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27.1.13

ACORDEI UM POETA



Chamei o poeta que estava a dormir muito repimpado na prateleira três da estante velha.
Mesmo estremunhado respondeu:


Os homens práticos têm o génio poético
de deixar o desenho das mãos
no trabalho das chamas.

Os poetas não.

Não entendem a linguagem das folhas-línguas-secas
em bocas sedentas.

Vêem apenas nas árvores
perfis de labaredas e palavras
mulheres nuas ao relento
que dantes os deuses violavam
com sexos
escondidos nas pernas do vento.

José Gomes Ferreira
POESIA VI
Diabril editora, Lisboa, 1976

foto(C)J Moedas Duarte

9.7.07

Eh! Companheiros!


E se eu de súbito gritasse
nesta voz de lágrimas sem face!:

Eh! companheiros de plataforma
presos ao apagar do mesmo pavio!
Porque não nos amamos uns aos outros
e damos as mãos
- sim, as nossas mãos
onde apodrecem aranhas de bafio?

Eh! companheiros de plataforma!
(Não empurrem, Irmãos)


José Gomes Ferreira,
in: Poeta Militante,
1º Vol. Ed. Dom Quixote, 4ª ed. Lx.,1999