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22.5.11

SAIR DAQUI





«O verdadeiro problema que enfrentamos no rescaldo de 1989 não é o que pensar do comunismo. A visão da organização social total - a fantasia que, de Sidney Webb a Lenine, de Robespierre a Le Corbusier, animou os utópicos - jaz em ruínas. Mas a questão de como nos organizarmos para o benefício comum continua tão importante como sempre. O desafio para nós é recupe­rá-lo dos escombros.» (Tony Judt em: UM TRATADO SOBRE OS NOSSOS ACTUAIS DESCONTENTAMENTOS, ed. 70, 2011)

Muitas vezes sinto-me resvalar para a descrença num futuro melhor da humanidade. É certo que vivo na Europa, uma parte do mundo em que a vida nunca foi tão rica em possibilidades de conforto material - os africanos que cruzam desesperadamente o Mediterrâneo sabem-no, mesmo que depois venham a ser varredores de lixo.
Mas as medonhas contradições  que atravessam esta sociedade e o gigantismo dos problemas económicos, de dimensão planetária, parecem dar razão à minha descrença, reforçada pela hecatombe humana em muitas partes do chamado Terceiro Mundo. Que fazer? - é a pergunta angustiada. Minha e de muitos que um dia acreditaram em amanhãs que cantam e olham o negrume em que estamos a cair.

Por isso olho para a Praça do Sol em Madrid, como olhei para o Cairo ou para a Tunísia, meses atrás, com um misto de esperança e de cepticismo. No meu espírito ecoam os exemplos de "Mãe Coragem" e dos camponeses da minha terra nos anos 50, mas não consigo esquecer as páginas negras de "Se isto é um homem ", de Primo Levi.

Releio o testamento espiritual deTony Judt e sinto-me confortado pelo gesto derradeiro deste  investigador e cientista social. Sabia que estava a morrer mas continuou à procura da saída do seu labirinto. Ele incita-me a não desistir de tentar.

16.2.10

BORGES E O LABIRINTO


Jorge Luís Borges pelo pintor argentino Luís de Bairos Moura


A cegueira levou Camilo Castelo Branco ao suicídio. Jorge Luís Borges encontrou nela uma luz para o conhecimento. Textos casuais, interesses dispersos, curiosidade inesgotável explicam uma obra em que não é possível encontrar fronteiras - sejam de cultura ou de língua. Universal.

Releio a maravilhosa entrevista/conversa de Mega Ferreira a Borges, publicada em "Retratos de sombra"  com o título «Borges ao anoitecer»( Assírio & Alvim, 2003):

" (…)« o texto é um campo aberto onde cada leitor deposita as suas esperanças, os seus desejos, a sua cultura. A obra só vive quando sobre ela se depositam os olhos do leitor. Repare, como é que interpreta o motivo do labirinto?»
O labirinto é a metáfora do cosmos, acho eu. A questão está em saber se, para ele, o labirinto é a vida tal como nos é revelada, ou a vida, tal como, para sempre, fica oculta da compreensão dos homens.
«Isso é muito interessante. Eu acho que cada homem tem o seu labirinto, que é dele e de todos. A questão está em saber encontrar a saída. Ora, a maior parte dos homens fica perdida nos corredores intermináveis, nas galerias suspensas sobre o nada, nas portas fictícias. Para quem desperdiça o tempo da sua vida à procura da saída, ou seja, para quem está lá dentro, o labirinto não é um cosmos, é um caos. É isso a vida, para a maior parte das pessoas.»
Falo-lhe da idade. Volto à ideia inicial: que coisas redimem a impotência do homem perante o «tempo sucessivo»?
«A idade preocupa-me pouco. A minha mãe, por exemplo, morreu com 99 anos. Eu não sei se ela terá sido...»
Maria interrompe, vivamente: «Feliz? Eu acho que sim, Borges, a sua mãe conservou todas as faculdades, toda a sua ener­gia e lucidez até cerca de um ano e meio antes de morrer. Eu acho que ela foi feliz.»
«Não sei. E tu, Maria, gostavas de viver até essa idade?»
«Se fosse como a sua mãe, acho que sim.»
Borges baixa os olhos sobre a mesa. Parece que se fixa num pormenor qualquer, mas isso é ilusão de quem vê. «Eu não sei. Mas a velhice, esta velhice, não me incomoda. Bioy Casares, por exemplo, faz-me impressão. Tem só sessenta anos e está completa­mente amargo com o envelhecimento. Hoje, é quase a sua única preocupação. Para mim, a velhice é uma serenidade. Ao contrário do que as pessoas pensam, não se sente o tempo a fugir-nos: tudo é mais calmo, às vezes, com felicidade, perde-se a noção desse tem­po que nos é exterior. Tudo tem o seu ritmo interno e é uma gran­de alegria aprender a não contar com o tempo.»
Daí o seu interesse pelo pensamento oriental?
«Sim, sim, é isso. Eu penso que os orientais estão muito mais próximos do que nós da eternidade, não acha?»