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14.6.12

FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO


"Depois de morto, o escritor será julgado segundo aquilo que fez. Reivindiquemos, enquanto ele estiver vivo, o direito a julgá-lo também por aquilo que é." (J. Saramago)

Fica a frase como epígrafe da notícia: abriu ao público a Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago. Mais um espaço cultural em Lisboa, útil e enriquecedor para quem ama a literatura.

A Fundação criou uma revista mensal, LUCERNA, disponível on-line no site da Fundação.

14.12.11

TEJO, REDOL E SARAMAGO



Avieiras da Azinhaga

Releio, deslumbrado, AVIEIROS, de Alves Redol. Grande prosador, grande observador de gentes e lugares. Ainda bem que há centenários - como este do nascimento de Redol (1911/2011) - para fazer sair o neorrealismo do jazigo do esquecimento. Desgraçadamente a nossa pequenina cultura nacional precisa de matar os antigos para dar lugar aos novos. Mas passado o momento e algumas reedições - poucas! - torna a fechar-se a porta do esquecimento e ala! -  que venham novas modas.

Há dias visitei o Tejo com um amigo que vive há três décadas em Macau e por isso conhece bem todo o Oriente. Andámos pelas terras de Santarém e Alpiarça, passámos as pontes, ligámos as margens. Estava maravilhado com a paisagem e a tranquila serenidade do grande rio. O que lhe causou grande estranheza foi a falta de gente. Não se via vivalma por ali. Nem pescadores desportivos nas margens, nenhum barquito nas águas. Um rio deserto é uma desolação. Ah! Que diferença em relação aos rios orientais onde a vida fervilha.
Aqui, o grande rio foi destruído lentamente por décadas de incúria. Poluição, barragens sem soluções técnicas ( que existem!) para as migrações das espécies piscícolas, afluentes transformados em esgotos a céu aberto, uma gestão ruinosa da água pelos espanhóis.

Alves Redol descreve o rio dos anos 30 e nós encontramos nas suas páginas a atualidade dos males que hoje nos afligem. Mas ele era comunista, vivia no meio do povo, falava nas dores dos deserdados, incomodava. Chapou-se-lhe a etiqueta de neorrealista, arrumou-se o homem, vinha aí o existencialismo e as elocubrações angustiosas do pequeno-burguês da vida urbana. O que nós perdemos com estas guerrinhas...

Nos anos 80 começa a grande época de José Saramago. O primeiro livro do êxito foi LEVANTADO DO CHÃO. E que vemos nós? O autor recupera o método de Redol - viver no meio do povo, nos lugares que vai usar como cenário da história - e mete-se numa casa de camponeses do Lavre, ali para Montemor-o-Novo. E aconselhou outros: " o país está cheio de histórias, basta lá ir buscá-las!"
Olha a novidade! 50 anos antes Redol fez isso em grande escala: viveu na Nazaré e escreveu UMA FENDA NA MURALHA; foi para o alto Douro e escreveu três livros do ciclo Vinho do Porto; calcorreou o Ribatejo e escreveu GAIBÉUS, FANGA, MARÉS, GLÓRIA - UMA ALDEIA DO RIBATEJO; assistiu à luta dos latifundiários ribatejanos contra a industrialização e criou essa obra-prima que se chama BARRANCO DE CEGOS, na qual, apesar da localização temporal atirada para os fins da monarquia,  ficciona o processo espantoso da deificação do senhor que a realidade vem confirmar poucos anos depois com a farsa do poder fingido de Salazar , moribundo mas ainda a governar.

Atrevo-me a dizer: Saramago não é melhor prosador que Redol. Tem mais engenho de construção romanesca, mais imaginação para personagens e situações, sim, tem. Mas não supera Redol no conhecimento da língua, nos tipos característicos que criou, no lirismo contido mas intenso das curtas descrições de paisagens e lugares, sentimentos e emoções. E acrescento: não maça o leitor com sentenças de profeta, coisa com que Saramago me enfada, tenham lá paciência.

Um pequeno trecho dos AVIEIROS:



«A rota contraditória das suas águas, o Tejo foi depondo e levando, levando e repondo areias junto do valado real da Lezíria Grande. Areias e terras doutras margens por onde passa. Quando o Tejo passa, algo acontece sempre, porque um rio tem as suas glórias e os seus dramas. Como os homens. Um rio vive, respira, trabalha, constrói e destrói. Também os homens. Mas os homens amam e apaixonam-se. Por belas coisas, às vezes; por coisas mesquinhas, outras tantas. A paixão é o tudo e o nada dos homens. Odienta ou amorosa, a paixão empolga-o, porque nem só o amor sublima o homem. Também na luta feroz ele se ultrapassa. A sobrevivência, por exemplo, é sempre uma luta feroz, mesmo em silêncio. Ou será ainda maior quando vive no silêncio.
Um rio tem as suas glórias e os seus dramas, mas não se apaixona. O Tejo não pensa, age. Age ao sabor das circunstâncias. Age e constrói; age e destrói. Como o homem. Mas o homem pensa e conhece a dúvida.» ( in: Avieiros, início do cap. Aldeia)

Fotos daqui. Curiosamente, Azinhaga é a terra natal de José Saramago.

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23.6.11

DIA DO CORPO DE DEUS

Habituei-me a reler, neste dia de feriado, a descrição da procissão do Corpo de Deus no MEMORIAL DO CONVENTO (p. 149 a 157 da 1ª ed, Ed. Caminho, 1982).
Encanta-me o descritivismo minucioso desta prosa...

Começa assim:

« Em Lisboa ninguém dormiu. Acabaram os outeiros, as damas voltaram dentro a compor a pintura esmaecida ou esborratada, daqui a pouco regressarão à janela, outra vez gloriosas de carmim e alvaiade. O povo miúdo de brancos, pretos e mulatos de todas as cores, estes, aqueles e os ou­tros, estende-se ao longo das ruas ainda turvas do primeiro amanhecer, só o Terreiro do Paço, aberto para o rio e para o céu, é azul nas sombras, e depois subitamente rubro do lado do paço e da igreja patriarcal, quando o sol rompe so­bre as terras de além e desfaz a bruma com um sopro lumi­noso. É então que começa a sair a procissão. Vêm à frente as bandeiras dos ofícios da Casa dos Vinte e Quatro, primeiro que todas a dos carpinteiros, representando S. José, que desse ofício foi oficial, e as mais insígnias, grandes painéis, cada um com seu santo figurado, feitos de damasco brocado e com bordaduras de ouro, e tão excessivos de tamanho que são precisos quatro homens para sustentá-los, revezando-se com outros quatro, folgando ora uns ora outros, ainda bem que não está vento, é ao compasso da andadura que balouçam os cordões de ouro e seda, e as borlas do mesmo metal, suspensas das pontas refulgentes das varas. Atrás vem a imagem de S. Jorge, com todo o seu estado, os tambores a pé, os trombeteiros a cavalo, rufando uns, outros soprando, rataplã, rataplã, tataratará, tá, tatá, não assiste Baltasar no Terreiro do Paço, mas ouve as trombetas ao longe e arrepia--se como se estivesse no campo da batalha, a ver o inimigo disposto em linha de combate, atacam eles, atacamos nós, e então sente que a mão lhe dói, há quanto tempo lhe não doía, talvez seja porque hoje não colocou nem gancho nem espigão, o corpo tem destas e doutras lembranças e ilusões, Blimunda, se não fosses tu, quem teria eu à minha direita para cingir com este braço, és tu, aperto com a mão salva o teu ombro ou a tua cintura, posto que repare o povo por falta de costume de estarem assim homem e mulher. »


E assim conclui:

«Anda o Corpo de Deus passeando-se na cidade de Lisboa, sacrifica­do cordeiro, senhor dos exércitos, contradição insolúvel, sol de ouro, cristal e custódia derrubadora de cabeças, divinda­de devorada e até às fezes digerida, quem se espantará de ver-te carne e unha com estes habitantes, degolados carneiros, soldados sem armas próprias, ossadas brancas no deserto, comedores de si próprios comidos, por isso se rojam pelas ruas as mulheres e os homens, dão bofetadas nas suas e pró­ximas caras, batem cavamente nos peitos e ilhargas, esten­dem as mãos às fímbrias que passam, aos brocados e às rendas, aos veludos e aos laços, às fitas, aos bordados, e às jóias, Pater noster que non estis in coelis.
Desce a tarde. No céu, luz subtilíssima, quase invisível, está o primeiro sinal da lua. Amanhã Blimunda terá os seus olhos, hoje é dia de cegueira.»


28.6.10

DOIS TEXTOS SOBRE O MESMO TEMA. UM É LUMINOSO, O OUTRO, ESTERCO PURO.

Comecemos pelo texto luminoso de Vasco Graça Moura, adversário de J Saramago mas seu admirador.
Uma pérola!




Na morte de José Saramago
VASCO GRAÇA MOURA
Dº Notícias  -  23 Junho 2010
Para além de inúmeras reacções circunstanciais, a morte de José Saramago trouxe à baila várias questões muito interessantes. Devo dizer que fui amigo dele e prezo grande parte da sua obra, sem subscrever, como é evidente, as suas posições ideológicas e políticas. Isso nunca me impediu de tentar compreendê-lo, nem de admirá-lo naquilo que penso ser a parte mais válida do que escreveu.
E começando por aí: é quase sempre admirável a maneira como Saramago desenvolve uma linguagem literária que, logo à partida, pretenderia aproximar-se de uma oralidade ideal e primordial, a partir da qual todos os planos da narrativa se diferenciam e na qual todos voltam depois a convergir. Esta técnica singular ter-se-á por vezes tornado num dos seus maneirismos, mas é extremamente eficaz em muitos casos.
Mas será Saramago um escritor realista, como todos os seus pressupostos de escola levariam a supor, ou estaremos antes perante um caso em que ao realismo se acrescenta algo que acaba por transfigurá-lo noutra coisa, noutro tipo de investida quase mágica sobre o real, a colocar este numa diferente dimensão de evidência angustiada e premente? Um certo tipo de destra prestidigitação exercida sobre o real, que envolve um grau mais acima na escala daquilo a que sói chamar-se ficção, cria os pressupostos de uma parábola, a implicar portanto a possibilidade de uma moralidade e de uma exegese. As armas críticas de Saramago, coincidindo aqui com as estratégias ficcionais, não dispensam essa ferramenta de transfiguração cujo coeficiente de irrealidade é criador de ambiguidades várias.
À medida que foi avançando nos anos e na obra, dir-se-ia que uma imensa amargura veio repassar alguns textos. Mais do que amargura, descrença de um sentido para o mundo ou de uma utopia redentora para os homens. O pessimismo de Saramago foi-se adensando cada vez mais. Pessoalmente, tendo a ver nisso uma "desesperança" radical cujo início coincide mais ou menos com o desaparecimento da União Soviética. Poderei estar a fazer uma leitura política tendenciosa, uma vez que sei dos posicionamentos ideológicos dele. Mas a verdade é que a cronologia não foi inventada por mim e parece-me haver uma certa coincidência. Por outro lado, nos Cadernos de Lanzarote, encontro muitas vezes um Saramago mais arrogante e auto-suficiente, muito diferente daquele que conheci pessoalmente e, para falar com franqueza, bem menos interessante como escritor e como pessoa. O que só mostra que nem todas as oficinas ganham em ser postas à vista...
Um outro aspecto que julgo importante é o de o romance saramaguiano ter regra geral tão pouco a ver com a narrativa proletária (salvo, evidentemente, o caso de Levantado do Chão) quanto com o chamado romance burguês e as suas várias derivas ao longo do século XX. Saramago conhecia muito bem todo o universo romanesco dos séculos XIX e XX. Soube, ele que tanto se inspirou no barroco, ir à picaresca espanhola buscar algumas notas importantes, entre elas a de um humor que levou com frequência a um ponto corrosivo, para caracterizar algumas das suas personagens, figuras e situações. Mas os cenários em que tudo isso se move parecem ter mais a ver com o reencontrar de um fio narrativo muito anterior a qualquer modelo de ficção preexistente, que faz as personagens existirem e agirem como que emergindo e consolidando-se nas próprias pregas do texto que está a ser escrito, entre o absurdo da situação e os possíveis dos seus comportamentos e das suas escolhas quanto a grandes questões da existência, que começam por aparecer de um modo quase anódino até se proporem ao leitor como avassaladoras e intimidantes.
Um escritor assim, para mais racionalista, ateu e empenhado socialmente por via do comunismo, tinha de questionar o Deus da Bíblia e de fazer uma leitura crítica dos seus atributos. Mas as investidas de Saramago contra Deus supõem, quase de certeza, uma contrapartida de aumento do coeficiente de humanidade e de justiça que ele quereria ver instaurado e praticado entre os homens. No seu caso, o problema é que, historicamente, a proposta política que defendia tinha saído furada e a um preço de sacrifício humano absolutamente incomportável.
Um grande escritor pode ter destas contradições e defeitos que o aproximam mais de nós e não retiram nada ao estatuto da sua grandeza.
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Agora vamos ao esterco, como faz este besouro.
É bom vivermos em liberdade de expressão. Podemos perceber melhor quem nos rodeia.
Além do mais este texto repugnante faz-me recordar uma amiga já desaparecida que gostava de dizer: "Quem não tem inimigos não é digno de ter amigos". Saramago mereceu bem os amigos.
Estou à vontade. Não fui admirador incondicional de José Saramago, manifestei-o uma ou outra vez. Mas devo-lhe o prazer da leitura de livros admiráveis: Levantado do chão, Memorial do Convento, O Evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira. E ainda: A Viagem do Elefante.



José Saramago: Na morte de um homem mau

Morreu um homem amargo e mau, incapaz de sorrir, que se esforçava por
tornar a sua Pátria amarga, como ele.
José Saramago, era de facto um homem mau. Provava-o a sua cara vincada
incapaz de exprimir um sorriso, prova-o a sua escrita prenhe de ódio e crítica
aos valores mais normais e caros à civilização que o viu nascer, valores esses
que ele, com as suas idéias, suas declarações e sua obra, renegou em
Lanzarote. Será que no fundo, Saramago, para além do seu marcado azedume
e soberba, tinha valores? Nunca o saberemos.
Repito, José Saramago era um homem mau. Que o digam os seus colegas, que
em pleno período revolucionário foram vítimas de saneamentos selvagens. O
homem, nessa época, tinha o estribo nos dentes, e era imparável algoz como
sub-director do Diário de Notícias. Tinha por desporto arruinar a vida de
quem não era comunista como ele.
Foram 87 anos de infecundidade, travestida de um aparente sucesso, revelado
pelos livros que vendeu, e pela matreira estratégia de marketing que o
conduziu ao Prémio Nobel, em detrimento de outros escritores Lusos,
genuinamente com mais categoria e menos maldade crónica do que ele. Penso,
por exemplo, no insuspeito Torga.
Tentei ler dois livros dessa personagem, para com honestidade poder dizer
que, para além de não gostar dele como pessoa, o não considerava como um
bom escritor, e que ofendia na sua essência a cultura Cristã da nossa Grei.
Consegui apenas ler um, e o início de outro. A sua escrita, para além de ser
incorrecta, era amarga como as cascas dos limões mais amargos. A sua
originalidade era, afinal, o sinistro das suas idéias; o que, convenhamos, é
pouco original. É mais fácil ser sinistro, provocador e mau, do que ter
categoria, e valor. Saramago optou pelo mau caminho, como sempre, o mais
fácil. E teve aparentemente sorte, na Terra, que a eternidade pouco lhe
reservará.
Fiquei contente quando ameaçou (apenas ameaçou, porque na realidade a sua
vaidade não lho permtia praticar), nunca mais pisar solo Pátrio. Uma figura
como ele, é melhor estar longe da Pátria que em má hora o viu nascer. Afinal
de que serve a este Portugal destroçado, um Iberistra convicto, ainda para
mais, estalinista? Teria ficado bem por essas ilhas perdidas de Espanha, não
fosse uma série de lacaios da cultura dominante chorarempor ele, por aqui
por terras lusas, alimentando-lhe a sua profunda soberba.
Para além da sua obra escrita, de qualidade duvidosa e brilhantemente
catapultada por apuradas técnicas comerciais que lhe conseguiram um
Prémio Nobel da Literatura, (prémio com cada vez menos prestígio devido à
carga política que contém), nada deixou em herança, para além de certamente
muito dinheiro, o que é um contrasenso para um qualquer estalinista como
ele. Mas a sua existência foi um perfeito logro. Foi uma existência
desnecessária.
Saramago afastou-se da Pátria, e estou certo de que a Pátria, no seu todo mais
puro, que não no folclore da "inteligentsia", não teve saudades dele. Foi uma
bandeira da esquerda ortodoxa, e também da esquerda ambígua, essa do
Primeiro-Ministro que nos desgoverna. Dessa mesma esquerda que decidiu
usar o nosso dinheiro, para trazer em avião da Força Aérea Portuguesa, os
seus restos inanimados para Portugal, a expensas de todos nós, e infamemente
coberto com a Bandeira Nacional. Um Iberista, coberto com a Bandeira
Nacional, que Saramago ofendeu vezes incontáveis, na essência da sua obra, e
no veneno das suas declarações públicas. Era um relapso. Um indesejável.
Um homem que voluntariamente se afastou da sua Pátria, comentando-a de
uma forma negativa no Estrangeiro, não é digno de nela entrar cadáver,
coberto com a sua Bandeira. A bandeira de Saramago, era a do ódio, da
arrogância, e da maldade praticada.
Mas os símbolos Nacionais estão hoje nas mãos de quem estão, e a
representação das vontadesNacionais, está subordinada a quem está: à
esquerda, tão sinistra como foi Saramago. Assim sendo, as homenagens que
lhe fazem, incluindo os exagerados e ilegítimos dois dias de Luto Nacional,
valem o que valem, e são apenas um acto de pura camaradagem, na
verdadeira acepção da palavra. Quem nos desgoverna, pode cometer as
maiores atrocidades, que ao povo profundo só resta pagar, e calar. Até ver.
Amanhã, Saramago mergulhará pela terceira vez nas chamas. A primeira,
terá sido quando nasceu, e ao longo de toda a sua vida, retrato que foi de ódio
e maldade pela sua imagem espelhados e espalhados; a segunda, terá sido
quando o seu corpo ficou irremediavelmente inanimado, e estou certo de que
entrou no Inferno, a confraternizar com o seu amigo Satanás; a terceira,
amanhã, será quando o seu corpo inerte e sem alma, entrar para ser
definitivamente destruído, no Crematório do Alto de S. João.
Será um maravilhoso e completo Auto de Fé. O Homem e a sua obra
venenosa, serão queimados definitivamente nas chamas da terra, que nas da
eternidade já o foram no dia em que morreu.
De Saramago recordaremos um homem que não sabia rir, que gostava
certamente muito de dinheiro, e que o terá ganho, que era mau e vaidoso, e
que o provou ao longo da sua vida, que quis viver longe da sua Pátria por a
ela não saber ter amor, e que foi homenageado por meia dúzia de palhaços
esquerdistas, compagnons de routeconiventes com um dos últimos fósseis
estalinistas, que ilustrava uma forma de estar na vida e na política sem alma,
amoral, e que globalmente contribuiu para a destruição de toda uma Pátria, e
suas tradições.
Ocorreu ontem, quando soube que este cavalheiro de triste figura tinha
morrido, que estaria por certo no inferno, sentado com Rosa Coutinho,
também lá entrado há poucos dias, à espera de Mário Soares e Almeida
Santos, para os quatro juntos jogarem uma animada e bem quentepartida
de sueca...
O País está mais limpo. Um dos maiores expoentes do ódio e da maldade,
desapareceu da superfície da Terra. Espero que a Casa dos Bicos, um dia
possa ter melhor função, do que albergar a memória de tão pérfida
personagem. As suas letras, estou certo de que cairão no esquecimento, ao
contrário das de Camões, Torga ou Pessoa, entre muitos outros.
Apesar de tudo, e porque sou Católico (e porque a raiva não é pecado), que
Deus tenha compaixão de tão grande pobreza, mas que se lembre
fundamentalmente de nós , de todos os Portugueses íntegros que tentamos
sobreviver com dificulade, neste Portugal governado pelos amigalhaços do
extinto, que apesar do luto em que fingem estar, mas que na verdade não
sabem viver, continuam a todo o custo a viver o enorme bacanal que arruina
Portugal...
No fundo, no fundo, e porque as palavras as leva o vento, que Deus tenha
piedade de tão grande pobreza! Cabe-nos perdoar. Mas não temos que
esquecer!
António de Oliveira Martins - Lisboa

20.6.10

A MULHER DO ESCRITOR




                                                                                 Foto do jornal espanhol La Vanguardia

A curiosidade, por vezes mórbida, por tudo quanto diz respeito a quem nos morreu, é uma forma de fazer o luto. Natural.

Em busca de notícias e opiniões sobre José Saramago, dei-me com este belo texto vindo do Brasil, AQUI.
O autor não esquece a figura tutelar que acompanhou Saramago nos últimos vinte anos de vida: Maria del Pilar. Bem sabemos como o escritor a amava e como ela foi, de facto, o pilar do último ciclo da sua vida. Por isso este testemunho me tocou tanto.
Como me tocou igualmente a foto que, segundo o La Vanguardia, terá sido a última do escritor, em finais de Maio deste ano.
Ela diz tudo sobre o homem que reinventou a arte do romance: calejado pelos anos e enternecido por um amor total. Mas diz tudo também sobre esta mulher que despertou o amor e fez dele a vida, toda a VIDA!

18.6.10

NO DIA DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO



Não esquecerei a leitura de LEVANTADOS DO CHÃO, MEMORIAL DO CONVENTO e ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA. Grandes livros!

Não apreciei a postura de "profeta da tribo", na fase final da sua vida, com o enorme equívoco que foi o ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ - ao mesmo tempo que era candidato político num acto eleitoral.
Contradições de um grande escritor...

Homenageio-o com alguns dos seus textos:

Fala do Velho do Restelo ao Astronauta

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.

                        
Dulcineia
Quem tu és não importa, nem conheces
O sonho em que nasceu a tua face:
Cristal vazio e mudo.
Do sangue de Quixote te alimentas,
Da alma que nele morre é que recebes
A força de seres tudo.
              
INTIMIDADE
No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,
Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

* * *

A Racionalidade Irracional

Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a razão a nossa espécie. E o instinto serve melhor os animais porque é conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terríveis entre animais, o leão que persegue a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece que o nosso coração sensível dirá «que coisa tão cruel». Não: quem se comporta com crueldade é o homem, não é o animal, aquilo não é crueldade; o animal não tortura, é o homem que tortura. Então o que eu critico é o comportamento do ser humano, um ser dotado de razão, razão disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria sê-lo e que não o é; o que eu critico é a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno.
Aquela ideia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente a essa ideia eu digo: pois sim, é tudo muito bonito, são de facto muito simpáticos, são adoráveis, mas deixemos que cresçam para sabermos quem realmente são. E quando crescem, sabemos que infelizmente muitas dessas inocentes crianças vão modificar-se. E por culpa de quê? É a sociedade a única responsável? Há questões de ordem hereditária? O que é que se passa dentro da cabeça das pessoas para serem uma coisa e passarem a ser outra?
Uma sociedade que instituiu, como valores a perseguir, esses que nós sabemos, o lucro, o êxito, o triunfo sobre o outro e todas estas coisas, essa sociedade coloca as pessoas numa situação em que acabam por pensar (se é que o dizem e não se limitam a agir) que todos os meios são bons para se alcançar aquilo que se quer.
Falámos muito ao longo destes últimos anos (e felizmente continuamos a falar) dos direitos humanos; simplesmente deixámos de falar de uma coisa muito simples, que são os deveres humanos, que são sempre deveres em relação aos outros, sobretudo. E é essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro, que eu me pergunto se tem algum sentido numa situação ou no quadro de existência de uma espécie que se diz racional. Isso, de facto, não posso entender, é uma das minhas grandes angústias.

José Saramago, in 'Diálogos com José Saramago'





27.10.09

AINDA SARAMAGO

No Sábado passado o EXPRESSO publicou um texto em que se relatava o encontro entre José Saramago e o padre/poeta/teólogo José Tolentino de Mendonça. Achei interessante mas soube-me a pouco.
Entretanto um amigo enviou-me a ligação para o Expresso na net, com o texto integral.
Ah! Bom! É outra coisa. Um diálogo interessantíssimo pela vivacidade, pelos sub-temas abordados, pela frontalidade.
Sei que a questão já cansa mas... para quem estiver interessado, aqui fica a partilha.

14.10.08

DEUS É...


«Deus é o silêncio do universo e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio.» (José Saramago).
É sempre estimulante ler coisas sobre "deus". Sobretudo quando escritas - ou ditas - por quem não se arroga o direito de falar em nome dele.