um procura reduzir a vida a uma insignificância.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Mas, para lá do muro, os olhos de Manuel da Bouça já não podiam ver com alegria, os campos que se estendiam, planos, bem regados, até próximo da igreja velha. Possuí-los, ser seu dono, semear e colher o milho que aloirava aos primeiros calores fortes e, no Inverno, a erva dos lameiros, que formava tapetes sempre húmidos, era o seu único sonho, a grande aspiração da sua vida.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Havia sermonários latinos, um Marco Marulo, três retóricas, muitas teologias, um Euclides, comentários de versões literais de Tito Lívio e Virgílio. Deixei tudo na benemérita podridão, tirante uma versão castelhana do mantuano por Diego Lopez e um muito raro Entendimento Literal e Construiçam Portuguesa de Todas as Obras de Horácio, por industria de Francisco da Costa, impresso em 1639. Camilo Castelo Branco, A Brasileira de Prazins (1882)

sexta-feira, agosto 15, 2025

o que está a acontecer

«Os filhos do seu predecessor Vítiza, os mancebos Sisebuto e Ebas, disputaram-lha largo tempo; mas, segundo parece dos escassos monumentos históricos dessa escura época, cederam por fim, não à usurpação, porque o trono gótico não era legalmente hereditário, mas à fortuna e ousadia do ambicioso soldado, que os deixou viver em paz na própria corte e os revestiu de dignidades militares. Daí, se dermos crédito a antigos historiadores, lhe veio a última ruína na batalha do rio Críssus ou Guadalete, em que o império gótico foi aniquilado» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

«Mandei perguntar à Sr.ª Joaquina se dava licença que eu visse os livros. Não só mos deixou ver, mas até mos deu todos -- que escolhesse, que levasse. / Examinei-os com alvoroço de bibliómano. Eles, gordurosos, húmidos, empoeirados, pareciam-me sedutores como ao leitor delicadamente sensual se lhe afigura a face da mulher querida, oleosa de cold-cream, pulverizada de bismuto.» Camilo Castelo Branco, A Brasileira de Prazins (1882)

«A cercar os mimos viçosos da natureza e a muitos deles servindo de dossel, corria a vinha, toda armada em carvalho e arame, com espigões no muro branco que ele sozinho erguera, aos domingos, desde os alicerces à dentadura de vidros partidos -- veto indispensável ao arrojo da gatunagem.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

segunda-feira, agosto 11, 2025

zonas de conforto

«Palavra era palavra, mais ouro de lei que uma peça de D. João. Assinava-se de cruz e muito judeu seria aquele que negasse os dois rabiscos lavrados de seu punho, porque não era só negar dois rabiscos, mas o grande sinal de lisura e de verdade que Jesus Cristo deixou aos homens ao morrer num madeiro para nos remir e salvar! Vão lá agora com essas!...» Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922)

«O rapaz tornou a tolher-se de medo, e perguntou a meia voz: / -- Seria a alma? / -- Do senhor capitão-mor? Não me pareceu; que ela ia de saia escura e levava um saiote pela cabeça. / Neste comenos, descia o moleiro do lado da serra pela barroca escura com dois jumentos carregados de foles, e vinha cantando: // Já fui canário do rei, / Já lhe fugi da gaiola, / Agora sou pintassilgo / Destas meninas d'agora.»  Camilo Castelo Branco, Maria Moisés (1876-77)

«Diante de cada cruz pregada nos troncos da mata, tirava o seu barrete de pele de coelho, rezava uma ave-maria. Ao passear na lagoa, mais reluzente, sob a amarelidão da tarde entre os seus altos canaviais, que uma moeda de ouro nova, deixou um molho de carqueja e de achas para o ermita, que ali erguera a sua choça de rama.» Eça de Queirós, S. Cristóvão (c. 1891/1912)

o que está a contecer

«A podridão tinha chegado ao âmago da árvore, e ela devia secar. O próprio clero se corrompeu por fim. O vício e a degeneração corriam soltamente, rota a última barreira. / Foi então que o célebre Roderico se apossou da coroa.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

«Fazendo sentinela à terra pródiga, duas cerejeiras contrastavam, pela sua frescura e opulência da folhagem, com a figueira árida -- apesar de tudo muito mais feliz do que a bíblica, pois Judas fora substituído por uma grande abóbora amarela, que pendia da primeira forquilha. » Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) 

«Constou-me aqui há dias que a Sr.ª Joaquina de Vilalva  tinha um gigo de livros velhos entre duas pipas na adega, e que as pipas, em vez de malhais de pau, assentavam sobre missais. O meu informador denomina missais todos os livros grandes; aos pequenos chama cartilhasCamilo Castelo Branco, A Brasileira de Prazins (1882)