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3.7.13

Sonho

Foto J Moedas, no Bom Jesus do Monte

Sonho que sou um cavaleiro andante,
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante,
O palácio encantado da ventura.

(...)

Antero de Quental


18.4.12

ANTERO DE QUENTAL

Alegria de viver - H. Teixeira Lopes

18 de abril de 1842: data do nascimento de Antero de Quental
Foi há 170 anos.
Homem torturado pelo mistério de viver e que acabou no suicídio. 
Mas as páginas luminosas de poesia e reflexão social que nos deixou só as leio agora à luz desta Alegria de Viver. Porque Antero ainda vive.


´Boa altura para reler nas NOTAS CONTEMPORÃNEAS, de Eça de Queiroz, o comovente texto que ele dedica a Antero e que intitulou "Um génio que era um santo".

Começa assim:

«Em Coimbra, uma noite, noite macia de Abril ou Maio, atravessando lentamente com as minhas sebentas na algi­beira o Largo da Feira, avistei sobre as escadarias da Sé Nova, romanticamente batidas pela lua, que nesses tempos ainda era romântica, um homem, de pé, que improvisava.
A sua face, a grenha densa e loura com lampejos fulvos, a barba de um ruivo mais escuro, frisada e aguda à maneira siríaca, reluziam, aureoladas. O braço inspirado mergulhava nas alturas como para as revolver. A capa, apenas presa por uma ponta, rojava por trás, largamente, negra nas lajes brancas, em pregas de imagem. E, sentados nos degraus da igreja, outros homens, embuçados, sombras imóveis sobre as cantarias claras, escutavam, em silêncio e enlevo, como discípulos.
Parei, seduzido, com a impressão que não era aquele um repentista picaresco ou amavioso, como os vates do antiquís­simo século XVIII— mas um bardo, um bardo dos tempos novos, despertando almas, anunciando verdades. O homem com eleito cantava o Céu, o Infinito, os mundos que rolam carregado0s de humanidades, a luz suprema habitada pela ideia pura. e

…os transcendentes recantos
Aonde o bom Deus se mete,
Sem fazer caso dos Santos
A conversar com Garrett!

Deslumbrado, toquei o cotovelo de um camarada, que murmurou, por entre os lábios abertos de gosto e pasmo:
- É o Antero…»

16.9.09

AINDA ACTUAL


[ Edição recente da Ed. Tinta da China, com um bom prefácio de Eduardo Lourenço]

UM TEXTO FUNDADOR DA NOSSA MODERNIDADE

A nova estátua de Antero de Quental, inaugurada há dias em Santa Cruz (concelho de Torres Vedras), além de recordar o Verão de 1870 que ele ali passou em companhia de Jaime Batalha Reis, vem lembrar-nos a obra de um autor que abalou até aos alicerces o velho edifício mental português e abriu perspectivas de modernidade que ainda hoje estão longe de completamente realizadas.

A obra de Antero é multifacetada, desdobrando-se por textos de intenção filosófica (de que se destacam as Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX); de intenção poética (Sonetos e Odes Modernas); e de cariz social. Neste último grupo destaca-se aquele que, no dizer de Eduardo Lourenço, é um dos grandes textos fundadores da modernidade portuguesa: as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. Com ele, Antero participou nas chamadas Conferências do Casino, em 1871, que fizeram estremecer o velho e adormecido Portugal, ainda dominante apesar de politicamente constitucional. Ao lado de Antero estavam homens como Eça de Queirós, Oliveira Martins ou Batalha Reis, empenhados, todos eles, em rasgar horizontes e abater os estreitos limites da mentalidade portuguesa, emparedada entre mais de 80% de analfabetos e uma religião católica mal entendida e usurpada em proveito próprio por aristocratas e burgueses.
Logo pelo título Antero alarga o seu campo de análise à Península Ibérica, não a confundindo com essa forçada construção política chamada “Espanha” – de que Portugal, mais periférico, conseguira separar-se - fruto dos interesses dinásticos das monarquias que ignoravam a identidade e autonomia de povos tão diversos como os Bascos, os Galegos ou os Catalães.


Dois excertos do texto de Antero de Quental:

«Meus Senhores:

A decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que essa decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de força gloriosa e de rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo. Como peninsular, sinto profundamente ter de afirmar, numa assembleia de peninsulares, esta desalentadora evidência. Mas, se não reconhecermos e confessarmos francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e definitiva? O pecador humilha-se diante do seu Deus, num sentido acto de contrição, e só assim é perdoado. Façamos nós também, diante do espírito de verdade, o acto de contrição pelos nossos pecados históricos, porque só assim nos poderemos emendar e regenerar.

(…) é nesses novos fenómenos que se devem buscar e encontrar as causas da decadência da Península. (…) são três e de três espécies: um moral, outro político, outro económico. O primeiro é a transformação do catolicismo, pelo concílio de Trento. O segundo, o estabelecimento do absolutismo, pela ruína das liberdades locais. O terceiro, o desenvolvimento das conquistas longínquas. Estes fenómenos assim agrupados, compreendendo os três grandes aspectos da vida social, o pensamento, a política e o trabalho, indicam-nos claramente que uma profunda e universal revolução se operou, durante o século XVI, nas sociedades peninsulares. Essa revolução foi funesta, funestíssima. Se fosse necessária uma contraprova, bastava considerarmos um facto contemporâneo muito simples: esses três fenómenos eram exactamente o oposto dos três factos capitais, que se davam nas nações que lá fora cresciam, se moralizavam, se faziam inteligentes, ricas, poderosas, e tomavam a dianteira da civilização. Aqueles três factos civilizadores foram a liberdade moral, conquistada pela Reforma ou pela filosofia; a elevação da classe média, instrumento do progresso nas sociedades modernas, e directora dos reis, até ao dia em que os destronou; a indústria, finalmente, verdadeiro fundamento do mundo actual, que veio dar às nações uma concepção nova do Direito, substituindo a força pelo trabalho, e a guerra de conquista pelo comércio.»