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sexta-feira, 6 de maio de 2022

da liberdade de expressão

imagem retirada da internet
Meios de comunicação social censurados, perseguição e prisão de jornalistas, narrativa unilateral de um mundo diversificado, promoção do medo, divulgação de notícias falsas. Estes são alguns dos atributos que podem ser utilizados para caraterizar os países que não respeitam a liberdade de expressão e os direitos humanos.

Os atentados à liberdade de expressão, as perseguições e as prisões por delito de opinião indignam os cidadãos do mundo ocidental. Estranho seria se assim não fosse, afinal é esse mundo que se apresenta em todos os fóruns mundiais como o farol da civilização, como a grande referência da liberdade, da defesa dos Direitos Humanos e da democracia.

A revolta dos cidadãos ocidentais é, contudo, seletiva. A indignação manifesta-se quando esses atentados acontecem fora de portas, ou seja, nos países que não fazem parte dessa comunidade internacional e, ainda assim, é necessário que os visados sejam alinhados com a narrativa ocidental. Dentro das fronteiras do mundo ocidental a indignação é, de igual modo, ancorada em escolhas cuidadas. Apoiam-se os alinhados e perseguem-se ou obliteram-se os desalinhados.

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Julien Assange será o mais paradigmático exemplo do que acabo de dizer. Está preso há vários anos e, de momento, aguarda a sua extradição para os Estados Unidos. Não, não é cidadão estado-unidense, também não é russo, tem nacionalidade australiana e o seu crime foi fazer o que compete a um jornalista: divulgar, sem opinar, um conjunto de documentos que pôs a nu as mentiras utilizadas para justificar algumas das frequentes invasões de estados soberanos pelos Estados Unidos e aliados ocidentais.


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Pablo González, jornalista espanhol preso, na Polónia, desde o final de fevereiro de 2022. Este jornalista, de origem russa, cobria, na fronteira da Polónia com a Ucrânia, o êxodo dos refugiados ucranianos. Foi preso com a espúria acusação de ser um espião pró-russo. Pablo González tem dupla nacionalidade e esse terá sido o indício que levou à sua prisão. Continua preso.



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Anatoly Shariy, blogger ucraniano foi detido em Espanha numa operação da polícia espanhola a pedido da SBU (serviços secretos ucranianos). Anatoly Shariy veio para Espanha por temer pela sua integridade física. Foi fundador e dirigente de um partido político na Ucrânia. A acusação que conduziu à sua prisão é de suspeita de “alta traição” à pátria. Os jornais do ocidente já lhe colocaram o epíteto de pró-russo, coisa que nos tempos que correm é pior que ser “serial-killer”.



Assange está preso em Inglaterra, González está preso na Polónia e Shariy está preso em Espanha e tudo está na “Santa Paz do Senhor”. São presos por delito de opinião e achamos isto normal, ninguém se indigna. O que se passa com os arautos da liberdade.

A normalização da censura, a promoção da russofobia, a aceitação da ingerência de cidadãos e diplomatas ucranianos nos assuntos internos dos países membros da União Europeia, o silêncio sobre o aumento dos gastos públicos com a defesa, o aumento do custo de vida, o branqueamento da história, estas são apenas as questões mais visíveis que afetam os povos do mundo ocidental e, paradoxalmente, aceites sem qualquer sinal de indignação.

Tem tudo para acabar mal.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 5 de maio de 2022 


quarta-feira, 20 de abril de 2022

#freedomforassange

imagem retirada da internet
A justiça inglesa decidiu hoje pela extradição de Julian Assange para os Estados Unidos. A execução fica por conta do ministério do interior inglês.

Todos conhecem Julian Assange e todos têm conhecimento dos “crimes” de que está acusado e pelos quais vai ser extraditado.

Julian Assange é um cidadão australiano e foi o fundador do site WikiLeaks. 

A WikiLeaks ganhou projeção mundial em 2010 quando divulgou documentos e imagens que colocavam em causa a narrativa oficial do Estados Unidos e dos seus aliados sobre a invasão do Iraque sobre o Afeganistão e ainda sobre o CableGate (divulgação de informação diplomática dos Estados Unidos).

Julian Assange incomodou o poder, incomodou a comunicação social corporativa, incomodou os senhores do mundo e os seus papagaios.

A perseguição não se fez esperar, daí até à sua prisão foi um ápice. Esteve asilado na embaixada do Equador de 2012 a 2019, mas a mudança na presidência daquele país sul-americano retirou-lhe esse estatuto e, desde então, tem estado preso em Inglaterra. Hoje foi dado o veredito final, o pedido de extradição do Estados Unidos teve despacho favorável.

A censura tem várias faces nesta parte do mundo que se apresenta como o paradigma da democracia e da liberdade. Se o caso de Julian Assange é antigo a atualidade trouxe-nos mais alguns elementos sobre o que pensam os líderes ocidentais da liberdade de informação e da capacidade dos seus cidadãos interpretarem a comunicação difundida.

Bruno Carvalho - imagem retirada da internet

A censura instituída, no espaço da União Europeia, a alguns órgãos de comunicação social não alinhados com a narrativa oficial, a prisão sem culpa formada, pelo estado polaco, do jornalista espanhol Pablo Gonzalez, o desaparecimento do cineasta chileno/estado-unidense, Gonzalo Lira, na Ucrânia, a tentativa de desacreditação do jornalista português, Bruno Carvalho, aliás bem sucedida em relação ao jornal “Público”, ou o assassinato, hoje pela manhã, do blogueiro Valery Kuleshov, em Kherson, Ucrânia, são apenas alguns exemplos da ação punitiva da democracia alinhada ao neoliberalismo reinante.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 20 de abril de 2022


domingo, 20 de fevereiro de 2022

quem invade quem

imagem retirada da internet

Quando no mesmo texto leio, “a Rússia de Putin e Joe Biden Presidente dos Estados Unidos”, fico logo com os pelos eriçados. A diferença de dignidade atribuída a um e a outro, ambos presidentes eleitos, confere à notícia um alinhamento, ou seja, o jornalista que diz ou escreve coisas como as que referi, ou “o regime russo” e os Estados Unidos”, não é imparcial, a informação vem ancorada à opinião pessoal, a que tem direito em contexto diverso, ou à voz e interesses de quem lhe paga o que contraria a ética profissional. Mal vai o jornalismo em Portugal. Não é novidade, mas é bom que tenhamos consciência de que a informação que nos é veiculada pela comunicação social “de referência” não nos informa, procura moldar-nos como se fossemos um pedaço de plasticina.

As possibilidades de que a situação na região de Donbass se venha a alterar, enquanto escrevo este texto, são elevadas. Os diferendos entre a Rússia e a Ucrânia são de vária índole, mas é na região do Donbass que o conflito bélico aberto possa vir a acontecer, ou melhor se venha a agudizar. Quem acompanha a política internacional sabe que a Rússia tem limites, as chamadas linhas vermelhas, que não permitirá que sejam ultrapassados. Um desses limites é adesão da Ucrânia à NATO, e por consequência a instalação de potencial bélico ofensivo que fragiliza a sua capacidade de dissuasão, e outro é o genocídio das populações russófilas das repúblicas populares de Donetsk e Lugansk. Estas regiões do leste da Ucrânia, através de atos referendários, autoproclamaram-se independentes e, por razões geográficas e culturais têm uma grande proximidade com a Rússia, recusam a aproximação à União Europeia e, por conseguinte, a subserviência aos interesses estado-unidenses.

A cronologia da atual situação é conhecida e tem como data de partida a deposição, em 2013, do presidente ucraniano eleito, Viktor Yanukovich após o seu governo ter recusado a aproximação à União Europeia.

O que aconteceu na Praça Maidan, em Kiev, é conhecido, bem assim como o apoio de organizações nazis, internos e externos, mas também da União Europeia e dos Estados Unidos cuja participação foi posta às claras com célebre telefonema entre Victoria Nuland e Geoffrey Pyatt, embaixador dos EUA na Ucrânia. A própria Victoria Nuland esteve em Kiev durante as manifestações que levaram à deposição de Yanukovich.

imagem retirada da internet

O que se seguiu é também conhecido. O referendo da Crimeia e a sua integração na Federação Russa, ao que se seguiram as proclamações de independência de Donetsk e Lugansk (região do Donbass) onde, desde 2014 se instalou um conflito armado entre os separatistas e a Ucrânia. É aqui, no Donbass, que o conflito nos últimos dias se agudizou. Os ataques de grupos armados (milícias nazis, como o Batalhão Azov, e exércitos privados como a Blackwater, agora renomeada Academy) e a deslocação de militares ucranianos para a região do Donbass já provocou 40 mil refugiados, recebidos pela Rússia, e a mobilização geral da população de Donbass.


A atuação dos Estados Unidos neste conflito (distante como convém) pode até perceber-se, já não se percebe a posição de subserviência da generalidade dos países da União Europeia. Se o presidente ucraniano cair na tentação de invadir o Donbass será o fim daquele país, tal como o conhecemos, e os efeitos nos países europeus serão devastadores.    

A União Europeia e os Estados Unidos são diretamente responsáveis pela política expansionista da NATO e pela tentativa de trazer para a sua área de influência a Ucrânia. O que sendo pacífico entre a maioria dos ucranianos que vivem nos territórios a Oeste não o é para os do Sul e do Leste que, por serem russófilos, preferem relações de boa vizinhança com a Rússia.

Os anúncios de “iminente invasão”, “é na 4.ª feira”, “está prevista para os próximos dias”, ou a retoma da ideia de que será na “4.ª feira” é, para além de terror comunicacional uma falta de rigor e servilismo atroz.

A continuar a ofensiva contra as repúblicas do Donbass, ou a qualquer tentativa de conquistar a Crimeia, é bem possível que venha a haver uma intervenção russa. Que afinal é aquilo que os Estados Unidos e os seus acólitos pretendem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 20 de fevereiro 2022  


domingo, 22 de novembro de 2020

não é mas, vai ser obrigatório

A publicação anterior visava questionar a forma como se faz notícia e como a “parangona” pode induzir em erro, ou seja, a manchete pode não corresponder, no todo ou em parte, à notícia para a qual remete. E eu fui induzido em erro, ou melhor, na pesquisa que fiz não encontrei nenhum texto legal com origem no Governo Regional, na ALRAA, ou mesmo, do Representante da República que determinasse a obrigatoriedade de um procedimento prévio ao início de uma viagem dentro do arquipélago com origem em S. Miguel ou na Terceira.

Se consultarmos o comunicado do Governo regional (aqui), podemos verificar que só após a publicação, em Diário da República, de uma alteração ao Decreto Regulamentar Regional n.º 24/2020/A, cujos termos foram acordados pelo Governo com, José Bolieiro, presidente indigitado, e com Pedro Catarino, Representante da República, a obrigação da apresentação de um teste negativo à Covid-19 se torna obrigatório para poder viajar de S. Miguel ou da Terceira para as outras ilhas da Região.

Nem tudo vale para vender informação.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 22 de Novembro de 2020


somos, ou não, obrigados

Pedido de ajuda a bem da minha sanidade mental. Expliquem-me por favor.

A comunicação social regional anunciou, com base numa Resolução do Governo Regional, a obrigatoriedade de apresentação de comprovativo de teste negativo à Covid-19 aos passageiros que viagem de S. Miguel ou da Terceira para as outras ilhas do arquipélago.

De entre outras chamadas de 1.ª página, o AO de 20 de Novembro rezava assim:

“Todos os passageiros, que queiram viajar de São Miguel ou da Terceira para as outras ilhas, vão ser obrigados a apresentar comprovativo de teste negativo à Covid-19 realizado nas 72 horas antes, explica o jornal.”

Nem sempre acontece, mas por vezes vou confirmar à fonte que esteve na origem da notícia, desta vez fui consultar a Resolução do Governo, assinada ainda por Vasco Cordeiro, mas cujo conteúdo e medidas foram articuladas com o José Bolieiro, presidente indigitado e, face ao facto de vigorar o “estado de emergência”, também com Pedro Catarino, Representante da República.

Passo a transcrever um excerto (parte resolutiva) da Resolução do Conselho do Governo n.º 289/2020 de 20 de novembro de 2020

“(…) o Conselho do Governo resolve:

1 – Determinar, para todo o Arquipélago, e para vigorar no âmbito da declaração de estado de emergência, o seguinte:

a) Recomendar que todas as deslocações, por via aérea ou marítima, interilhas e para fora do Arquipélago, devem limitar-se às absolutamente imprescindíveis;

b) Recomendar aos passageiros que embarquem nos aeroportos das ilhas de São Miguel e Terceira, com destino a outra ilha do Arquipélago, o preenchimento da APP mysafeazores.com com o questionário de avaliação de risco e deteção precoce do SARS-CoV-2;

c) Mandatar a Secretaria Regional da Saúde para estender a «Convenção para a realização de testes de despiste ao vírus SARS-CoV-2 pela metodologia RT-PCR», a laboratórios sedeados nas ilhas de São Miguel e Terceira.

2 - As medidas previstas na presente Resolução podem ser alteradas ou anuladas, a qualquer

momento, tendo em conta a evolução da situação da pandemia do COVID-19 na Região.

3 - A presente resolução produz efeitos a partir das 00:00 horas, do dia 23 de novembro até à data em que vigorar a declaração do estado de emergência nos termos do Decreto do Presidente da República, sem prejuízo de eventuais prorrogações.

Aprovada em Conselho do Governo Regional, em Ponta Delgada, em 19 de novembro de 2020.(…)”

Alguma coisa não está bem. A notícia do AO obriga, a Resolução do Conselho de Governo recomenda. Tem diferenças. Ainda assim vamos ao dicionário para tirar dúvidas.

Obrigatório, do dicionário: Que não pode deixar de se fazer ou de ser cumprido; Forçoso; Que obriga. "obrigatório", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Recomendar, do dicionário: Pedir com instância; advertir, aconselhar. "recomendar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa 

Obrigar e recomendar não têm o mesmo significado. Parece-me claro. Não percebo, porém, como os OCS transformaram um aconselhamento em obrigatoriedade.  

E a pergunta é: Sou obrigado a ter um teste negativo à Covid-19, se viajar a partir de S. Miguel ou da Terceira para outras ilhas do arquipélago, como me diz o AO, ou é-me recomendado que faça um teste de despiste precoce à Covid-19, como diz a Resolução do Conselho de Governo da Região.

Em que ficamos. Pelo texto legal ou pela interpretação jornalística.



Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 22 de Outubro de 2020

terça-feira, 3 de novembro de 2020

entrevista ao Correio dos Açores (Face a Face) - 2020/10/04





Texto da entrevista conduzida por João Paz, publicada no jornal "Correio dos Açores, no dia 4 de Outubro de 2020.






FACE A FACE!

1 – Descreva os dados que o identificam perante os leitores!

- Parece, mas não é fácil responder a esta questão. O leitor, em função das circunstâncias em que se cruzou comigo, dirá: foi dirigente associativo, é dirigente sindical, foi presidente do Conselho Diretivo da Escola dos Arrifes, conheci-o numa ação de formação profissional, costuma ler poesia por aí, escreve num blogue, tem um canal no Youtube, conheço-o do Facebook, foi eleito na Assembleia Municipal de Ponta Delgada, foi deputado e Coordenador do PCP e da CDU Açores, escrevia para os jornais, ouvia-o na rádio, via-o numa televisão local, é professor. Sim, sou professor e essa, considero eu, é a minha imagem de marca.

2 – Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?

- Sou Licenciado em Educação Tecnológica e Mestre em Relações Interculturais, frequentei um Doutoramento em Geografia (Humana) que não concluí por ter assumido, em 2008, responsabilidades como Deputado na Assembleia Legislativa Regional dos Açores. Sou docente de Educação Visual e Tecnológica e, no momento, aguardo decisão sobre a minha aposentação. Afinal já são 45 anos e alguns meses de trabalho como docente.

Durante a minha carreira profissional exerci os mais diversos cargos (talvez todos) que podem ser atribuídos a um docente. Seria fastidioso estar a enumerá-los, mas pense o leitor num cargo que possa ser executado por um professor e, certamente, eu tê-lo-ei exercido. Como qualquer outro trabalhador docente, com consciência social e política, sou sindicalizado. Sou, também, dirigente sindical.

A par da atividade docente fui também formador tendo, durante algum tempo, colaborado com empresas e sindicatos na elaboração de planos de formação profissional e dado algumas ações de formação em áreas do “atendimento ao público” e da “higiene, saúde e segurança no trabalho”.

A minha intervenção social e cívica decorre, desde logo, da minha condição profissional, ou seja, um professor tem “obrigação” de participar na vida da sua comunidade. Não me vou alongar sobre este tema, opto por deixar aos leitores uma pequena lista das associações com as quais colaborei e ajudei a fundar: Clube Desportivo da Escola Preparatória de Arrifes; Associação de Andebol de S. Miguel; União das Associações de Andebol dos Açores; Associação “Vínculos”; e, Associação de Imigrantes nos Açores (AIPA). Recentemente e, também, na qualidade de sócio fundador subscrevi a criação da APA – Associação de Poetas do Atlântico. Organização para a qual fui indigitado, pelos sócios fundadores, Presidente da Comissão Instaladora.

Sou casado há 43 anos, tenho 3 filhos (2 raparigas e 1 rapaz) e 3 netas.

 

3 – Como se define a nível profissional?

- Não é fácil falar do nosso desempenho profissional e, muito menos, numa palavra ou numa frase sintetizar o que pensamos sobre a nossa carreira. Diria que: sendo professor nunca deixei de ser um aprendiz. O que significa que procurei manter sempre um diálogo com os meus alunos, promovendo o pensamento autónomo e crítico. Ou seja, mais do que a mera transmissão de conhecimento e saberes procurei, sempre, induzir a necessidade de questionar para compreender. Se isto fez de mim um bom ou mau profissional, Não sei. Mas não saberia fazê-lo de outra forma.

4 – Quais as suas responsabilidades?

- Sou membro da Direção do Sindicato dos Professores da Região Açores (SPRA), situação que poderá vir a ser alterada na próximas eleições que se realizam a 30 de Outubro pf, sou membro do Secretariado e Direção Regional do PCP Açores, situação que se manterá até à realização do próximo Congresso. Como ficou dito numa das perguntas anteriores continuo envolvido em atividades de natureza cívica, cultural e política.

5 – Que impactos tem o desaparecimento da família tradicional numa sociedade insular como a açoriana?

- Não tenho a ideia que a família, tal como a entendemos, tenha desaparecido na nossa sociedade. Houve alterações profundas motivadas por razões conhecidas, mas, ainda que de forma empírica, diria que que apesar de se registar um elevado número de famílias desestruturadas, existe um núcleo maioritário de famílias que mantêm, no essencial, os princípios que são inerentes ao conceito que temos de família. Por outro lado, fruto da própria evolução social é visível um novo tipo de famílias que, como qualquer outra, contribui para a desejável harmonia social que as famílias garantem.  

6 – Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?

- As famílias estão a atravessar um período, que não se iniciou agora, muito complexo e que conforma um ataque à sua unidade e, assim sendo, importaria reverter algumas políticas cujos efeitos, ainda que indiretos, contribuem para a sua desagregação. Os cidadãos menos atentos poderão dizer que a afirmação anterior é um paradoxo pois, as políticas públicas têm sofrido uma evolução positiva na proteção e apoio às famílias e, eu direi, que não se pode afirmar o contrário.

Assim é, parece contraditório. Mas a estabilidade familiar tem vindo a ser posta em causa por razões que lhe são alheias. Vejamos: a desregulação das relações laborais (precariedade e flexibilização de horário de trabalho); baixos rendimentos que, muitas vezes, obrigam o casal a prolongar o seu tempo de trabalho, em detrimento das horas que devia estar em família, para poder aumentar o seu rendimento; a discriminação das mulheres no acesso ao trabalho e a salário igual; a cultura do consumo e a falta de informação e formação para resistir aos seus apelos; e, ainda que não se esgote por aqui, a cultura dominante de individualização, ou atomização, da sociedade e que induz o egocentrismo com todos os efeitos que daí podem decorrer;

Se considerarmos esta variáveis julgo não ser muito difícil caminhar para encontrar alguns dos perigos que se abatem sobre as famílias e que contribuem para a sua desagregação e para a demissão do papel de educadores enquanto núcleo primordial da educação das crianças e jovens.

Julgo que as famílias necessitam de ser valorizadas pois, o seu papel é insubstituível na construção de sociedades onde paute o bem-estar e a dignidade. Os modelos de desenvolvimento para serem bem-sucedidos não podem, nem devem, continuar a alicerçar-se na desregulação do mercado de trabalho e nos baixos rendimentos. As políticas caritativas e assistencialistas não resolvem a pobreza e a exclusão, Perpetuam-nas.  

7 – A relação entre pais e filhos é, quase sempre, foco de tensões. Que abordagens, em sua opinião, devem ser feitas?

- Estranho é que assim não fosse. Julgo que o primeiro passo é o reconhecimento e a aceitação de que os choques entre pais e filhos acontecem naturalmente. São parte do crescimento das crianças e jovens. São parte de um processo de aprendizagem. Difícil é a gestão desses conflitos. Nem sempre é agradável dizer, Não. Mas nem sempre se pode dizer, Sim.

Vivemos num tempo em que nos são induzidos valores que contrariam séculos de evolução social. Promove-se a competição ao invés da cooperação, o individualismo ao invés do bem comum, a guerra ao invés da paz, o ter ao invés do ser, o já ao invés do tempo de reflexão, etc.. Por outro lado, o nosso tempo é um tempo sem tempo. Eu diria, parafraseando, o escritor João Pedro Porto, “Se o presente já durava pouco, agora também o futuro é vivido com a urgência de o tornar passado.” Talvez seja tempo de dar tempo ao tempo, parar para olhar e ver que caminhos estamos a trilhar e corrigir o rumo, enquanto é tempo. E se isto se aplica às famílias julgo que se pode generalizar a outros aspetos da nossa vida coletiva.

Não sou adepto de uma educação espartana para os nossos filhos, mas também não advogo facilitismos. As crianças e jovens necessitam de referenciais onde as normas e o seu cumprimento sejam parte das suas rotinas e, cabe, em primeira instância, às famílias a definição de regras de relacionamento e de responsabilização dos seus filhos. Não sendo assim a conflitualidade transfere-se para a Escola, para o Clube, para o grupo de amigos, para a sociedade, com tudo o que de pernicioso daí pode advir. 

8 – Que importância tem os amigos na sua vida?

- Toda. A amizade é um bem maior.

9 – Reformado, mas nem tanto? Que actividades gostas de desenvolver no seu dia-a-dia?

- Como já referi aguardo, julgo que por poucos dias, a passagem à condição de aposentado, Condição que não será sinónimo de inatividade, bem pelo contrário, é chegado o tempo de me dedicar, mais, à leitura e à escrita. Ou seja, dar continuidade a alguns projetos que têm vindo a ser adiados e aos quais, espero eu, possa dedicar mais tempo.

As minhas rotinas diárias passam pela leitura, pela pesquisa de informação alternativa ao mainstream, por caminhadas em espaços naturais e, naturalmente, alguns contatos sociais. Continuo a manter um conjunto de atividades sociais, culturais e políticas, isto é, não estou reformado da minha condição de cidadão que exerce os seus direitos e obrigações cívicas. 

10 – Vê televisão? Quais os canais que mais o atraem?

- Para salvaguardar a minha sanidade mental, Não vejo televisão. Há muito tempo que deixei de ver televisão no formato convencional. Tinha alguma preferência pela RTP2

11 – Que sonhos alimentou em criança?

- Viajar e conhecer o Mundo. As primeiras viagens aconteceram nas páginas dos livros que li. Continuo a viajar nas páginas dos livros que leio, mas já concretizei alguns dos sonhos e visitei lugares e gentes que faziam parte do meu imaginário de criança e jovem.

12 - Qual o seu clube de futebol? É um adepto ferrenho daqueles que vão para os estádios de cascol em volta do pescoço?

- Desde que o futebol se transformou num gigantesco negócio perdi todo o interesse por este desporto. Quando criança e jovem era adepto do Benfica, mas nunca me encaixei no perfil do apoiante ferrenho.

13 – O que mais o incomoda nos outros?

- A hipocrisia.

14 – Que características mais admira no sexo oposto? 

- Independentemente da origem geográfica, cultural e do género o que mais admiro nos humanos é a Inteligência e honestidade. 

15 – Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?

- Ler é uma das atividades mais prazerosas a que me dedico. Poderia elaborar uma longa lista de livros pois, tenho dificuldade em escolher o “tal”. Seja um livro, uma música, uma iguaria gastronómica, uma personalidade. Enfim o que seja, mas não quero deixar de responder e direi que um dos livros de eleição que já li, e recomendo, é o “Memorial do Convento”, de José Saramago.

16 – Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?

- A primeira reação será dizer: Mal, relaciono-me mal. Mas em boa verdade não existe uma relação. Talvez a palavra que melhor pode descrever o caudal de informação regurgitado nas, erradamente, chamadas redes sociais seja, Incómodo. Fico incomodado pelos conteúdos publicados sem verificação da veracidade, incomoda-me a informação não factual, incomoda-me o imediatismo, incomoda-me a falta de rigor. Incomoda-me a replicação acrítica de “notícias” que nem sempre o são. Defendo-me das chamadas redes sociais dando-lhe um uso moderado.

17 – Costuma ler jornais?

- Folheio, não leio de ponta a ponta. Folheio e seleciono o que me interessa, como seja a atualidade, alguma opinião, os suplementos culturais. 


18 – Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?

- Quem está a ler já percebeu que sim. Viajar é um prazer e, talvez das melhores formas de aprender e compreender a diversidade do nosso Mundo. À semelhança da pergunta sobre o livro de eleição, também agora se configura a dificuldade de escolher. Terá sido aquela viagem a Nova Iorque e a San António (Texas), ou uma outra das várias que fiz aos Estados Unidos, talvez a viagem que fiz ao Vale de San Joaquin (Califórnia), com passagem por San Francisco, ou uma das minhas frequentes viagens a Cabo Verde, Cuba, sim gostei. Qual delas terá sido a que mais me marcou!? O Egipto, talvez, mas S. Tomé e Príncipe foi marcante, e Estocolmo, e Kiruna. Não é fácil escolher e, se na leitura deixei apenas uma indicação, quanto às viagens fiquem-se com esta incompleta lista.

19 – Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?

- Neste caso vou recusar-me a responder diretamente à pergunta. Gosto, particularmente, da gastronomia portuguesa. Poderia até selecionar um prato de cada uma das regiões, mas não o farei. Come-se muito bem em todo o território continental e insular da República Portuguesa.  

20 – Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?

- As transformações que eu gostaria que os jornais noticiassem não cabem apenas numa notícia. Seria fácil e esperado que eu respondesse: acabou a fome, a paz reina, todos os humanos têm acesso a água potável, ou mais imediato como o controle e a erradicação da Covid19. Mas as transformações não se concretizam com desejos de sofá. É preciso ação para transformar o Mundo. Um Mundo doente, um Mundo que está a perder a humanidade.

21 – Qual a máxima que o/a inspira?

- Aqui está uma das tais perguntas que me deixa sem jeito pela dificuldade que tenho em escolher uma, mas sim vou, sem rodeios, responder.

“Ser culto é a única forma de ser livre”, Jose Marti (1853/1895)

22 – Em que Época histórica gostaria de ter vivido?

- Na minha.

23– O que pensa da política?  

- O exercício da atividade política é um direito e um dever de todos os cidadãos. E todos, de uma forma ou outra, somos agentes políticos, mesmo quando nos abstemos e o negamos. A atividade política é, em minha opinião, servir a comunidade. Digamos que a opinião generalizada é que a política é uma atividade onde pontuam os oportunistas, mas nem a generalização é justa, existem muitos cidadãos que fazem da política uma atividade cívica nobre e desinteressada, e, por outro lado, só com o aumento da participação ativa dos cidadãos será possível um escrutínio rigoroso que leve ao afastamento dos parasitas e oportunistas que vivem à sombra dos aparelhos partidários dos partidos do chamado “arco da governação”. 

24 – Que opinião tem sobre os políticos?

- Julgo que, de alguma forma, a resposta à pergunta anterior deixa claro o que penso sobre os agentes políticos. Acrescento apenas que as generalizações são um instrumento perigoso e que só serve para denegrir os agentes políticos que encaram a sua participação com nobreza e desinteresse, como um dever para a sua comunidade.

25 – Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?

- Uma só medida não resolveria a complexidade das questões que nos afetam, seja na Região, no País, ou no Mundo. A pobreza e a exclusão social constituem-se como uma das maiores preocupações que me afligem e, certamente, esta seria uma questão prioritária.

26 – É apologista de uma Autonomia Política Administrativa progressiva. A Região deve ter mais poder na gestão dos seus mares do que tem? Quer explicar?

- Sou um autonomista convicto, como é do conhecimento geral, quem acompanhou e acompanha a minha intervenção pública pode facilmente comprová-lo. Não tenho por hábito rotular a autonomia. Mais do que adjetivar a Autonomia é necessário exercê-la e exigir que os poderes autonómicos sejam respeitados. O que temos assistido nos últimos anos, designadamente após a última revisão Constitucional e Estatutária, é a uma inércia dos poderes executivos e legislativos de utilizar todas as competências autonómicas que foram conquistadas e consagradas na Constituição e no Estatuto. E, neste caso, a responsabilidade não é de Lisboa, nem de Bruxelas.

Quanto à questão da gestão dos mares a posição que tenho defendido é, de forma sintética, a seguinte: “a gestão dos mares e dos seus recursos deve pautar-se pelo princípio da proximidade”.

Como se pode depreender a resposta à questão se a Região deve ter mais poder na gestão dos seus mares fica assim respondida.


26 – A abstenção preocupa-o? Porque aumenta a abstenção e os votos em branco no eleitorado açoriano? Será apenas porque os cadernos eleitorais não estão actualizados?

- O recenseamento é um automatismo que decorre da posse do Cartão de Cidadão. Sendo uma medida com a qual concordo veio introduzir algumas distorções pois, muitos dos nossos imigrantes têm, naturalmente, Cartão de Cidadão ao qual corresponde um eleitor, mas como sabemos não residem nos Açores. Se a esta distorção juntarmos a que decorre da desatualização dos cadernos eleitorais estaremos a falar de um número de significativo de eleitores que na prática não existem ou estão impedidos de votar por não se encontrarem na Região.

Mesmo tomando em consideração que as distorções a que me referi podem representar qualquer coisa como 15% dos eleitores, ainda assim verifica-se uma taxa real de abstenção muito elevada e, como tal preocupante.

É este segmento de eleitores que é necessário conquistar para a participação cívica, sem obrigatoriedade de voto. A mobilização dos abstencionistas para a participação na vida democrática é uma preocupação que deve merecer a atenção dos poderes públicos.

Lembro-me de ter proposto na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores um projeto de resolução (recomendação) que tinha como finalidade contribuir, ainda que marginalmente, para a diminuição da abstenção. A proposta consistia na atribuição a todos os jovens açorianos que completassem 18 anos de um exemplar do Estatuto, da Constituição e da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Esta proposta foi chumbada pelos partidos do costume (PS, PSD e CDS/PP).

27 – Que prospectiva faz das próximas eleições legislativas regionais?

- Não me atrevo a fazê-la. Embora não tenha grandes dúvidas que o PS sairá como vencedor deste ato eleitoral. A covid19 é a garantia da vitória do PS.

28 – Se o PS não obtiver maioria absoluta nas próximas eleições legislativas regionais, o PCP deverá estar aberto a viabilizar uma solução de governo socialista na Assembleia Legislativa Regional? Em que medida?

- Partindo do princípio que o PS será o vencedor das eleições legislativas e que formará governo (minoritário ou não), esse governo não será nunca um governo socialista. O PS abandonou há muito a matriz social democrata que o caraterizava e, socialista só de nome, contudo, o PCP que assumirá com sentido de responsabilidade a dimensão institucional que o Povo açoriano entender conferir-lhe, estará sempre disponível para, a cada momento, contribuir para a construção de soluções que garantam a melhoria das condições de trabalho e de vida dos açorianos, o PCP estará disponível para reforçar o investimento público no Serviço Regional de Saúde, na Escola Pública e na promoção de modelos de desenvolvimento assentes no aumento, diversificação e valorização da produção regional, o PCP estará sempre disponível para construir modelos de desenvolvimento harmonioso que potenciem as singularidades de cada uma das nossas ilhas e que promovam complementaridades e não os bairrismos redutores. Assim outros estejam também.

29 – Em sua opinião estamos a caminhar para uma crise económica e social sem precedentes devido ao Covid-19? Quem vai sentir mais esta crise? Porquê? 

- Julgo que a Covid19 tem servido para aceitar o que em situações de normalidade seria inaceitável, ou seja, instalou-se um clima de medo induzido com um propósito que tem como alvo os mesmos de sempre. As populações mais vulneráveis, os trabalhadores do setor público e do setor privado, enfim todos menos os donos do Mundo.

30 – As políticas adoptadas a Região para combater a pobreza têm sido suficientes e eficazes? Porquê?

- Não. Eu diria mesmo que as opções políticas visam a perpetuação da pobreza e da exclusão social. Direi ainda que as medidas de apoio que foram criadas ao longo dos anos, sendo importantes, não passam de meros paliativos e não têm por objeto a resolução do problema, nem sequer a sua diminuição.

Medidas que combatam a precariedade laboral e aumentem o rendimento do trabalho afiguram-se como imperativos para que os jovens, mas também os menos jovens possam sair da pobreza e do seu limiar.

Um ligeiro aumento do acréscimo regional ao salário mínimo regional seria, só por si, suficiente para retirar algumas centenas, ou mesmo milhares da famílias do Rendimento Social de Inserção.

31 - Este período de pandemia travou o turismo e está a levar as empresas proprietárias de unidades hoteleiras, de agências de viagens, renta-car e de animação turística a situações económicas insustentáveis. Devia-se ter pensado mais na volatilidade do turismo? Quer comentar?

- É também do domínio público a posição que sempre tive em relação ao modelo de turismo que se procurou implementar na Região. O setor sendo importante, não deve ser considerado como substitutivo de outros setores. E não deve, desde logo, por ser uma atividade volátil. Pequenas ou grandes alterações podem, de um momento para o outro desviar os fluxos turísticos de um para outro destino. Exemplos não faltam. Por outro lado, qualquer tentativa de massificação (uniformização) do destino Açores retira-nos competitividade. E aqui não é uma questão de custo, o destino Açores será sempre um destino caro, mas sim uma questão de singularidade paisagística, ambiental e cultural. À medida que nos tornarmos iguais a outros destinos, ou seja, perdendo o que nos diferencia deixamos de ter procura e competitividade.

Sobre esta questão muito mais se poderá dizer. Mas o espaço desta entrevista está a chegar ao fim e ainda tenho mais duas questões para responder.

32 – As medidas adoptadas pelo Governo dos Açores para manter o sector do turismo ‘à tona de água’ têm sido suficientes? Quer comentar?

- Sem dúvida. Mas mais do que as medidas, ou melhor em paralelo com as medidas esta seria uma excelente oportunidade para repensar o modelo e adequá-lo ao nosso destino.

33 – Tem algo mais a acrescentar que considere interessante e/ou importante no âmbito desta entrevista?

- Sim quero. Foi um prazer partilhar estes momentos com os leitores do Correio dos Açores.

Votos de uma excelente semana.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 2 de Outubro de 2020

 



terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Aleppo

Imagem retirada da Internet
É imperativo ir para além da espuma mediática e contaminada dos tweets e da informação das corporações mediáticas referenciadas como ocidentais, onde incluo as portuguesas. Sim, as portuguesas, porque estamos a ocidente de qualquer lugar a oriente, embora estejamos a oriente de um qualquer lugar que nos esteja a ocidente, mas não somos o centro do planeta como nos poderá parecer quando olhamos o planisfério, Há outros pontos de vista, desde logo o dos povos que foram, e são, subjugados pelos interesses “ocidentais”.
A informação circula à velocidade de um clique e o seu acesso está mais ou menos generalizado, diria que no que concerne às televisões e às rádios que há muito está massificado. Não haverá, a não ser por opção própria, quem no Ocidente não tenha a acesso à informação áudio e/ou audiovisual, o que não significa que se esteja bem informado, pois os critérios editoriais, essa vaca sagrada, as leis do mercado e os interesses obscuros conformam a informação, ou seja, nem sempre, ou melhor, quase nunca, a informação que nos vendem é rigorosa, direi até que muita da informação veiculada pelas corporações mediáticas nem sequer corresponde à realidade dos factos, É informação manipulada para moldar a opinião pública. Só assim se entende que a generalidade dos cidadãos ocidentais, sejam do Norte ou do Sul, ou estejam a Oriente, tenham como bom que as “Torres Gémeas” colapsaram devido ao embate dos aviões e aos incêndios que se lhe seguiram, Claro que não. Nem havia armas de destruição massiva no Iraque, Pois não.

Imagem retirada da internet
Mas não é da tragédia do 11 de Setembro que se trata, ou talvez seja, afinal o Afeganistão, o Iraque e tudo o que se seguiu, passando pela Líbia e posteriormente pela Síria tem a sua génese nesse evento. Mas é justamente pela Síria, mais precisamente sobre os recentes desenvolvimentos, que pretendo deixar algumas reflexões face à intoxicação da opinião pública que foi promovida na última semana.
Sobre a Síria a sua economia, os aspetos sociais, culturais, religiosos e políticos, sobre a sua história, antes da deflagração do conflito promovido do exterior, como se sabe, pode encontrar-se muita informação quer na net, quer em diferentes obras e brochuras conforme queiram mergulhar no saber ou, simplesmente, ficar à superfície boiando no conhecimento sobre aquele país soberano.
Aleppo a cidade Síria ocupada por grupos terroristas, que passarei a designar apenas por Daesh pois é disso que se trata, seja lá o que isso for. Não sendo a capital do país, como sabem é Damasco, Aleppo antes da ocupação pelo Daesh era uma cidade cosmopolita muito procurada como destino turístico, a cidade velha de Aleppo foi declarada, pela UNESCO, Património da Humanidade, em 1986. Aleppo era uma cidade onde se respirava paz e tranquilidade e onde não existiam quaisquer sinais de conflitos religiosos, ou não fosse a Síria um Estado laico, tal como era o Iraque, e onde imperava a convivência pacífica entre as diferentes comunidades religiosas.
A Síria é dos poucos países do Mundo e o único país árabe sem dívidas ao FMI, as mulheres têm os mesmos direitos constitucionais que os homens, a exploração de petróleo é do domínio público, poderia continuar a lista e até integrar outros motivos bem objetivos, como o interesse na construção “do gasoduto árabe” pela Arábia Saudita e seus aliados, ou lembrar que a Síria é o único país da bacia do Mediterrâneo fora da área de influência da NATO e tem uma forte ligação com a Rússia. Os motivos do apoio externo a uma suposta revolta de grupos da oposição síria são muitos e diversos e interessam sobretudo aos Estados Unidos e aos seus aliados, Arábia Saudita, Israel, (veja-se só), Turquia, Inglaterra, França e as monarquias do Golfo e têm como fim último atingir o Irão e isolar a Rússia, aliás a construção do “gasoduto árabe” mais não pretende do que acabar com o fornecimento de gás natural da Rússia à Europa.
Hoje é reconhecido que a “Primavera Árabe”, foi um inferno e de árabe só teve mercenários e fundamentalistas a soldo dos aliados europeus e árabes dos Estados Unidos. Depois da Líbia, onde pela primeira vez soldados da NATO lutaram no terreno ao lado, da então, Al-Qaeda, seguiu-se a Síria para onde migraram, via Turquia, os mercenários que colaboraram com o assassinato de Kadafi e com a destruição da Líbia. A Síria, só para recordar, está na famosa lista de países do “eixo do mal” feita durante o consulado de Bush júnior.

Imagem retirada da internet
A estratégia da coligação liderada pelos Estados Unidos que na Síria, desde o início do conflito, combateu o Daesh, obteve os resultados que todos conhecemos, O Daesh fortaleceu-se e ocupou cidades e território sírio, aliás cumprindo o objetivo inicial desta espúria coligação que pretende derrubar um governo legítimo. Legítimo sim, lembro que em 2014 houve eleições na Síria, eleições tão democráticas e livres como as que elegeram Donald Trump, ou Barack Obama.
A demonstração, aos olhos da comunidade internacional, de que a ineficácia do combate ao Daesh, pela coligação liderada pelos Estados Unidos, era uma falácia acontece com a entrada da Rússia no conflito. Se a Rússia tem interesses na região, Claro que sim, desde logo de defesa, para além de interesses de ordem económica.
Com o apoio da Rússia as forças armadas sírias foram reconquistando território e cidades e nos últimos dias tomaram o controlo de Aleppo, que esteve ocupada pelos terroristas durante vários anos, afinal trata-se de repor a legalidade, eis senão quando se levantam as vozes dos “ocidentais” ativistas de sofá em resposta a apelos finais divulgados na net e  fabricados, de entre outros, pelos “Capacetes Brancos”, organização sedeada em Coventry, Inglaterra, e financiada a partir dos Estados Unidos.
Os sírios manifestam nas ruas a sua satisfação pela tomada de Aleppo, não serão todos naturalmente, e os “ocidentais” condenam a libertação da cidade.
Fica muito por compreender e muito mais por explicar, como por exemplo a detenção num bunker em Aleppo, pelas forças especiais sírias, de mais de 20 oficiais NATO, de várias nacionalidades, O que faziam ali. Combatiam o terrorismo ou estavam ao lado dos jihadistas.
Ponta Delgada, 18 de Dezembro de 2016

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário e Azores Digital, 19 de Dezembro de 2016

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Admito que sim

Imagem retirada da internet
O Papa Francisco continua a surpreender o Mundo. E admito que sim tem-me vindo a surpreender. Tem-me surpreendido a mim e certamente a milhões de seres como eu, mas também a muitos outros milhões de cidadãos crentes e que estarão ainda mais surpreendidos do que eu.
Aquando da sua eleição pelo Conclave pensei para comigo, tal como os Estados Unidos necessitaram de um presidente com o perfil Barack Obama para limpar a imagem internacional deixada pelo seu antecessor, agora é chegada a vez do Vaticano seguir a mesma estratégia.
Reconheço que em relação à eleição de Francisco e ao Vaticano talvez não seja bem assim. Quanto a Barack Obama e aos Estados Unidos não me restam dúvidas os seus mandatos não passaram de uma farsa construída e alimentada pelos média pois, no que era essencial mudar na política externa nada foi feito, aliás o caso da Síria e as espúrias ligações dos Estados Unidos ao Daesh, por via das agências de informação e de organizações privadas a soldo da administração estado-unidense, são disso um claro exemplo. Claro que o seu sucessor na Casa Branca vai contribuir para que Obama continue a ser idolatrado, quer interna quer externamente, pelos reformistas de uma certa esquerda, interna e externa, que por vezes se diz radical, mas nunca se afirma revolucionária.
Desta vez e numa recente entrevista ao jornal “Tertio”, semanário católico, o Papa Francisco analisa e crítica o papel e a responsabilidade dos órgãos de comunicação social (OCS) nos nossos tempos.
Francisco faz uma apreciação positiva da sua importância na difusão da informação e na promoção da fraternidade e da solidariedade, mas aponta alguns aspetos que contribuem para alimentar algumas patologias clínicas e sociais, ou seja, algumas linhas editoriais merecem a reprovação de Sua Santidade.
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O Papa Francisco destaca quatro “pecados” que os OCS de amiúde praticam, A calúnia, a difamação, a desinformação e até, veja-se só como o Sumo Pontífice, classifica a linha editorial de alguns OCS, como tendo contornos de coprofilia.
Sem generalizar, porque as generalizações não são rigorosas e, como tal, injustas, diria que estes e outros “pecados” cometidos pela comunicação social, que o Papa Francisco apontou, se verificam numa imensa maioria de títulos da imprensa, de rádios e televisões. Quanto à questão da coprofilia, tão grave quanto os outros “pecados”, é cultivada por alguns OCS que se alimentam na coprofagia, patologia afinal muito comum ou então não seria necessário recorrer a coprofilia para ascender, com sucesso, aos tops de audiência e de tiragens dos OCS que a utilizam.
Esta é apenas mais uma, de muitas outras, reflexões e afirmações do Papa Francisco que, admito que sim, me surpreenderam e que estão a afastar a minha suspeição inicial de que o Vaticano tinha encontrado, apenas, mais um figurante para lavar a face de uma organização gigantesca e poderosa que também estava a passar por um período complexo. Francisco afirmou-se com um pontificado diferente, um pontificado humanista.
Ponta Delgada, 13 de Dezembro de 2016

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 14 de Dezembro de 2016

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Novos Diretores Regionais, velhas políticas

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Diz o Gabinete de Apoio à Comunicação Social (GACS), também conhecido por gabinete de propaganda do Governo Regional, que 62% dos Diretores Regionais agora nomeados, são-no pela primeira vez. Não sei muito bem o que o GACS pretende transmitir.
Será que é de renovação que o GACS fala, Talvez. Mas, se assim for, este conceito de renovação é no mínimo redutor pois, quando falamos de Diretores Regionais, estamos a falar de meros executores de políticas e essas, as políticas, são velhas, não se renovaram isto a fazer fé no Programa de Governo recentemente aprovado, apenas pela maioria absoluta, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA).
Se o GACS pretende transmitir a ideia de que o PS conta com um vastíssimo conjunto de quadros capazes de assumir o cargo, se é isso, Bem isso também não é grande novidade. Não faltam por aí disponíveis a gravitar na órbita do poder.
Quero, antes de continuar, até porque não faltam amigos, colegas de profissão e vizinhos, a Região é pequena e o Mundo globalizado, na lista dos agora nomeados Diretores Regionais. Quero, como dizia, deixar claro que esta abordagem não pretende colocar em causa a competência técnica e científica para o desempenho da função e, muito menos qualquer avaliação do caráter pessoal dos designados para o cargo. E, bem vistas as coisas, a divulgação da lista dos Diretores Regionais, para os diferentes departamentos do XII Governo, constitui, apenas, o mote para estas considerações gerais sobre o título dado, pelo GACS, à publicação da lista dos nomeados e a forma como a comunicação social se limita a regurgitar os comunicados daquele gabinete.
Bem podia o GACS ter, tão-somente, divulgado a lista das nomeações sem nenhum tipo de consideração prévia, mas tratando-se de um instrumento de propaganda do Governo, não conseguiu evitar a transmissão da ideia de uma grande renovação e da capacidade de recrutamento do PS, ou mesmo, numa análise mais corrosiva de que os anteriores Diretores Regionais foram descartados por não servirem, ou não quererem continuar a servir, velhas políticas.
Mas se do GACS não esperamos outra atitude que não seja a propaganda o mesmo não devemos esperar dos principais destinatários deste gabinete.
Imagem retirada da internet
À comunicação social são exigidos rigor e objetividade e não apenas que regurgite os comunicados do GACS como, salvo algumas exceções, se verifica na generalidade dos títulos da imprensa, nas rádios e nas plataformas on-line de informação ligadas, ou não, a títulos da imprensa regional.
Admito que o comunicado do GACS, sobre a nomeação dos novos Diretores Regionais, pode até não ser o melhor dos exemplos para dar nota do acriticismo e da mediocridade reinante na comunicação social regional. Afinal é uma listagem de nomes com a caraterização académica e profissional e até o título corresponde, Cerca de 62% dos nomeados vão assumir o cargo pela primeira vez. É a notícia tal como ela acontece.
Já não é admissível que a regra não seja essa, E não é. A norma é a notícia trazer pendurada a opinião de quem a redige e edita. E se isso é aceitável no GACS, é a sua função, já o não é na comunicação social regional, seja ela pública ou privada. Da comunicação social esperamos isenção e rigor na informação.
Ponta Delgada, 21 de Novembro de 2016

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 23 de Novembro de 2016

terça-feira, 22 de novembro de 2016

... do esperado à realidade

Aníbal C. Pires (Vale dos Reis, Luxor-2006) by Madalena Pires










Destaque do texto a publicar amanhã na imprensa regional.








(...) Já não é admissível que a regra não seja essa, E não é. A norma é a notícia trazer pendurada a opinião de quem a redige e edita. E se isso é aceitável no GACS, é a sua função, já o não é na comunicação social regional, seja ela pública ou privada. Da comunicação social esperamos isenção e rigor na informação. (...)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Uma das faces da censura

A rádio e televisão pública dos Açores, como é habitual, cobriram ontem uma reunião da Comissão de Política Geral (CPG).
Para além de assuntos da rotina do funcionamento da CPG realizaram-se duas audições (Vice-presidente do GR e Presidente da Delegação da ANAFRE nos Açores) sobre uma iniciativa do PCP Açores, a saber um Projeto de Resolução que Recomenda ao Governo Regional que reforce o apoio e a cooperação com as Freguesias dos Açores, assunto de todo desconhecido da jornalista da televisão pública, como aliás o demonstrou em conversa comigo, tendo eu optado por não lhe lembrar ao que ela vinha, não me competia a mim. Demonstrou também algum enfado por ter de estar ali e que não estava disposta a aguardar pelo fim dos trabalhos da CPG, mas a sua “má disposição” devia-se, também, segundo a própria ao facto de ter sido “pressionada” por um telefonema de um dos assessores de imprensa da Vice-presidência do Governo. Enfim, nada disto tem relevância e, sobretudo é prática comum.
Tudo isto se passou antes do início dos trabalhos da Comissão, quiçá devido ao enfado, à pressa para partir para outros trabalhos, porventura bem mais importantes do que a CPG que discutia uma proposta que visa melhorar as respostas das freguesias às populações que servem.
Não tendo conseguido ouvir quem queria antes do início dos trabalhos da CPG, alcançou o seu objetivo durante um breve intervalo em que se procedeu à saída do Vice-presidente e à entrada do Presidente da Delegação da ANAFRE, dois dos intervenientes. A jornalista cumprindo, certamente, ordens da redação não ouviu mais ninguém, nem o PSD, nem o CDS/PP, nem o BE, nem o autor da proposta, o PCP. Mas como disse esta é uma prática comum e uma responsabilidade que não posso, sob pena de estar a ser injusto, atribuir à jornalista.
O jornalista da rádio fez o seu trabalho, o trabalho que a redação lhe solicitou em função dos critérios editoriais que foram definidos, pela redação, para a cobertura da reunião da CPG.
Não ouvir os restantes intervenientes é informar de forma parcial. Não ouvir os argumentos do proponente é, censura.
Censura justificada em critérios editoriais. É prática comum mas já aborrece para além de resultar no empobrecimento da democracia.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 08 de Janeiro de 2015

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A espinha do director do "i"

Quando tenho afirmado que a comunicação social de referência está ao serviço do dono (capital) é disto que falo "É urgente partir a espinha aos sindicatos", título do editorial do jornal "i" assinado pelo mentecapto que o dirige.
Depois de Passos Coelho ter vindo com a provocação sobre a repressão de eventuais "tumultos" que resultem da contestação social vem agora este expert dissertar sobre aquilo que ele considera que deveria ser o papel dos sindicatos em Portugal.
Não haverá por aí ninguém que lhe parta a espinha a ele, isso sim era prestar um bom serviço à causa pública e ao país.
A dificuldade não será encontrar quem o queira fazer mas será, certamente, uma missão impossível pois os vermes são desprovidos dessa estrutura óssea que permite a verticalidade aos humanos.