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4.9.10

ISTO SOU EU A DIZER...

Respeito as opções políticas de toda a gente, desde que me seja reconhecido o mesmo direito.
Dito isto, apetece-me discorrer um pouco, como simples cidadão que vai lendo e ouvindo.
A situação económica em que vivemos é dramática para muita gente e propícia para uma minoria para quem as crises são “janelas de oportunidade”. Mas é uma crise que ultrapassa as nossas fronteiras. A partir da adesão à CEE / União Europeia e entrada na zona €, a nossa economia ficou, queira-se AGORA ou não, interligada com a economia europeia e mundial.
Estas duas realidades (desequilíbrio galopante entre ricos e pobres; dependência da nossa economia face ao exterior) têm de ser simultaneamente consideradas em qualquer análise que se faça.
Os pobres e os desempregados desesperam e anseiam por soluções que, em princípio, são bandeiras das esquerdas. No espectro político português é o PCP o maior e mais antigo Partido dessa área, sendo que o PS, reivindicando-se também de esquerda, tem uma prática de compromisso que o descredibiliza nessa pretensão.
Assim sendo, fui ao site do PCP em busca do documento que este Partido apresentou com a análise da situação gravíssima da nossa economia e as soluções que propõe, e que se intitula “Campanha Nacional do PCP em defesa da produção nacional e do aparelho produtivo”.
 O que li deixou-me perplexo. Aquele documento é uma utopia, sem ligação à realidade. Dir-se-ia que estamos no Portugal dos anos 60, sem economia global, sem União Europeia, sem Euro. Que vivemos num país cheio de recursos naturais e em que o Estado tem capacidade para os investimentos propostos em todas as áreas – renovação da frota pesqueira, construção de fábricas, indústria pesada, regresso em força à agricultura, subida geral dos salários e pensões, nacionalização dos sectores estratégicos, etc. É um puro delírio, à maneira da antiga Albânia, como se pode ver pela leitura do referido texto.
Que conclusão tirar daqui? Pela leitura que faço, o PCP reconhece implicitamente neste documento que não tem propostas viáveis para a crise. Ao propor TUDO não chega a NADA. Aponta para um país mítico, uma espécie de Brigadoom ideal, no qual só não entramos porque uma legião de homens maus barra o caminho, contra os interesses de milhões de homens bons que têm todas as qualidades excepto a de serem capazes de vencer a minoria dos demónios.
No fundo o que este documento diz é o seguinte: no quadro político do actual regime não há soluções para os problemas dos pobres; só com uma nova revolução, que desta vez vá até ao fim, que saia da zona euro, e da União Europeia; que feche as fronteiras à livre circulação de pessoas e bens; que ignore todos os compromissos internacionais e que institua Portugal como uma espécie de aldeia gaulesa que resiste sozinha ao invasor romano.



Reconheço que sem o PCP os pobres e os excluídos estariam ainda pior do que estão. Que a sua acção é necessária para que haja alguma resistência à enxurrada do capital financeiro mundial. Mas a opção por medidas revolucionárias cria ilusões que acabam por funcionar como a fé dos crentes e transformam os discordantes em criminosos ( no documento faz-se esta ligação, bem claramente...)
Infelizmente o movimento comunista mundial fracassou estrondosamente quanto ao objectivo mil vezes proclamado de “Proletários de todo o mundo, uni-vos!” Desgraçadamente quem se uniu foi o capital de todo o mundo. Hoje o dinheiro não tem fronteiras e a crise mundial aí está a prová-lo. Ao contrário dos proletários, explorados por todo o lado e sem capacidade de luta internacional eficaz.
Só assim entendo esta estratégia de utopia mistificadora do PCP, de que a candidatura de Francisco Lopes à Presidência da República é outra manifestação evidente. A coisa seria pacífica se não passasse de questão de opinião. O problema é que, para o PCP, o mundo só tem duas partes. De um lado “os trabalhadores e o povo”, explorados e injustiçados; do outro, os capitalistas exploradores, impiedosos e criminosos. A vida política transforma-se, assim, em luta entre “bons” e “maus” e as opções divergentes são vistas como crime. Deixa-se o plano da procura racional de soluções políticas para entrar no reino da moral: quem não está por nós é contra nós, quem se nos opõe é porque se vendeu aos grandes interesses. ( Vital Moreira passou de cérebro genial da Constituição de Abril a trânsfuga sem escrúpulos; Zita Seabra igualmente; Carlos Brito, idem; José Luís Judas, também. E tantos outros…)
Por aqui me fico. Sei que nada é simples, que não tenho soluções nem vejo saídas para o labirinto em que vivemos. Mas continuo à procura...

11.3.09

VAMPIROS


Eles sugam o sangue do país mas são a nossa elite. Sempre sorridentes nas revistas que muita gente adora ler porque "me distraem dos problemas da vida"...(ouvi isto muitas vezes!)
E enquanto nos vamos distraindo, eles vão à igreja e educam os filhos nos colégios particulares. Para os ensinar a participarem em reuniões de trabalho, como eles....
A crise é feita do sangue que lhes escorre da boca...
Estou a exagerar? Deve ser de ter lido isto...




in: Diário de Noticias de 8 de Março de 2009
Corte de três milhões na supervisão do BCP

PAULA CORDEIRO

Assembleia Geral de Março. Um grupo de accionistas do BCP, liderado por Joe Berardo, segue as pisadas da nova administração e propõe um corte de 50% nas remunerações do Conselho Geral e de Supervisão. A este juntam-se mais 2,3 milhões de ganhos com a extinção do Conselho Superior.

O Banco Comercial Português (BCP) vai proceder a um corte radical nas remunerações dos seus órgãos sociais. Com a proposta de extinção do Conselho Superior (CS) e a aprovação da proposta de remunerações para o Conselho Geral e de Supervisão (CGS) o banco vai poupar mais de três milhões de euros já este ano. Só o presidente deste órgão ganhava 360 mil euros por ano, para participar em quatro reuniões. Um ganho de 90 mil euros por reunião.

As propostas à assembleia geral de dia 30 deste mês foram já publicadas e são assinadas por alguns dos maiores accionistas do BCP, ou seja, Sonangol, Joe Berardo, EDP, Sogema e Investifino.
Mas este grupo de accionistas está a trabalhar para contar com mais apoios, entre eles a Eureko. É um trabalho liderado pelo presidente do Conselho de Remunerações. Joe Berardo, em declarações ontem ao DN, disse apenas disse que "estamos todos a trabalhar nisso".
Além da já conhecida proposta de extinção do CS, este grupo de accionistas quer reduzir para 50% as remunerações do CGS, que deverá ser substituído por membros designados por estes proponentes. Luís Champalimaud é o presidente proposto, uma escolha que coincide com o afastamento dos membros ainda afectos a Jardim Gonçalves. O DN sabe que o presidente da Eureko, Gijsbert Swalef, não ficará no futuro CGS, com a seguradora holandesa a ter de indicar outro nome.
O corte de 50% nas remunerações actuais do CGS vai ditar uma poupança de quase um milhão de euros face a 2008, em que estes custos somaram 1,9 milhões de euros. Também os gastos em funcionamento deste órgão deverão sofrer reduções: no ano passado, as deslocações e outras despesas do Conselho atingiram três milhões de euros. Segundo o DN apurou, os 24 membros do CS representaram gastos em remunerações de 2,3 milhões de euros, contra 3,5 milhões de euros em 2007.

Actualmente, a remuneração do presidente do CGS do BCP é de 360 mil euros anuais, tendo como obrigação mínima a presença em quatro reuniões ordinárias por ano.
O vice-presidente, por seu lado, ganha 290 mil euros anuais, caso integre comissões especializadas. Caso não o faça, a sua remuneração é de 150 mil euros anuais.
Os restantes nove vogais do CGS (o órgão é composto por onze elementos) ganha cadaum, por ano, 150 mil euros, caso participe em comissões especializadas, ou 115 mil euros, caso não integre. Na proposta que este grupo de accionistas vai levar à assembleia geral, estas remunerações passam para 25% e 10% do vencimento do presidente, em função da sua participação ou não em comissões.
Estas propostas elaboradas por Berardo e apoiadas pelos maiores accionistas do BCP surgem na sequência das decisões tomadas pela actual administração executiva, desde a sua tomada de posse, em 2008.
Os cortes decretados pela equipa liderada por Carlos Santos Ferreira já produziram efeitos nos custos com remunerações deste órgão executivo. Em 2006, quando o presidente era Paulo Teixeira Pinto, o conselho de administração do BCP representou um custo em remunerações de 29,5 milhões de euros (21,5 milhões de remuneração variável); no ano passado, o custo total foi de 3,4 milhões de euros. (D. Notícias, 8 Março 2009)
O Teixeira Pinto agora é pintor e escreve livros... Intelectual...
Qualquer dia arranja uma Fundação filantrópica para apoio às vítimas da crise...E os jornalistas vão lá todos beijorcar-lhe as mãos caridosas...

4.3.09

PODEM PASSAR ADIANTE...

Não costumo transcrever textos longos. Se não apetecer ler, passem adiante, não levo a mal...
Mas como este é um espaço de partilha, não fui capaz de guardar só para mim. Cid Simões deu-me a ligação para um texto que me parece importante. É uma tentativa de explicação para o que (nos) está a acontecer. Coisas inquietantes, de facto. Desemprego maciço, pensões de reforma que serão cada vez menores, catástrofes ambientais, economias em colapso...
É um texto um pouco longo mas que considero esclarecedor, ao contrário de certas "teses" cheias de conceitos do séc. XIX...



Sinais de implosão

Rumo à desintegração do sistema global
por Jorge Beinstein [*]

Setembro de 2008 foi um ponto de inflexão no processo recessivo que se iniciara nesse ano nos Estados Unidos: estalou o sistema financeiro e a recessão começou a estender-se rapidamente a nível planetário. Ao mesmo tempo, evidenciavam-se sintomas muito claros de transição global para a depressão e a sua chegada começou a ser admitida em princípios de 2009. Agora assistimos a um encadeamento internacional de quedas produtivas e financeiras. Ele é acompanhado por uma mistura de pessimismo e impotência diante da provável transformação da onda depressiva em colapso geral, ao mais alto nível das elites dirigentes. As declarações de George Soros e Paul Volkcker na Universidade de Columbia a 21 de Fevereiro de 2009 assinalaram uma ruptura radical [1] , muito mais séria do que a de Alan Greenspan dois anos atrás quando anunciou a possibilidade de os Estados Unidos entrarem em recessão. Volcker admitiu que esta crise é muito mais grave que a de 1929. Isso significa que a mesma carece de referências na história do capitalismo. O desaparecimento de paralelismos em relação a crises anteriores refere-se também (e principalmente) aos remédios conhecidos. Porque 1929 e a depressão que se seguiu estão associados à utilização com êxito dos instrumentos keynesianos, à intervenção maciça do Estado como salvador supremo do capitalismo. E o que estamos a presenciar agora é a mais completa ineficácia dos Estados dos países centrais para superar a crise.

Na realidade, a avalanche de dinheiro que eles lançam sobre os mercados para auxiliar bancos e algumas empresas transnacionais não só não trava o desastre em curso como também está a criar as condições para futuras catástrofes inflacionárias, as próximas bolhas especulativas. IMPLOSÃO CAPITALISTA? Soros, por sua vez, confirmou aquilo que já era evidente: o sistema financeiro mundial desintegrou-se, ao que acrescentou a descoberta de semelhanças entre a situação actual e aquela vivida durante o derrube da União Soviética. Quais são esses paralelismos? Como sabemos, o sistema soviético começou a desmoronar-se em fins dos anos 1980 para finalmente implodir em 1991. O fenómeno foi geralmente atribuído à degradação da sua estrutura burocrática o que o tornava em princípio intransferível para o capitalismo que também alberga uma vasta burocracia (ainda que não hegemónica como no caso soviético). Mas existe um processo, uma doença que não é património exclusivo dos regimes burocráticos, que se desenvolveu no capitalismo tal como nas civilizações anteriores à modernidade: trata-se da hipertrofia parasitária, do domínio esmagador de formas sociais parasitárias que depredam as forças produtivas até um ponto tal em que o conjunto do sistema fica paralisado, não pode reproduzir-se mais e finalmente morre afogado no seu próprio apodrecimento.

Ao longo do século XX o capitalismo impulsionou estruturas parasitárias como o militarismo e sobretudo as deformações financeiras que marcaram a sua cultura, seu desenvolvimento tecnológico, seus sistemas de poder. As últimas três décadas assistiram à aceleração do processo — adornado com o discurso da reconversão neoliberal, do reinado absoluto do mercado. Talvez o seu ponto mais alto tenha sido alcançado durante o último lustro do século XX, em plena expansão das bolhas bursáteis e quando o poder militar dos Estados Unidos parecia ser imbatível. Mas na primeira década do século XXI começou o desmoronamento do sistema. O Império afundou no pântano de duas guerras coloniais, sua economia degradou-se velozmente e bolhas financeiras de todo tipo (imobiliárias, comerciais, de endividamento, etc) povoaram o planeta. O capitalismo financiarizado havia entrado numa fase de expansão vertiginosa esmagando com o seu peso todas as formas económicas e políticas. Em 2008 os Estados centrais (o G7) dispunham de recursos fiscais num montante da ordem de 10 milhões de milhões de dólares contra 600 milhões de milhões em produtos financeiros derivados registados pelo Banco da Basiléia (BIS), ao que é necessário acrescentar outros negócios financeiros. Segundo alguns peritos, actualmente a massa especulativa global supera os 1000 milhões de milhões (cerca de 20 vezes o Produto Bruto Mundial). Essa montanha financeira não é uma realidade separada, independente da chamada economia real ou produtiva. Foi engendrada pela dinâmica do conjunto do sistema capitalista: pelas necessidades de rentabilidade das empresas transnacionais, pelas necessidades de financiamento dos Estados. Não é uma rede de especuladores autistas lançados numa espécie de auto-desenvolvimento suicida e sim a expressão radicalmente irracional de uma civilização em decadência (tanto a nível produtivo como político, cultural, ambiental, energético, etc).

Há mais de quatro década o capitalismo global com eixo nos países centrais suporta uma crise crónica de superprodução, acumulando sobrecapacidade produtiva perante uma procura global que crescia mas cada vez menos. A droga financeira foi a sua tábua de salvação, melhorando lucros e impulsionando o consumo nos países ricos, ainda que a longo prazo tenha envenenado totalmente o sistema. Foi posto em moda lançar a culpa da crise nos chamados especuladores financeiros. Segundo nos explicam altos dirigentes políticos e peritos mediáticos, as turbulências chegarão ao seu fim quando a "economia real" impuser a sua cultura produtiva submetendo às regras do bom capitalismo as redes financeiras hoje fora de controle. Contudo, em meados da década actual, nos Estados Unidos mais de 40% dos lucros das grandes corporações provinha dos negócios financeiro [2] . Na Europa a situação era semelhante. Na China, no momento do maior auge especulativo (fins de 2007), só a bolha bursátil movia fundos quase equivalentes ao PIB desse país [3] , alimentada por empresários privados e públicos, altos burocratas, profissionais, etc. Não se trata por conseguinte de duas actividades, uma real e outra financeira, claramente diferenciadas, e sim de um só conjunto heterogéneo, real, de negócios. É esse conjunto que agora está a desinchar velozmente, a implodir depois de haver chegado ao seu máximo nível de expansão possível nas condições históricas concretas do mundo actual.

Sob a aparência imposta pelos meios globais de comunicação de uma implosão financeira que afecta negativamente o conjunto das actividades económica (algo assim como uma chuva tóxica a atacar as pradarias verdes) surge a realidade do sistema económico global como totalidade a contrair-se de maneira caótica.

SINAIS

As declarações de Soros e Volcker foram efectuadas poucos dias antes de o governo norte-americano ter dado a conhecer os números oficiais definitivos da queda do Produto Interno Bruto no último trimestre de 2008 em relação a igual período de 2007: a primeira estimativa oficial que fixara a referida queda em 3,8% verificou-se ser uma mentira grosseira. Agora verifica-se que a contracção chegou aos 6,2% [4] — isso já não é recessão e sim depressão. O Japão por sua vez teve no mesmo período uma descida do PIB da ordem dos 12% e em Janeiro de 2009 as suas exportações caíram 45% em comparação com o mesmo mês do ano anterior [5] . Na Europa a situação é semelhante ou talvez pior. Após o derrube financeiro da Islândia, a ameaça da bancarrota económica em vários países da Europa do Leste como a Polónia, Hungria, Ucrânia, Letónia, Lituânia, etc, ameaça de maneira directa os sistemas bancários credores da Suíça e da Áustria, que poderiam fundir-se como o da Islândia. Enquanto isso, os grandes países industriais da região, como Alemanha, Inglaterra ou França, vão passando da recessão à depressão. Os prognósticos sobre a China anunciam para 2009 uma redução da sua taxa de crescimento à metade do de 2088. Suas exportações de Janeiro foram 17,5% inferiores às de Janeiro do ano anterior [6] . Esta brusca deterioração do centro vital do seu sistema económico não tem perspectivas de recuperação enquanto durar a depressão global, pelo que o seu ritmo de crescimento geral continuará a descer.

Que Soros e Volcker abram a expectativa de um colapso do sistema económico mundial não significa que o mesmo se produza de modo inevitável. Afinal de contas, uma das principais características de uma decadência civilizacional como a que estamos a presenciar é a existência de uma profunda crise de percepção nas elites dominantes. Contudo, a acumulação de dados económicos negativos e a sua projecção realista para os próximos meses estão a indicar que a grande catástrofe anunciada por eles tem probabilidades de realização muito altas. Para esse desenlace contribuem a impotência comprovada dos supostos "factores de controle" do sistema (governos, bancos centrais, FMI, etc) e a rigidez política do Império. Ao ampliar, por exemplo, a guerra no Afeganistão — preservando assim o poder do Complexo Industrial Militar, gigante parasitário cujos gastos reais actuais (aproximadamente pouco mais de um milhão de milhões de dólares por ano) equivale a 80% do défice fiscal dos Estados Unidos. A estes sintomas económicos e políticos devemos acrescentar a crise energética e alimentar dela derivada, que certamente voltarão a manifestar-se mal se detenha o processo inflacionário (e talvez antes).

Tudo isso num contexto de crise ambiental que passou a ser um factor actual de crise (já não é mais uma ameaça quase intangível localizada num futuro longínquo). E por trás dessas crises parciais encontramos a presença da crise do sistema tecnológico moderno, incapaz de superar – como componente motriz da civilização burguesa – os bloqueios energéticos e ambientais criados pelo seu desenvolvimento depredador.

DESINTEGRAÇÃO, IMPLOSÃO E DISJUNÇÃO

A desintegração-implosão do sistema global não significa a sua transformação num conjunto de subsistemas capitalistas ou blocos regionais com relações mais ou menos fortes entre si, alguns prósperos, outros declinantes (a unipolaridade estado-unidense convertendo-se em multipolaridade, "disjunção" ordenada em torno de novos ou velhos pólos capitalistas). A economia mundial está altamente transnacionalizada, forma um denso emaranhado de negócios produtivos, comerciais e financeiros que penetra profundamente as chamadas "estruturas nacionais", investimentos e dependências comerciais atam-nas de maneira directa ou indirecta aos núcleos decisivos do sistema global. Em termos gerais, para um país ou uma região, a ruptura dos seus laços globais ou o seu enfraquecimento significativo implica uma enorme ruptura interna, o desaparecimento de sectores económicos decisivos com as consequências sociais e políticas que daí decorrem. Além disso, até agora o sistema global estava organizado de maneira hierárquica tanto no seu aspecto económico como político-militar (unipolaridade) devido ao fim da Guerra Fria e da transformação dos Estados Unidos no senhor do planeta. Não só no espaço de concentração das decisões comerciais e financeiras (isso já ocorria há mais de seis décadas) como também das grandes decisões políticas. O afundamento do centro do mundo [7] em meio à depressão económica internacional significa o desencadear de uma cadeia global de crises (económicas, políticas, sociais, etc) de intensidade crescente. Recentemente Zbigniew Brzezinski pôs de lado as suas tradicionais reflexões sobre política internacional para alertar acerca da possibilidade de agravamento dos conflitos sociais dentro dos Estados Unidos que, segundo ele, poderia derivar em distúrbios violentos generalizados [8] . Por sua vez, e a partir de uma perspectiva ideológica oposta, Michael Klare descreveu o mapa dos protestos populares que atravessa todos os continentes, países ricos e pobres, do Norte e do Sul, iniciados em 2008 como consequência da crise alimentar num amplo leque de países periféricos mas que começam a desenvolver-se globalmente em resposta ao agravamento da depressão económica [9] : a multiplicação de crises de governabilidade aguarda-nos a curto prazo.

A hipótese da implosão capitalista abre o espaço para a reflexão e a acção quanto ao horizonte pós capitalista, onde se misturam velhas e novas ideias, ilusões fracassadas e densas aprendizagens democráticas do século XX, travões conservadores legitimando ensaios neocapitalistas e visões renovadas do mundo a pressionar grandes inovações sociais. A agonia da modernidade burguesa com os seus perigos de barbárie senil — mas ruptura de bloqueios ideológicos, de estruturas opressivas e de esperança na regeneração humanista das relações sociais.
02/Março/2009

Notas (1) "Soros sees no bottom for world financial 'collapse' ", Reuters. Sat Feb 21, 2009. David Randall and Jane Merrick, "Brown flies to meet President Obama for economy crisis talks" , The Independent , Sunday, 22 February 2009. (2) US Economic Report for the President, 2008. (3) Em Agosto de 2007 a capitalização das bolsas chinesas superava o valor do Produto Interno Bruto do ano 2006. Dong Zhixin, "China stock market capitalization tops GDP", Chinadaily ( http://www.chinadaily.com.cn/china/2007-08/09/content_6019614.htm ) (4)Cotizalia.com, 27 febrero 2009, "El PIB de EEUUse hunde un 6,2% en el cuarto trimestre". (5) BBC News, 25-2-2009, "Japan exports drop 45 % to new low". (6) "China's export down 17.5% in January", Xinhua, 2009-02-11. (7) Jorge Beinstein, "El hundimiento del centro del mundo. Estados Unidos entre la recesión y el colapso". Rebelión, 8-5-2008 ( http://www.rebelion.org/noticia.php?id=67099 ). (8) "Brzezinski: 'Hell, There Could Be Even Riots' ", FinkelBlog – 20/02/2009 - brzezinski-hell-there-could-be-even-riots ). (9, Michael Klare, "A planet at the brink?", Asia Times, 28 de Fevereiro de 2009. [*] jorgebeinstein@gmail.com Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .





3.2.09

CRISE? ONDE ESTÁ A SURPRESA?

Disse Obama há dias, referindo-se à ajuda que o Estado deu aos bancos para não entrarem em falência: «Os executivos dos grandes bancos repartiram entre si 14 250 milhões do plano da crise. Uma irresponsabilidade e uma vergonha». Referia-se aos prémios dados a gestores e que foram empregues na compra de casas de luxo, aviões particulares, etc.
Cá em Portugal a coisa vai pela mesma bitola. Hoje o PÚBLICO noticiava que o BPN já tinha engolido o equivalente a meio aeroporto da Alcochete.


O curioso é que toda a gente fala da grande surpresa que é esta crise mundial."Ninguém esperava!!!" - dizem todos. Atribuem-na a uma entidade mítica ( a auto-regulação dos mercados que falhou, por motivos que ninguém percebe! ). Os economistas, que ganham tanto dinheiro a dar opiniões teóricas, andam caladinhos, para não fazerem mais figuras tristes. Afinal não sabem nada!

Mas tudo isto era previsível. Eu que não sou economista e pouco percebo destas coisas, tenho vários livros que já alertavam, há muitos anos, para a insustentabilidade deste modelo económico.

Um grande pensador francês, Roger Garaudy, escreveu "APELO AOS VIVOS" em 1979 ( Ed. portuguesa da Moraes, em 1982), em que o primeiro capítulo se intitulava «Um mundo no atoleiro» e o primeiro sub-capítulo era «Um modelo de crescimento que torna o statu quo não vivível e a revolução impossível». Logo na primeira página escrevia:
"Se continuarmos a viver os próximos trinta anos como vivemos os últimos trinta, vamos a caminho de assassinar os nossos netos".
Nem mais!


Em 1996 dois jornalista alemães escreveram um livro ( Ed. portuguesa: "A armadilha da globalização - o assalto à democracia e ao bem-estar social" ) que denuncia o que eles apelidam de "turbocapitalismo", o domínio da economia pelas engenharias financeiras e a instauração de um neoliberalismo que tinha como principal consequência a desestabilização dos Estados e a destruição dos mecanismos de ajuda social onde estes existiam. Isto é: "menos Estado" e "mais lucros privados". Numa espiral que só podia dar no que deu.

No livro "O novo estado do mundo", publicado em França em 1999 e em Portugal um ano depois, já se previa o que hoje vivemos. Por exemplo:
"Quanto mais importantes são os capitais acumulados pelas organizações criminosas, mais elas podem dissimular-se em recantos escusos criados pela desregulamentação económica e financeira. É mais fácil branquear um milhão de dólares do que 20 000 porque não existem controlos nos mercados financeiros. (...) Quanto mais vastas e organizadas são as actividades criminosas, mais insuspeita deve ser a sua fachada legal. A fusão entre a economia global e a economia criminosa perece, portanto, hoje cumprida." ( pág 138).


Maria José Morgado há anos que vem clamando: é urgente que as polícias sejam dotadas de meios humanos com formação específica para fazer face ao crime financeiro, o mais grave de todos porque atira milhares/milhões para o desemprego, a fome, a miséria.
Oliveira e Costa é apenas uma face visível do imenso sub-mundo das manobras financeiras criminosas, denunciadas em livros como "Revelações sobre o mundo financeiro", Edit. Inquérito, 2001 ( no mesmo ano em que foi editado em Paris).

O Prémio Nobel de Economia 1998, o indiano Amartya Sen, professor na Universidade de Oxford), há muitos anos que denuncia as graves desigualdades mundiais com estudos magistrais de que é exemplo o já clássico "Pobreza e fomes - um ensaio sobre direitos e privações", ed. Terramar, 1999 ( o original é de 1981!)

Não esqueçamos que na Madeira funciona há anos uma off-schore, um mecanismo "legal" para dar cobertura a tais manobras.

Agora só ouvimos falar em "surpresa!". Mais uma descarada mentira! Como é possível que em poucos meses aquilo que era uma economia florescente se transforme numa enorme hecatombe ? Como é possível que de um momento para o outro milhões de pessoas fiquem sem emprego?

A grande razão desta crise parece a mesma que levava os monarcas medievais a cunharem mais moeda: o dinheiro deixou de ter valor para os grandes financeiros porque se tornou numa realidade virtual, não corresponde a riqueza real. Os monarcas medievais mandavam arrecadar as moedas circulantes para lhes fazerem um buraco no meio e assim arranjarem mais metal para cunharem novas moedas. O povo ficava temporariamente sem dinheiro? Tivessem santa paciência.... Os tecnocratas financeiros de hoje provocam o crash para voltarem a poder especular, continuando a ganhar fortunas em golpes de bolsa e transferências fantásticas. No espaço de tempo intermédio esperam que os Estados distribuam uns patacos aos desgraçados de sempre...
Não admira que alguns dos nossos "tubarões" financeiros já tenham dito publicamente: os tempos de crise trazem grandes oportunidades de negócio!



Em resumo: uma coisa são os Estados e Administrações públicas nacionais; outra são as grandes entidades financeiras, multinacionais. Com lógicas antagónicas. As últimas manobram no sentido de canalizar somas fabulosas para bolsos privados de uma elite mundial; as primeiras gerem os descontentamentos sociais, vampirizando as classes médias que não podem fugir ao fisco.
As primeiras baralham para dar de novo: é a fase em que estamos. Aos Estados pede-se que acorram como bombeiros, "ajudando" os pobrezinhos ricos que tiveram o enorme prejuízo de só ganharem dez milhões quando era suposto terem lucros de cem!


Como sair disto? Pierre Bourdieu disse em 1995, (citado pelo livro "A armadilha da globalização", pág 241):
«Só podemos combater eficazmente a tecnocracia internacional se a desafiarmos no seu terreno de eleição, o das ciências económicas, e se opusermos ao pensamento mutilado a que ela recorre um saber que respeite mais as pessoas e as realidades que elas enfrentam.»

19.10.08

CRISE, DIZEM ELES...


Desnorteados, tentamos perceber este lugar.
Ir para onde? Quem tem os mapas? E os códigos de sinais, quem tem a chave?
Crise, dizem eles. E nós temos medo de acordar um dia, ir ao multibanco e ler a mensagem: saldo indisponível durante seis meses!

Quem nunca teve saldos não terá problemas: a vida já não poderá piorar... Mas os outros, os que alimentam a economia com o consumo? O que é pior: acabar com o consumo ou com a economia?


Ninguém será preso preventivamente apesar do consenso de que há responsáveis e de se saber que só esperam o "restabelecimento da confiança" para retomarem a especulação.
E os nossos políticos?
Os socialistas continuam a defender a quadratura do círculo.
Os comunistas continuam a falar da utopia em que os explorados são todos bons e os exploradores são todos maus, sem verem que não há fronteira entre eles e que ESSE É QUE É O PROBLEMA!
Os sociais-democratas defendem a "solução do Sr. X" contra a "solução da Srª. Y, que não concorda com "a solução do Sr. Z, que é contra "a solução do Sr. SL"...
Os democratas-cristãos não acreditam em nada enquanto esbracejam para continuarem à tona de água, obsecados com a segurança.
Os bloquistas têm soluções tão evidentes que nos cegam a todos, ninguém as vê!
Os liberais clamam agora pelo Estado!
Para onde vai a estrada?