Edward Hopper, Hotel Room
Imagem insólita do quotidiano?
Uma mulher em roupa interior está absorta na leitura. Nada de insólito, eh! Passo os dias a fazer coisas assim, deixar a meio uma tarefa e pegar num jornal ou num livro. Ou regar uma planta com um pé calçado e outro descalço. Ficar a olhar a TV, à saída do banho, meio nu ou meio vestido. O quotidiano não tem história até ao momento em que é olhado, narrado.
Na pintura a narração suspende-se, fotograma de um filme. O movimento isola-se em momento, tornado fulgurante pela eliminação do tempo. Transforma-se em eternidade e em silêncio.
E. Hopper, Western Motel
Um olhar carregado de ambiguidade. Não sabemos se somos esperados ou censurados por invadir o espaço. O silêncio, sempre. O instante tornado eterno pela imobilidade e pelo silêncio. Lá fora, a aridez do mundo.