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23.8.10


LITORAL OESTE - S. LOURENÇO


CANÇÃO SEXTA

Nós sabemos do mar a cor violenta
e o sal dentro das veias a latir.
O dia é uma ave lenta,
lenta voando sobre o Tejo. Até cair.

E nas mãos guardamos essa ave
que nos tinge de sangue o litoral.
A cor dos nossos olhos só a sabem
os que nascem aqui. Em Portugal.

Os que lutam às portas de Lisboa
respirando nas ondas e no tempo
este azul tão selvagem que magoa
as gaivotas prenhes pelo vento.

Os que tombam às portas da cidade
sobre um lençol de feridas e de fogo.
Sem nome. Sem culpa. Sem idade.
Que assim morrem os homens deste povo.

Joaquim Pessoa

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Revisitar este mar ao som da poesia de Joaquim Pessoa.
Preparar os trabalhos de Setembro. Definir objectivos, planificar tarefas, arrumar papéis que o Verão deixou em tumulto.
Dos dias que passaram ficam imagens fortes: Santa Cruz, o sol, o vento desabrido, as caminhadas no litoral, mãos dadas e gaivotas nos olhos. Os risos desatados dos nossos meninos, as vindas a Torres a garantirem presença necessária, o regresso ao ninho dos livros e da ternura quotidiana, a visita vibrante e calorosa de dois amigos do Sul.

A consciência de que nos é dada uma parcela afortunada da vida, ao mesmo tempo que milhões de seres sucumbem a desastres pavorosos.

13.7.07

POESIA E SAPATOS



De bruços me debruço mais ainda
até sentir os olhos tumefactos
para saber até que ponto é linda
a intrigante cor desses sapatos

que às tuas pernas dão um brilho tal
e uma leveza tal ao teu andar
que eu penso (embora aches anormal)
que nunca te devias descalçar.

Também porquê, se já não há verdura
nem tu és Leonor para correr
descalça, no poema, à aventura?

O mais difícil, hoje, é antever
quem é que vai à fonte em literatura
e que água dá aos versos a beber.

Joaquim Pessoa, 1948