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18.6.10

POEMA PARA HOJE




MINUTO

O amor? Seria o fruto
trincado até mais não ser?
( Mas para lá do prazer
a Vida estava de luto... )

Fui plantar o coração
no infinito: uma flor...
( Mas para lá do fervor
a Vida gritou que não! )

O amor? Nem flor nem fruto.
( Tudo quanto em nós vibrara
parecia pronto a ceder... )

Foi apenas um minuto:
a fome intensa, tão rara!,
de ser criança, ou morrer...


(David Mourão-Ferreira)

21.4.10

RECADO VIOLETA PARA TI



A FLOR

Entre a erva dos nervos camuflada,
emboscada no túnel de uma veia,
a flor apenas rompe, deslumbrada,
quando o pinhal, à noite, se incendeia...

Virá a converter-se em depressão,
enfarte do miocárdio, ou embolia,
no dia em que se apague esse clarão
com que a sua presença se anuncia... ?

Mas numa artéria já sem movimento,
ou na erva dos nervos recolhida,
descobrirão a flor feita de vento
que em vida me deu morte e me deu vida...

Hão-de enterrar então a flor e o vaso.
E nunca ninguém mais alude ao caso.

David Mourão-Ferreira

17.11.09

...NO COTOVELO DO VENTO




FOLHA

Era uma folha pousada
no cotovelo do vento:
e pairava, deslumbrada,
entre morte e movimento.

Era uma folha:lembrava
de tão frágil, o momento
em que a vida me ficava
escrava do teu juramento.

Era uma folha: mais nada.
Antes fosse esquecimento!

David Mourão-Ferreira in
Os Quatro Cantos do Tempo