24.12.12
OCULTO
20.12.12
TANTO SOSSEGO!
Há por aqui muita gente sossegada, a viver em artérias sem trânsito, exclusivas dos moradores e de raros passantes que por ali atalham caminho.
Quando tirei as fotos veio muita gente à janela, alarmada com os "splagr" da máquina. E mais alarmados ficaram quando viram o que ando a ler:
Tive de prometer que só abriria o livro no LUGAR ONDE.
28.7.12
GATO
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
janeiro de 1931
3.7.12
LEITURAS - Cartas de amor...
Sabemos o que Fernando Pessoa escreveu sobre isso. E lemos, há uns anos, as cartas que ele escreveu, ridículas naturalmente. Como também lemos as de Ofélia, de publicação mais recente. Ela, muito mais produtiva (129 cartas), ele nem metade escreveu (51).
A novidade é esta edição em que se juntam os dois conjuntos epistolares, já anteriormente editados mas em separado: Cartas de Amor de Fernando Pessoa (Lisboa: Ática, 1978) ; Cartas de Amor de Ofélia a Fernando Pessoa (Lisboa: Assírio & Alvim, 1996).
O volume actual, já à venda embora tenha a data de edição de Setembro de 2012, com a chancela Assírio& Alvim agora pertença da Porto Editora, apresenta-se como o nº 13 da colecção Pessoana e tem 367 páginas.
Pessoalmente o que me toca mais é a impressão de profunda humanidade que se desprende destas páginas, outrora íntimas. Hoje são públicas pela exposição pública de quem as escreveu, sobretudo pela genialidade da obra de Fernando Pessoa. Mas é essa humanidade, como que um desamparo de seres frágeis e sujeitos às leis dos afectos do comum dos mortais, que me comove e emociona.
Hei-de postar aqui algumas passagens desta correspondência tão bonita e tocante.
28.5.12
A ARCA SEM FUNDO DO SENHOR FERNANDO
Perto de 30 000 papéis, dizem os estudiosos de Fernando Pessoa. Há anos que lá mexem e remexem, e aquilo parece não ter fundo.
Um estudioso brasileiro - José Paulo Cavalcanti Filho - apaixonou-se por Pessoa e andou 8 anos a esgaravatar. Mas não se ficou pela arca, quis saber mais. Por exemplo, quem era o tal Esteves da Tabacaria? E que tabacaria era essa? Que farmácia "A. Caeiro" existia na Almirante Reis que Pessoa refere ter visto de relance numa ocasião em que por lá passou? E Ofélia, terá Pessoa chegado aos finalmentes sexuais com ela? A que horas certas terá nascido o Poeta, 15H15? 15H20? - pediu o parecer "científico" do famoso astrólogo Paulo Cardoso, que o deu e certificou: foi às 15H22!
E as cartas que escreveu para Mário de Sá-Carneiro em Paris, onde estão? Terão sido enterradas com ele? Cavalcanti foi a Paris, revolveu os últimos testemunhos possíveis, teve esperança de uma possível inumação mas ficou a saber que de Sá-Carneiro já nada resta, nem a memória de onde estão os ossos.
O livro está cheio destas minudências que alimentam um certo espírito mórbido de leitores curiosos como eu.
É claro que os académicos e os grandes conhecedores da obra do Poeta não levam isto à paciência. Até os percebo, sobretudo quando denunciam alarvidades como essa de Cavalcanti defender que Pessoa teve, pelo menos, 207 heterónimos!
É uma questão sempre polémica: onde passa a fronteira entre a vida e a obra?
Cavalcanti defende que em Pessoa não há fronteira. Uma confunde-se com a outra.
Parece-me que a coisa é mais simples. Se tivermos como critério a ação e a repercussão social, o homem teve uma vida apagada, sem grandeza, egoísta, pequenina. Pessoa não tinha vontade, força de vontade - como ele mesmo reconhecia. Era abúlico, desorganizado, incapaz de uma ação persistente. A arca é a imagem dele: papéis a monte, mal alinhavados, muitos sem qualquer referência de data ou circunstância. Fez projetos, escreveu-os, mas não realizou nenhum. Teve ideias geniais mas foi incapaz de as concretizar. Os seus escritos teóricos são incompletos, começam bem mas ficam-se pelo esboço, à espera de melhores dias. Tudo isto se sabe há muito, já foi estudado e escrito, a começar pela biografia de Gaspar Simões.
O que parece novo no livro de Cavalcanti é a forma de abordagem. Assumidamente subjetiva, apaixonada, jogando com as palavras do próprio Fernando Pessoa para ir delineando um possível percurso biográfico. Há que ter isso em conta e descontar alguns delírios na formulação de hipóteses ousadas, é certo, como essa de ir à procura de provas da homossexualidade de Pessoa e concluir que ela existiu mas sem consumação carnal. Ora bem!
Como diz Teresa Rita Lopes: «Se deixassem este livro ser apenas aquilo que é, obra de um apaixonado colecionador de estórias, não aceitaria o pedido do Público para o criticar»
Os ecos da polémica troca de argumentos entre Cavalcanti e a pessoana Teresa Rita Lopes podem ser encontrados aqui:http://blog.umfernandopessoa.com/2012/05/critica-de-fernando-pessoa-uma-quase.html
16.11.11
PAGÃOS INOCENTES DA DECADÊNCIA
Está aqui toda a condição humana.
13.6.11
PARABÉNS, FERNANDO PESSOA
Se fosses vivo farias hoje 123 anos! - forte razão para já não estares vivo...
Altura boa para reler o teu longo poema a Santo António, que começa assim:
Nasci exactamente no teu dia -
Treze de Junho, quente de alegria,
citadino, bucólico e humano
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!
E lá continuas, em tom jocoso, a conversa poética com o teu santo... Para finalmente concluires:
Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António -
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?
23.3.11
Filme do Desassossego
Vi-o ontem, no Teatro-Cine. Filme sombrio, de extrema beleza. Um homem, uma cidade, uma vida. E as palavras, palavras, palavras... de Bernardo Soares, semi-heterónimo de Frenando Pessoa.
Gosto do título em francês: "Le livre de l'inquietud". A inquietação de não estar bem em lado nenhum embora se adivinhe nos olhos do protagonista um amor desmedido pelos lugares onde vagueia.
7.2.11
UM HOMEM: FERNANDO PESSOA
*
Fernando Pessoa intimida muita gente. Vêem-no como um complicado intelectual, um criador de poemas contraditórios, um alucinado sem rumo, disperso por múltiplas personalidades, um místico racional e um racionalista enovelado em ideias místicas. Um ser misterioso, enigmático, obscuro.
Também passei por isso. Que homem foi este?
Há anos encontrei uma edição da MENSAGEM em formato de bolso que me surpreendeu (1). Para além dos poemas de Pessoa, trazia um extenso estudo de António Quadros sobre o poeta e a obra, e ainda um conjunto de poesias inéditas ou pouco conhecidas.
Este livro desvendou-me um Fernando Pessoa profundamente humano, de traços comoventes, de contornos riquíssimos, marcado por uma infância materialmente feliz mas afectivamente árida, com uma inteligência superior mas a que faltou o arrimo da força de vontade e do método. Um ser solitário sem ser misantropo ou anti-social, na inquietação de viver em permanente encruzilhada, sempre consciente da finitude.
Um contemporâneo seu (António Cobeira, amigo da juventude), citado por A. Quadros, escreveu:
(1) - MENSAGEM E OUTROS POEMAS AFINS, Obra Poética de Fernando Pessoa, Introdução, organização e biobibliografia de António Quadros; Publicações Europa-América, col. Livros de Bolso, nº 435, 2ª edição, Mem Martins, s/d
(2) FOTOBIOGRAFIAS SÉCULO XX - FERNANDO PESSOA, Richard Zenith, Círculo de Leitores, Rio de Mouro, 2008.
30.11.10
75 ANOS DE MORTE
Fernando Pessoa: falecido em 30 de Novembro de 1935
13.6.10
PARABÉNS, SENHOR FERNANDO!
Em 13 de Junho de 1930 escreveu no poema "ANIVERSÁRIO:
«No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.»
Em dia de anos costumo dar parabéns aos pais. Mas sobretudo à mãe.
Neste caso, D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira, que aqui vemos na sua casa em Pretória.
Para mim, o grande livro de Fernando Pessoa é O LIVRO DO DESASSOSSEGO.
O mais parecido com a vida dele: aparentemente organizada mas, na realidade, caótica, desarrumada, fragmentada.
Um excerto, (aparentemente) ao acaso:
ESTÉTICA DO DESALENTO
14.4.10
VAI UM CAFEZINHO?
Elogiemos o café, hoje, que é o seu DIA MUNDIAL.
E que melhor elogio do que o texto de George Steiner? Bem sei que ele não fala do café/bebida... Mas o resto, que é o mais importante, está lá.
«A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa».
O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flâneur e o poeta ou metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática. Uma chávena de café, um copo de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia. É o clube dos espirituosos e a poste-restante dos sem-abrigo. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Três cafés principais da Viena imperial e entre as guerras forneceram a agora, o locus da eloquência e da rivalidade, a escolas adversárias de estética e economia política, de psicanálise e filosofia. Quem desejasse conhecer Freud ou Karl Kraus, Musil ou Carnap, sabia precisamente em que café procurar, a que Stammtisch tomar lugar. Danton e Robespierre encontraram-se uma última vez no Procope. Quando as luzes se apagaram na Europa, em Agosto de 1914, Jaurès foi assassinado num café. Num café de Genebra, Lenine escreveu o seu tratado sobre empiriocriticismo e jogou xadrez com Trotsky.
Note-se as diferenças ontológicas. Um pub inglês e um bar irlandês têm a sua própria aura e mitologias. O que seria da literatura irlandesa sem os bares de Dublin? Onde, a não existir o Museum Tavern, teria o Dr. Watson encontrado Sherlock Holmes? Mas estes estabelecimentos não são cafés. Não têm mesas de xadrez, não há jornais à disposição dos clientes, nos seus suportes próprios. Só muito recentemente o próprio café se tornou hábito público na Grã-Bretanha, e mantém o seu halo italiano. O bar americano desempenha um papel vital na literatura americana e em Eros, no carisma icónico de Scott Fitzgerald e Humphrey Bogart. A história do jazz é inseparável dele. Mas o bar americano é um santuário de luzes desmaiadas, muitas vezes de escuridão. Vibra com música, muitas vezes ensurdecedora. A sua sociologia e o seu tecido psicológico são permeados pela sexualidade, pela presença —desejada, sonhada ou real— de mulheres. Ninguém redige tomos fenomenológicos à mesa de um bar americano (cf. Sartre). As bebidas têm de ser renovadas, se o cliente quiser continuar a ser desejado. Há «seguranças» que expulsam os indesejáveis. Cada uma destas características define uma ética radicalmente diferente daquela do Café Central ou do Deux Magots ou do Florian. «Haverá mitologia enquanto existirem pedintes», declarou Walter Benjamin, um connaisseur apaixonado e peregrino de cafés. Enquanto existirem cafetarias, a «ideia de Europa» terá conteúdo.»
G. Stneiner, A Ideia de Europa, Gradiva, 2005
Imagens:
Fernando Pessoa, por Almada Negreiros;
Foto de Fernando Pessoa no Martinho da Arcada, com Costa Brochado
14.1.09
O CORVO
Li, há alguns anos, esta tradução de Fernando Pessoa do poema de Edgar Allan Poe, The Raven
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu disse.
20.5.08
O MARINHEIRO
(...)
- Eu já não sabia em que pensava... No passado dos outros talvez..., no passado de gente maravilhosa que nunca existiu... Ao pé da casa de minha mãe corria um riacho...Porque é que correria, e porque é que não correria mais longe, ou mais perto?... Há alguma razão para qualquer coisa ser o que é? Há para isso qualquer razão verdadeira e real como as minhas mãos?...
- As mãos não são verdadeiras nem reais... São mistérios que habitam na nossa vida... às vezes, quando fito as minhas mãos, tenho medo de Deus... Não há vento que mova as chamas das velas, e olhai, elas movem-se... Para onde se inclinam elas?... Que pena se alguém pudesse responder!... Sinto-me desejosa de ouvir músicas bárbaras que devem agora estar tocando em palácios de outros continentes... É sempre longe na minha alma... Talvez porque, em criança, corri atrás das ondas à beira-mar. Levei a vida pela mão entre rochedos, mará-baixa, quando o mar parece ter cruzado as mãos sobre o peito e ter adormecido como uma estátua de anjo para que nunca mais ninguém olhasse...
- As vossas frases lembram-me a minha alma...
(...)
Teatro Municipal de Almada, 17 de Maio. A peça de Fernando Pessoa - O MARINHEIRO - foi uma viagem inquietante aos nossos abismos. Teatro poético, extático, carregado de simbolismo. Cada homem é um marinheiro que não conhece o antes nem o depois da viagem.
A vida humana é um espaço de palavras entre dois infinitos silêncios: o de quando ainda não existimos; o de quando deixamos de existir. Por isso Fernado Pessoa fez da sua vida um monumento de palavras entre esses dois silêncios.
Vejo O MARINHEIRO como a afirmação da palavra /vida face ao silêncio / morte. Silêncio representado pela figura de branco vestida, imersa no silêncio, jazendo entre os espectadores e as três veladoras.
Texto ( de Fernando Pessoa) e encenação ( de Alain Olivier): absoluta beleza!
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Do site do Teatro Municipal de Almada:
Em Setembro de 2006 Alain Ollivier, director do Théâtre Gérard Phillipe de Saint-Denis, apresentou na Sala Experimental do TMA a sua encenação de O marinheiro, de Fernando Pessoa: um espectáculo protagonizado pela célebre actriz francesa Anne Alvaro, cuja interpretação Miguel Pedro Quadrio, crítico do Diário de Notícias, considerou “de uma beleza quase lancinante”. Deste espectáculo surgiu o convite para Alain Ollivier dirigir o “drama estático” de Pessoa numa produção da Companhia de Teatro de Almada, com um elenco de actrizes portuguesas. Escrito em apenas dois dias (11 e 12 de Outubro de 1913), O marinheiro nunca chegou a ser representado na presença do seu autor, e mesmo hoje em dia são poucas as encenações desta obra-prima quase desconhecida.Fernando Pessoa (1888 - 1935) é considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa, a par de Luís de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou-o, juntamente com Pablo Neruda, o mais representativo poeta do século XX. Por ter vivido a maior parte da sua juventude na África do Sul, o inglês também possui um papel de destaque na sua vida, tendo escrito uma parte importante da sua obra nessa língua. Pessoa teve uma vida discreta, que dividiu entre o jornalismo, a publicidade, o comércio e, principalmente, a literatura, onde se desdobrou em centenas de heterónimos, sendo os mais conhecidos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares: a figura enigmática em que Pessoa se tornou movimenta grande parte dos estudos sobre a sua vida e obra. Fernando Pessoa morreu em Lisboa, a mesma cidade em que nascera, de problemas hepáticos, aos 47 anos de idade. A última frase que escreveu foi: “I know not what tomorrow will bring..
Intérpretes: Cecília Laranjeira, Maria Frade, Teresa Gafeira
Cenário Daniel Jeanneteau
Máscaras:Erhard Stiefel
Luz: José Carlos Nascimento
15.3.08
Mar português...
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.
Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!
Fernando Pessoa, Mensagem, poema "Prece"