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23.10.09

ESPERANÇA


Maria de Lurdes Rodrigues não deixa saudades. Cometeu um erro crasso: quis mudar a Escola colocando-se contra os professores. Mais tarde tentou emendar a mão mas o mal estava feito. Não é por acaso que dois em cada três professores estava contra ela. Sabendo nós que o grupo docente é maioritariamente do centro político, a oposição tenaz que lhe foi movida foi consequência de uma acção mal conduzida e de uma insensibilidade gritante perante o real funcionamento das escolas. Era sabido, aliás, que Mª de Lurdes Rodrigues nunca dera aulas numa escola pública de 2º ou 3º Ciclos, os graus de ensino que ela afrontou mais.

Isabel Alçada é bem diferente. Tive contacto com ela no início dos anos 80, quando se deslocou à minha Escola ( Prep. P. Francisco Soares, na altura ainda no edifício da 5 de Outubro, aqui em Torres Vedras), onde conduziu uma acção de formação sobre Gestão das Escolas. Na altura ela trabalhava no 2º Ciclo, numa escola de Lisboa, salvo erro a Fernando Pessoa. O seu modo de ser cativou toda a gente. Via-se que vivia o Ensino com paixão. Era profundamente conhecedora do funcionamento das escolas e da legislação labiríntica que a pretende organizar, até porque era Presidente de um Conselho Directivo.
Logo a seguir, era eu delegado sindical da minha escola, vim a encontrá-la como dirigente sindical, onde esteve dois anos, julgo eu.
Tornou-se figura pública como co-autora da melhor série de livros juvenis, "Uma aventura", para além de muitas obras de divulgação histórica dirigidas ao público jovem.
Nestes anos recentes dirigiu de forma brilhante o Plano Nacional de Leitura, que tanto tem feito pela divulgação dos livros no meio escolar, e não só.

Que admira, pois, que eu veja com enorme esperança a sua chegada ao topo do Ministério da Educação?
Estou já a ouvir os opinadores ignorantes destes problemas - com Miguel Sousa Tavares à cabeça - a dizerem que o Ministério vai ficar refém dos professores. A esses digo que a ignorância devia ser conselheira de recato e silêncio, o que muitas vezes não acontece em Portugal, onde ela é senha suficiente para entrar na roda da opinião pública dos meios de comunicação social.
De Isabel Alçada espero competência na abordagem dos problemas, capacidade de diálogo e sensibilidade para as mudanças que é preciso introduzir nas escolas ( no que respeita às questões da autoridade, do rigor necessário à aprendizagem, na responsabilização dos alunos e dos pais...)

1.6.09

A QUESTÃO DA AUTORIDADE NA ESCOLA


O texto já não é recente mas é - ainda! - muito actual.

AUTORIDADE DOS PROFESSORES

Diogo Pires Aurélio

Existe um certo pudor em pronunciar a palavra autoridade, mas ela vem irresistivelmente à memória de cada vez que se fala na situação actual das escolas. Perante os exemplos de barbárie que toda gente já deve ter ouvido contar aos professores, ou a forma desabrida como as salas de aula são tomadas de assalto por pequenos delinquentes e que as televisões, ainda há bem pouco tempo, voltaram a mostrar, não há ninguém de bom senso que não reclame uma lei, uma inspecção, uma esquadra ou um ministério que ponha cobro a isto. No entanto, apesar desse consenso mais ou menos tácito, a questão da disciplina nas escolas continua a ser uma espécie de dama que toda a gente corteja mas em que ninguém toca, a não ser, eventualmente, com a costumeira flor de estilo.A autoridade tem má fama. Vulgarmente confundida com o poder autocrático, só por um acaso improvável ela permaneceria intacta em sociedades onde qualquer ordem é suspeita, enquanto não for previamente negociada e aceite por todos e cada um. A cultura em que estamos mergulhados e o que se aprende, inclusive, nas escolas já não reconhecem a autoridade como um valor. Levada ao limite das interpretações corriqueiras, a pulsão democrática ocasionaria mesmo o seu contrário, isto é, o não reconhecimento de nenhuma obrigação, a menos que haja força para a impor.
Ruiu, por isso, a autoridade dos mais velhos, ruiu a autoridade da família. Imaginar que a escola poderá permanecer um oásis, no meio dessa devastação geral que assola o exercício da autoridade, é puro devaneio.Acontece que a escola não funciona sem uma réstia, mínima que seja, de autoridade. O mestre precisa de possuir a autoridade que vem do saber, da experiência e da maturidade, razão pela qual convém que ele seja regularmente avaliado. Mas, só por si, isso não basta, se a lei e os costumes não lhe oferecerem os meios para fazer vingar tal autoridade, sempre que ela seja posta em causa. Não se pode exigir uma escola tranquila e rejeitar os seus custos.De pouco adianta, a este propósito, aplaudir a coragem de alguns professores, que conseguem desenvencilhar-se, por mais hostil que o meio se apresente. É até perverso julgar que o problema se resolve com actos isolados de heroísmo, poupando os alunos e as suas famílias à evidência de que a escola, para ensinar o que quer que seja, tem de ter autoridade e dar-se ao respeito.
(Cartoon de Antero Valério)