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sexta-feira, agosto 12, 2022

A CATEDRAL, de Manuel Ribeiro (cap. XIII)

 continuar: «Os trabalhos decorriam lentos.» Início do cap. XIII, p. 225 da minha edição.

Um outro diálogo se trava agora, entre Luciano e o cónego Fulgêncio, descrito como «um padre octogenário, alto, macilento, de uma magreza de asceta, que se arrastava penosamente encostado a uma bengala.» Colóquio bastante mais interessante do que o ocorrido entre monsenhor Santana e Maria Helena, eivado de preconceitos de casta e sentido das conveniências. Não, o cónego Fulgêncio é outra fruta, embora partilhe com o monsenhor a mesma reserva quanto à fé ou ausência dela relativamente a Luciano, indo até onde a este mais dói -- o fundamento do trabalho de restauro da Sé de Lisboa, a que se entregara. Personagem interessantíssima, o cónego Fulgêncio tem o atractivo de juntar a rezinguice e um entendimento apertado da religião a uma benevolência que acaba por tornar a reprimenda quase doce, mesmo que qualificando como sacrílego o trabalho desenvolvido pelo arquitecto:

«-- Mas a Arte / -- A Arte, o quê? / Pois não será a Arte capaz de restituir a vida à velha Sé, sr. cónego Fulgêncio? / -- Que vida queres tu dar-lhe, grande tonto? Fosses embora capaz -- que não és -- de repô-la na primitiva, de a consertares toda, pedra por pedra, do portal até à ábside, do pavimento até às torres, supões tu que lhe davas vida? Cuidas que a reanimavas? Bem sei que queres à catedral, bem sei que te comove esta ruína. [...] Tu és sincero, amas esta igreja; mas na realidade, o que te entristece não é a ruína do seu prestígio, é a lepra das suas paredes. O que te dói não é a alma que se extingue, é a necrose das pedras. O que te interessa, o que te preocupa é apenas a forma, o involucro estético duma alma que desconheces. [...] Ora com que alma queres tu trabalhar aqui? Sim, com que ideal te propões tu, mais os teus operários ímpios, reanimar a velha igreja que a fé doutrora ergueu ao céu?»

(continua) 


terça-feira, agosto 09, 2022

A CATEDRAL, de Manuel Ribeiro (1920) cap. XII

Continuar: «Este episódio da capela do Sacramento marcara nova fase na paixão de Maria Helena.» (p. 213 da minha edição)

Um capítulo que se resume ao colóquio entre condessinha e o preceptor, monsenhor Santana, que expende os argumentos não apenas do desnível de posição social -- a impossível ligação entre uma representante da grande nobreza e um vulgar artista, de nascimento ilegítimo --, a que acresce a desconfiança perante uma suposta devoção de Luciano, nada canónica: «Não se iluda, Maria Helena. A paixão desse rapaz pela Igreja não é a nossa sólida e tranquila fé católica; é uma exaltação doentia da sensibilidade, quando muito veleidade artística em que a religião só entra como factor decorativo. Um desequilibrado, afinal, é que ele é! Pois que há-de chamar-se a uma criatura que vive na igreja e não pratica, que reza o ofício e não comunga Deus?»

quinta-feira, julho 28, 2022

A CATEDRAL, de Manuel Ribeiro (1920) cap. XI

 continuar: «Esta Santa Cecília -- dizia a condessinha para Luciano, uma tarde de visita às obras da capela nova, folheando a Legenda Aurea para a escolha das cenas dos vitrais, -- Santa Cecília é uma das santas que mais me seduzem.»

Cecília, mártir romana forçada a matrimoniar-se com um pagão, que depois converte, S. Valeriano, sendo o seu um casamento branco, acabará por constituir-se para Maria Helena o vislumbre de uma saída para a paixão declarada por Luciano, num oportuno episódio de encerramento acidental num recinto da Sé, a sós, e a que aquela, em transporte místico, obviamente  corresponde. Mas o arquitecto, diria, não lhe fica muito atrás, considerando o Amor um agente lustral, dirigindo-se à condessinha deste modo: «Amar é purificar-se. Quando o amor entra uma porta da alma, sai a impureza por outra. Amar é avistar Deus.»

domingo, abril 17, 2022

mística ascética e profana: A CATEDRAL (1920), cap. X

 
continuar: «Naquela manhã Luciano fizera subir a condessinha e os sesu amigos à galeria do trifório, onde demolições recentes tinham posto, a descoberto, sobre a capela Joanes, a galeria românica primitiva.»  Manuel Ribeiro, A Catedral, início do cap. X, p. 181 da minha edição.

Um problema recorrente de Manuel Ribeiro neste seu primeiro romance, que é um romance de tese, é o desequilíbrio funcional entre o que tem para dizer, o que deve dizer e a forma como o diz. A exposição das teses, de enfiada, prejudica o equilíbrio do todo, não obstante o brilho e a riqueza estilística com que é exposto. Desse ponto de vista, é um regalo, não para aquele leitor, digamos ingénuo, que anda à cata de história ou historietas, mas antes do que se diz através da escrita; pelo menos o quê ao como. Considerado o capítulo linha à linha, é sempre um prazer ler o Manuel Ribeiro; no entanto, considerando que mais de metade das quinze páginas do capítulo se expende uma prelecção de  enfiada sobre o românico, feita por Luciano, suscitada pelo bom do padre Anselmo, que. menosprezando o gótico, contrapondo aos ornamentos "artificiosos" deste, «a beleza natural a transpirar das formas sãs e vigorosas» do românico, acaba por ser excessivo.

Cabe, aliás, ao ascetismo de Anselmo um dos momentos divertidos desta parte, em especial quando compara a Sé e os Jerónimos:

«-- Uma miséria de igrejas esta Lisboa! -- dizia padre Anselmo com ar de lástima. Não temos na capital um lugar onde a gente se refugie, onde se possa orar com recolhimento. Os templos não têm beleza nem tradições e, exceptuando a catedral, são todos modernos e ateatrados. Há os Jerónimos, é verdade. Mas, Deus me perdoe, tresanda a paganismo. Não é igreja, é um galhardo marinheiro das naus da Índia com um barrete de clérigo na cabeça.»

O enleio entre Luciano e Maria Helena, a condessinha, prossegue,  sincera mas superficialmente casto, com a sublimação das formas dela nas da catedral.

terça-feira, novembro 30, 2021

os cabelos em pé: A CATEDRAL (1920), de Manuel Ribeiro, cap. IX


Continuar: «Ora aqui tem, senhor Luciano -- dizia padre Tiago no Capítulo, desdobrando diante do arquitecto uma larga folha de papel coberta de garatujas -- Aqui tem a minha colheitas de "siglas".» Início do cap. IX, pp. 159-180 da minha edição.

A propósito das tais siglas que o padre epigrafista trouxe a Luciano, discorre-se sobre o significado possível dessas marcas de canteiro e a condição dos operários medievais. Destes para os da actualidade vai um pulo. É quando se sabe que os homens que trabalham no restauro da Sé são sindicalistas. Os cabelos em pé da maioria dos padres circunstantes, E então é chamado João Coutinho, um dos mestres pedreiros, que entabula um diálogo, primeiro com o cónego Rocha, depois com o liberal ou progressista padre Tiago. 

Deve dizer-se que Coutinho representa esses sindicalistas cultivados, como era seu apanágio. Recorde-se que o quase mítico Manuel Joaquim de Sousa (1883-1944), secretário-geral da CGT, era sapateiro de profissão; essa mesma CGT que fundou para os trabalhadores o diário A Batalha, com um importante suplemento cultural, bem como a revista Renovação. O seu discurso, sempre sereno, pauta-se  pelos pressupostos ideológicos do anarco-sindicalismo: federação de trabalhadores dos vários sectores, com vista à eclosão de uma greve geral que irá desencadear a revolução social, demolindo a sociedade iníqua do presente. E para isso o Estado terá de ser desmantelado, e com ele todos os aparelhos coercivos, sem falar na Santa Madre Igreja, o grande anestésico moral ao serviço da classe dominante; como, aliás, se infere das palavras do cónego, um ultramontano. O mesmo, porém, não sucede com o padre Tiago, cuja dialéctica se desloca para o terreno do operário. «-- A Igreja perfilha em absoluto as suas doutrinas, senhor João Coutinho.» -- apresentando o Messias como um socialista e revolucionário, e que, na verdade, diga-se, fez sempre parte do apostalado inconformista laico. Portanto, não é de estranhar que a arenga apologética do padre Tiago, ao apresentar a ideia de Igreja Universal como precursora do federalismo; e o próprio Jesus Cristo como primeiro socialista, «que disse melhor nalgumas parábolas o que Karl Marx definiu mal em indigestos tratados.» Mas não deixa de afirmar que o materialismo é pobre para a dimensão humana: «E depois?, sim, e depois? Que é que encontram no termo da sua jornada? O estéril negativismo, a monotonia do nada, a tristeza do fim. É inegável que os senhores planam acima da terra-a-terra vulgar, acima dos outros homens que refocilam como vermes nos mais abjectos egoísmos; mas isso é nada, isso é ainda rastejar, comparado a esse frémito duma alma crente batendo as asas para Deus.» E, com estocada de mestre, desafia: «Porque não tenta, pois, o grande voo? Teme a vertigem? Ofereço-lhe o meu braço, o braço forte da Igreja que não recusa nem se recusou a ninguém, jamais!» Curiosa é a reacção de Coutinho, após a demonstração de eloquência do padre epigrafista. Percebe que esta é uma outra estratégia de adaptação e sobrevivência da Igreja, «sinuosa», «elástica», adaptando-se a todos os regimes. E pergunta-se, apreensivo: «A Igreja, que escapara ao liberalismo, que sobrevivera às repúblicas, ia ainda surgir, como escalracho, nas searas vermelhas da sociedade futura?»  Se a contenda cortês, porém oposta, entre estas duas personagens secundárias do romance, o operário sindicalista e o padre progressista terão algum remate, é o que se verá. Para já, continuo assombrado com este processo de conversão de Manuel Ribeiro, aparentemente assim, à vista de todos. O que me levará à leitura do livro de Gabriel Rui Silva, Manuel Ribeiro -- O Romance da Fé, para melhor descortinar o modo.

quarta-feira, novembro 24, 2021

erotica mystica: A CATEDRAL (1920), de Manuel Ribeiro

 continuar: «Todos os dias era certa a condessinha à missa das 12 na Sé.» início do capítulo VIII, pp. 151-157 da minha edição).

Como se perdidos nos debates políticos do capítulo, a Igreja em face da República, somos relembrados da devoção de Maria Helena e das deslocações diárias à Sé, umas vezes acompanhada da criada, outras, só. E cada dia mais aprecia o trabalho de restauro de Luciano, que este lhe transmitia com ardor: «Toda a Idade Média romântica começava a surgir do fundo dos tempos.», verificava, encantada. E no recolhimento em oração fervorosa na capela de família fixara-se no rosto dum Cristo jovem e pelos vistos atraente, vindo das oficinas de São Sulpício, em Paris: «Como ela amava a linda imagem! [...]  Ah! ser uma eleita de Jesus, como as santas doutrora, e receber as complacências do seu amor! E dava-se-lhe toda num arroubamento , punha-lhe a alma no regaço, presa no íman do seu olhar. Via-se ao lado dele pelas amplas avenidas das naves bordadas de odoríferas árvores, errar, divagar numa estrada macia de sonho. Viver ali na sua catedral, cheia dele, impregnada da sua doçura, não era a felicidade suprema?» A este Jesus, que tanto diferia do agonizante na cruz que fora habituada a ver, era de prever que tanta exaltação iria transmutar a pedra em carne; e quando fixa o rosto, já não era o do deus filho, mas o daquele que não teve força para encarar sem perder os sentidos.  

segunda-feira, novembro 22, 2021

a reunião do capítulo da Sé: A CATEDRAL ( 1920), de Manuel Ribeiro, cap. VII

[retomo a leitura comentada do esplêndido romance de Manuel Ribeiro. O que está para trás pode ser lido aqui]

continuar: «Havia aquela tarde reunião no CapítuloInício do cap. VII, pp. 133-150 da minha edição).

O estado da Igreja portuguesa é o grande debate no capítulo, com posições distintas, nesse período de perseguição durante a I República. Uma das correntes, defendidas pelo cónego Rocha, «um fundo reaccionário». sustenta que a Igreja deve combater no campo do inimigo, usando armas idênticas, como a criação de um partido cristão. O beneficiado Trigueiros, por sua vez, representa a corrente ultraminoritária que toma o partido de uma igreja nacional, independente de Roma -- com tradição, aliás, no cristianismo ocidental, e também entre nós, com Pombal, que chega a ameaçar o papado com uma acção desse género, como forma de pressão na questão jesuíta. Uma terceira posição, idealista, a única que disputa importância com a primeira, defendida pelo nosso conhecido padre Anselmo, é a de uma igreja que se afirme pela penitência e oração dos seus membros, tendo como referência o exemplo do Padre Cruz (1859-1948). Uma quarta personagem intervém decisivamente, o beneficiado Tiago, cosmopolita e ardente, erudito, epigrafista consagrado, defensor das obras de restauro da Sé levadas a cabo por Luciano. Defensor de uma Igreja universal assente em Roma, à imagem de Gregório VII (Século XI), não teme os partidos laicos ou a Maçonaria, vistos como manifestações já decadentes, nem crê suficiente para a regeneração da influência da Igreja o papel da penitência ou da oração, por manifestação exclusivamente individual; para si, a Igreja é a instituição perene da Humanidade, a única capaz de redimi-la:

«Foi a Igreja que salvou o mundo. Cristianizar é desbravar. [...] Ela é, de facto, a garantia, a única força inquebrantável contra o desagregamento anti-social, o despenhamento na barbárie! Que Ela domina as consciências, que tiraniza os espíritos! Mas o templo cristão franqueia as suas portas, acolhe os que o buscam sem distinção e não inquire das crenças de quem lhe cruza o limiar, porque os homens -- todos os homens! - são filhos de deus e nenhum o ultraja com sua presença. Onde há aí casa assim tolerante? A Igreja é bela, a Igreja é única! Só ela pode satisfazer um espírito ansioso, só Ela pode dar a felicidade à alma, porque, no meio dos turbilhões sociais que tudo arrastam e aniquilam, a Igreja é o amigo que nunca trai, o braço que nunca se esquiva, a porta que nunca se fecha...». 

A questão religiosa vai de par com a Questão Social, é este o desafio, sem perda de tempo em enfrentar o jacobinismo organizado. Podendo depreender-se -- o desenrolar da narrativa o dirá -- que a luta decorrerá no seio das massas, desvalorizando os partidos e a Maçonaria, conforme a interpelação ao padre reaccionário:

«Não há alianças com cadáveres, senhor cónego Rocha! O mundo velho agoniza. Saudemos o mundo novo! No naufrágio das sociedades, mais uma vez a barca de Pedro se orientará para novos rumos.»

O padre Tiago traz a discussão a ideia de intervalo defendida pelos anarquistas: está-se num processo intervalar (O Intervalo, note-se, é o título de um romance de Ferreira de Castro em 1936, só publicado em 1974), em que o velho mundo está a ruir e um mundo novo está ainda por alcançar. É pois um momento de luta, demolição e sangue. O capítulo está boquiaberto:

«Os padres olharam-se estupefactos. Que significava tal linguagem? Até onde queria padre Tiago chegar? Transigir com a Revolução? pactuar com a anarquia? Mas o beneficiado estaria doido?...»

Veremos até onde quis chegar Manuel Ribeiro.

terça-feira, maio 18, 2021

leitura contínua: A CATEDRAL (1920), cap. VI


Continuar: «Fora de angústia mortal aquela semana que acabava de passar.» 

Manuel Ribeiro, A Catedral (1920), início do cap. VI, pp. 117-132, da minha edição. 

* Os espíritos amam-se já intensamente, sem outra ousadia que não a da sublimação, Luciano pela estética, Maria Helena pela mística. A erecção de uma capela consagrada à Virgem, acarinhada pela condessinha, a exemplo de certa catedral medieval francesa mas à partida e intimamente rejeitada pelo arquitecto, é mediada pelo capelão cantor, o padre Anselmo, personagem «inocente e insexuada», segundo o narrador. 

*A forma arrebatada como fala com Maria Helena acerca das criptas dos edifícios religiosos é reveladora do como o mundo do capelão cantor é doutro Reino: «A cripta é o âmago inviolado, o santuário discreto, o recolhimento interior, onde se comunga plenamente Deus. Aí as formas apagam-se, a criatura desintegra-se e dá-se toda ao seu Senhor. Em cima Deus é de todos. Em baixo, na cripta, é o encontro face a face, o desabafo sem testemunhas, a intercessão directa, sempre escutada e atendida.»

* O idealismo de Luciano e a paixão que vive tornam-lhe a ideia aceitável: «Quantas vezes sonhara ele erguer uma Santa Capela de Paris, onde reflorisse em formas imortais a beleza espiritual da Idade média, como protesto contra o industrialismo moderno, utilitária, interesseiro.»

* Enquanto Luciano se deixa absorver pela planta da Sé, Maria Helena embrenha-se na leitura edificante da Legenda Aurea, de Tiago de Voragine, não sem angústia. E então, como sucedera já com a liturgia, o narrador esparrama algumas páginas embevecido, invocando uma série de mártires da fé cristã. E com o auxílio do narrador alcançamos a reflexão da condessinha: «Sofria-se por uma crença, mas o objectivo era uma ideia.» Uma ideia que Manuel Ribeiro andava a perseguir, e também a ser perseguido por outra que lhe seria incompatível, ou talvez não: do comunismo anarquista passara ao comunismo bolchevique e daqui ao catolicismo. São tortuosos os caminhos do Senhor...



quarta-feira, março 24, 2021

um ateu a caminho da conversão

Continuar: «Maria Helena passava agora, todos os dias, alguns momentos na catedral, em serviço do Apostolado.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920), pp. 87-116 da minha edição.

Um capítulo um pouco extenso, mas delicioso, em que sobressaem alguns aspectos muito relevantes. Comecemos por um parágrafo em que a descrição das obras na Sé nos dá a ideia de um trabalho num organismo vivo -- ou pelo menos não inanimado.

«Renascia a catedral. Todo o navio arfava no ritmo da vida. Mais do que nunca, a Sé parecia animar-se. A sofreguidão dos trabalhos, a azáfama das obras, a vibratilidade que parecia terem adquirido as estruturas íntimas sob o influxo restaurador, infundia tudo o sentimento da força a agir, do sangue a circular. A catedral vivia, palpitava, sentia, e isto revelava-se na epiderme nova dos silhares, nos tufos arbóreos das nervuras, nessa inesperada primavera da pedra que desabrochava pelos capitéis uma flora estilizada. A catedral vivia. E que admirar era que as catedrais vivessem? Não formavam o substractum de tanta vida decomposta, o resíduo dos seus artistas que até os corpos lhes haviam dado? Elas tinham, de facto, surgido das entranhas da terra, argamassadas com o seu sangue e caboucadas com os seus ossos, assim como as ilhas madrepóricas, que sobem do fundo dos oceano feitas dos cadáveres dos seus artífices...» 

O comunista e antigo anarco-sindicalista não esquece o factor trabalho, aqui iluminado pelo entusiasmo que o narrador empresta ao afã operário, como se trabalhadores e edifício participassem duma mesma célula.

Um outro aspecto, o da atracção que se vai desvelando entre Luciano e Maria Helena, esta que, transpondo inopinadamente o limiar da capela de família, vê-se retratada num capitel que aquele esculpia, com Luciano «só deseja[ndo] que o sorvesse o chão, que a catedral o tragasse.»:

«[...] uma deliciosa e adorável cabeça de mulher, reproduzida da máscara e de que ressaltava em medalhão a face, surgia, graciosa e grave, a expressão suave e melancólica, um ar antigo de santa. Reparando bem, parecia que a folhagem não era mais que uma imperceptível sequência da sua cabeleira ondulada que se bipartia na testa e inflectia delicadamente aos lados, até surgir gradualmente, na grinalda de miudinhas folhas.» 

Também para Luciano se dava a osmose do edifício com a vida, tal como sucedia com os trabalhadores. E aqui paixão e vida entranhavam-se: «Ele amava, amava Maria Helena nas formas artísticas da catedral.»

Mercê do seu trabalho diuturno e pelo facto de residir no sopé da catedral, e pela vontade de se aproximar da condessinha, percebendo-a e tentando decifrá-la na sua religiosidade, começa a interessar-se pelos ofícios litúrgicos. E é então que estudando, intuindo, compreendendo, tendo como (inconsciente?) coadjuvante o jovem padre Anselmo, que Luciano «começa a resvalar no pendor místico da religião». E as formas, os cânticos, os símbolos -- o «admirável jardim [...] litúrgico» -- começam na sua harmonia a interessá-lo, a conquistá-lo, como de resto haviam já conquistado o narrador, como se pode ver neste parágrafo:

«A álea [desse jardim] começava no Advento em fundos dominantes de violeta donde sobressaíam de longe em longe, os grandes lírios alvos dos confessores, as castas rosas brancas das virgens, os cactos rubros dos apóstolos e dos mártires. No tempo do Natal, tudo se decorava duma brancura láctea, tudo era branco, até a própria vigília da Epifania. Depois a paisagem reverdecia. Em breve, porém, o horizonte arroxeava-se, e a septuagésima passava violácea entre os maciços de goivos de Quinta-feira maior e a cinza trágica de Sexta-feira santa. Mas já no tempo pascal, a paisagem desentenebrecia-se, os tons amaciavam e o branco criador surgia de novo, galopava, polvilhava tudo de penas alvas. E outra vez reapareciam, do Pentecostes e o Advento, as largas manchas verdes, donde sobressaíam, de longe em longe, os grande lírios alvos dos confessores, as rosas brancas das virgens e os cactos rubros dos apóstolos e dos mártires...»

Se o ofício completo da missa seduz Luciano como «uma refinada condensação de arte», o acto de orar apresenta-se-lhe como «atitude estética empolgante», sentimento reforçado pelo misticismo do seu interlocutor, o padre Anselmo, para quem a oração periódica diária se reveste de uma indizível transcendência: «E há na vida ocupação mais digna, trabalho de mais apreço, de maior elevação espiritual que este culto ininterrupto ao grande Mistério que envolve o universo e a que só é indiferente a mais grosseira materialidade?»

Fosse pelo amor, fosse pela estética, fosse, ainda, por um preenchimento de um vazio interior, Luciano parece resvalar a passos largos para dentro da fé. E quando o jovem padre começa a explicar a Liturgia das Horas, com os cânticos que lhe pertencem, ao arrebatamento da música associada ao ofício divino, puro esplendor monacal, então é já o narrador que se vislumbra tocado pela Graça:

«-- Matinas é o cântico da noite, a hora que simboliza a adoração dos anjos e dos pastores a Jesus recém-nascido, e o início da sua Paixão na dolorosa noite do Horto. Luzem no céu as estrela e nem prenúncios de alva assomem no oriente. O invitatório e o salmo Venite exsultemus com que ele alterna em ritornelo, a seguir à doxologia, incitam os fiéis a que louvem Deus na alegoria dessa exortação dos anjos aos pastores ma messiânica noite redentora -- e são o prólogo dos três Nocturnos que chegam rolantes como batarias, guarda avançada dos salmos que vão desfilar pelo dia adiante. Apagados os ecos das três vigílias, que simbolizam as três vezes que Jesus se afastou dos discípulos para orar, quando foi preso, e as três etapas da lei religiosa -- patriarcal, mosaica e cristã, -- eleva-se aos domingos e nas festas de rito simples, o apoteótico cântico ambrosiano, esse rutilante Te Deum laudamus, que nimba o remate da hora com os primeiros raios de sol nascente.»

Recorde-se que Manuel Ribeiro dirigia o jornal bolchevique Bandeira Vermelha. Se falamos de um ateu -- ou talvez agnóstico, distinção a fazer-se -- a caminho da conversão, não podemos esquecer também a circunstância de Manuel Ribeiro, ex-anarco-sindicalista, comunista bolchevique. Que a conversão já lá anda, parece quase evidente, salvo melhor opinião.

quinta-feira, fevereiro 11, 2021

espírito e carne - «A Catedral» (3)


Continuar: «Entretanto iniciavam-se na Sé as obras de restauração.» Início do cap. III, pp. 41-78 da minha edição.

As obras põem a Sé em polvorosa, desagradam aos mais velhos e a própria Helena de Monforte fica angustiada ao ver a capela de família intervencionada. Em defesa daquele «ateu», daquele «doido», daquele «Átila de camartelo» vem o padre Anselmo, o jovem musicólogo. Num domingo, durante a missa, a condessinha tem uma espécie de revelação, que a leva a questionar a sua desconfiança ou má-vontade para com o trabalho de Luciano: 

«Nesse domingo, porém, uma surpresa durante a missa causara-lhe estranha emoção. Tinham acabado de aparelhar a rosácea do cruzilhão norte. Desarmado o andaime e o tapume envolvente, a admirável rosa de pedra reabria, inteiramente nova, no fino talhe românico, com o desabrochamento radial das nervuras emoldurando pétalas de luz. Maria Helena erguera os olhos e ficara em êxtase deslumbrada. Como aquilo fora não sabia. Donde a linda rosa viera, ignorava-o. Como ela abrira lá no alto, mistério. mas lá estava, a mágica túlipa esplendorosa, fresca e vicejante, reverberando na sombra doce da nave as palpitações multicores do seu coração incendiado.»

Será quando visita furtivamente, na companhia do padre Anselmo, que fala demais, a sua capela, consagrada a Santa Cecília, já objecto de restauro, porém inacabado, estando por isso o acesso vedado a todos -- será nessa ocasião que, ainda sem o saber (nem o leitor, de resto), Helena de Monforte se apaixona por Luciano. O narrador de Manuel Ribeiro dá-nos isso muito bem:

«Polvilham o recinto camadas de poeira branca e detritos finos de calcário. Na restauração fora refeita toda a ábside da capela. [...] A delicadeza alígera da  fenestragem sobressaía no fino talhe arredondado de molduras e nessa beleza inenarrável, verdadeiramente religiosa, do arco que foge à curva rígida e se quebra para a tocar furtivamente, na graça dum beijo casto trocado a medo por dois amantes. / O rubor incendiara o rosto de Maria Helena. Aquilo era por ela e para ela...»

É interessantíssima a forma tão estilisticamente dúctil com que o narrador discorre  sobre os pormenores técnicos e decorativos do edifício, tornando uma matéria árida, porque técnica, num discurso fluente; e também a erudição e o deleite nas referências à patrística e à história monástica. Não é de admirar que a conversão estivesse a germinar e a desenvolver-se em Manuel Ribeiro, um ano antes de ser um dos cofundadores do PCP.

O único senão deste capítulo para o leitor comum é a longa explanação da história do monaquismo e dentro dela da Ordem de São Bento, pelo simpática tagarelice do padre Anselmo, levando-o a perder as Completas. Capítulo que termina um pouco precipitadamente com a descrição física de Helena e uma flechada cupidinosa bem desferida:

«Luciano viu-a marchar no lajedo, alta e tenra, espiritual e fina, numa harmonia de linhas que traía a raça. O busto evasava-se-lhe em curva harmoniosa de ânfora a que dava deliciosa frescura o corpete de cetim claro dobrando-se em gola no colo, sob o casaco tailleur, numa graça vegetal de gamopétala. E, despedindo-se dos seus amigos, a fidalga já no trem, sublinhou um último cumprimento a Luciano, num tão eloquente sorriso, que o artista sentiu a alma fundir-se-lhe de ventura...»

(leitura em progresso, aqui)

quarta-feira, fevereiro 03, 2021

a 'condessinha' -- «A Catedral» (2)


 Continuar: «D. Francisco Diogo de Pina Coutinho, 3.º marquês de Pombeiro e 5.º conde de Linhares, cujas genealogias entroncavam na mais antiga nobreza do reino, fora um dos grandes fidalgos portugueses que entraram, em 1640, na conjuração nacional contra o jugo de Castela.»  Manuel Ribeiro, A Catedral (1920) Início do cap. II, pp. 29-39 da minha edição.   


Capítulo que mostra as origens familiares de Maria Helena de Monforte, a condessinha. Os antepassados estiveram na Restauração, na Guerra da Sucessão de Espanha, contra os franceses nas Invasões, contra D. Pedro e com D. Miguel na Guerra Civil, cujo destino de expatriação partilharam. «Toda a história da sua casa era um pouco a história de Portugal.» É o pai de Maria Helena, D. Álvaro de Ataíde, que se retira de Paris, quando a República é implantada -- a primeira referência que permite situar no tempo a acção do romance. Morta a mãe, Eulália Zarco, filha dos condes de Borba, ainda jovem, deixando o pai na apatia, embora estremecendo a filha criança, esta será educada pelo capelão da casa materna, Monsenhor Santana, um tradicionalista, e por uma tia freira, madre Maria Peregrina, superiora de um colégio religioso entretanto encerrado pelo governo.

Uma educação para o exercício da autoridade e sentimento de superioridade dado pela estirpe, colide com o temperamento afável e bondoso da condessinha, que, fruto também da educação é dotada de um expressivo sentimento religioso, que pratica na capela de família, situada na charola da Sé de Lisboa. 

«Ela não era inteiramente como monsenhor pretendia. Maria Helena sentia-se realmente superior, não porque fizesse pedestal de alguém, mas porque pairava em um mundo de idealidades. Sua soberania não se alimentava de humilhações. Monsenhor fora talvez ludibriado. Em vez dos graves princípios brotando das sementes dos seus conceitos, irrompia da alma da condessinha uma flora tenra, suave, como seara de linho que se estrelava de flores azuis do sonho. A história aparecia-lhe sobre refrangências de lenda e os heróis sobressaíam nimbados em fundos de religiosidade. Ser vassalo da Igreja era prestar fidelidade ao bem.»

terça-feira, dezembro 29, 2020

a procura do risco primitivo -- «A Catedral» (1920) (1)


«Era a hora de Matinas. A sineta do claustro tangia, a convocar os capitulares para o coro, quando Luciano passou da sua alcova à biblioteca, entreabrindo uma pequena porta e afastando uma massa rígida dum brocado que descia do lambrequim em pregas hirtas, adornado de eucarísticos lavores de seda e oiro. Em seguida, acercando-se duma janela cujas portadas tinham ficado despreocupadamente abertas, descerrou, num gesto largo, as vidraças de par em par, e aspirou com delícia a onda do ar fresco, que inundou a casa, impregnado dos vapores que do jardim, em baixo, se evolavam.»  O parágrafo inicial do romance de Manuel Ribeiro A Catedral (1920), pp. 4-28 da minha edição: Guimarães & C.ª Editores, Lisboa, s.d.


O tempo. Matinas -- antes do raiar do Sol, hora de oração e leituras de textos bíblicos e hagiográficos. Tempo histórico apenas referido no segundo capítulo.
O espaço. A referência a um claustro, a capitulares e a um coro, indica estarmos numa casa religiosa, obviamente sem surpresa, atendendo ao título do romance. Uma ligação directa da alcova à biblioteca, pode indiciar um aposento privilegiado para quem tenha hábitos, necessidades e práticas do foro intelectual.
Personagem. Luciano, habita no recinto, no qual parece deambular à vontade. Sabemo-lo, quantos lemos o romance, tratar-se de pessoa decidida e com ideias firmes. O «gesto largo» com que abre as janelas e aspira o ar da rua a plenos pulmões são gestos e atitudes que prenunciam a sua assertividade.
Impressões. o som (a sineta que tangia); a visualização do peso do lambrequim; o ar madrugador e refrescante que Luciano aspira a plenos pulmões.
O modo. As referências ao brocardo revela a permanência da estética naturalista, com todas as minúcias descritivas, aliás riquíssimas.

O capítulo inicial do romance põe em cena três personagens: o já citado Luciano, um jovem arquitecto de vinte e dois anos, interessado pela História da Arte e apaixonado pela Sé Catedral. Além de impetuoso e apaixonado pelo velho monumento, Luciano «desdenha[va] da profissão o utilitarismo interesseiro»; era, pois, um idealista. O parágrafo seguinte dá-nos o laço estabelecido entre o protagonista do romance e o enlevo pelo objecto da sua realização pessoal, e não tanto profissional:
«Luciano tinha-se deixado ficar à janela e contemplava, com alvoroço e flama estranha no olhar, a basílica qye se erguia já doirada nos cumes pelo sol matutino.  Vista do ramo transversal do claustro e no prolongamento do eixo da igreja, a ábside desenrolava em frente do espectador a sua elegante redondeza, e o frémito alado dos arcobotantes, com a ossatura frágil em pleno equilíbrio aéreo, dava-lhe tal ar de vida palpitante, que era de recear que uma carícia mais quente do sol filtrando-se nos poros da pedra, a catedral abrisse as asas e erguesse o largo voo nessa lúcida manhã de tempo claro.»
Esta relação quase erotizada que o narrador descreve dá também a medida de como Manuel Ribeiro se envolveu com esta testemunha vetusta do tempo. O conhecimento minucioso de cada passagem do templo é-nos dado com uma leveza correspondente à delicadeza deste perscrutar sensível que empreendeu. A Sé fora vítima das injúrias dos anos e dos pseudo-restauros, e Luciano anseia por arrasar com toda a «beleza falsa», para tentar recuperar o risco original. 
O pai de Luciano era o cónego da Sé, Porfírio de Sampaio e Melo, uma figura prestigiada do clero, aristocrata de origem  tradicionalista, filho segundo destinado à vida religiosa, desiderato que cumpre, menos por vocação do que atinência a uma ordem estabelecida, cuja família é um dos esteios. O arquitecto é fruto de «amores com uma certa beata lasciva» que rejeita o rebento. É o pai que o acolhe e perfilha, embora para o mundo apareça como sobrinho.
Uma terceira personagem, o padre Anselmo, jovem musicólogo apaixonado pelo canto gregoriano, chegando a corresponder-se com a maior autoridade da época o monge beneditino André Mocquereau, da abadia de Solesmes, alguém que estabelece com Luciano um diálogo no mesmo comprimento de onda.
Há ainda uma alusão à protagonista feminina do romance, Maria Helena de Monforte, condessa de Borba, ou a condessinha, como se lhe referem, com uma devoção por Santa Cecília, cuja capela a família mantém há gerações.
Um concurso para restauro será aberto e Luciano, provavelmente por influência do cónego, será o escolhido.

Anarquista, comunista, católico. Manuel Ribeiro quando escreve A Catedral é um elemento minoritário, embora cheio de prestígio, na Confederação Geral do Trabalho (CGT). Está, aliás, em choque com a corrente mais apolítica (aqui entendendo-se como apartidária). Torna-se, assim, em 1919, a principal figura da Federação Maximalista Portuguesa, que irá originar, em 1921, o PCP. Em 1920 (não consegui apurar se antes ou depois de publicado o romance), Ribeiro estará preso na Cadeia do Aljube, do outro lado da rua da Catedral...