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domingo, janeiro 03, 2021

Para este domingo

página 193-196 de Histórias ante(s)passadas - 1ª dose  (cadernos de aponta mentes-11:

44

 

OUTRA MÚSICA EM CAXIAS

Zeca Afonso e Os vampiros

Em Caxias resistia-se. Como nas outras cadeias, que eram apenas peças do puzzle violento e re/opressivo que queria acabar com a resistência e a luta contra o fascismo, contra o colonialismo, (de quase todos) contra a exploração do homem pelo homem, resistia-se. A luta continuava.

Lutava-se de várias formas, algumas difíceis de imaginar por quem nunca pensou sequer no que é estar numa prisão… e ser-se livre.

Uma das nossas (pequenas mas importantes) lutas, na organização do nosso tempo, foi pela entrada de um gira-discos na sala em que nos queriam e tinham (por) seguros. Foi batalha vencida, após protestos, reclamações, persistência… luta.

Uma hora de música por dia.

Ainda não era o tempo dos CDs e outras sofisticações. Se já não era o tempo das grafonolas de campânula e manivela, era ainda o tempo dos discos de vinil, de 45 ou 33 rotações

Em 1964, em Caxias, os discos entravam (e saiam) na sala 2 r/c. dº com um gira-discos, ao fim do dia, trazidos e levados pelos guardas, seus fieis ( a quem?) depositários.

A família de um de nós oferecera, ou emprestara, o gira-discos, e essa e outras famílias forneciam os discos.

 Tal como para os livros, havia censura. Só entrava a música que eles consentiam. No caso sem grandes preocupações quanto a poderem esconder algo nas estrias…

Todos os discos que eram de orquestras sinfónicas de países socialistas, ou cujos autores e intérpretes tinham nomes terminados em off ou itch eram, por norma, impedidos de entrar, embora tivesse acontecido passar no crivo uma Sinfonia Clássica de Prokofief… (uma fífia dos carcereiros em função de censura?)

Podia ouvir-se música sinfónica de outras origens, e música portuguesa de variada natureza.

Por isso, um dia entrou na sala, como novidade, um disco de 45 rotações trazido por uma família na hora da visita, e durante esta recomendado ao familiar. Era um disco de Baladas de Coimbra, cantadas por um tal dr. José Afonso…

O disco tinha 4 faixas:

 

1.

"Os Vampiros"  

 

2.

"Canção Vai... e Vem"  

Paulo Armando/José Afonso/refrão popular algarvio

 

3.

"Menino do Bairro Negro"  

 

4.

"As Pombas"  

Ouvimo-lo entusiasmados, fazendo jus às recomendações, e estávamos a escutar a última faixa, As pombas, quando a porta se abriu e entrou o Gauleiter.

Com o ar autoritário, resmungou “… o guarda disse-me que vocês estão para aí a ouvir umas coisas esquisitas. Também quero ouvir… Ponham lá isso a tocar  mais alto…”.

Por acaso era eu que estava a fazer de operador, e deixei chegar ao fim As Pombas, coloquei a agulha no mesmo lado, no Menino do Bairro Negro, que encheu a sala a que depois se seguiram, de novo, As Pombas (que mal tinham pousado e já voavam de novo até ao fim), apercebendo-nos todos que havia alguma impaciência no pide em funções de director de cadeia. Com cuidados vagarosos, virei o disco (para não tocar o mesmo…), e com pontaria certeira coloquei a agulha na 2ª faixa do lado A, na Canção vai… e vem.

O gajo não aguentou mais (devia ter muito que fazer…), e um tanto desabrido saiu porta fora, com o guarda à trela, resmungando em jeito para o irritado “… vocês!… também não é preciso exagerar… aquilo do puto preto é chato mas, vá lá… agora o resto… são coisas de Coimbra… das guitarradas, das baladas ou lá o que é… e eu que tenho tanto que fazer!…”.

A malta entreolhou-se e conteve o riso.

No que restava da tarde musical houve tempo para ouvir mais uma vez Os vampiros. Em tom mais baixo, moderando os sublinhados e as manifestações de entusiasmo por aquela descoberta (para todos nós) de um tal dr. José Afonso, de Coimbra.

 Ah!... Os vampiros!, quantas vezes o ouvimos depois daquela tarde em Caxias…


domingo, novembro 08, 2020

Para este domingo - O'Brigada

De 5ª a domingo... para este domingo!





                   

- Edição Nº2449  -  5-11-2020

O direito de viver em paz

Era canção mas era, afinal, semente – que germinou nos milhares de vozes e guitarras que, em plena praça de Santiago, reivindicavam em Outubro do ano passado uma nova Constituição para o Chile. E é já bandeira também, drapejando sobre a multidão que em vozes a agita, trazida do tempo da Unidade Popular para o século XXI das muitas lutas americanas contra o imperialismo e pela democracia. El derecho de vivir en paz é já o primeiro artigo da Constituição com que os chilenos decidiram eliminar o actual código fascista, respondendo massivamente «apruebo» à pergunta «quiere usted una Nueva Constitucion?» do Plebiscito de 25 de Outubro de 2020.

Victor Jara escreveu El derecho de vivir en paz em 1969, cinquenta anos antes da sua entoação na luta pelo Plebiscito. A canção de protesto contra a agressão dos EUA ao Vietname viria a ser gravada em 1971, dois anos antes do golpe militar fascista de Augusto Pinochet. El derecho de vivir en paz foi manifesto e ponto de encontro de linguagens musicais, da música tradicional chilena à chamada sonoridade pop, juntando no palco fonográfico o tiple latino-americano (cordofone popular) e a guitarra eléctrica, as percussões tradicionais e a bateria, como que traduzindo em sons a perene actualidade da luta pela paz.

El derecho de vivir en paz conheceu várias versões entre o dia da estreia, no Teatro Marconi de Santiago, e as praças da luta pelo Plebiscito, conhecendo, ao longo dos anos, novas instrumentações para a melodia da canção, mantendo sempre as palavras de homenagem à luta de Ho Chi Minh. Mas quando, em Outubro de 2019, o movimento de massas lhe retomou a função mobilizadora, três dezenas de músicos chilenos juntaram aos versos de Victor Jara palavras de ordem da campanha pela Nova Constituição.

A canção de protesto
na América Latina

No início dos anos de 1960 juntou-se às lutas emancipadoras da América Latina um importante elemento agregador: a canção de protesto (que em Portugal viria a tomar a designação de «canção de intervenção»). Ao alento que a vitoriosa revolução cubana (1959) viria a dar à luta anti-imperialista, juntava-se a descoberta da música popular enquanto traço de identidade e de afirmação progressista, divulgada já por cantores como o argentino Atahualpa Yupanqui e a chilena Violeta Parra.

Palco da música construtora de futuros que marca o nosso tempo, a Festa do Avante! ampliou a voz a alguns dos mais importantes intérpretes da música latino-americana militante. Muitos se recordarão do concerto de Chico Buarque e convidados, um comício oposicionista no tempo da ditadura brasileira; mas ali encontrámos também as vozes dos uruguaios Andrés Stagnaro e Daniel Viglieti, da argentina Mercedes Sosa, dos chilenos Aparcoa, Taller Recabarren e Sérgio Ortega, nomes cimeiros da onda de resistência cultural anti-fascista que viria a marcar a História do nosso tempo. Um deles – Sérgio Ortega – seria o autor do refrão que, no Chile da Unidade Popular, como no Portugal da Revolução de Abril, marcaria a sonoridade da História: o povo unido jamais será vencido!.

Têm, algumas canções, mais vida do que os que os seus criadores, revelando, por vezes, o significado real da imortalidade dos ideais libertadores. Ilustração de uma luta difícil mas determinada, está nestes dias a ser vingada no Chile a morte violenta e impiedosa de Victor Jara, sob a forma de um canto que reclama, a muitas e empenhadas vozes, o direito a viver em paz.
Manuel Pires da Rocha

Obrigado, camarada amigo

domingo, outubro 18, 2020

Para este domingo (um dia depois de 17.10.2020)

 Lembrando, hoje, o amigo que ouvia esta canção, silencioso, à janela da nossa casa de cooperantes, na "Mesopotâmia" da Praia em Cabo Verde, a fumar um cigarro em que escondia a emoção com que ouvia o que impunha silêncio a toda a sala, ao outro pai que eu era, seu amigo anos mais tarde por ele promovido a mano-novo. 

Há 40 anos! Perdoa-me, mano-velho, ter-te falhado como "Entidade Reguladora de Exéquias", a que, entretanto, me promoveras. 

Este domingo, para este domingo, lembrei isto...

  https://youtu.be/Lp__DsVTZPs?t=10

Aos Nossos Filhos

Ivan Lins

Nos Dias de Hoje

 

Perdoem a cara amarrada,
Perdoem a falta de abraço,
Perdoem a falta de espaço,
Os dias eram assim...

Perdoem por tantos perigos,
Perdoem a falta de abrigo,
Perdoem a falta de amigos,
Os dias eram assim...

Perdoem a falta de folhas,
Perdoem a falta de ar
Perdoem a falta de escolha,
Os dias eram assim...

E quando passarem a limpo,
E quando cortarem os laços,
E quando soltarem os cintos,
Façam a festa por mim...



E quando lavarem a mágoa,
E quando lavarem a alma
E quando lavarem a água,
Lavem os olhos por mim...

Quando brotarem as flores,
Quando crescerem as matas,
Quando colherem os frutos,
Digam o gosto pra mim...

Digam o gosto pra mim...

domingo, agosto 09, 2020

domingo, junho 14, 2020

Para este domingo - Canto civil (Orlando da Costa)

Poemas lidos (e muito bem) na inauguração o monumento dedicado à libertação dos presos políticos da prisão de Caxias a 26 (já madrugada de 27) de Abril de 1974


Orlando da Costa – “Canto civil 1”

Este é o meu canto civil

canto cívico graduado

desde um tempo antigo que vivi

entre poemas de aço camuflados e algemas de silêncio


Esse era o tempo do assalto às casernas

mas já então eu escrevia o que devia:

a cartilha da guerrilha do amor e da paz

para ser ensinada à luz das lanternas

nas escolas nas igrejas na parada dos quartéis

Este é o meu canto civil

canto cívico desfardado

escrito a vinte e oito de Abril

do ano passado à noite

de punho cerrado com alegria e sem espanto

canto para ser cantado de dia

por todos por muitos por mim ou por ninguém

Soldado raso

ao cimo da calçada

em guarda

de flor e farda

a flor que te damos

é pão da madrugada

É pão amassado

sem liberdade

é gesto de guerra

em nome da paz.

É flor de canção

em terra mar e ar

rubra flor popular

num só cano de espingarda

Soldado raso

em sentido na memória

lembra-te de novo e sempre

a flor que te damos

é da terra é do povo

é pão da madrugada.

Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download

https://www.estudioraposa.com/index.php/10/12/2012/orlando-costa-canto-civil-2/

domingo, maio 24, 2020

Para este domingo

... que ainda os há e, por vezes, tristes apesar do sol e do calor das mensagens. Como esta de Maria Velho da Costa..


domingo, maio 10, 2020

Para este domingo

Um video e um pedaço de um texto-epílogo que me caíram na secretária, mesmo a propósito deste domingo!
Que transcrevo para 
não dizer nada


e para 
repousar os sentidos do que vêem e ouvem, cansado de olhar para trás sempre movido pelo infrene desejo de seguir em frente, de ajudar à construção da realidade imaginada:


".... o olhar para trás, visão globalizante e escatológica, o excesso de realidades imaginadas, promovem interpretações super reais, surrealistas.
   Não quer dizer, antes pelo contrário, que o valor histórico e artístico se perca, e que não sirvam para explicar tanta coisa. Para tanto, aqui há validade de argumentos, propostas válidas. Não podem é ser escamoteados, escondidos, ignorados. O que dizer sobre isto tudo? talvez mais nada, é deixar estar, porque uma resposta virá." 
GMR

domingo, maio 03, 2020

Para este domingo - dia da mãe



Tenho o entranhado sentimento 
de ter nascido (e morrido...)
com a guerra civil de Espanha...
(talvez por culpa do Saramago
e do seu
O ano da morte de Ricardo Reis)

domingo, março 22, 2020

Para este domingo, para estes dias



Vivo en un país libre
Cual solamente puede ser libre
En esta tierra, en este instante
Y soy feliz porque soy gigante.
Amo a una mujer clara
Que amo y me ama
Sin pedir nada
-o casi nada,
Que no es lo mismo
Pero es igual-.

Y si esto fuera poco,
Tengo mis cantos
Que poco a poco
Muelo y rehago
Habitando el tiempo,
Como le cuadra
A un hombre despierto.
Soy feliz,
Soy un hombre feliz,
Y quiero que me perdonen
Por este día
Los muertos de mi felicidad.


segunda-feira, janeiro 20, 2020

segunda-feira, setembro 16, 2019

domingo, agosto 11, 2019

domingo, julho 14, 2019

domingo, julho 07, 2019

Para este domingo


É assim que é a vida...

domingo, junho 30, 2019

domingo, junho 23, 2019

Para este domingo


matando saudades!
... e 'tá de chuva ...

domingo, junho 02, 2019

para este domingo

Na minha caixa de correio tinha uma mensagem, de correspondente que, habitualmente anima os e-mails que recebo com este assunto: "ouvimos dizer que estás cansado...". 
A minha primeira reacção foi devolver com amargo comentário... porque estava cansado e porque não quero que se ande por aí a dizer o que eu não digo ou, até, que assim se justifique o que me magoa... mas não quero discutir nas redes sociais.
Depois, logo recuperado, abri, li a versão do poema e decidi divulgar o sempre excelente Brecht:


«Ouvimos dizer que estás arrasado.
Que já não podes andar de cá para lá.
Que estás muito cansado.
Que já não és capaz de aprender.
Que estás liquidado.
Não se pode exigir de ti que faças mais.

Pois fica sabendo: nós exigimo-lo.
Se estiveres cansado e adormeceres
ninguém te acordará,
nem dirá:
levanta-te, está aqui a comida.
Porque é que a comida havia de estar ali?

Se não podes andar de cá para lá, ficarás estendido.
Ninguém te irá buscar e dizer:
houve uma Revolução. As fábricas esperam por ti.
Porque é que havia de haver uma revolução?
Quando estiveres morto virão
enterrar-te, quer tu sejas ou não culpado
da tua morte.

Tu dizes: que já lutaste muito tempo
que já não podes lutar mais.
Se já não podes lutar mais, serás
destruído.

Dizes tu: que esperaste muito tempo.
Que já não podes ter esperanças.
Que esperavas tu? Que a luta fosse fácil?
Não é esse o caso: a nossa situação é pior que tu julgavas.

É assim: se não levarmos a cabo o sobre-humano,
estamos perdidos.
Se não podermos fazer o que ninguém de nós pode exigir, 


afundar-nos-emos.
Os nossos inimigos só esperam que nós nos cansemos.
Quando a luta é mais encarniçada é que os lutadores
estão mais cansados.
Os lutadores que estão cansados de mais,
perdem a batalha.»


Bertold Brecht
Até porque hoje vem cá almoçar, com outros amigos, um ícone da nossa resistência a tudo. Até ao cansaço.