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26.12.10

MELANCOLIA MANSA


UM VELHO

No meio do café barulhento, debruçado
sobre a mesa, um velho está sentado;
com um jornal à sua frente, sem companhia
E no desdém de sua velhice mísera de agora
pensa quão pouco aproveitou os anos de outrora
em que tinha fluência, e beleza, e energia.
Percebe que envelheceu muito; sente, conhece.
E contudo o tempo em que era jovem lhe parece
ontem. Como o tempo passa, como o tempo passa!
E pensa em como a Prudência o enganou;
e como - que loucura! - sempre lhe acreditou
quando dizia; "Amanhã. Há tempo." - Que trapaça!
Lembra ímpetos que segurou; felicidade,
quanta sacrificou. Cada oportunidade
perdida de seu saber insensato graceja.
Mas de tanto refletir e recordar
o velho tonteou. E agora dorme a sonhar
no café recostado sobre a mesa.  
 
Konstantinus Kavafis
(1897)

5.12.08

TAMBÉM COMIGO...


À medida que conquistamos a maturidade tornamo-nos mais jovens. Comigo passa-se isso mesmo... pois mantive sempre o mesmo sentimento perante a vida desde os anos de rapaz; nunca deixei de encarar a minha vida adulta e o envelhecimento como uma espécie de comédia.


Cada percurso, seja ele rumo ao Sol ou rumo à noite, conduz à morte, a um novo nascimento, e as dores a ele associadas amedrontam a alma. Mas todos seguem esse percurso, todos morrem, todos nascem, pois a eterna Mãe devolve-os eternamente ao dia.
Hermann Hesse in Elogio da Velhice, Ed Difel, 2002
Foto © Méon, Choupal de Torres Vedras, 2008