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25.7.11

MINHOQUICES

Só há duas maneiras de falar de minhocas. Uma é esta:

http://revistagloborural.globo.com/GloboRural/0,6993,EEC1582438-4530,00.html

A outra é de Vitorino Nemésio:



A Minhoca


Um torrão de barro!
Eu vi um torrão de barro
Fresco, na enxada, e uma minhoca!
Aquele torrão cheiroso
Era a toca!

Eu vi bichas da terra,
Uma raiz ao sol,
Vi ervas verdes
E um osso.

E fiquei tão comovido,
Tão agradecido,
Que quis dizer isso a alguém,
Mas não sei a quem
Nem posso.
Eu vi a oliveira de bronze e de prata
Cheia de folhas e de pios,
E pelo vento soube dos rios.

Mas nem pinheiros nem fuminhos
De casais, semeaduras, cigarras,
Nem este pouco de poesia que me toca
E que do Mundo me desliga
Valem a pobre minhoca
Que se mexia para eu ver,
Só com metade da barriga.


Vitorino Nemésio ( in NEM TODA A NOITE A VIDA , 1952)


23.1.08

"Se bem me lembro..."



O «LUGAR ONDE» sobre Vitorino Nemésio já está no forno para sair quentinho na próxima Sexta-feira...

Também pode ser visto AQUI.

Como diria o Tarracha, engraxador à porta do café Central, na Praia da Vitória:

-Grande escritor! O homem até sabia tocar viola!!...

22.1.08

DUNAS




Lá onde a garça deixa
O seu último ovo
E os juncos melodiosos vão ao vento,
Aí, nem uma queixa
Nem sentimento
Novo.

Lá onde areias, bicos, água, o extenso
Mar sozinho se der,
Lá, só um lenço
E um malmequer.

O lenço, humano, pequenino
E o malmequer selvagem:
Ele só, teimoso e fino,
Guarda segredo à aragem.

Flor breve,
Adeus das dunas,
O malmequer me quis bem.
Em seu corpo radiado o mar me escreve
De amores piratas, sobre escunas
Que já não salvam ninguém.
Vitorino Nemésio, Nem Toda a Noite a Vida

3.1.08

VITORINO NEMÉSIO (1901 - 1978)


Recordo o professor que fazia das aulas uma viagem assombrosa pelas avenidas da literatura. Referências caóticas por vezes. Outras, de um humor desconcertante. Expressivo como ninguém, emocionava-se com uma citação para logo se rir de uma piada cujo alcance só ele percebia.
No exame de Cultura Portuguesa não me fez perguntas. Esperou apenas que eu seguisse os seus raciocínios. Ele lá sabia quando um aluno estava por dentro da conversa. Ou não...
Perguntas a sério fez-me depois o seu assistente das aulas práticas enquanto Nemésio pegava num livro, com ar enfastiado...
Partiu há trinta anos.









A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos



Segreguei-a de mim com paciência:


Fachada de marés, a sonhos e lixos.


O horto e os muros só areia e ausência.






Minha casa sou eu e os meus caprichos.


O orgulho carregado de inocência


Se às vezes dá uma varanda, vence-a


O sal e os santos esboroou nos nichos





E telhados de vidro e escadarias


Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!


Lareira aberta ao vento, as salas frias.



A minha casa... Mas é outra a história:


Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,


Sentado numa pedra de memória.






V. Nemésio, in: O Bicho Harmonioso