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25.3.17

CONFRARIA IBÉRICA DO TEJO




Há um ano realizou-se o 2º Forum Ibérico do Tejo que o texto relata com pormenores.



CONFRARIA IBÉRICA DO TEJO


Em 19 e 20 de Março de 2016, cerca de 200 pessoas reuniram-se em Vila Franca de Xira para participar no 2º Fórum Ibérico do Tejo. Estiveram presentes cidadãos portugueses e espanhóis que participaram activamente nos trabalhos. Analisaram-se temas como a gestão insustentável dos recursos da água, o mito da rentabilidade dos transvases, o património histórico-cultural do Tejo e a sua conservação e valorização, a reabilitação de linhas de água da bacia do Tejo, a astronomia no Tejo, a gestão dos recursos hídricos do Tejo, a utilização da água na bacia do Segura, as afinidades históricas entre Castilha – La Mancha e o Ribatejo, a valorização e a conservação do Tejo, e o legado cultural vivo que este rio representa. Deram corpo e alma a estes temas um conjunto de especialistas como Angél Monterrúbio Perez, António Carmona Rodrigues, Beatriz Larraz Iribas, Carlos A. Cupeto, Enrique San Martín Gonzaléz, José Bastos Saldanha, Julia Martinez Fernandéz, Máximo Ferreira, Miguel Mendez-Cabeza e Pedro Teiga. Estiveram presentes 26 autarquias, incluindo a anfitriã Vila Franca de Xira, das quais 15 Câmaras Municipais – desde Mação até Alcochete – que se fizeram representar através de stands de promoção local. De Espanha estiveram os Ayuntamientos de Talavera de la Reina e de Toledo. Esteve igualmente uma representação de Aranjuez. No grupo de conferencistas e de pessoas presentes estiveram representantes de cinco universidades – três portuguesas e duas espanholas – assim como de dois Institutos Universitários e um Instituto Politécnico (de Setúbal). Ao longo dos dois dias, o 2º Fórum Ibérico do Tejo foi o centro de um dos mais urgentes debates do nosso tempo e aí foi decidido, em sessão própria, criar a Confraria Ibérica do Tejo (CIT), tendo para o efeito sido nomeada uma Comissão Instaladora eleita pelos participantes. A dimensão transfronteiriça do Tejo implica uma visão ampla e multidisciplinar que esteve reflectida nos temas da iniciativa - Economia, Cultura e Meio Ambiente - e esses passarão a constituir o objeto social e o foco de acção da CIT. Pode sintetizar-se o espírito da futura associação como uma plataforma não reivindicativa, criada para aproximar pessoas e entidades ao longo do Tejo ibérico, para confluírem em pontos de entendimento válidos para o desenvolvimento harmonioso e sustentável das comunidades ribeirinhas. Com este espírito desenvolver-se-á uma actividade ao longo das comunidades situadas na bacia hidrográfica do rio que propicie a partilha de valores, sentimentos e interesses das populações e dos agentes políticos, económicos, culturais e ambientais, porque o Tejo precisa de recuperar a cumplicidade e a ligação entre os seus povos, através de projectos e de acções que devolvam a identidade ao rio e captem os investimentos que segurem as populações às suas origens. Além disso, a CIT procurará promover ações conjuntas com entidades que comunguem os mesmos princípios, ainda que localizadas noutras regiões da Península. A criação desta associação tem data marcada para 25 de Março de 2017, às 15 horas, no Museu do Neo Realismo, em Vila Franca de Xira. A Comissão Instaladora da Confraria Ibérica do Tejo.
(Texto in: http://www.cm-vfxira.pt/uploads/writer_file/document/15377/O_esp_rito_da_Confraria_Ib_rica_do_Tejo_e_a_sua_cria__o.pdf )

Hoje, 25 de Março de 2017, no Museu do Neo Realismo em Vila Franca de Xira, será a formalização desta nova associação.
Lá estarei. Nascido num concelho ribeirinho - Alpiarça - o Tejo foi a minha praia na juventude. Lá aprendi a nadar, em tardes de convívio sob o quentíssimo sol de Verão do Ribatejo.
Tejo - o grande rio da Península - necessita da participação dos cidadãos na sua defesa e preservação. Veja-se a gravíssima situação verificada há cerca de um mês:

http://elegante.pt/2017/02/09/poluicao-gravissima-do-rio-tejo-filmada-por-drones/











Lembrei-me de um belo livro que recebi há uns anos como prenda de anos. Com ele recordei as paisagens e os lugares habitados que rodeiam o grande rio, nos seus 1 070 km de percurso deste a Serra de Albarracim até ao Atlântico





Inevitavelmente, vem à memória o poema de Alberto Caeiro:

Pelo Tejo Vai-se para o Mundo

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, 
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia 
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. 
O Tejo tem grandes navios 
E navega nele ainda, 
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, 
A memória das naus. 
O Tejo desce de Espanha 
E o Tejo entra no mar em Portugal. 
Toda a gente sabe isso. 
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia 
E para onde ele vai 
E donde ele vem. 
E por isso porque pertence a menos gente, 
É mais livre e maior o rio da minha aldeia. 
Pelo Tejo vai-se para o Mundo. 
Para além do Tejo há a América 
E a fortuna daqueles que a encontram. 
Ninguém nunca pensou no que há para além 
Do rio da minha aldeia. 
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. 
Quem está ao pé dele está só ao pé dele. 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XX" 
Heterónimo de Fernando Pessoa
.....................................................................
Ou, de António Gedeão

Poema da Memória

Havia no meu tempo um rio chamado Tejo 
que se estendia ao Sol na linha do horizonte. 
Ia de ponta a ponta, e aos seus olhos parecia 
exactamente um espelho 
porque, do que sabia, 
só um espelho com isso se parecia. 

De joelhos no banco, o busto inteiriçado, 
só tinha olhos para o rio distante, 
os olhos do animal embalsamado 
mas vivo 
na vítrea fixidez dos olhos penetrantes. 
Diria o rio que havia no seu tempo 
um recorte quadrado, ao longe, na linha do horizonte, 
onde dois grandes olhos, 
grandes e ávidos, fixos e pasmados, 
o fitavam sem tréguas nem cansaço. 
Eram dois olhos grandes, 
olhos de bicho atento 
que espera apenas por amor de esperar. 

E por que não galgar sobre os telhados, 
os telhados vermelhos 
das casas baixas com varandas verdes 
e nas varandas verdes, sardinheiras? 
Ai se fosse o da história que voava 
com asas grandes, grandes, flutuantes, 
e poisava onde bem lhe apetecia, 
e espreitava pelos vidros das janelas 
das casas baixas com varandas verdes! 
Ai que bom seria! 
Espreitar não, que é feio, 
mas ir até ao longe e tocar nele, 
e nele ver os seus olhos repetidos, 
grandes e húmidos, vorazes e inocentes. 
Como seria bom! 

Descaem-se-me as pálpebras e, com isso, 
(tão simples isso) 
não há olhos, nem rio, nem varandas, nem nada. 

António Gedeão, in 'Poemas Póstumos' 





29.3.13

IMAGENS DO MEU OLHAR - O Tejo, margem esquerda


Estamos junto à vila do Arripiado. Do outro lado, Tancos.


  Castelo de Almourol
















Fermoso Tejo meu, quão diferente
Te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
Claro te vi eu já, tu a mim contente.

A ti foi-te trocando a grossa enchente
A quem teu largo campo não resiste:
A mim trocou-me a vista em que consiste
O meu viver contente ou descontente.

Já que somos no mal participantes,
Sejamo-lo no bem. Oh! quem me dera
Que fôramos em tudo semelhantes!

Mas lá virá a fresca primavera:
Tu tornarás a ser quem eras de antes,
Eu não sei se serei quem de antes era.

Francisco Rodrigues Lobo
(1580-1622)

Fotos (C) J. Moedas Duarte

27.10.11

DENTADURA AO FUNDO !



Dei por mim a recordar um episódio antigo, passado numa praia do Tejo, perto de Alpiarça.
Passo a contar:

Por meados dos anos 60 do século passado fixou-se em Alpiarça uma família de três professores açorianos, de apelido Serpa, todos irmãos: a D. Ângela, mais velha e o José, que eram professores do 1º Ciclo; e o mais novo, António, que começou a frequentar o Externato de S. Paulo onde eu estudava.

 Travei-me de grande amizade com os rapazes e tornámo-nos companheiros de passeios de bicicleta. Ilhéus como eram, sufocavam longe da água. As excursões ao Tejo eram, por isso, quase diárias no verão. Eles eram nadadores exímios, e muito galhofavam com o meu estilo quadrúpede de nadar, aprendido no tanque de um quintal vizinho. Eu esperneava e esbracejava, enquanto eles singravam de leve sobre a água, quais cisnes em lago de jardim.

Passado um ano ou dois, o José entrou de noivado com uma senhora de Santarém. E na véspera do casório, onde se havia de fazer a despedida de solteiro? Nas praias do Tejo, a poucos quilómetros da vila. Como setas, a pedalar por aqueles carreiros fora, lá fomos direitos ao grande rio. A primeira coisa foi perguntar ao barqueiro quais os sítios perigosos. E como era dia especial, resolvemos alugar um barco avieiro, garantia de tarde bem passada, a fintar os ramos dos salgueiros, a bordejar as ilhotas de areia à procura dos melhores sítios para mergulhar, a retesar os músculos com o impulso dos remos con­tra a corrente.

 Estava uma tarde esplendorosa de sol. Remando, mergulhando, nadando, por ali andámos horas infindas. O José Serpa de vez em quando lembrava-se do dia seguinte e do casamento e fazia uma cara amarelenta de nervoso. A família da noiva era gente de brios sociais, onde ele se sentia contrafeito, desconfortado de tanta cerimónia. E via-se já, entalado no fato, a beijar a mão à sogra. Eu e o António acirrávamos a tremedeira dele, com dichotes e macaquices. Mas o José Serpa estava pior do que pensávamos: a certa altura, com os balanços do barquito e a digestão talvez parada do nervoso, amanda as mãos às goelas e dá um arranco que parecia querer largar a alma. Foi o almoço todo borda fora e com ele... a dentadura de cima, que lhe compunha dois buracos bem na frente da boca. Deu um berro de aflição e o António, apercebendo-se do sucedido, mergulhou de imediato. Andou que tempos lá por baixo, fez-se enguia rente às areias do fundo, mas qual quê?! Nem com uma rede de arrasto! Veio acima, de olhos esbugalhados, respirou numa sofre­guidão, e lá foi outra vez. E mais outra. E mais outra. Também tentei, armado em herói, sem ver um palmo à frente, naquelas águas baças e remexidas.

Já na margem, atirámo-nos para o chão, desalentados. À socapa, eu e o António fungámos de riso, mas disfarçámos bem, para não agravar o ânimo do Zé que nem que­ria acreditar naquela desgraça. Estava lívido, a tremer. O irmão ainda voltou ao rio e esquadrinhou por onde pôde até à exaustão. Chegámos a Alpiarça já noite fechada.
Sei que no outro dia, pela madrugada, os dois Serpas ainda voltaram a desafiar o rio. Mas, da dentadura, nem uma lasca.
Impossível adiar o casamento e o José Serpa, muito enfiado, suportou estoicamente o vexame. As fotografias que ele depois nos mostrou fixaram a memória daquela tarde fatídica no Tejo: lá se vê o José Serpa, de boca franzida, a disfarçar os buracões do meio da boca.

Rir do facto, ele só o conseguiu uns dias depois, substituída a placa postiça e ame­nizada a lembrança de uma desdentada lua-de-mel.
Como é que eu me fui lembrar agora disto?

11.10.11

IMAGENS DO MEU OLHAR - PORTAS DO TEJO

Portas do Sol, na muralha de Santarém

Santarém não é só Portas do Sol. É também portas do Tejo - estrada líquida remendada de areia,  a preguiçar lá em baixo, desde a Chamusca até às Caneiras e Vila Chã de Ourique.
O Tejo aqui é um rio triste, sem barcos, sem pescadores, sequer os da beira rio. Nem uma cana a fazer cócegas à água.
Rio sem riso, torna triste o olhar.


Portas do Sol


Tejo, próximo de Alpiarça

Fotos © Méon
Outubro, 2011

8.12.08

(Aldeia palafita do Patacão - Alpiarça)

Mais uma descoberta: um lugar muito bonito que (me) evoca os anos da infância / juventude: (http://fotoaoacasoalpiarca.blogspot.com/).
Ao autor, um abraço intensamente conterrâneo!
Foto © Méon

27.10.08





SABEDORIA




Aprende a estar só, e a dizer
Adeus às coisas que se afastam.
Deixa-as ir, supérfluas... Recolhe-te
À pobreza das coisas que te bastam.




Não te apegues à névoa dispensável
Nem ao cómodo torpor do que te é dado.
Mas canta, como um rio que não sabe
Se canta para si ou é escutado...




Estende à beira-nada o teu poema,
Vai cantando sozinho o que é verdade.
E deixa-te invadir pela bondade
- A sabedoria íntima e suprema.




(João Maia, in Abriu-se a Noite)

Foto Méon (C): Rio Tejo, junto a Alpiarça

16.6.08

MOMENTO

(...)
A minha eternidade é a do vento
que pelo movimento arrisca quanto é
e todo se resume no momento
(...)

Ruy Belo, Obra Poética, vol 2, ed. Presença, 1981
Foto(C) J Moedas Duarte, Barcos no Tejo,
perto de Salvaterra de Magos