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21.12.12

TIMÃO DE ATENAS



Em dada altura Flaminius, criado de Timão, exclama:
-  Será possível que o mundo tenha mudado tanto e nós, os vivos de outrora, continuemos vivos? Voa, vil metal, para aquele que te venera. (Cena 1 do III Acto)

De certo modo esta fala resume todo o drama desta peça que ontem vi representada no Teatro Municipal de Almada. O homem, todo o Homem, é determinado pelo dinheiro, pelo interesse pessoal. É o dinheiro que dá poder, quem o não tem não é ninguém.
Timão é um senhor enquanto tem dinheiro e o esbanja com os amigos; torna-se um pária, um desgraçado abandonado por quase todos quando o dinheiro lhe falta. Esta moralidade banal ganha dimensão pela simplicidade do enredo, tão directo, tão óbvio, que nos atinge na cara como um murro inesperado. É a falta de subtileza no tratamento da ambição humana e dos jogos dos aduladores que confere a esta peça - das menos conhecidas de Shakespeare - uma eficácia tremenda.
A concorrer para o resultado final deste belíssimo trabalho, a encenação em que Joaquim Benite trabalhava quando morreu, está a tradução da peça por Yvette Centeno e o bom trabalho dos actores da Companhia.
Gostei do dispositivo cénico, simples como o enredo e, como ele, eficaz: a metade do palco mais próxima dos espectadores é vazia, ali se passam as cenas com adereços elementares descidos do tecto quando necessário. A outra metade é ocupada por uma escadaria larga por onde sobem e descem os personagens, sugerindo talvez a roda da fortuna. Mas nada disto resultaria sem o rigoroso desenho de luz que sublinha ou marca a passagem das cenas.

A prolongada ovação final de uma sala repleta premiou este belíssimo trabalho.
No final, foi dada a conhecer a deliberação  da Câmara Municipal de Almada que deu o nome de Joaquim Benite àquela Sala de Teatro. Homenagem justíssima.


5.12.12

HOMENAGEM A UM GRANDE HOMEM DO TEATRO




Joaquim Benite (1943-2012)

O encenador Joaquim Benite, director do Teatro Municipal de Almada e do Festival de Almada, faleceu esta noite, na sequência de complicações respiratórias motivadas por uma pneumonia. O fundador da Companhia de Teatro de Almada preparava a estreia absoluta em Portugal de Timão de Atenas, de Shakespeare, que representaria o seu regresso à actividade após um período de ausência dos palcos por motivo de doença. O País perde assim um dos seus mais prestigiados encenadores, ligado ao movimento de renovação do Teatro português no período que antecedeu e que se seguiu à Revolução de 1974.
Joaquim Benite nasceu em Lisboa em 1943. Começou a trabalhar como jornalista, aos 20 anos, no jornal República. Posteriormente fez parte da redacção do Diário de Lisboa e foi chefe de redacção dos jornais O século e O diário. Foi crítico de teatro no Diário de Lisboa e em diversas revistas e publicações.
Em 1971 fundou o Grupo de Campolide e estreou-se na encenação com O avançado centro morreu ao amanhecer, de Agustin Cuzzani. Com a peça Aventuras do grande D. Quixote de la Mancha e do gordo Sancho Pança, de António José da Silva, ganhou, no ano seguinte, o Prémio da Crítica para o melhor espectáculo de teatro amador.
Em 1976, no Teatro da Trindade, transformou o Grupo de Campolide em companhia profissional. Em 1978 a sua companhia instala-se em Almada, cidade de onde não mais sairia, e que transformou num dos principais focos teatrais do País, cujo expoente máximo será porventura o Festival de Almada, criado em 1984, e que em 2013 terá a sua 30ª edição. Em 1988, Joaquim Benite inaugura o primeiro Teatro Municipal dessa cidade, e em 2005 é finalmente concluído o projecto do novo Teatro Municipal de Almada - num edifício da autoria de Manuel Graça Dias e Egas José Vieira -, que se tornou num dos principais teatros do País.
Tendo criado mais de uma centena de espectáculos, Joaquim Benite foi responsável pela estreia em teatro de José Saramago, de quem dirigiu A noite (1979) e Que farei com este livro? (1980 e 2007). Encenou ainda obras de Shakespeare, Molière, Brecht, Lorca, Bulgakov, Camus, Adamov, Gogol, Beckett, Albee, Neruda, Thomas Bernhard, Sanchis Sinisterra, Antonio Skármeta, Pushkin, Peter Schaffer, Marguerite Duras, Dias Gomes, Nick Dear, O’Neill, Marivaux, Feydeau, Almeida Garrett, Gil Vicente, Raul Brandão, entre muitos outros.
Entre os seus últimos trabalhos contam-se: Que farei com este livro, de José Saramago (2007); as óperas A clemência de Tito, de Mozart (2008), O doido e a morte (2008) e A rainha louca (2011), de Alexandre Delgado; O presidente, de Thomas Bernhard (2008); Timon de Atenas, de Shakespeare (Festival de Mérida, 2008); A mãe, de Brecht (2010); Tuning, de Rodrigo Francisco (2010); Troilo e Créssida, de Shakespeare (2010); e Hughie e Antes do pequeno-almoço, de Eugene O’Neill (2010).
Entre os numerosos prémios e distinções com que foi distinguido, Joaquim Benite foi agraciado com as Medalhas de Ouro dos Municípios de Almada e da Amadora, e as Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura e Mérito Distrital do Governo Civil de Setúbal. Foi-lhe também atribuído o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique; os graus de Cavaleiro e Oficial da Ordem das Artes e das Letras de França; e o grau de Comendador da Ordem do Mérito Civil de Espanha.

(Transcrição do comunicado da Companhia de Teatro Municipal de Almada.)