Está tudo dito? Está. Por isso mesmo, tudo pode ser dito outra vez. Porque "dizer" é viver de novo - renovar, inovar.
O que nunca esqueci do tempo antes de 1974: a formatação cultural, a política "união nacional", a tendência para o uniforme. Aparecia um homem nas "Conversas em Família", na RTP1, que abusivamente doutrinava, de dedo em riste e fala melíflua. Caixa d'óculos do beatério político que era Portugal.
No dia 25 do tal Abril rebentou-se com o portão da quinta mas as Chaimites de Santarém ainda respeitaram um sinal vermelho numa rua de Lisboa... A contradição, que nunca se apagou.
Volto ao velho sábio:
«Metade do mundo rí-se da outra metade, e ambas são néscias. Segundo as opiniões, ou tudo é bom ou tudo é mau. O que um segue, outro persegue. É um néscio insuportável aquele que quer regular tudo segundo o seu critério. As perfeições não dependem de uma só opinião: os gostos são tantos como os rostos, e igualmente variados. Não há defeito sem afecto. Não se deve desconfiar de as coisas não agradarem a alguns, pois não faltarão outros que as apreciem. Nem nos orgulhemos com o aplauso de estes, pois outros o condenarão. A norma da verdadeira satisfação é a aprovação dos homens de reputação e que têm voz e voto nessas matérias. Não se vive de um só critério, costume ou época.» (Baltasar Gracián, autor espanhol do séc XVII)
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24.4.11
SABEDORIAS
Ninguém olha para o sol resplandecente, mas todos o fazem quando está eclipsado. A censura popular não terá em conta as vezes que acertamos mas as que falhamos. Os maus são mais conhecidos pelas maledicências, que os bons pelos aplausos. Muitos não eram conhecidos até terem violado a lei. Todos os acertos juntos não bastam para desmentir um único e mínimo erro. Que todo o mundo se convença que lhe serão imputadas todas as falhas, pela malevolência, mas nenhum acerto.
(Baltasar Gracián, 1601-1658, in: A Arte da Prudência, Ed. Temas da Actualidade, Lisboa, 1994)
1.3.10
A VERDADE APRENDEU...
Volta e meia visito as páginas de Baltasar Gracián:
«A verdade era a esposa legal do entendimento, mas a falsidade, sua grande rival, tentou expulsá-la da sua cama e derrubá-la do seu trono. Que ardis não inventou! Que calúnias! Começou por apelidar a verdade de grosseira, rude, pesada e simples. E descreveu-se a si mesma como cortês, esperta, elegante e gentil. E embora fosse naturalmente feia, era muito boa na arte do disfarce. Tomou o prazer como moço de recados e em breve destronava a parte mais nobre do espírito.
Desprezada e perseguida, a Verdade foi ter com a Inteligência para lhe contar as suas desventuras e pedir remédio.
— Ouve, minha amiga — disse a Inteligência — em tempos como estes nenhuma comida é mais intragável do que a crua desilusão, nada mais amargo do que uma boca cheia de verdade nua. A luz que incide directamente nos olhos pode torturar uma águia ou um lince. O que esperas das pessoas cuja visão está doente? Foi por isso que os sábios médicos da alma inventaram a arte de dourar a verdade, de adoçar a desilusão. Escreve isto: hás-de agradecer-me o conselho. Deves ser mais política. Veste-te como a Falsidade, pede emprestadas algumas das suas jóias e terás sucesso, prometo-te.
A verdade abriu os olhos para o estratagema e nunca mais foi a mesma. Agora mais inventiva, concebe ardis, faz a distância parecer mais próxima, fala do presente no passado, considera numa pessoa aquilo que deseja condenar noutra, visa o José para derrubar o João, cativa as emoções, finge afeição, baseia-se em fábulas simples e doces e, através de movimentos sinuosos como este, consegue chegar exactamente onde quer.»
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"Baltasar Gracián y Morales (Belmonte de Gracián, 8 de janeiro de 1601 — Tarazona, 6 de dezembro de 1658) foi um importante prosador espanhol do século XVII ao lado de autores como Francisco de Quevedo e Miguel de Cervantes, além de teólogo e filósofo.
É conhecido como líder do conceptismo, estilo literário caracterizado pela sobriedade e a concisão. Sua obra inclui seis livros: alguns sobre a arte da escrita e outros sobre a ética da vida, nos quais publicou usando um pseudônimo. Estes livros tiveram sua verdadeira autoria descoberta e o autor foi punido com a proibição de publicar seus escritos e a perda da cátedra.
É um escritor do Século de Ouro (Siglo de Oro). Entre sua prosa didática destacou-se a obra A Arte da Prudência. Gracián influenciou pensadores como François de La Rochefoucauld, Voltaire, Jacques Lacan e principalmente os filósofos Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche."
(da Wikipédia)
«A verdade era a esposa legal do entendimento, mas a falsidade, sua grande rival, tentou expulsá-la da sua cama e derrubá-la do seu trono. Que ardis não inventou! Que calúnias! Começou por apelidar a verdade de grosseira, rude, pesada e simples. E descreveu-se a si mesma como cortês, esperta, elegante e gentil. E embora fosse naturalmente feia, era muito boa na arte do disfarce. Tomou o prazer como moço de recados e em breve destronava a parte mais nobre do espírito.
Desprezada e perseguida, a Verdade foi ter com a Inteligência para lhe contar as suas desventuras e pedir remédio.
— Ouve, minha amiga — disse a Inteligência — em tempos como estes nenhuma comida é mais intragável do que a crua desilusão, nada mais amargo do que uma boca cheia de verdade nua. A luz que incide directamente nos olhos pode torturar uma águia ou um lince. O que esperas das pessoas cuja visão está doente? Foi por isso que os sábios médicos da alma inventaram a arte de dourar a verdade, de adoçar a desilusão. Escreve isto: hás-de agradecer-me o conselho. Deves ser mais política. Veste-te como a Falsidade, pede emprestadas algumas das suas jóias e terás sucesso, prometo-te.
A verdade abriu os olhos para o estratagema e nunca mais foi a mesma. Agora mais inventiva, concebe ardis, faz a distância parecer mais próxima, fala do presente no passado, considera numa pessoa aquilo que deseja condenar noutra, visa o José para derrubar o João, cativa as emoções, finge afeição, baseia-se em fábulas simples e doces e, através de movimentos sinuosos como este, consegue chegar exactamente onde quer.»
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É conhecido como líder do conceptismo, estilo literário caracterizado pela sobriedade e a concisão. Sua obra inclui seis livros: alguns sobre a arte da escrita e outros sobre a ética da vida, nos quais publicou usando um pseudônimo. Estes livros tiveram sua verdadeira autoria descoberta e o autor foi punido com a proibição de publicar seus escritos e a perda da cátedra.
É um escritor do Século de Ouro (Siglo de Oro). Entre sua prosa didática destacou-se a obra A Arte da Prudência. Gracián influenciou pensadores como François de La Rochefoucauld, Voltaire, Jacques Lacan e principalmente os filósofos Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche."
(da Wikipédia)
18.6.09
SABEDORIA
Baltasar Gracián(1601-1658):
«Abri os meus olhos quando já não havia mais nada para ver. É sempre isso que acontece.»
«Uma enorme multidão, poucas pessoas.»
«Abri os meus olhos quando já não havia mais nada para ver. É sempre isso que acontece.»
«Uma enorme multidão, poucas pessoas.»
29.5.09
SABEDORIA ANTIGA
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