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12.12.10
PARO ESCUTO OLHO
Vivemos dias de encruzilhada. Ir para onde? Ir por onde?
Gente aflita, perplexa. Embrutecida. Por ignorância, medo, desorientação?
Nunca a vida em sociedade foi tão exigente, parece-me. Os meios de instrução são quase infinitos mas essa abundância funciona em sentido inverso: afasta, repele. Dominar os instrumentos de entender o mundo tornou-se uma tarefa desmedida, mesmo para os que têm treino para isso.
O jornalismo de massas é hoje uma coisa quase inútil. Pura perda de tempo, os telejornais. Sucessão de casos e coisas, a esmo, abordadas pela rama. Um vez ou outra vem um comentador. Um comendador, um comensal...
Que fazer?
O mundo vai pertencer, cada vez mais, a quem domina os mecanismos ocultos e cada vez menos a quem os ignora. E os ignorantes são as massas imensas de gente alienada, borregos a caminho do matadouro, cantando e rindo. Não, não acho que sejam inocentes na sua ignorância. São manipulados, enganados, defraudados, mas parecem comprazer-se nisso.
Nos campos de concentração nazis havia focos de resistência, alimentados por aqueles que já tinham percebido que o fim de todos eram as câmaras de gas. Gritavam essa evidência, mas esbarravam com a inércia da maioria. Ombros curvados, olhos resignados, lá iam para a morte em fila indiana. Porque é que não gritavam, não se atiravam em catadupa contra os guardas, não preferiam morrer electrocutados, numa última arrancada contra o arame farpado?
Vivemos hoje num imenso campo de concentração dourado, cheio de luzinhas natalícias, mas onde muitos já morrem de frio, fome e solidão. Onde está a coragem? A lucidez de procurar saídas?
Ontem eu brincava aqui com as tonterias de Tiririca. Hoje reconheço-me mais grave e responsável.
Não estamos sós, é preciso rebentar com o individualismo. Estudar o mundo, percebê-lo e transformá-lo. Entender que não há fatalidades, há escolhas. Reconhecimento tão necesário perante a aterradora máquina financeira que nos estrangula...
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Estas reflexões foram suscitadas pela leitura de alguns textos estimulantes:
http://albergueespanhol.blogs.sapo.pt/761689.html
http://aespumadaspalavras.blogspot.com/2010/12/wikileaks.html
Para contribuir para a transformação do mundo há que procurar percebê-lo...
10.2.09
JOVEM LUTADORA
Há pouco tocaram à porta. Abri. Uma jovem, carregada com pastas e papéis, disse ao que vinha: inquérito porta-a-porta, controlo de água...
O ar dela despertou-me a intuição de que merecia urgentemente uma palavra de estímulo. Porque de repente era eu quem ali estava, podia ser eu...
Convidei-a para entrar. Em poucos minutos fiquei a saber quem era: uma lutadora, uma jovem com vinte anos e três empregos em part-time, a provar que podia sobreviver pelo seu trabalho. O curso técnico-profissional de gestão e informática? Pode ser que venha a servir. Por enquanto vende produtos de cosmética, vende baguettes num centro comercial e faz porta-a-porta para uma empresa de publicidade.
Entrou porque - disse - achou que eu era boa pessoa.
Quero agradecer-te. Porque em poucas palavras mostraste como há jovens que saem da imagem preconceituosa que os mais velhos têm deles - pecado que eu também cometo... Fizeste-me voltar ao tempo em que, para ajudar a pagar os meus estudos... vendi cursos por correspondência e fotografias, porta-a-porta, em Lisboa e na Amadora, com uma pasta que pesava mais de cinco quilos - e ao fim do dia pesava vinte!
Lembraste-me os muitos jovens do meu país que querem trabalhar e não têm onde, enquanto muitos adultos esbanjam dinheiro em bens supérfluos.
És uma lutadora! A vida será tua porque não te rendes, acreditas em ti, tens coragem.
Obrigado, Marlene!
(Pintura de Elisabete Henriques )
15.3.08
Esta palavra "CORAGEM"
Há dias
em que a alegria já acorda em nossa companhia;
e há dias em que nos levantamos
sem ânimo, sem mesmo saber para quê,
pois até a esperança de felicidade
parece extinguir-se.
O cansaço e a desesperança
atacam a todos, sem excepção;
e há os que sucumbem e se rendem,
abandonando a luta e aceitando a derrota.
Que tu não sejas um destes
e acordes, hoje,
como um bravo;
alguém a quem a vida, muitas vezes,
não oferece nada,
nem mesmo a esperança
- mas que, mesmo assim,
cerra os dentes,
levanta, reage e luta!
Que acordes como um valente,
de quem o destino pode tirar os sentidos e a respiração,
mas não pode tirar a coragem.
Pois, se a vida nos testa,
mostremos que nosso corpo pode ser frágil,
mas que nossa alma é de aço.
A espinha de um bravo verga,
mas não quebra!
(Desconhecido )
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