Mostrar mensagens com a etiqueta João Rui de Sousa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta João Rui de Sousa. Mostrar todas as mensagens

13.10.11

ESPERA


Ai de quem espera se desespera
se arranha em garra de fera
a sua cabeça esférica
a sua carne tangente
ao sossego de uma hera!

Ai de quem espera sem lenta
argamassa de paciência
em calma de estratosfera!

Ai de quem espera se tenta
um álcool que lhe aguente
a sisudez dessa espera!


Poema de João Rui de Sousa,
Lavra e Pousio,

Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2005

Foto © Méon

15.8.11

A POESIA AJUDA A RESPIRAR...


Gil Teixeira Lopes

O ESPAÇO CHEIO

O rosto que transluz
e me comove
o gesto que me entende
e organiza
a quentura que vem
e me transtorna
tua boca redonda
e testa lisa
são sinais deste mundo
que me lambe
ou árvore em fogo ou (quase)
a minha vida

(João Rui de Sousa,
O Fogo Repartido, Ed. Litexa, Dafundo, s/d)

27.3.11

IMAGENS DO MEU OLHAR - MATA DO CONVENTO DO VARATOJO

Varatojo, Mata do Convento. Foto Méon.


BRISA E BRAÇO

Apontava o rumo à brisa
apontava a brisa ao braço
juntava o braço e a vida
e nela apertava o laço
que às vezes era bulício
para noutras ser cansaço
e era braço do sumiço
ou a brisa do sargaço.

Ou era brisa só brisa
ou era braço em abraço
bem no rumor da pesquisa
bem longe do embaraço:
era o gosto da subida
à carne extrema da vida
ao alto cume do espaço.

João Rui de Sousa
Lavra e Pousio, Public. Dom Quixote,
Lisboa, 2005


3.10.10

LUZ - SILÊNCIO



SILENCIOSO, AGORA

Quero quedar-me silencioso, agora,
neste espaço inteiro onde brilham asas,
porque a terra agora tem um só sentido
e a construção se ergue e amplifica.

Quero estar calado neste fim de tarde,
neste breve rosto, nesta luz e luz,
como um beijo longo que nos lembre sempre
um súbito rumor que nos perturbe.

Quero, quero, quero estar contigo
neste só silêncio que nos vê e atrai,
nesta hora escassa em que o céu acorda
e não se morre nunca e não se morre mais.

Quero, sim, quero ficar quieto
nesta bruma ou brisa, nesta lua ou mágoa
de branda textura, em que se adivinha
este cais de espuma, de mistério e água.

João Rui de Sousa, O FOGO REPARTIDO

Foto Méon, Mosteiro de Alcobaça

25.6.10

VIAGEM NOCTURNA

A noite cresce. Os ruídos do dia demoram a calar. No silêncio da casa, nestes livros parados, há um mapa de voos possíveis.
Parei aqui:






Roteiro

Meu jeito visionário — meu astrolábio.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.

Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais.

Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.

Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor,

E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.

João Rui de Sousa


3.11.09

AS DATAS


Certas datas marcam o caminho como os marcos miliários dos romanos.
Chuva e sol, estações do ano, neves e calores tórridos, nada os apaga.
Um dia de anos... uma viagem... um ramo de flores que secou embrulhado num jornal...


O amor é um pão nobilitante que
sagrado torna quem à boca o leve
nos dias mais altos: os dias oriundos
de taças erguidas sem palavras,
alçados na festa que os inunda.

(João Rui de Sousa,
Quarteto para as próximas chuvas)

29.8.08

DIARIAMENTE


Estou diariamente à tua espera
como quem espera um astro pela noite.
Defino-te em segredo.


Revejo-te na memória.
Desenho a tua fronte nas estrelas.
Invento-te.
Construo a tua boca sem palavras.
Construo este silêncio em que me prendo.


João Rui de Sousa
Foto: Carlos Nunes Freitas, in 1000 imagens

8.10.07

***** MARGEM QUE NOS LIGA *****


DESENHOS
Estou diariamente à tua espera
Como quem espera um astro pela noite.
Defino-te em segredo.
Revejo-te na memória.
Desenho a tua fronte nas estrelas.
Invento-te.
Construo a tua boca sem palavras.
Construo este silêncio em que me prendo.
Passas diante de mim
- uma forma sem contornos
Te inicia.
Constróis-te
Como se foras brisa.
Dissolves-te
Como se dissolve a areia.
E na margem
Que nos liga
Nosso sonho principia.
João Rui de Sousa, «Fogo Repartido»