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domingo, 16 de novembro de 2025

Ornamento de cabeça, ou poesia.

foto de Madalena Pires
Há livros que nascem como objetos culturais; outros, como testemunhos vivos. O Lenço de Cabeça, de José Marcelino Kongo, pertence a essa segunda linhagem, a dos livros que guardam memória, identidade e dignidade numa página de papel e num gesto de olhar. Editado pela Letras Lavadas Edições, este trabalho fotográfico e poético é uma homenagem às mulheres angolanas e ao simbolismo que carregam, visível no lenço que tantas vezes reveste a cabeça como coroa, escudo, linguagem ou território afetivo. E não…  não é um simples ornamento; é um mapa íntimo da história e da resistência no feminino.

José Marcelino Kongo vive em Portugal há meio século, exatamente o mesmo tempo que dura a independência de Angola, celebrada a 11 de novembro. Este paralelismo não é mero acaso temporal, há uma afinidade biográfica, cultural e emocional que o atravessa.

Radicado nos Açores, o autor construiu o seu percurso académico como investigador na área da Biotecnologia, doutorado pela Universidade Católica Portuguesa. Mas o rigor científico nunca anulou o olhar sensível, poético e atento às raízes. O Lenço de Cabeça é prova disso: apresenta-se como documento visual e poético que ecoa como uma declaração de pertença.

foto de Madalena Pires

Conheço o Marcelino desde o início deste século e guardo, com particular estima, o momento em que li, pela primeira vez um poema em público, durante a apresentação do seu livro Notícias da Lua. Talvez por isso, cada novo trabalho seu me soe sempre a reencontro. Reencontro com a palavra, com a memória e com o gesto artístico que nasce do coração e regressa ao povo.

Celebrar cinquenta anos de independência é também resgatar o rosto feminino dessa liberdade: mães, filhas, avós, estudantes, vendedoras, camponesas, artistas, combatentes, tantas vezes invisibilizadas pela história, mas imprescindíveis à humanidade.

Este livro não é apenas sobre um acessório feminino: é sobre as mulheres angolanas, os rostos que retrata, os corpos que o sustentam e a vida que, apesar de tantas cicatrizes, continua a erguer-se, com dignidade, beleza e futuro.



Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 16 de novembro de 2025


domingo, 14 de setembro de 2025

Casa-Mãe, de Paula Cabral

Acabei de ler, de uma só vez, Casa-Mãe, de Paula Cabral, integrado numa coleção sob a responsabilidade editorial de Vamberto Freitas e publicado pela Letras Lavadas.

Não costumo escrever sobre tudo o que leio, mas neste caso senti necessidade de deixar um breve registo. À medida que avançava na leitura, fui formulando ideias e impressões que merecem ser partilhadas, não como crítica literária, mas apenas como a experiência de um leitor atento.

Paula Cabral conduz-nos numa viagem intimista pelas memórias e afetos que nutre pelos lugares e pelas pessoas da sua vida, sem nunca deixar de olhar, com espírito crítico, para o que a rodeia: a rua onde vive, a cidade que habita, os Açores, Portugal e o mundo. Partilha connosco sentires, inquietações e também incómodos pessoais e profissionais. É professora, e isso deixa marcas no olhar que nos oferece.


Ao longo do livro, surgem temas que atravessam a vida coletiva e individual: a emigração que afetou tantas famílias açorianas, a religiosidade, a centralidade da família, a freguesia de Pico da Pedra, mas também a condição das mulheres, alicerce familiar e, sobretudo, sujeitos de transformação social.

Casa-Mãe é, assim, um testemunho que se enraíza no íntimo e ao mesmo tempo se abre ao universal. A leitura foi prazerosa e fico grato pela partilha.

Obrigado, Paula.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 14 de setembro de 2025


terça-feira, 13 de maio de 2025

“ENTRE PAUSAS – Crónicas do Dário Insular (2022-2024)”

Não sei se será o último, mas é o mais recente e já se encontra disponível, na Livraria Letras Lavadas, para quem o desejar adquirir.

Apenas três apontamentos extraídos da nota introdutória que abre o livro.


(…) A edição deste livro não era uma prioridade. Outros livros de crónicas, contos e poesia já estavam – e estão – em preparação. No entanto, o convite, que muito me honrou, e a oportunidade de integrar a coleção da Letras Lavadas, coordenada por Vamberto Freitas e com capa(s) de Urbano, foram razões suficientes para dar primazia a este trabalho. (…)


(…) Não passou tempo suficiente para que alguns textos, que abordam temas e acontecimentos datados, perdessem interesse, ou se verificassem alterações que colocassem em causa a oportunidade da sua publicação. (…)


(…) Este livro reúne as crónicas publicadas no Diário Insular entre janeiro de 2022 e dezembro de 2024. Embora tenham passado por uma cuidada revisão, as alterações não mudaram a essência nem o propósito original de cada texto. Estão aqui reunidas, por ordem cronológica, todas as crónicas publicadas no intervalo de tempo referido, o que significa que não houve seleção de textos, (…)


sábado, 22 de março de 2025

poesia portuguesa contra o massacre na Palestina

A Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP) convidou mais de quatro dezenas de autores portugueses a responder a uma dúvida: «E depois de Gaza, é possível ainda a poesia?».

São exatamente quarenta e quatro os/as poetas que responderam ao desafio contribuindo para a coletânea de poemas que a AJHLP acaba de editar na colecção «explicação das árvores» com o título o silêncio dos meninos mortos e o subtítulo poemas portugueses contra o massacre do povo palestiniano.


Este foi o meu contributo:


guardam sonhos

no jardim das oliveiras 
guardam sonhos
de paz

do rio até ao mar
guardam sonhos
de liberdade


Aníbal C. Pires, novembro de 2023

quinta-feira, 13 de junho de 2024

1984, de George Orwell

foto de Aníbal C. Pires
Esta nota surge devido a um comentário feito na minha página do Facebook e me criticava por ter publicado uma imagem da capa sem qualquer apreciação crítica.

Não pretendo com este texto fazer apreciações literárias apenas e tão-somente deixar algumas impressões sobre a atualidade deste livro que, não o sendo, parece premonitório.

“1984” de George Orwell, foi escrito em 1948, daí resulta o título. Quando esta obra distópica deu à estampa, em 1949, foi considerada, em razão do contexto histórico e político, uma contundente crítica aos regimes totalitários, e em particular à União Soviética.

Na época, 1948, a chamada guerra fria e o processo de reescrever a história estava nos seus primórdios. À data a obra de Orwell e durante alguns anos serviu como um suporte de propaganda para travar a influência dos ideais marxistas-leninistas nas sociedades ocidentais, ainda que sem sucesso pois, como sabemos o declínio eleitoral dos partidos comunistas, em particular na Europa, só veio a acontecer algumas dezenas de anos depois e por opções próprias que os transformaram em organizações partidárias, direi, sociais-democratas e igual a muitas outras já existentes.

Bem, mas, isso não vem ao caso. Importa hoje constatar que “1984” retrata, não tendo sido a finalidade de Orwell, a sociedade atual, em particular as sociedades do chamado “Norte Global”, vejamos:

- a “novaescrita” – as alterações semânticas como, por exemplo, “colaborador” ao invés de trabalhador:

- o “Grande Irmão” – as redes sociais que tudo vigiam e controlam;

- “2+2=5” – controle sobre a realidade, ou seja, as “fake news”, notícias falsas;

- “buraco da memória” – censura (temos no espaço da União Europeia, vários órgãos de comunicação social proibidos) e todo o processo, em curso, de reescrever a história.

- perseguição e prisão – Julian Assange, Pablo Gonzalez, Pablo Házel, de entre outros. Mas também a perseguição e a repressão sobre, por exemplo, os manifestantes contra o genocídio em Gaza.

"1984", ao contrário do “suposto” objetivo do autor e da propaganda anticomunista, transformou-se numa obra cuja atualidade é pungente, por isso a reli e aconselho a ler.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 13 de junho de 2024


quarta-feira, 10 de abril de 2024

a caminho das livrarias

É chegada a hora de desvendar alguns pormenores do livro de poemas “Destroços à Deriva”.

Um novo projeto com a habitual parceria de Ana Rita Afonso, autora da capa e das ilustrações concebidas para os poemas.

Fica a capa e um pequeno excerto do texto introdutório.

(…) A Ana Rita Afonso, companheira de viagem nas minhas incursões literárias, junta-se, de novo, a este projeto editorial. A fusão das palavras com as artes plásticas valoriza, diversifica e atrai novos públicos. As palavras chegam mais longe em virtude da arte pictórica e, esta, por sua vez chega a outros públicos, ainda que as ilustrações, por si só tenham um valor intrínseco e possam constituir-se como uma expressão artística autónoma, ou mesmo independente dos poemas, o mesmo se poderá dizer das palavras. (…)


sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

O Encanto dos Sonhos e Esperança Velha e Outros Poemas no PRL


Os livros “O Encanto do Sonhos”, Aníbal C. Pires (conto), ilustrado por Ana Rita Afonso, Letras Lavadas e “Esperança Velha e Outros Poemas", Aníbal C. Pires (poesia), ilustrado por Ana Rita Afonso, Letras Lavadas, fazem parte da lista do Plano Regional de Leitura (Açores).

É sempre motivo de contentamento que o nosso trabalho seja alvo de reconhecimento e divulgação.

Obrigado!


quinta-feira, 16 de novembro de 2023

da toada do mar e da terra


Fragmento da nota introdutória ao volume I da "Toada do Mar e da Terra", Aníbal C. Pires, Letras Lavadas, 2017


(...) Esta toada, dita do mar e da terra, não se confina às ilhas açorianas nem ao mar que as circunda. Aqui chegam outras melopeias vindas do Mundo trazidas pelas frentes frias, depressões, tempestades tropicais, furacões, que o anticiclone nem sempre consegue dissipar. Aqui chegam notícias de além-mar, seja qual for o quadrante de onde o vento sopra tempestuoso, ou as que a brisa suave carrega. Não estamos confinados, nem nunca estivemos. Esquecidos e abandonados à nossa sorte, Sim, mas nunca prisioneiros de vidas limitadas pelo horizonte. Fomos e somos a centralidade do Atlântico Norte e, se o sonho não vem até nós, vamos nós atrás do sonho. (...)

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

(Papelaria 96) não é o livreiro da Praia, mas podia ser

Carlos Lima - imagem retirada da internet
Uma das imagens de marca do “Outono Vivo” é a feira do livro. 

Como todas as feiras que celebram o livro, os autores e as editoras, também esta tem alguns pilares. O Carlos Lima é uma figura incontornável desta feira do livro 

Não o fiz na altura em que estive na edição do “Outono Vivo” 2023, mas faço-o agora deixando neste espaço público uma palavra de reconhecimento e agradecimento ao Carlos Lima que anualmente continua a colaborar com esta excelente e diversificada mostra de livros.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Outono Vivo 2023

foto de Fernando Vicente
Fragmento da intervenção de apresentação dos livros: "nova antologia de autores açorianos" e "9 poetas 9 línguas, de Helena Chrystello.

O evento decorreu no bar da Academia da Juventude, na Praia da Vitória, dia 5 de novembro, pelas 15h, integrado na XVIII edição do "Outono Vivo"


aspeto da feira do livro (Outono Vivo) - foto de Aníbal C. Pires








(...) Quero também agradecer, em meu nome e em nome da autora das obras que vou apresentar, o convite da organização do “Outono Vivo” e saudar a Câmara Municipal da Praia da Vitória 




por manter bem vivo este outono que continua a ser uma imensa primavera para as artes plásticas e performativas, mas também para poesia e para a literatura. 


Neste agradecimento incluo todos os trabalhadores e voluntários que anualmente erguem e mantêm este festival das artes que é uma referência regional e nacional. (...)


 foto de Aníbal C. Pires

pormenor da exposição “Rostos de Vidas” de Maria Jorge Pinho e Melo 

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

das linguagens

 

foto de Rui Lopes
Texto de Apresentação do livro:

“Por um Fio de Seda”, texto e ilustrações de Rui Lopes

Centro Cultural de Santa Clara, 24 de outubro de 2023, pelas 18h30mn

Minhas senhoras e meus senhores,

Caros amigos,

É, para mim, uma honra e também um prazer, estar aqui a convite do Rui Lopes, a quem aproveito para agradecer a confiança que em mim deposita para apresentar o seu primeiro livro que reúne, como terão oportunidade de constatar, um texto em que o autor narra uma história real e ilustra com a mestria que lhe reconhecemos, não só por esta nova experiência, mas por todo o trabalho gráfico que tem feito ao longo da sua vida profissional e que agora ganha novos e desafiantes contornos.

Agradeço a vossa presença com o compromisso de que não vos vou ocupar muito tempo, nem maçar com avaliações mais ou menos elaboradas sobre o texto, sobre as ilustrações, mas também sobre o protagonista desta história, que se encontra aqui entre nós e, a quem aproveito para endereçar um cumprimento especial pois, hoje, completa 92 anos de idade. 

Parabéns, Comandante Francisco da Encarnação Afonso! 

E bem-haja pelo seu exemplo de vida.


ilustração de Rui Lopes

Minhas senhoras e meus senhores,

Caros amigos,

Quando Rui Lopes me convidou para fazer a apresentação pública do seu livro, convite ao qual anuí sem qualquer reserva, e dei início à estruturação desta breve intervenção optei por dedicar o essencial do conteúdo deste registo ao autor, enquanto cidadão e ao potencial artístico que carrega consigo, mas por razões diversas não tem tido oportunidade de cultivar, para além da comunicação visual utilitarista. Ao contrário do que costumo fazer não separei as alusões à obra ao perfil do autor o que poderá contrariar os cânones, mas eu gosto de correr riscos e essa tem sido a minha opção de vida: navegar à bolina. Sinto-me confortável assim, a ir contraventos e marés.

“Por um fio de seda”, relata uma história, conhecida por muitos dos presentes, e por muitos outros que, estando ausentes conhecem, pois, esta história faz parte dos anais da aviação militar em Portugal e já foi descrita, de entre outros registos, no livro “Voando… A Unir O Que O Mar Separa”, promovido pela Associação Portuguesa de Pilotos de Linha Aérea (APPLA), da autoria do Professor Ermelindo Peixoto e publicado na sequência da atribuição do Prémio Carlos Bleck 2017, ao Comandante Afonso, e que o Rui Lopes referencia como uma das suas fontes.

Mas o reconhecimento à carreira, profissionalismo e dedicação não foi, apenas, pelos seus pares, como acabei de referir, aliás uma de entre muitas outras, mas também o Município de Ponta Delgada e a Região, através da ALRAA, prestaram uma justa homenagem ao Comandante Afonso, atribuindo-lhe respetivamente o “Diploma de Reconhecimento Municipal”, em 2011 e a “Insígnia Honorífica Açoriana de Dedicação”, em 2013.


Minhas Senhoras e meus senhores,

Caros amigos,

Numa epígrafe do livro do Professor Ermelindo Peixoto e que acabei de referenciar pode ler-se: “voar nas asas do sonho”; e esta é uma inscrição que, também, se ajusta, ao Rui Lopes. Por este livro e por este momento, pois, quem o conhece tem consciência que o presente acontecimento é um voo sonhado pelo Rui, e não me refiro ao livro em si mesmo, essa é apenas uma particularidade que não me surpreende, embora seja uma excelente mostra da arte e criatividade do Rui Lopes. Mas este momento é, também e, quiçá, sobretudo um grito que o liberta, ou pode libertar, do espartilho da publicidade e dos grafismos comerciais. 

O voo sonhado do Rui Lopes e que, para já deu este belo fruto, relaciona-se com tudo o que lhe está a montante, isto é, o recente, mas muito desejado percurso formativo, a sua concretização com sucesso, o reconhecimento dos seus mentores e, quiçá, a oportunidade tão ambicionada para o Rui Lopes poder dar expressão ao que lhe dá prazer e melhor sabe fazer: arte pela arte. Arte sem moralismos nem utilitarismos, a arte apenas pela estética.

Comandante Francisco Afonso (coleção particular)
Neste livro o autor ilustra e narra um episódio, por sinal dramático, da vida do Comandante Afonso que como sabem é o sogro do Rui. Permito-me fazer esta referência pois, a escolha do tema diz bem do homem que é o Rui Lopes.

A estória relata e ilustra um incidente ocorrido a 12 de outubro de 1955 protagonizado pelo Comandante Afonso, então com 23 anos, faria 24 passado 12 dias, e como piloto da Força Aérea Portuguesa. 

Era um voo noturno num jato monomotor da Esquadra 20, de caças F84-G, sedeada na base aérea da Ota. Dificuldade e alguma confusão nas comunicações, o afastamento da base, quando conseguiu determinar o local onde se encontrava, por ter avistado as luzes da procissão das velas em Fátima, concluiu que o combustível era insuficiente para chegar à base, quando assim é os manuais aconselham a ejeção, e foi o que o Comandante Francisco Afonso fez, apontou a aeronave ao mar e ejetou-se. O livro não é apenas a descrição deste episódio, mas é sobretudo esta estória do brilhante percurso profissional do Comandante Afonso que o autor de “Por um fio de seda” partilha connosco socorrendo-se das palavras do protagonista e brindando-nos com ilustrações que nos transportam para a carlinga do avião, para os procedimentos da ejeção, para a serenidade da descida em paraquedas e a chegada ao solo no meio de uma vinha, já vindimada, mas ainda assim os cães de guarda alertaram o proprietário para a presença de um intruso, o que contribuiu para que o seu resgate pela Força Aérea Portuguesa tivesse acontecido com celeridade.


Rui Lopes - foto de Madalena Pires

Senhora e senhores,

Caros amigos, 

Temas e estórias não faltam por aí, mas o Rui optou por esta, optou por homenagear uma figura familiar por quem tem muita admiração e respeito. 

Quem conhece o Rui sabe que ele é um homem de afetos e de emoções. 

Quem conhece o Rui Lopes identifica-o como arquétipo da generosidade. 

O Rui é um ativista na defesa do ambiente, da natureza e de modelos de desenvolvimento sustentáveis, o Rui preocupa-se com as injustiças sociais, o Rui coopera não compete, o Rui é um lutador contra a indiferença, o Rui dedica-se, direi, religiosamente à família e aos amigos, o Rui é o amigo com quem podemos sempre contar, o Rui está sempre disponível para quem o procura, o Rui é humildemente generoso como deviam ser os homens, mas o Rui é, sobretudo, um talentoso criativo que necessita espaço e oportunidades para se afirmar e mostrar toda a sua capacidade artística, de que este livro e, em particular, as ilustrações são uma pequena amostra do seu fértil universo de linguagens plásticas que é o seu território comunicacional de eleição.

Obrigado Rui, pelo convite e pela amizade! Obrigado pela vossa atenção!


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 24 de outubro de 2023


terça-feira, 24 de outubro de 2023

"por um fio de seda", Rui Lopes

Hoje, pelas 18h30mn, no Centro Cívico e Cultural de Santa Clara, será apresentado o livro "Por Um Fio de Seda", com texto e ilustrações de Rui Lopes.

Irei fazer a apresentação do livro e deixo aqui um parágrafo do texto escrito para o efeito.


(...) O livro não é apenas a descrição deste episódio, mas é sobretudo esta estória do brilhante percurso profissional do Comandante Afonso que o autor de “por um fio de seda” partilha connosco, socorrendo-se das palavras do protagonista e brindando-nos com ilustrações que nos transportam para a carlinga do avião, para a serenidade da descida em paraquedas e a chegada ao solo. (...)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

poesia da escarpa aprumada e da fajã de encantamentos. poesia do mundo.





Apresentação do livro

Vivências, Aníbal Raposo, Letras Lavadas, 2022“

Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, 3 de fevereiro de 2023, 18h Açores

 




Se escassa for a água o barco voa.

Aníbal Raposo, In Vivências, Letras Lavadas, 2022

Quando o Aníbal, a quem agradeço a confiança em mim depositada, me convidou para apresentar o seu livro “Vivências”, convite ao qual anuí sem reservas, fui invadido por sensações contraditórias. Por um lado, a inquietude que tamanha responsabilidade implica, por outro a surpresa do convite, afinal em comum partilhamos o primeiro nome e pouco mais. É certo que sempre acompanhei, à distância, o trabalho criativo do Aníbal, mas nunca com ele privei. Alguns encontros fugazes onde houve sempre lugar à troca de palavras que versavam sobre o lugar e o evento, mas pouco mais que isso. Sempre admirei e respeitei o cidadão e o artista, mas é a primeira vez que o digo publicamente. Da sua obra conhecia alguns poemas, algumas canções e, mais recentemente, alguns trabalhos pictóricos que tive oportunidade de apreciar numa exposição que teve lugar num espaço de animação noturna de Ponta Delgada, mas também de cultura, e onde aconteceu uma dessas breves conversas, nesse dia, naturalmente, sobre as incursões do poeta e músico nas artes de combinar as cores e as formas diluindo-as ao sabor dos seus amores e inquietações.

Ao receber o livro que hoje publicamente se apresenta regressou a minha inquietação. O que dizer, sobre o Aníbal e o livro, se está tudo dito. O excelente prefácio da Paula Sousa Lima diz-nos da estrutura do livro e da lírica dos seus versos, ou seja, apresenta-o. A badana informa o leitor do essencial sobre o autor. Que fazer!? Talvez ler alguns dos seus poemas. Também não. A Eleonora e o Sidónio têm essa tarefa a seu cargo e, o autor em parceria com o “Maninho” vão cantar algumas das poesias que foram musicados.

Ao mergulhar na leitura dos poemas do Aníbal Raposo foi regressando alguma tranquilidade ao meu espírito. A cada poema uma descoberta, a cada estrofe um homem novo, a cada verso a rebeldia do poeta.

E aqui estou, na vossa agradável companhia, para tentar acrescentar algumas palavras ao muito que outros e o próprio autor já disseram sobre “Vivências”. Palavras que não têm a pretensão de se constituir como uma recensão e, muito menos como uma análise de índole literária, são apenas palavras que resultam da minha opinião de leitor. Palavras cujo propósito é contribuir para divulgar o livro, mas também despertar um justo interesse pelo seu autor e a sua obra.

sobre o autor

imagem retirada da internet

Procuramos planícies de entendimento,

Encontramos muralhas de distância. (…) 

Aníbal Raposo, In Vivências, Letras Lavadas, 2022

 Aníbal Raposo é, antes de mais, um cidadão que não abdica da verticalidade que a coluna vertebral confere a alguns humanos. Não será por acaso que nos seus versos encontramos bastas vezes as palavras: prumo; aprumado; ereto. Como, por exemplo neste verso:

“(…) que se ergue aprumado, forte (…)

O seu modo de estar na vida, a sua verticalidade, não o impedem de olhar e ver o que brota do chão, o voo dos milhafres a riscar o céu, ou os horizontes utópicos que desenha para os lugares e as gentes que ama.

O autor é um espírito irrequieto, a sua precoce intervenção artística confirma esta apreciação. Na sua juventude integrou o orfeão da sua escola (Antero de Quental), bem assim como o coro da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, para o qual compôs alguns temas, ao tempo, inovadores. A sua vida académica está, também, marcada por uma intensa atividade artística ligada ao Teatro Universitário do Porto (TUP) e ao seu coro, do qual foi cofundador.

O desassossego do Aníbal Raposo não se quedou pela juventude e pela entrada na idade adulta. A sua atividade criativa na poesia e na música prolongou-se, para nosso contentamento, ao longo da sua vida que lhe desejo longa e profícua, seja na música, seja na poesia, seja noutros territórios de intervenção artística, de que a capa do livro “Vivências” é, apenas, um exemplo das suas obras pictóricas.

 “(…) sou um barco singular/amo a tempestade.”, diz o autor num dos seus poemas. E é desta singularidade e deste amor que tem nascido a sua vasta obra. Compositor, poeta, cantor, ou se preferirem cantautor, mas também artista plástico.

Aníbal Raposo é um criador cultural multifacetado, reconhecido pela generalidade do público e agraciado pelos órgãos de governo próprio da Região Autónoma dos Açores.

 

sobre a sua obra

(…)  Ai, quem me dera ser garça
E voar no canal (…) 

Aníbal Raposo, In Vivências, Letras Lavadas, 2022

A produção artística de Aníbal Raposo é vasta, como já referi, e merecida de maior divulgação. A edição deste livro vem, para além do seu valor intrínseco, contribuir para a difusão da vida e obra do autor e, por consequência, potenciar a conquista de outros públicos para a música e a poesia do obreiro de “Vivências”.

A minha geração conhece bem o papel que o Aníbal Raposo, sozinho, ou acompanhado, teve na recriação do cancioneiro popular açoriano. Quem não se lembra do “Tema para Margarida”, letra e música do Aníbal e popularizado, na voz de Piedade Rego Costa, na série “Mau Tempo no Canal” adaptado para televisão, por Zeca Medeiros, a partir do romance homónimo de Vitorino Nemésio. Mas este tema, de que gosto muito, mesmo muito, foi também utilizado na banda sonora do filme “A Antropóloga”, do realizador brasileiro de Santa Catarina, Zeca Pires. A voz foi, neste caso, de Helena Margarida Silva Lavouras. Este filme teve o apoio institucional da Casa dos Açores de Santa Catarina, possivelmente sustentado nos fundos da Direção Regional das Comunidades, ou seja do Governo Regional. “A Antropóloga” nunca passou nos Açores, embora toda a estória se desenrole num dos redutos açorianos, a Costa da Lagoa, Lagoa da Conceição, na ilha de Santa Catarina. O filme, para quem estiver interessado, está disponível no Youtube.

Este foi assim como um aparte. Pelo meu apego ao poema e à música, mas também para que se fique com uma ideia mais precisa e aprofundada da dimensão da obra do autor que hoje aqui partilha connosco o seu livro de poesia “Vivências”.

Mesmo considerando não haver necessidade pois, a sala está recheada de amigos e admiradores do Aníbal Raposo, e a badana do livro contém essa informação, ainda assim, deixo algumas referências à sua obra discográfica e poética.

O autor está representado em várias antologias de poesia contemporânea, e editou, em 2009, o livro de poemas “Voos da Minha Fajã.”

Colaborou em várias produções televisivas, tem participação em inúmeros trabalhos discográficos e regista seis discos editados.

Maré Cheia, 1999; A palavra e o canto, 2006; Rocha da Relva, 2013; Mar de Capelo, 2017; Falas & Afetos, 2021; e, Luz do Tempo, 2022.

A obra do autor não se esgotam nestes registos. O contributo do Aníbal Raposo para as artes em que se expressa conferem-lhe uma dimensão de referência na cultura açoriana.


o livro e os poemas

(…) O palco onde me revelo

O covil onde me encubro. 

Aníbal Raposo, In Vivências, Letras Lavadas, 2022

 Ler os poemas reunidos neste livro foi uma descoberta, hoje posso afirmar que conheço melhor o autor. Quem é, o que sente, o que ama, as suas inquietações e convicções, as suas insurgências, os lugares que habita, as suas utopias, os ritmos e a musicalidade poética do músico e compositor, e dei-me conta da tranquilidade que habita o espírito irrequieto que faz do Aníbal Raposo um cidadão que não deixa a vida passar-lhe ao largo.

Sei que pode parecer abusivo, mas ler os poemas reunidos em “Vivências”, foi como se lesse a autobiografia do Aníbal Raposo, sim porque as autobiografias também podem ter a forma de poemas e não são, necessariamente, uma mera narrativa de memórias datadas. A apreciação é minha e outros olhares são possíveis e legítimos.

A organização temática dos poemas está construída como de uma peça musical se tratasse, ou não fosse o autor um conceituado músico e compositor. Os 10 temas, ou andamentos deste livro, agrupam poemas construídos com a métrica e o formalismo lírico clássico, passa por alguns acordes populares, mas também por momentos de improvisação que libertam o poeta. E é então que o autor se espraia como um rio livre do aperto castrador das margens que, não poucas vezes, limitam o ato criador.

Outras leituras e interpretações são, naturalmente, possíveis, ou não fosse a leitura, em particular da poesia, um exercício e espaço de liberdade.

Tenho evitado, ao longo desta apresentação, o recurso à citação de poemas ou de pequenos excertos para ilustrar algumas das afirmações. É uma opção minha pois, não quero retirar aos leitores o prazer da descoberta e, muito menos tentar colonizar as vossas apreciações e leituras, contudo é chegado o momento de me socorrer de algumas estrofes e versos que à medida que fui lendo sublinhei e que me ajudaram a construir a opinião que estou a partilhar convosco.

O poeta, mesmo sem rima ou talvez por isso, é um sonhador:

“(…) Voa, sem medos e liberto,

pois é sempre do ar que se vislumbra

a toca do saber, que é presa esquiva,

e os ramos onde se ocultam na folhagem,

os frutos mais saborosos da loucura. “


O poeta é atento e capaz de se insurgir:

“As velas da esperança não chegam à costa

Cospem-nos em cima e a gente gosta.

Mil e uma peças, os mesmos atores,

Duas mil mentiras, três mil impostores.

 

Vamos enriçados em patranhas tantas…

Oh mar de capelo quando te levantas?”

 

A glória é efémera, diz-nos o poeta:

“Nasce do chão

aponta ao céu

e ao chão regressa…”

 

O Aníbal sabe o que quer:

“Apontada a norte

Por ser o meu rumo.”

 Não tenho dúvidas que poeta sabe que o Norte é o seu rumo, mas quando navega num corpo de mulher é no Sul que se encontra, sem se ter perdido.

“Batuques africanos no balouçar do teu corpo de gazela.”

Ou,

“Há como um tango argentino no desafio da tua cintura estreita.”

Ou ainda,

“E danças peruanas nas tuas ancas pela alba.

Há calor dos trópicos no aperto dos teus braços tão sinceros.”

 

O amor tem destas coisas, acontece quando e onde tem de acontecer.

E para terminar as citações deixo-vos estes versos que escolhi, não pela sua estética ou lirismo poético, mas para vos tentar abrir um sorriso, como convém no fim desta apresentação. E cito:

“Quem tem medo,

não cria:

- ou mia

ou compra

um cão.


Ao Aníbal Raposo e à Editora Letras Lavadas, enquanto cidadão e leitor, só posso estar grato pela publicação deste livro que, espero eu, não esgote a produção literária e poética do autor e a sua edição.

Obrigado pela Vossa atenção!

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 3 de fevereiro de 2023

sábado, 24 de setembro de 2022

a poeta desnuda-se

 

imagem retirada da internet




Apresentação de Contrastes, de Alexandra Cunha Cordeiro

Casa da Escrita, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 23 de setembro de 2022





a poeta desnuda-se

Senhoras e senhores, 

Caros amigos

Antes de vos falar do livro e da autora, razão maior que nos junta, de novo e sempre aqui, neste espaço onde as palavras repousam e ganham vida, permitam-me alguns agradecimentos.

Agradeço, desde logo, a Vossa presença. Presença sem a qual pouco sentido faria este momento. Os autores libertam as palavras e os leitores dão-lhe uso e voz, cada um com a sua própria leitura e interpretação. É desse modo, por via dos leitores, que os textos literários reunidos em livro cumprem a sua finalidade. E os poemas da Alexandra Cordeiro irão, através de cada um de nós, viajar livremente cumprindo o seu desígnio e povoando o imaginário de cada um dos seus leitores.

À Alexandra agradeço a confiança em mim depositada que se traduziu no convite para tecer algumas considerações sobre o seu primeiro livro de poesia, ou seja, a de fazer a apresentação pública de “Contrastes”. Convite que aceitei sem reservas, mas com a consciência da enorme responsabilidade que lhe está intrínseca.

Obrigado Alexandra! Pelo convite e, sobretudo, pela confiança que em mim depositas para apresentar o teu livro.


Alexandra Cunha Cordeiro - Imagem retirada da internet

Senhoras e senhores,

Caros amigos,

Partilho convosco algumas palavras sobre este livro, o primeiro de muitos, assim o esperamos. Palavras que não têm a pretensão de se constituir como uma recensão e, muito menos como uma análise de índole literária.

São breves as minhas palavras pois a poesia é para deleite de quem a lê, a poesia sente-se e vive-se e não pretendo antecipar aos leitores a viagem pelos poemas da Alexandra.  

A capa contrasta o preto e o branco, oposição de tons ou cores, o que de per si nos pode proporcionar uma ligação linear ao título, mas não se fica por aí. A bolha negra explode em mil pedaços libertando os estados de alma que estavam, direi eu, aprisionados e transformaram-se nesta aventura poética intimista da Alexandra Cordeiro. E assim é. Se dúvidas houvesse elas dissipam-se nas palavras escritas pela autora na contracapa e que terminam assim: “Partilho-me nesta escrita da minha alma”.

Ao iniciarmos a leitura dos poemas deste livro comprovamos que a interpretação, sempre subjetiva, dos grafismos da capa, se comprova a cada verso, a cada estrofe, a cada poema. Este livro é, como poderão comprovar pela leitura, poesia sentida e intimista em estado puro, mas é também o registo poético de momentos que quase podemos datar, assim como se de entradas diarísticas se tratasse, sem qualquer ordem cronológica pois, não nos relatam os dias, dizem-nos da memória, dos instantes, do quotidiano e dos estados de alma.

Não costumo recorrer à citação de excertos dos livros que tenho apresentado para não subtrair aos leitores prazeres que devem ser só seus, mas neste caso e como é de poesia que se trata, abro uma exceção e vou-vos ler alguns versos dos poemas Vem, Onde andas?  Entra e Vizinhas que, em minha opinião, ilustram, de forma modelar, o que já vos disse sobre a poesia da Alexandra.

Vem

(…) Estarei /À espera/Ansiosa(Quando, se e o que quiseres (…)

Onde andas?

(…) Se quiseres, um dia, estarei aqui/À espera de te ver,/De te ouvir,/De te sentir… (…)

Entra

(…) Entra suavemente/Invade o meu espaço./Deixo a porta aberta/Para ti, sempre (…)

Vizinhas

(…) Lá fora/Gargalhadas suaves/Em cima de copos de vinho. (…)

A poesia de Alexandra Cordeiro diz-nos da nossa condição de seres afetivos dotados de razão, por isso nos comovemos e nos sensibilizamos com os sentires partilhados neste livro.  Nestes poemas a autora desnuda-se para os seus leitores e partilha, sem limites, o âmago do seu ser.

Os poemas reunidos neste livro, por não obedecerem a nenhuma métrica, conferiram à autora a liberdade para criar as suas próprias normas e ritmos, procurando, contudo, garantir uma das caraterísticas transversais aos textos poéticos, a sua musicalidade.

A poesia de Alexandra Cordeiro insere-se, assim, na chamada poesia contemporânea que veio, de alguma forma, subverter as formas poéticas tradicionais.

Os poemas reunidos no livro “Contrastes” não se confinam a um território, a uma geografia. A Alexandra sem abdicar da sua condição de açoriana, como de forma explícita podemos constatar no último poema do livro (Da ilha). 

A Alexandra abre o coração ao mundo e aos afetos, vagueia pelas palavras constrói poemas e confere-lhes um caráter humano e, por isso mesmo, universal.


Bem hajam pela Vossa presença, atenção e pela paciência com que me ouviram.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 23 de setembro de 2022


domingo, 2 de maio de 2021

Bem hajam - na apresentação do livro "Esperança Velha e Outros Poemas"


Intervenção de agradecimento 
na Apresentação do livro

Esperança Velha e Outros Poemas, 

Aníbal C. Pires, poemas, Ana Rita Afonso, ilustrações 

Letras Lavadas, 2020“

Às 18h Açores, 19h Lisboa, de 2 de maio de 2021, 

live streaming no Facebook e no Youtube da Letras Lavadas

Boa tarde!

Não é apenas por cordialidade, ou porque é esperado que os autores enumerem um rol de agradecimentos, Não. Não é por isso que agradeço ao Vamberto de Freitas. Mais do que pela apresentação que fez deste livro de poemas, agradeço ao Vamberto Freitas tudo aquilo que com ele tenho aprendido e todos os momentos em que nos juntamos para conversar. Conversar do que quer que seja. Nem que seja do tempo meteorológico, do tempo que vivemos, de outros tempos, ou do que esperamos do porvir.

Muito obrigado Vamberto!


O meu agradecimento vai, também, para a Ana Rita Afonso que aceita, sem relutância, os desafios que lhe tenho feito. Sejam os desafios para embarcar nestas viagens pela escrita e pela ilustração, sejam outros que ao longo da nossa vida profissional, foram acontecendo.

A Ana Rita Afonso é uma boa amiga. Uma amiga que muito prezo e pela qual tenho uma admiração incomensurável.

Bem hajas Ana Rita!

Não posso deixar de registar uma nota de agradecimento ao poeta e ficcionista Henrique Levy, pela leitura do manuscrito, pelas sugestões que formulou e pelos reflexos que tiveram no produto final.

Obrigado Henrique Levy.

Quero, também, agradecer ao Mário Sousa. E este agradecimento não diz respeito apenas à sua participação com a leitura de alguns poemas durante esta apresentação. Agradeço ao Mário Sousa por tudo o que tenho aprendido com ele, sobre poesia e, sobretudo, como dizê-la.

Obrigado Mário Sousa e conta comigo para continuar a dar corpo e voz a outros projetos.

Ao Rafael Carvalho que, mais uma vez, disponibilizou um dos seus temas originais para a realização do pequeno vídeo promocional que abriu e, julgo, irá encerrar este evento virtual.

O Rafael merece todo o nosso reconhecimento pelo excelente trabalho que tem vindo a desenvolver na promoção da viola da terra e na sua aprendizagem. Obrigado Rafael, também por isso. 

À Patrícia Carreiro uma palavra de reconhecimento e apreço, mas também de agradecimento. Reconhecimento e apreço pelo excelente trabalho que tem vindo a desenvolver na divulgação dos livros, mas também da promoção da leitura. Uma palavra de agradecimento pela disponibilidade e forma como está a conduzir a apresentação do livro Esperança Velha e Outros Poemas, mas também, pela divulgação que tem feito deste livro com a leitura de alguns dos poemas.

Uma palavra de agradecimento ao todos os trabalhadores do grupo Publiçor/Nova Gráfica. Pela disponibilidade, simpatia e profissionalismo. Sem eles nada disto seria possível.

Muito obrigado o senhor José Ernesto Rezendes, o editor que me tem acolhido, mas também o criativo das artes gráficas a quem é reconhecido um valor inestimável no mundo das artes gráficas.

Por fim uma palavra de agradecimento à Madalena Pires, minha mulher, sem a qual não seria possível fazer tudo o que, ao longo da nossa vida em comum, tenho feito. 

Mas também aos meus filhos (Ana Amélia, Ana Catarina e João Miguel), e netas (Maria Margarida, Maria Benedita e Maria Luísa) que me inspiram e me enchem de alegrias.

Obrigado aos amigos e leitores que nos estão a acompanhar.

Obrigado a todos!

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 2 de maio de 2021


domingo, 25 de abril de 2021

leitura para gente madura e despida de preconceitos




Apresentação do livro

Memórias de Madre Aliviada da Cruz, 

Henrique Levy, Letras Lavadas, 2021“

Às 18h Açores, 19h Lisboa, de 25 de abril de 2021, 

live streaming no Facebook e no Youtube da Letras Lavadas





(…) pensada por homens e destinada a mulheres (…)

Henrique Levy


Leitura para gente madura e despida de preconceitos

Quero antes de mais, agradecer o convite do autor para apresentar o seu mais recente romance, agradeço também à Editora e Livraria Letras Lavadas o acolhimento desta iniciativa e a disponibilidade deste espaço virtual para partilhar com os leitores uma leitura, a minha leitura, destas memórias.

Ainda antes de vos falar de Madre Aliviada da Cruz julgo ser importante fazer menção ao Henrique Levy e à sua, já vasta, obra poética e ficcional.

o autor e a obra

Henrique Levy, poeta e romancista, é portador de uma identidade com várias pertenças. Cidadão português, nascido em Lisboa, com nacionalidade cabo-verdiana. Viveu em diversos países da Europa, Ásia, África e América. Reside, por opção, na ilha de S. Miguel. É autor de cinco romances: Cisne de África, 2009; Praia Lisboa, 2010; Maria Bettencourt Diários de Uma Mulher Singular, 2019; Segredo da Visita Régia aos Açores, 2020; e o novel Memórias de Madre Aliviada da Cruz, 2021.

O Henrique é também autor de seis livros de poesia, aliás a poesia é, direi eu, o seu território literário de eleição. São os seguintes os títulos de poesia publicados: Mãos Navegadas, 1999; Intensidades, 2001; O Silêncios das Almas, 2015; Noivos do Mar, 2017; O Rapaz de Lilás, 2018; Sensinatos, 2019. 

Editou em coautoria com Ângela Almeida, em 2020, o livro de poemas Estado de Emergência.

Editou e anotou A Sibylla Versos Philosophicos, 2020, de Marianna Belmira de Andrade, cuja primeira edição data de 1884.

O Henrique Levy é coordenador da editora açoriana Nona Poesia.

Deixei esta nota sobre o autor, embora tenha consciência de que o autor das Memórias de Madre Aliviada da Cruz é sobejamente conhecido nos meios literários, mas, ainda assim, julgo ser relevante esta informação.

o primeiro registo

Quando finalizei a leitura das memórias da longeva Madre Aliviada da Cruz publiquei nas redes sociais, como faço habitualmente, uma foto da capa com a seguinte legenda: uma sugestão de leitura para gente madura e despida de preconceitos. E assim é como tentarei explicitar, mas antes gostaria de olhar para a capa que, como todos sabemos, é um elemento importante do livro. 

a capa 

foto by Madalena Pires
E esta é, diria, uma capa muito bem conseguida que nos remete para um ambiente monástico, recatado e bucólico tão adequado a quem se dedica a escrever, sejam memórias, ou não. A mancha do lettring remete-nos para outras épocas, embora como poderão, depois, constatar as memórias foram escritas, pela própria Aliviada da Cruz, em maio de 2020, a cor também não será, de todo, inócua pois, a sua proximidade com uma das cores do Vaticano é uma evidência. Nada ficou ao acaso, nem mesmo o pequeno círculo, no canto superior direito, bordeado a vermelho e onde se pode ler: “aconselhável a mais de 18”, ou seja, este será um livro para gente adulta. 

Eu direi que este livro, independentemente da idade cronológica dos leitores, se destina a pessoas que tenham estórias de vida e, a maturidade que só essas estórias lhes pode conferir, por outro lado, e como já referi, para esta ficção de Henrique Levy é, também, aconselhada uma abordagem despida de preconceitos, ou seja, não será uma leitura para todas as almas, mas estou certo agradará a muitas mais.


as memórias – uma breve abordagem

Madre Aliviada da Cruz relata-nos, na primeira pessoa, as suas memórias ainda que tenha obliterado, por opção sua, um período da sua vida partilhada com Constança, ou melhor com Cacilda este sim o verdadeiro nome de uma santomense que veio servir para Lisboa, em casa dos tios de Madre Aliviada da Cruz.

Bento de Castro, Virgulino, Madre Benedita da Cruz e, mais tarde, Madre Aliviada da Cruz, estes são os nomes pelos quais, Benedita de Portugal e Castro, assim é o seu nome de batismo, foi conhecida em diferentes momentos da sua longa vida, alguns por opção, outros fruto da necessidade que a sua atribulada existência lhe impôs.

Já me referi, por mais de uma vez, à longevidade de Madre Aliviada da Cruz, importa, por isso, dizer as suas memórias atravessam o século XIX, o século XX e são escritas, pela própria, em maio de 2020.

O registo das memórias de Bendita de Portugal e Castro não obedece a uma ordem cronológica mais se parecem como a escrita de uma partitura, como a própria justifica: “(…) Optei por fazer seguir o ritmo destas Memórias como quem escreve uma partitura. (…)”. Esta escolha de Madre Aliviada da Cruz em nada prejudica a leitura e a compreensão, fiquem os leitores descansados, e tem uma justificação. Benedita de Portugal e Castro tem uma sólida formação humanística onde a música tem um papel importante como se verá quando, no Convento de Santo André, em Vila Franca do Campo, propõe a criação de um Orquestra de Câmara composta por algumas das freiras em clausura.

Não vou tirar, aos potenciais leitores, o prazer de página a página, irem descobrindo esta inspiradora mulher. Mulher e religiosa que se eleva para o seu Deus através da sexualidade:“(…) As línguas humanas não encontraram nem sintaxe nem léxico para comunicar a relação das mulheres com o divino através do orgasmo. (…)”, ou “(…) nesta mulher destinada a encontrar no amor-dos-homens a consagração ao divino (…), mas também uma mulher libertária para alguns, proscrita para outros, pelo entendimento que tem dos ensinamentos de Cristo e que, em sua opinião, contrariam as práticas da sua igreja. Como quando se refere às contradições que encontra entre o que Jesus pregou e uma prática religiosa ao serviço dos poderosos. Esta nobre, duquesa, marquesa e duas vezes condessa, ao dirigir-se ao povo no dia em é empossada destes títulos nobiliárquicos e dá início a uma revolta dos trabalhadores da terra contra os proprietários que os exploram e animalizam, afirma o seguinte: “(…) Os senhores das terras, apoiados pela hierarquia da Igreja Católica, pressagiam ser a pobreza consequência do pecado e, nesse sentido, castigo de Deus. O objetivo é claro! Continuarem a explorar-vos, meus sagrados irmãos em Jesus Cristo. (…).

Este novo livro de Henrique Levy, se dúvidas tivesse, confirma o autor como um escritor de causas e, claramente, um homem de convicções, mas também um profundo conhecedor da sociedade em que vive, não só a sociedade açoriana, em particular a de S. Miguel, mas a sociedade global.

As mulheres e as suas lutas contra a misoginia e a sociedade patriarcal continuam a ser o objeto da sua intervenção literária, intervenção sim, escolhi a palavra. Henrique Levy dá um propósito interventivo á sua ficção. Diria, como Henry Miller: “If you can’t make words fuck, don’t masturbate them”, assim é, na minha opinião, a escrita de Henrique Levy, as palavras atingem o âmago, não escorrem por entre os dedos das mãos que folheiam as páginas dos seus livros.

Mas se o Henrique é um escritor que dá propósito à sua obra ficcional, e também um autor que domina a linguagem com uma mestria invejável, seja a linguagem popular, sejam os códigos mais eruditos.

Como exemplos deixo-vos algumas passagens que, procurarei não contrariem a promessa que há pouco vos fiz, ou seja, não vos retirar o prazer da descoberta destas Memórias, assim e para ilustrar o que atrás ficou dito sobre o estilo, a criatividade e o domínio da língua portuguesa, leio-vos estes excertos das Memórias de Madre Aliviada da Cruz:

(…) A sala de música pareceu pequena para o arredondado silêncio que a percorreu (…)

(…) Escusado será dizer que nessa noite me senti como Deus. Escrevi direito por linhas tortas. Os leitores que me perdoem, se este texto vos parecer um enviesado. É o que dá, escrever como Deus. (…)

(…) Misturávamos as línguas e a saliva com o mesmo ímpeto com que se amassa o pão. (…)

(…) A madre meteu esse homem na conversa e eu fiquei baratinada. Mas que homem, Diabo-a-Sete!? Que homem! Mulher de Deus! Esse tal Advérbio (…)

(…) Juro não mais pronunciar o nome desse tal seu eleito e, quem sabe, para sempre amado, senhor Advérbio (…)

(…) Daí ter-me entregado à clausura monástica feminina, pensada por homens e destinada a mulheres. (…)

(…) Vestia um luto que de tão negro era assustador. Não lembrava uma andorinha. As andorinhas são leves, frágeis e esvoaçantes. Minha mãe era pesada, nunca levantando voo. Assemelhava-se mais a uma panela bojuda, assente na trempe da cozinha, tisnada pelo fogo. (…)

Estes pequenos excertos exemplificam, em minha opinião, a dimensão literária deste novo romance de Henrique Levy. Livro sobre o qual muito mais virá a ser dito por quem, devidamente qualificado, venha a avaliá-lo através de recensões e ensaios de crítica literária, por mim sempre direi, como já o fiz em outras ocasiões que: a prosa literária de Henrique Levy é surpreendentemente provocadora e a sua leitura um prazer indizível.

Para terminar apenas mais duas breves notas. 

Estas memórias estão depositadas, segundo nos diz Benedita de Portugal e Castro, na Biblioteca Pública e Arquivo Histórico de Ponta Delgada dando até a referência à cota para mais fácil pesquisa.

Pode, ainda, o leitor endereçar correspondência a Madre Aliviada da Cruz pois encontrará no livro o endereço para tal. Se o fizer espero que venha a ter a sua resposta.

Obrigado pela Vossa atenção!

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 25 de Abril de 2021


terça-feira, 23 de março de 2021

do arquivo videográfico




Foi publicado em 2017, mas para quem não viu o vídeo de divulgação e não conhece este livro de crónicas fica este registo.








Deixo-vos um pequeno vídeo que serviu de divulgação ao livro Toada do Mar e da Terra – volume I (2003-2008).