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24.12.12

OCULTO



                                          Foto(C)J.Moedas Duarte


NATAL

Nasce um deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

Fernando Pessoa


20.12.12

TANTO SOSSEGO!

Travessa na Carvoeira, 
aldeia sede de freguesia do concelho de Torres Vedras


Uma rua na encosta do Varatojo, arredores de Torres Vedras



Há por aqui muita gente sossegada, a viver em artérias sem trânsito, exclusivas dos moradores e de raros passantes que por ali atalham caminho.
Quando tirei as fotos veio muita gente à janela, alarmada com os "splagr" da máquina. E mais alarmados ficaram quando viram o que ando a ler:




Tive de prometer que só abriria o livro no LUGAR ONDE.

28.7.12

GATO

Num telhado do Centro Histórico de Torres Vedras | Foto (C) J. Moedas Duarte


Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa
   janeiro de 1931



3.7.12

LEITURAS - Cartas de amor...

Quem as não tem?



Sabemos o que Fernando Pessoa escreveu sobre isso. E lemos, há uns anos, as cartas que ele escreveu, ridículas naturalmente. Como também lemos as de Ofélia, de publicação mais recente. Ela, muito mais  produtiva (129 cartas), ele nem metade escreveu (51).

A novidade é esta edição em que se juntam os dois conjuntos epistolares, já anteriormente editados mas em separado: Cartas de Amor de Fernando Pessoa (Lisboa: Ática, 1978) ; Cartas de Amor de Ofélia a Fernando Pessoa (Lisboa: Assírio & Alvim, 1996).
O volume actual, já à venda embora tenha a data de edição de Setembro de 2012, com a chancela Assírio& Alvim agora pertença da Porto Editora, apresenta-se como o nº 13 da colecção Pessoana e tem 367 páginas.

Pessoalmente o que me toca mais é a impressão de profunda humanidade que se desprende destas páginas, outrora íntimas. Hoje são públicas pela exposição pública de quem as escreveu, sobretudo pela genialidade da obra de Fernando Pessoa. Mas é essa humanidade, como que um desamparo de seres frágeis e sujeitos às leis dos afectos do comum dos mortais, que me comove e emociona.

Hei-de postar aqui algumas passagens desta correspondência tão bonita e tocante.

28.5.12

A ARCA SEM FUNDO DO SENHOR FERNANDO



Perto de 30 000 papéis, dizem os estudiosos de Fernando Pessoa. Há anos que lá mexem e remexem, e aquilo parece não ter fundo.
Um estudioso brasileiro - José Paulo Cavalcanti Filho -  apaixonou-se por Pessoa e andou 8 anos a esgaravatar. Mas não se ficou pela arca, quis saber mais. Por exemplo, quem era o tal Esteves da Tabacaria? E que tabacaria era essa? Que farmácia "A. Caeiro" existia na Almirante Reis que Pessoa refere ter visto de relance numa ocasião em que por lá passou? E Ofélia, terá Pessoa chegado aos finalmentes sexuais com ela? A que horas certas terá nascido o Poeta, 15H15? 15H20? -  pediu  o parecer "científico" do famoso astrólogo Paulo Cardoso, que o deu e certificou: foi às 15H22!
E as cartas que escreveu para Mário de Sá-Carneiro em Paris, onde estão? Terão sido enterradas com ele?  Cavalcanti foi a Paris, revolveu os últimos testemunhos possíveis, teve esperança de uma possível inumação mas ficou a saber que de Sá-Carneiro já nada resta, nem a memória de onde estão os ossos.
O livro está cheio destas minudências que alimentam um certo espírito mórbido de leitores curiosos como eu.
É claro que os académicos e os grandes conhecedores da obra do Poeta não levam isto à paciência. Até os percebo, sobretudo quando denunciam alarvidades como essa de Cavalcanti defender que Pessoa teve, pelo menos, 207 heterónimos!




É uma questão sempre polémica: onde passa a fronteira entre a vida e a obra?
Cavalcanti defende que em Pessoa não há fronteira. Uma confunde-se com a outra.
Parece-me que a coisa é mais simples. Se tivermos como critério a ação e a repercussão social, o homem teve uma vida apagada, sem grandeza, egoísta, pequenina. Pessoa não tinha vontade, força de vontade - como ele mesmo reconhecia. Era abúlico, desorganizado, incapaz de uma ação persistente. A arca é a imagem dele: papéis a monte, mal alinhavados, muitos sem qualquer referência de data ou circunstância. Fez projetos, escreveu-os, mas não realizou nenhum. Teve ideias geniais mas foi incapaz de as concretizar. Os seus escritos teóricos são incompletos, começam bem mas ficam-se pelo esboço, à espera de melhores dias. Tudo isto se sabe há muito, já foi estudado e escrito, a começar pela biografia de Gaspar Simões.

O que parece novo no livro de Cavalcanti é a forma de abordagem. Assumidamente subjetiva, apaixonada, jogando com as palavras do próprio Fernando Pessoa para ir delineando um possível percurso biográfico. Há que ter isso em conta e descontar alguns delírios na formulação de hipóteses ousadas, é certo, como essa de ir à procura de provas da homossexualidade de Pessoa e concluir que ela existiu mas sem consumação carnal. Ora bem!
Como diz Teresa Rita Lopes: «Se deixassem este livro ser apenas aquilo que é, obra de um apaixonado colecionador de estórias, não aceitaria o pedido do Público para o criticar»

Os ecos da polémica troca de argumentos entre Cavalcanti e a pessoana Teresa Rita Lopes podem ser encontrados aqui:http://blog.umfernandopessoa.com/2012/05/critica-de-fernando-pessoa-uma-quase.html


16.11.11

PAGÃOS INOCENTES DA DECADÊNCIA

(Gauguin)

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
(Ricardo Reis, Odes)



Repito o último verso - "pagãos inocentes da decadência" - e só me vem à lembrança aqueloutro, de Réné Char: "On nait parmi les hommes, on meurt inconsolé parmi les dieux".
Está aqui toda a condição humana.

13.6.11

PARABÉNS, FERNANDO PESSOA










Se fosses vivo farias hoje 123 anos!  - forte razão para já não estares vivo...
Altura boa para reler o teu longo poema a Santo António, que começa assim:






Nasci exactamente no teu dia -
Treze de Junho, quente de alegria,
citadino, bucólico e humano
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!


E lá continuas, em tom jocoso, a conversa poética com o teu santo... Para finalmente concluires:

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António -
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?

23.3.11

Filme do Desassossego




Vi-o ontem, no Teatro-Cine. Filme sombrio, de extrema beleza. Um homem, uma cidade, uma vida. E as palavras, palavras, palavras... de Bernardo Soares, semi-heterónimo de Frenando Pessoa.

Gosto do título em francês: "Le livre de l'inquietud". A inquietação de não estar bem em lado nenhum embora se adivinhe nos olhos do protagonista um amor desmedido pelos lugares onde vagueia.


Nota do realizador João Botelho
Julho 2010
O LIVRO DO DESASSOSSEGO,"composto" por um misterioso e modesto ajudante de guarda-livros de nome Bernardo Soares, heterónimo de Fernando Pessoa, está traduzido em 37 idiomas e espalhado pelo mundo inteiro. É o livro mais lido e divulgado do poeta, essa labiríntica e inigualável aventura literária. Nunca houve um génio criador que se identificasse tanto com o coração da cidade que o viu nascer, que coincidisse quase em absoluto com o emaranhado de ruas que calcorreou e descreveu como ninguém, com a infinidade de gentes com quem se cruzou e que descreveu com "o olhar de Deus", numa Lisboa centro de um mundo sem centro. Não é assim o mundo hoje?
"A minha pátria é a língua portuguesa." Esta frase d’ O LIVRO DO DESASSOSSEGO, que é "a nossa maior invenção desde as Descobertas", levou-me a enfrentar um mar de textos transformado numa obra universalmente conhecida, armadilha de um génio, puzzle perfeito e genial porque todas as soluções são diferentes e nenhuma é definitiva.
"É impossível filmar O LIVRO DO DESASSOSSEGO,", diziam-me todos. "Talvez", disse eu, mas a partir de um texto que não tem tempo, não tem fim e não tem igual, foi-me possível criar um FILME DO DESASSOSSEGO que não pretende ser o livro (outra coisa é o cinema, que não arte literária); não em nome da experimentação ou da artística diletância, mas em nome do cinema que eu amo acima de tudo, e da língua, que é também a minha pátria. Há n’ O LIVRO DO DESASSOSSEGO, dois pequenos e preciosos textos que foram decisivos para estruturar o filme e o modo de filmar. Um sobre a autonomia grandiosa do som dos textos que, quando são lidos em voz alta ou voz baixa, se elevam muito para cima do seu criador, tornando a escrita maior que o sujeito que a criou; e, outro, sobre a noção de tempo, a sua distorção, ideias que se ajustam na perfeição à noção do tempo cinematográfico.
Há ainda uma pequena frase maravilhosa sobre a luz:A mesma luz que ilumina a face dos santos e os sapatos do homem comum." Não foi preciso mais nada para eu ficar contente. Alcançar o grão da voz, encontrar os ritmos de música verdadeira e grandiosa dos fragmentos do livro. Leiam-no em voz alta ou voz baixa, como diz Pessoa. O aperto que sentem no peito não é de gloriosa felicidade? Os olhos não ficam rasos de lágrimas e o cérebro efervescente? Distorcer o tempo e as imagens, pôr em causa o modo de as ver (utilização de diferentes velocidades, ralentis, acelerações e até lentes anamórficas, embaciadas, desfocadas) pintar o espaço com cores excessivas, não realistas, mas também fazê-las esmorecer, quase desaparecer, chegar aos tons secos, e até à pureza da gama de cinzentos, do preto e do branco. Bernardo Soares, um homem contemporâneo, de aspecto normal, indecifrável do comum dos mortais, mas com a angústia e o tédio desesperado de um funcionário modesto, e Lisboa uma cidade misteriosa, labiríntica e profunda, de inquestionável beleza e luminosidade. "Oh, Lisboa meu lar!". Todos os outros personagens e todos os incidentes que os envolvem são, na vertigem dos sons das frases que os fazem existir, parte do desassossego do ano 2010 da nossa era. (Texto retirado do site do Teatro Municipal de Almada, acedido em 4 NOV 2010)

7.2.11

UM HOMEM: FERNANDO PESSOA

Ofélia,
foto publicada na Fotobiografia de Fernando Pessoa, Círculo de Leitores



Quando passo um dia inteiro
Sem ver o meu amorzinho
Cobre-me um frio de Janeiro
No Junho do meu carinho
(Quadra de F. Pessoa, para Ofélia)

                                                                                   *

Fernando Pessoa intimida muita gente. Vêem-no como um complicado intelectual, um criador de poemas contraditórios, um alucinado sem rumo, disperso por múltiplas personalidades, um místico racional e um racionalista enovelado em ideias místicas. Um ser misterioso, enigmático, obscuro.
Também passei por isso. Que homem foi este?
Há anos encontrei uma edição da MENSAGEM em formato de bolso que me surpreendeu (1). Para além dos poemas de Pessoa, trazia um extenso estudo de António Quadros sobre o poeta e a obra, e ainda um conjunto de poesias inéditas ou pouco conhecidas.
Este livro desvendou-me um Fernando Pessoa profundamente humano, de  traços comoventes, de contornos riquíssimos, marcado por uma infância materialmente feliz mas afectivamente árida, com uma inteligência superior mas a que faltou o arrimo da força de vontade e do método. Um ser solitário sem ser misantropo ou anti-social, na inquietação de viver em permanente encruzilhada, sempre consciente da finitude.
Um contemporâneo seu (António Cobeira, amigo da juventude), citado por A. Quadros, escreveu:

"Fernando Pessoa era uma criatura afável, irrepreensível no trato, de primorosa educação, incapaz de uma deslealdade, imaculadamente honesto, delicadíssimo, triste e tímido."

E mais adiante:

"Avesso a toda a aparência, todos os seus sentidos estavam virados para o mundo interior. (...) era, não tanto um filósofo mas um subtil descriminador de pormenores, um vedor de lineamentos recônditos, um pioneiro de caminhos em altura - astrólogo ou alquimista, bruxo ou adivinho, perdido à luz meridiana do século. No plano social, à superfície - ele falhava onde os outros triunfaram ou iam triunfar clamorosamente."

Através de precioso retrato de A. Quadros encontrei-o na descoberta do amor por uma mulher - Ofélia - a quem escreveu cartas de amor "ridículas", ofereceu prendinhas e por quem teve arrebatamentos amorosos. Mas também no desmoronar desse sonho afetivo, que considerou inconciliável com o anseio de realizar uma obra literária de que deixou milhares de rascunhos e escassas realizações.  
A fotobiografia, publicada pelo Círculo de Leitores em 2008 (2), completa o retrato de alguém tão sensível e próximo de nós que encontrei no texto de António Quadros e de que a quadra dedicada a Ofélia é um traço impressivo.

(1) - MENSAGEM E OUTROS POEMAS AFINS, Obra Poética de Fernando Pessoa, Introdução, organização e biobibliografia de António Quadros; Publicações Europa-América, col. Livros de Bolso, nº 435, 2ª edição, Mem Martins, s/d

(2) FOTOBIOGRAFIAS SÉCULO XX - FERNANDO PESSOA, Richard Zenith, Círculo de Leitores, Rio de Mouro, 2008.

30.11.10

75 ANOS DE MORTE









(...)
Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto.
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

(...)

(Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos)

Fernando Pessoa: falecido em 30 de Novembro de 1935

13.6.10

PARABÉNS, SENHOR FERNANDO!

Faria hoje 122 anos. Fernando Pessoa.

Em 13 de Junho de 1930 escreveu no poema "ANIVERSÁRIO:

«No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.»

Em dia de anos costumo dar parabéns aos pais. Mas sobretudo à mãe.
Neste caso, D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira, que aqui vemos na sua casa em Pretória.



Para mim, o grande livro de Fernando Pessoa é O LIVRO DO DESASSOSSEGO.
O mais parecido com a vida dele: aparentemente organizada mas, na realidade, caótica, desarrumada, fragmentada.

Um excerto, (aparentemente) ao acaso:

ESTÉTICA DO DESALENTO

Já que não podemos extrair beleza da vida, busquemos ao menos extrair beleza de não poder extrair beleza da vida. Façamos da nossa falência uma vitória, uma coisa positiva e erguida, com colunas, majestade e aquiescência espiritual.
Se a vida [não] nos deu mais do que uma cela de reclusão, façamos por ornamentá-la, ainda que mais não seja, com as sombras de nossos sonhos, desenhos a cores mistas esculpindo o nosso esquecimento sobre a parada exterioridade dos muros.
Como todo o sonhador, senti sempre que o meu mister era criar. Como nunca soube fazer um esforço ou activar uma intenção, criar colidiu-me sempre com sonhar, querer ou desejar, e fazer gestos com sonhar os gestos que desejaria poder fazer.

Livro do Desassossego, Fernando Pessoa; ed. Richard Zenith

14.4.10

VAI UM CAFEZINHO?





Elogiemos o café, hoje, que é o seu DIA MUNDIAL.
E que melhor elogio do que o texto de George Steiner? Bem sei que ele não fala do café/bebida... Mas o resto, que é o mais importante, está lá.



«A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa».


O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flâneur e o poeta ou metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática. Uma chávena de café, um copo de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia. É o clube dos espirituosos e a poste-restante dos sem-abrigo. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Três cafés principais da Viena imperial e entre as guerras forneceram a agora, o locus da eloquência e da rivalidade, a escolas adversárias de estética e economia política, de psicanálise e filosofia. Quem desejasse conhecer Freud ou Karl Kraus, Musil ou Carnap, sabia precisamente em que café procurar, a que Stammtisch tomar lugar. Danton e Robespierre encontraram-se uma última vez no Procope. Quando as luzes se apagaram na Europa, em Agosto de 1914, Jaurès foi assassinado num café. Num café de Genebra, Lenine escreveu o seu tratado sobre empiriocriticismo e jogou xadrez com Trotsky.

Note-se as diferenças ontológicas. Um pub inglês e um bar irlandês têm a sua própria aura e mitologias. O que seria da literatura irlandesa sem os bares de Dublin? Onde, a não existir o Museum Tavern, teria o Dr. Watson encontrado Sherlock Holmes? Mas estes estabelecimentos não são cafés. Não têm mesas de xadrez, não há jornais à disposição dos clientes, nos seus suportes próprios. Só muito recentemente o próprio café se tornou hábito público na Grã-Bretanha, e mantém o seu halo italiano. O bar americano desempenha um papel vital na literatura americana e em Eros, no carisma icónico de Scott Fitzgerald e Humphrey Bogart. A história do jazz é inseparável dele. Mas o bar americano é um santuário de luzes desmaiadas, muitas vezes de escuridão. Vibra com música, muitas vezes ensurdecedora. A sua sociologia e o seu tecido psicológico são permeados pela sexualidade, pela presença —desejada, sonhada ou real— de mulheres. Ninguém redige tomos fenomenológicos à mesa de um bar americano (cf. Sartre). As bebidas têm de ser renovadas, se o cliente quiser continuar a ser desejado. Há «seguranças» que expulsam os indesejáveis. Cada uma destas características define uma ética radicalmente diferente daquela do Café Central ou do Deux Magots ou do Florian. «Haverá mitologia enquanto existirem pedintes», declarou Walter Benjamin, um connaisseur apaixonado e peregrino de cafés. Enquanto existirem cafetarias, a «ideia de Europa» terá conteúdo.»

G. Stneiner, A Ideia de Europa, Gradiva, 2005

Imagens:
Fernando Pessoa, por Almada Negreiros;
Foto de Fernando Pessoa no Martinho da Arcada, com Costa Brochado

14.1.09

O CORVO


Li, há alguns anos, esta tradução de Fernando Pessoa do poema de Edgar Allan Poe, The Raven

Eu não estava preparado para entender todo o alcance da narração de Poe -como talvez ainda não esteja. Lembro-me que me impressionou, sobretudo, a cadência daquele verso no final de cada estrofe.

Hoje, ao reler este poema, a partir do blogue Fragmentos Culturais e do comentário da minha amiga Avelã, retomo a emoção daquela primeira leitura.

E não resisto a transcrever, agora que se comemoram os 200 anos do nascimento de E A Poe.



O CORVO


Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,

Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,

E já quase adormecia, ouvi o que parecia

O som de alguém que batia levemente a meus umbrais

«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.

É só isso e nada mais.»


Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,

E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.

Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada

P'ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais —

Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

Mas sem nome aqui jamais!


Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo

Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!

Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,

«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;

Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

É só isto e nada mais».


E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,

«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;

Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,

Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,

Que mal ouvi...» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.

Noite, noite e nada mais.


A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,

Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.

Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,

E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —

Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

Isto só e nada mais.


Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,

Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.

«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.

Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»

Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

«É o vento, e nada mais.»


Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,

Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.

Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,

Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,

Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.

Foi, pousou, e nada mais.


E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura

Com o solene decoro de seus ares rituais.

«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,

Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!

Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»

Disse o corvo, «Nunca mais».


Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,

Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.

Mas deve ser concedido que ninguém terá havido

Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,

Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

Com o nome «Nunca mais».


Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,

Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.

Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento

Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais

Todos — todos já se foram. Amanhã também te vais».

Disse o corvo, «Nunca mais».


A alma súbito movida por frase tão bem cabida,

«Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.

Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono

Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,

E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais

Era este «Nunca mais».


Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,

Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;

E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira

Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,

Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,

Com aquele «Nunca mais».


Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo

À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,

Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando

No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,

Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,

Reclinar-se-á nunca mais!


Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso

Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.

«Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te

O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,

O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»

Disse o corvo, «Nunca mais».


«Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave preta!

Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,

Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida

Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,

Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»

Disse o corvo, «Nunca mais».


«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu disse.

«Parte! Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!

Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!

Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!

Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!»

Disse o corvo, «Nunca mais».


E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda

No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.

Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,

E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,

E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,

Libertar-se-á... nunca mais!


Edgar Allan Poe

Tradução de Fernando Pessoa

Foto: Inês Ramos in OLHARES-fotografia online








20.5.08

O MARINHEIRO



(...)


- Eu já não sabia em que pensava... No passado dos outros talvez..., no passado de gente maravilhosa que nunca existiu... Ao pé da casa de minha mãe corria um riacho...Porque é que correria, e porque é que não correria mais longe, ou mais perto?... Há alguma razão para qualquer coisa ser o que é? Há para isso qualquer razão verdadeira e real como as minhas mãos?...


- As mãos não são verdadeiras nem reais... São mistérios que habitam na nossa vida... às vezes, quando fito as minhas mãos, tenho medo de Deus... Não há vento que mova as chamas das velas, e olhai, elas movem-se... Para onde se inclinam elas?... Que pena se alguém pudesse responder!... Sinto-me desejosa de ouvir músicas bárbaras que devem agora estar tocando em palácios de outros continentes... É sempre longe na minha alma... Talvez porque, em criança, corri atrás das ondas à beira-mar. Levei a vida pela mão entre rochedos, mará-baixa, quando o mar parece ter cruzado as mãos sobre o peito e ter adormecido como uma estátua de anjo para que nunca mais ninguém olhasse...


- As vossas frases lembram-me a minha alma...


(...)


Teatro Municipal de Almada, 17 de Maio. A peça de Fernando Pessoa - O MARINHEIRO - foi uma viagem inquietante aos nossos abismos. Teatro poético, extático, carregado de simbolismo. Cada homem é um marinheiro que não conhece o antes nem o depois da viagem.


A vida humana é um espaço de palavras entre dois infinitos silêncios: o de quando ainda não existimos; o de quando deixamos de existir. Por isso Fernado Pessoa fez da sua vida um monumento de palavras entre esses dois silêncios.


Vejo O MARINHEIRO como a afirmação da palavra /vida face ao silêncio / morte. Silêncio representado pela figura de branco vestida, imersa no silêncio, jazendo entre os espectadores e as três veladoras.


Texto ( de Fernando Pessoa) e encenação ( de Alain Olivier): absoluta beleza!


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Do site do Teatro Municipal de Almada:


Em Setembro de 2006 Alain Ollivier, director do Théâtre Gérard Phillipe de Saint-Denis, apresentou na Sala Experimental do TMA a sua encenação de O marinheiro, de Fernando Pessoa: um espectáculo protagonizado pela célebre actriz francesa Anne Alvaro, cuja interpretação Miguel Pedro Quadrio, crítico do Diário de Notícias, considerou “de uma beleza quase lancinante”. Deste espectáculo surgiu o convite para Alain Ollivier dirigir o “drama estático” de Pessoa numa produção da Companhia de Teatro de Almada, com um elenco de actrizes portuguesas. Escrito em apenas dois dias (11 e 12 de Outubro de 1913), O marinheiro nunca chegou a ser representado na presença do seu autor, e mesmo hoje em dia são poucas as encenações desta obra-prima quase desconhecida.Fernando Pessoa (1888 - 1935) é considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa, a par de Luís de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou-o, juntamente com Pablo Neruda, o mais representativo poeta do século XX. Por ter vivido a maior parte da sua juventude na África do Sul, o inglês também possui um papel de destaque na sua vida, tendo escrito uma parte importante da sua obra nessa língua. Pessoa teve uma vida discreta, que dividiu entre o jornalismo, a publicidade, o comércio e, principalmente, a literatura, onde se desdobrou em centenas de heterónimos, sendo os mais conhecidos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares: a figura enigmática em que Pessoa se tornou movimenta grande parte dos estudos sobre a sua vida e obra. Fernando Pessoa morreu em Lisboa, a mesma cidade em que nascera, de problemas hepáticos, aos 47 anos de idade. A última frase que escreveu foi: “I know not what tomorrow will bring..


Intérpretes: Cecília Laranjeira, Maria Frade, Teresa Gafeira

Cenário Daniel Jeanneteau

Máscaras:Erhard Stiefel

Luz: José Carlos Nascimento


15.3.08

Mar português...

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa, Mensagem, poema "Prece"