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3.8.14

CAMILADAS


«Neste mundo há só duas cousas que me afligem: são os maus charutos e madrugadas antes da uma hora da tarde. No mais entendo que este globo é o melhor de todos para quem não tiver calos e reumatismo.»
(In A Filha do Arcediago)

19.7.10

PALAVRAS QUE QUEIMAM



" Ó ardor banal da mocidade! como cantava ou chorava Antero. Banal e repentino! Mas o tempo só vale como qualidade. O existir é tudo, ou seja durante um grito ou um sorriso... Um grito parece eterno; e um sorriso é capaz de queimar um século. Sim, o existir é tudo; e, por isso, existimos para nada. Somos o nosso princípio e termo, o alfa e o ómega de nós próprios, um mérito absoluto ou inútil. Inutilidade significa Divindade." (Teixeira de Pascoaes, O Penitente(Camilo Castelo Branco), Assírio & Alvim, Lisboa, 2002)

Foto © Méon

13.7.10

UM LIVRO DE HISTÓRIA(s)





Peguei no livro numa Feira, vi o bigodes da capa e pensei que "Glória" seria uma mulher que ele tivesse amado ou assim. Depois li na contra-capa:

«Vieira de Castro não queria perder a vida num remoto canto da província. Queria conquistar Lisboa e o país. E, sobretudo, que o amassem e o admirassem. Queria glória». É a partir da biografia deste homem, José Cardoso Vieira de Castro, que, na segunda metade do século XIX foi «um dirigente académico com alguma importância; um jornalista menor; um escritor sem talento; um político sem poder; um criminoso e um degredado» - que Vasco Pulido Valente constrói uma obra que ele próprio classifica como um livro de história: «Não é um livro de história a fingir de romance, nem um romance do­cumental.», mas história em que as pessoas não se iludem. Glória é um livro sobre a ambição, a paixão, o poder, o dinheiro e o crime

Pegar numa figura do século XIX e fazer dela o centro de um livro de 478 páginas é um projecto arriscado, sobretudo quando se trata de um tal Vieira de Castro.
- Quem? Vieira de Castro??? Quem é esse?....
Vou já a isso. Um dos livros do nosso século XIX de que mais gosto tem por título «Memórias do Cárcere». Não é um romance, é um conjunto de recordações, magnificamente escritas por um homem preso numa enxovia da Relação do Porto e que aproveitou bem o tempo para conhecer e relatar as vidas de outros presos. Homem especial, este: trata-se de Camilo Castelo Branco, que ali conheceu José do Telhado, de quem relata a comovente história, e que teve a suprema distinção de ser visitado pelo Rei D. Pedro V, que lá se deslocou só para o cumprimentar.
Naquelas memórias, Camilo fala de um seu amigo,  Vieira de Castro, e logo aqui começa a especial relevância do homem que Vasco Pulido Valente resolveu estudar e apresentar como tipo característico de uma certa maneira de ser português no século XIX. E de tal maneira o faz que nós acabamos por conhecer a História deste período através dos acontecimentos que marcaram a vida de Vieira de Castro: as lutas político-académicas dos estudantes de Coimbra - em que aparece, por exemplo, Antero de Quantal -, as manigâncias e tramóias da política, a preponderância da imprensa escrita na opinião pública da época - muito mais do que acontece hoje... - as raposices da justiça.
Este século XIX aqui retratado por V.Pulido Valente é um cadinho do Portugal que desgraçadamente ainda somos. É bom que o conheçamos para melhor nos entendermos. Isto me motivou ,mais a necessidade do trabalho preparatório da próxima página LUGAR ONDE.
Acrescente-se o picante de um crime de honra que levou Vieira de Castro ao degredo em Angola e teremos um livro de História que se lê como um romance. Assim o li e muito apreciei.

17.4.09

PÁGINAS INESQUECÍVEIS


« À volta de uma mesa do café Martinho, em Lisboa, estavam, por 1857, seis ou sete sujeitos saturados de política. Estava eu também em princípio de "saturação", palavra pedida de empréstimo à química para bem materializar a ideia de um corpo embebido daquele cívico entusiasmo que salva as nações... nos botequins.
Eram todos os meus interlocutores naquela noite mais ou menos republicanos. Havia tal que dizia acreditar na metempsicose, porque sentia dentro do seu ventre os fígados de Robespierre; e outro, que arredondava musicamente os períodos demagogos, revelava-nos, com modéstia parelha de talento, que sentia coriscar-lhe no crânio o cérebro de Mirabeau; coriscos, se o eram, todos para dentro; que do fogo que lhe faiscava da fronte não havia que recear combustão em armazém de sulfureto de carbono.
Os outros não me lembra quem tinham dentro de si.
Pelo que me diz respeito, recenseando longa fileira dos defuntos históricos, suspeitei que era eu a paragem actual do transmigrado Sancho Pança, por me sentir rasamente lerdo à beira daquelas pessoas trabalhadas por crudelíssimas almas de torna-viagem.»
[ Início do romance " A INFANTA CAPELISTA ", de Camilo Castelo Branco, primeira edição em 1872]

7.11.07

AS MOSCAS




«O que fizeram as civilizações contra as moscas? Boa pergunta! Não fizeram nada. Milhares de inventos e aperfeiçoamentos nos diversos sistemas de matar a gente, isso sim. Quanto às moscas, estamos como no princípio: matamo-las como Eva matou a primeira que lhe ferrou nas suas bentas nalgas: às bofetadas.
Li, pouco há, o Dicionário da Conversação, requisitório de toda a ciência sobre tudo, inclusas as moscas. Que diz? Manda-nos fazer gabelas de fetos, pendurá-las, esperar que as moscas se empoleirem à noite, e apanhá-las num saco. Que progresso! Este sistema insecticida data da invenção dos fetos e dos sacos.
(...)
Por último, leitor, que sofre moscas, o que Vossa Excelência me pede, é remédio que as dizime e afugente? Ei-lo aí, extraido de Aldrovandi, no liv. 3º De Insectis: Pendura-se no tecto a cabeça ou a cauda dum lobo.
E mais nada.
A dificuldade é achar lobos: nestas terras onde eu vivo os lobos são comidos pelas moscas.»
Camilo Castelo Branco, Cavar em Ruínas