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27.12.10

LIVROS À MESA



José Quitério* tem sido o meu guia de mesa ao longo dos anos. Não é que tenha familiaridade com ele, vi-o uma vez à mesa já nem sei onde. Mas conheço-lhe as escritas gastronómicas no Expresso e num livro que me tem fascinado, "HISTÓRIAS E CURIOSIDADES GASTRONÓMICAS", (Assírio & Alvim, Lisboa, 1992).
Boa escrita de correcto tempero e paladar na confeção literária, e ingredientes de alta qualidade, a saber: sólida formação gastronómica, volúpia na degustação dos acepipes e vastos conhecimentos sobre a presença da arte  culinária nos grandes livros e autores. Uma delícia!
Veja-se, para exemplo, o índice dos dois primeiros capítulos do livro citado:





      CAPÍTULO I
                                   ESCRITORES À MESA

Pratos e Tratos da Inquisição (António José da Silva)
Camilo e o Caldo Verde
Júlio César Machado
À Mesa d'05 Maias
Eça e o Bacalhau
A Propósito de um Jantar queirosiano
Cesário e a Fruta
A Comida d'Os Gatos.
A Fialhesca Ressurreição
Comendo com Teixeira-Gomes
Aquilino e as Batatas

CAPÍTULO II
                       MESA COM ESCRITOS

Da Bibliografia Culinária Portuguesa
Velhos Livros de Vetustos Manjares
No Bragal da Infanta
Bento da Maia
Albino Forjaz de Sampaio: um Centenário Esquecido
O Doce Nunca Amargou
Pantagruel de Luto
Um Cravo para Paulo Duarte
Da Terceira, a Primeira
Elogio de Maria de Lourdes Modesto
Associações de Gastrónomos
Da Critica Gastronómica

* José Quitério: jornalista desde 1973, fundou a secção de gastronomia do semanário Expresso e é director da colecção de gastronomia da Assírio & Alvim — "Coração, Cabeça e Estômago"


José Quitério acaba de ver o mérito premiado, com o seu livro "ESCRITORES À MESA ( e outros artistas)", na Assírio & Alvim.




E a notícia sublinha:

 «O livro  foi galardoado no Gourmand World Cookbook Awards 2010, na categoria de Melhor Livro de Literatura Gastronómica em Portugal. Com este prémio passa à fase seguinte, onde irá competir a nível internacional para o prémio The Best in the World. Os resultados serão anunciados, numa cerimónia a realizar em Paris, no dia 3 de Março de 2011.»


José Quitério é tenaz defensor da gastronomia portuguesa, falta-lhe paciência para as natas no bacalhau e outras invencionices de restauração manhosa. O mesmo acontecia com Fialho de Almeida, de quem fala a propósito  de "A Comida d' Os Gatos" e que cita, no final do texto:

"O que é, segundo Fialho, um prato nacional? «Uma composição culinária rebelde a "escrita "dos manuais, característica inconfundível [...]. Transmite-se por tradição: os estrangeiros não sabem confeccioná-lo, mesmo naturalizados: tendo chegado até nós por processos lentos, e contraprovas de biliões de experimentadores, sucessivamente interessados em o fixar na sua forma irrepreensível resulta ser ele sempre uma coisa eminentemente sápida e sadia».«O prato nacional é, como romanceiro nacional um produto do génio colectivo: ninguém o inventou e inventaram--no todos: vem-se ao mundo chorando por ele, e quanto se deixa a pátria, lá longe, antes de pai e mãe, é a primeira coisa que lembra»."

E agora, se me dão licença, apago o computador e vou reler o capítulo "Louvor e simplificação de Gomes de Sá", uma lição de respeito pelo que é genuíno, uma denúncia de todas as mexerufadas culinárias que aparecem por aí com aquela designação.