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29.9.10

DIALÓGOS "à Pacheku" !



- Ké kinteressa essa conversa, ó fait néan? Manhãs a coxinar na treta e os outros que samolem, né? Greve geral naspanha, atentados lá ó longe e tu, ó cuxifel! a curtir sons bué da românticos, ó pr'aki, ó pr'áli... Andas a inganar o pagode, ó caramé - tracinho - lo!

- Ké ká saber. O Fernando Assis Pacheco é kasabia toda!
Ó pr'a ele:

Os trabalhos de amor são os mais leves
de quantos algum dia pratiquei
na cama as alegrias fazem lei
e se me queixo é só de serem breves

eu vivo atado às tuas mãos suaves
num nó de que este corpo já não sai
ferve o arco do sol a tarde cai
ardem voando pelo céu as aves

mágoas outrora muitas fabriquei
e em países salobros jornadeei
ao dorso das tristezas almocreves

a vez em que te amei um outro fui
comigo fiz a paz nada mais dói
e os trabalhos de amor nunca são graves

Lisboa
12-X-93, 23-XII-93

1.10.09

HOJE, DIA INTERNACIONAL DO IDOSO





INTERIOR COM CÃO

A velhice, aprender-lhe esses primeiros sinais
o cabelo «de prata» caindo agora um tudo nada mais
no lavatório ou simplesmente
ao deitar-se na cama o coração «que salta»
a moleza das pernas

não consolação nisto nenhuma
nem um crédito a favor
quando cotejadas as situações
(velhos nos asilos senhoras de preto à esmola
subindo a Rua Garrett)

a constatação dos anos «feitos
entre si para me perderem»
uma quase também
melancolia matadora

toda a máscara sufoca?

mas não para escapar a isto
usei-as talvez

quando me sento
à mesa e vejo aqui diante
do papel branco as unhas devastadas
como por um ácido

dentro do cesto o cão da casa
também já passa manhãs
à espera do sol quente

Fernando Assis Pacheco in
"A MUSA IRrEGULAR"