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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

poesia da escarpa aprumada e da fajã de encantamentos. poesia do mundo.





Apresentação do livro

Vivências, Aníbal Raposo, Letras Lavadas, 2022“

Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, 3 de fevereiro de 2023, 18h Açores

 




Se escassa for a água o barco voa.

Aníbal Raposo, In Vivências, Letras Lavadas, 2022

Quando o Aníbal, a quem agradeço a confiança em mim depositada, me convidou para apresentar o seu livro “Vivências”, convite ao qual anuí sem reservas, fui invadido por sensações contraditórias. Por um lado, a inquietude que tamanha responsabilidade implica, por outro a surpresa do convite, afinal em comum partilhamos o primeiro nome e pouco mais. É certo que sempre acompanhei, à distância, o trabalho criativo do Aníbal, mas nunca com ele privei. Alguns encontros fugazes onde houve sempre lugar à troca de palavras que versavam sobre o lugar e o evento, mas pouco mais que isso. Sempre admirei e respeitei o cidadão e o artista, mas é a primeira vez que o digo publicamente. Da sua obra conhecia alguns poemas, algumas canções e, mais recentemente, alguns trabalhos pictóricos que tive oportunidade de apreciar numa exposição que teve lugar num espaço de animação noturna de Ponta Delgada, mas também de cultura, e onde aconteceu uma dessas breves conversas, nesse dia, naturalmente, sobre as incursões do poeta e músico nas artes de combinar as cores e as formas diluindo-as ao sabor dos seus amores e inquietações.

Ao receber o livro que hoje publicamente se apresenta regressou a minha inquietação. O que dizer, sobre o Aníbal e o livro, se está tudo dito. O excelente prefácio da Paula Sousa Lima diz-nos da estrutura do livro e da lírica dos seus versos, ou seja, apresenta-o. A badana informa o leitor do essencial sobre o autor. Que fazer!? Talvez ler alguns dos seus poemas. Também não. A Eleonora e o Sidónio têm essa tarefa a seu cargo e, o autor em parceria com o “Maninho” vão cantar algumas das poesias que foram musicados.

Ao mergulhar na leitura dos poemas do Aníbal Raposo foi regressando alguma tranquilidade ao meu espírito. A cada poema uma descoberta, a cada estrofe um homem novo, a cada verso a rebeldia do poeta.

E aqui estou, na vossa agradável companhia, para tentar acrescentar algumas palavras ao muito que outros e o próprio autor já disseram sobre “Vivências”. Palavras que não têm a pretensão de se constituir como uma recensão e, muito menos como uma análise de índole literária, são apenas palavras que resultam da minha opinião de leitor. Palavras cujo propósito é contribuir para divulgar o livro, mas também despertar um justo interesse pelo seu autor e a sua obra.

sobre o autor

imagem retirada da internet

Procuramos planícies de entendimento,

Encontramos muralhas de distância. (…) 

Aníbal Raposo, In Vivências, Letras Lavadas, 2022

 Aníbal Raposo é, antes de mais, um cidadão que não abdica da verticalidade que a coluna vertebral confere a alguns humanos. Não será por acaso que nos seus versos encontramos bastas vezes as palavras: prumo; aprumado; ereto. Como, por exemplo neste verso:

“(…) que se ergue aprumado, forte (…)

O seu modo de estar na vida, a sua verticalidade, não o impedem de olhar e ver o que brota do chão, o voo dos milhafres a riscar o céu, ou os horizontes utópicos que desenha para os lugares e as gentes que ama.

O autor é um espírito irrequieto, a sua precoce intervenção artística confirma esta apreciação. Na sua juventude integrou o orfeão da sua escola (Antero de Quental), bem assim como o coro da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, para o qual compôs alguns temas, ao tempo, inovadores. A sua vida académica está, também, marcada por uma intensa atividade artística ligada ao Teatro Universitário do Porto (TUP) e ao seu coro, do qual foi cofundador.

O desassossego do Aníbal Raposo não se quedou pela juventude e pela entrada na idade adulta. A sua atividade criativa na poesia e na música prolongou-se, para nosso contentamento, ao longo da sua vida que lhe desejo longa e profícua, seja na música, seja na poesia, seja noutros territórios de intervenção artística, de que a capa do livro “Vivências” é, apenas, um exemplo das suas obras pictóricas.

 “(…) sou um barco singular/amo a tempestade.”, diz o autor num dos seus poemas. E é desta singularidade e deste amor que tem nascido a sua vasta obra. Compositor, poeta, cantor, ou se preferirem cantautor, mas também artista plástico.

Aníbal Raposo é um criador cultural multifacetado, reconhecido pela generalidade do público e agraciado pelos órgãos de governo próprio da Região Autónoma dos Açores.

 

sobre a sua obra

(…)  Ai, quem me dera ser garça
E voar no canal (…) 

Aníbal Raposo, In Vivências, Letras Lavadas, 2022

A produção artística de Aníbal Raposo é vasta, como já referi, e merecida de maior divulgação. A edição deste livro vem, para além do seu valor intrínseco, contribuir para a difusão da vida e obra do autor e, por consequência, potenciar a conquista de outros públicos para a música e a poesia do obreiro de “Vivências”.

A minha geração conhece bem o papel que o Aníbal Raposo, sozinho, ou acompanhado, teve na recriação do cancioneiro popular açoriano. Quem não se lembra do “Tema para Margarida”, letra e música do Aníbal e popularizado, na voz de Piedade Rego Costa, na série “Mau Tempo no Canal” adaptado para televisão, por Zeca Medeiros, a partir do romance homónimo de Vitorino Nemésio. Mas este tema, de que gosto muito, mesmo muito, foi também utilizado na banda sonora do filme “A Antropóloga”, do realizador brasileiro de Santa Catarina, Zeca Pires. A voz foi, neste caso, de Helena Margarida Silva Lavouras. Este filme teve o apoio institucional da Casa dos Açores de Santa Catarina, possivelmente sustentado nos fundos da Direção Regional das Comunidades, ou seja do Governo Regional. “A Antropóloga” nunca passou nos Açores, embora toda a estória se desenrole num dos redutos açorianos, a Costa da Lagoa, Lagoa da Conceição, na ilha de Santa Catarina. O filme, para quem estiver interessado, está disponível no Youtube.

Este foi assim como um aparte. Pelo meu apego ao poema e à música, mas também para que se fique com uma ideia mais precisa e aprofundada da dimensão da obra do autor que hoje aqui partilha connosco o seu livro de poesia “Vivências”.

Mesmo considerando não haver necessidade pois, a sala está recheada de amigos e admiradores do Aníbal Raposo, e a badana do livro contém essa informação, ainda assim, deixo algumas referências à sua obra discográfica e poética.

O autor está representado em várias antologias de poesia contemporânea, e editou, em 2009, o livro de poemas “Voos da Minha Fajã.”

Colaborou em várias produções televisivas, tem participação em inúmeros trabalhos discográficos e regista seis discos editados.

Maré Cheia, 1999; A palavra e o canto, 2006; Rocha da Relva, 2013; Mar de Capelo, 2017; Falas & Afetos, 2021; e, Luz do Tempo, 2022.

A obra do autor não se esgotam nestes registos. O contributo do Aníbal Raposo para as artes em que se expressa conferem-lhe uma dimensão de referência na cultura açoriana.


o livro e os poemas

(…) O palco onde me revelo

O covil onde me encubro. 

Aníbal Raposo, In Vivências, Letras Lavadas, 2022

 Ler os poemas reunidos neste livro foi uma descoberta, hoje posso afirmar que conheço melhor o autor. Quem é, o que sente, o que ama, as suas inquietações e convicções, as suas insurgências, os lugares que habita, as suas utopias, os ritmos e a musicalidade poética do músico e compositor, e dei-me conta da tranquilidade que habita o espírito irrequieto que faz do Aníbal Raposo um cidadão que não deixa a vida passar-lhe ao largo.

Sei que pode parecer abusivo, mas ler os poemas reunidos em “Vivências”, foi como se lesse a autobiografia do Aníbal Raposo, sim porque as autobiografias também podem ter a forma de poemas e não são, necessariamente, uma mera narrativa de memórias datadas. A apreciação é minha e outros olhares são possíveis e legítimos.

A organização temática dos poemas está construída como de uma peça musical se tratasse, ou não fosse o autor um conceituado músico e compositor. Os 10 temas, ou andamentos deste livro, agrupam poemas construídos com a métrica e o formalismo lírico clássico, passa por alguns acordes populares, mas também por momentos de improvisação que libertam o poeta. E é então que o autor se espraia como um rio livre do aperto castrador das margens que, não poucas vezes, limitam o ato criador.

Outras leituras e interpretações são, naturalmente, possíveis, ou não fosse a leitura, em particular da poesia, um exercício e espaço de liberdade.

Tenho evitado, ao longo desta apresentação, o recurso à citação de poemas ou de pequenos excertos para ilustrar algumas das afirmações. É uma opção minha pois, não quero retirar aos leitores o prazer da descoberta e, muito menos tentar colonizar as vossas apreciações e leituras, contudo é chegado o momento de me socorrer de algumas estrofes e versos que à medida que fui lendo sublinhei e que me ajudaram a construir a opinião que estou a partilhar convosco.

O poeta, mesmo sem rima ou talvez por isso, é um sonhador:

“(…) Voa, sem medos e liberto,

pois é sempre do ar que se vislumbra

a toca do saber, que é presa esquiva,

e os ramos onde se ocultam na folhagem,

os frutos mais saborosos da loucura. “


O poeta é atento e capaz de se insurgir:

“As velas da esperança não chegam à costa

Cospem-nos em cima e a gente gosta.

Mil e uma peças, os mesmos atores,

Duas mil mentiras, três mil impostores.

 

Vamos enriçados em patranhas tantas…

Oh mar de capelo quando te levantas?”

 

A glória é efémera, diz-nos o poeta:

“Nasce do chão

aponta ao céu

e ao chão regressa…”

 

O Aníbal sabe o que quer:

“Apontada a norte

Por ser o meu rumo.”

 Não tenho dúvidas que poeta sabe que o Norte é o seu rumo, mas quando navega num corpo de mulher é no Sul que se encontra, sem se ter perdido.

“Batuques africanos no balouçar do teu corpo de gazela.”

Ou,

“Há como um tango argentino no desafio da tua cintura estreita.”

Ou ainda,

“E danças peruanas nas tuas ancas pela alba.

Há calor dos trópicos no aperto dos teus braços tão sinceros.”

 

O amor tem destas coisas, acontece quando e onde tem de acontecer.

E para terminar as citações deixo-vos estes versos que escolhi, não pela sua estética ou lirismo poético, mas para vos tentar abrir um sorriso, como convém no fim desta apresentação. E cito:

“Quem tem medo,

não cria:

- ou mia

ou compra

um cão.


Ao Aníbal Raposo e à Editora Letras Lavadas, enquanto cidadão e leitor, só posso estar grato pela publicação deste livro que, espero eu, não esgote a produção literária e poética do autor e a sua edição.

Obrigado pela Vossa atenção!

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 3 de fevereiro de 2023

sábado, 24 de setembro de 2022

a poeta desnuda-se

 

imagem retirada da internet




Apresentação de Contrastes, de Alexandra Cunha Cordeiro

Casa da Escrita, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 23 de setembro de 2022





a poeta desnuda-se

Senhoras e senhores, 

Caros amigos

Antes de vos falar do livro e da autora, razão maior que nos junta, de novo e sempre aqui, neste espaço onde as palavras repousam e ganham vida, permitam-me alguns agradecimentos.

Agradeço, desde logo, a Vossa presença. Presença sem a qual pouco sentido faria este momento. Os autores libertam as palavras e os leitores dão-lhe uso e voz, cada um com a sua própria leitura e interpretação. É desse modo, por via dos leitores, que os textos literários reunidos em livro cumprem a sua finalidade. E os poemas da Alexandra Cordeiro irão, através de cada um de nós, viajar livremente cumprindo o seu desígnio e povoando o imaginário de cada um dos seus leitores.

À Alexandra agradeço a confiança em mim depositada que se traduziu no convite para tecer algumas considerações sobre o seu primeiro livro de poesia, ou seja, a de fazer a apresentação pública de “Contrastes”. Convite que aceitei sem reservas, mas com a consciência da enorme responsabilidade que lhe está intrínseca.

Obrigado Alexandra! Pelo convite e, sobretudo, pela confiança que em mim depositas para apresentar o teu livro.


Alexandra Cunha Cordeiro - Imagem retirada da internet

Senhoras e senhores,

Caros amigos,

Partilho convosco algumas palavras sobre este livro, o primeiro de muitos, assim o esperamos. Palavras que não têm a pretensão de se constituir como uma recensão e, muito menos como uma análise de índole literária.

São breves as minhas palavras pois a poesia é para deleite de quem a lê, a poesia sente-se e vive-se e não pretendo antecipar aos leitores a viagem pelos poemas da Alexandra.  

A capa contrasta o preto e o branco, oposição de tons ou cores, o que de per si nos pode proporcionar uma ligação linear ao título, mas não se fica por aí. A bolha negra explode em mil pedaços libertando os estados de alma que estavam, direi eu, aprisionados e transformaram-se nesta aventura poética intimista da Alexandra Cordeiro. E assim é. Se dúvidas houvesse elas dissipam-se nas palavras escritas pela autora na contracapa e que terminam assim: “Partilho-me nesta escrita da minha alma”.

Ao iniciarmos a leitura dos poemas deste livro comprovamos que a interpretação, sempre subjetiva, dos grafismos da capa, se comprova a cada verso, a cada estrofe, a cada poema. Este livro é, como poderão comprovar pela leitura, poesia sentida e intimista em estado puro, mas é também o registo poético de momentos que quase podemos datar, assim como se de entradas diarísticas se tratasse, sem qualquer ordem cronológica pois, não nos relatam os dias, dizem-nos da memória, dos instantes, do quotidiano e dos estados de alma.

Não costumo recorrer à citação de excertos dos livros que tenho apresentado para não subtrair aos leitores prazeres que devem ser só seus, mas neste caso e como é de poesia que se trata, abro uma exceção e vou-vos ler alguns versos dos poemas Vem, Onde andas?  Entra e Vizinhas que, em minha opinião, ilustram, de forma modelar, o que já vos disse sobre a poesia da Alexandra.

Vem

(…) Estarei /À espera/Ansiosa(Quando, se e o que quiseres (…)

Onde andas?

(…) Se quiseres, um dia, estarei aqui/À espera de te ver,/De te ouvir,/De te sentir… (…)

Entra

(…) Entra suavemente/Invade o meu espaço./Deixo a porta aberta/Para ti, sempre (…)

Vizinhas

(…) Lá fora/Gargalhadas suaves/Em cima de copos de vinho. (…)

A poesia de Alexandra Cordeiro diz-nos da nossa condição de seres afetivos dotados de razão, por isso nos comovemos e nos sensibilizamos com os sentires partilhados neste livro.  Nestes poemas a autora desnuda-se para os seus leitores e partilha, sem limites, o âmago do seu ser.

Os poemas reunidos neste livro, por não obedecerem a nenhuma métrica, conferiram à autora a liberdade para criar as suas próprias normas e ritmos, procurando, contudo, garantir uma das caraterísticas transversais aos textos poéticos, a sua musicalidade.

A poesia de Alexandra Cordeiro insere-se, assim, na chamada poesia contemporânea que veio, de alguma forma, subverter as formas poéticas tradicionais.

Os poemas reunidos no livro “Contrastes” não se confinam a um território, a uma geografia. A Alexandra sem abdicar da sua condição de açoriana, como de forma explícita podemos constatar no último poema do livro (Da ilha). 

A Alexandra abre o coração ao mundo e aos afetos, vagueia pelas palavras constrói poemas e confere-lhes um caráter humano e, por isso mesmo, universal.


Bem hajam pela Vossa presença, atenção e pela paciência com que me ouviram.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 23 de setembro de 2022


domingo, 25 de abril de 2021

leitura para gente madura e despida de preconceitos




Apresentação do livro

Memórias de Madre Aliviada da Cruz, 

Henrique Levy, Letras Lavadas, 2021“

Às 18h Açores, 19h Lisboa, de 25 de abril de 2021, 

live streaming no Facebook e no Youtube da Letras Lavadas





(…) pensada por homens e destinada a mulheres (…)

Henrique Levy


Leitura para gente madura e despida de preconceitos

Quero antes de mais, agradecer o convite do autor para apresentar o seu mais recente romance, agradeço também à Editora e Livraria Letras Lavadas o acolhimento desta iniciativa e a disponibilidade deste espaço virtual para partilhar com os leitores uma leitura, a minha leitura, destas memórias.

Ainda antes de vos falar de Madre Aliviada da Cruz julgo ser importante fazer menção ao Henrique Levy e à sua, já vasta, obra poética e ficcional.

o autor e a obra

Henrique Levy, poeta e romancista, é portador de uma identidade com várias pertenças. Cidadão português, nascido em Lisboa, com nacionalidade cabo-verdiana. Viveu em diversos países da Europa, Ásia, África e América. Reside, por opção, na ilha de S. Miguel. É autor de cinco romances: Cisne de África, 2009; Praia Lisboa, 2010; Maria Bettencourt Diários de Uma Mulher Singular, 2019; Segredo da Visita Régia aos Açores, 2020; e o novel Memórias de Madre Aliviada da Cruz, 2021.

O Henrique é também autor de seis livros de poesia, aliás a poesia é, direi eu, o seu território literário de eleição. São os seguintes os títulos de poesia publicados: Mãos Navegadas, 1999; Intensidades, 2001; O Silêncios das Almas, 2015; Noivos do Mar, 2017; O Rapaz de Lilás, 2018; Sensinatos, 2019. 

Editou em coautoria com Ângela Almeida, em 2020, o livro de poemas Estado de Emergência.

Editou e anotou A Sibylla Versos Philosophicos, 2020, de Marianna Belmira de Andrade, cuja primeira edição data de 1884.

O Henrique Levy é coordenador da editora açoriana Nona Poesia.

Deixei esta nota sobre o autor, embora tenha consciência de que o autor das Memórias de Madre Aliviada da Cruz é sobejamente conhecido nos meios literários, mas, ainda assim, julgo ser relevante esta informação.

o primeiro registo

Quando finalizei a leitura das memórias da longeva Madre Aliviada da Cruz publiquei nas redes sociais, como faço habitualmente, uma foto da capa com a seguinte legenda: uma sugestão de leitura para gente madura e despida de preconceitos. E assim é como tentarei explicitar, mas antes gostaria de olhar para a capa que, como todos sabemos, é um elemento importante do livro. 

a capa 

foto by Madalena Pires
E esta é, diria, uma capa muito bem conseguida que nos remete para um ambiente monástico, recatado e bucólico tão adequado a quem se dedica a escrever, sejam memórias, ou não. A mancha do lettring remete-nos para outras épocas, embora como poderão, depois, constatar as memórias foram escritas, pela própria Aliviada da Cruz, em maio de 2020, a cor também não será, de todo, inócua pois, a sua proximidade com uma das cores do Vaticano é uma evidência. Nada ficou ao acaso, nem mesmo o pequeno círculo, no canto superior direito, bordeado a vermelho e onde se pode ler: “aconselhável a mais de 18”, ou seja, este será um livro para gente adulta. 

Eu direi que este livro, independentemente da idade cronológica dos leitores, se destina a pessoas que tenham estórias de vida e, a maturidade que só essas estórias lhes pode conferir, por outro lado, e como já referi, para esta ficção de Henrique Levy é, também, aconselhada uma abordagem despida de preconceitos, ou seja, não será uma leitura para todas as almas, mas estou certo agradará a muitas mais.


as memórias – uma breve abordagem

Madre Aliviada da Cruz relata-nos, na primeira pessoa, as suas memórias ainda que tenha obliterado, por opção sua, um período da sua vida partilhada com Constança, ou melhor com Cacilda este sim o verdadeiro nome de uma santomense que veio servir para Lisboa, em casa dos tios de Madre Aliviada da Cruz.

Bento de Castro, Virgulino, Madre Benedita da Cruz e, mais tarde, Madre Aliviada da Cruz, estes são os nomes pelos quais, Benedita de Portugal e Castro, assim é o seu nome de batismo, foi conhecida em diferentes momentos da sua longa vida, alguns por opção, outros fruto da necessidade que a sua atribulada existência lhe impôs.

Já me referi, por mais de uma vez, à longevidade de Madre Aliviada da Cruz, importa, por isso, dizer as suas memórias atravessam o século XIX, o século XX e são escritas, pela própria, em maio de 2020.

O registo das memórias de Bendita de Portugal e Castro não obedece a uma ordem cronológica mais se parecem como a escrita de uma partitura, como a própria justifica: “(…) Optei por fazer seguir o ritmo destas Memórias como quem escreve uma partitura. (…)”. Esta escolha de Madre Aliviada da Cruz em nada prejudica a leitura e a compreensão, fiquem os leitores descansados, e tem uma justificação. Benedita de Portugal e Castro tem uma sólida formação humanística onde a música tem um papel importante como se verá quando, no Convento de Santo André, em Vila Franca do Campo, propõe a criação de um Orquestra de Câmara composta por algumas das freiras em clausura.

Não vou tirar, aos potenciais leitores, o prazer de página a página, irem descobrindo esta inspiradora mulher. Mulher e religiosa que se eleva para o seu Deus através da sexualidade:“(…) As línguas humanas não encontraram nem sintaxe nem léxico para comunicar a relação das mulheres com o divino através do orgasmo. (…)”, ou “(…) nesta mulher destinada a encontrar no amor-dos-homens a consagração ao divino (…), mas também uma mulher libertária para alguns, proscrita para outros, pelo entendimento que tem dos ensinamentos de Cristo e que, em sua opinião, contrariam as práticas da sua igreja. Como quando se refere às contradições que encontra entre o que Jesus pregou e uma prática religiosa ao serviço dos poderosos. Esta nobre, duquesa, marquesa e duas vezes condessa, ao dirigir-se ao povo no dia em é empossada destes títulos nobiliárquicos e dá início a uma revolta dos trabalhadores da terra contra os proprietários que os exploram e animalizam, afirma o seguinte: “(…) Os senhores das terras, apoiados pela hierarquia da Igreja Católica, pressagiam ser a pobreza consequência do pecado e, nesse sentido, castigo de Deus. O objetivo é claro! Continuarem a explorar-vos, meus sagrados irmãos em Jesus Cristo. (…).

Este novo livro de Henrique Levy, se dúvidas tivesse, confirma o autor como um escritor de causas e, claramente, um homem de convicções, mas também um profundo conhecedor da sociedade em que vive, não só a sociedade açoriana, em particular a de S. Miguel, mas a sociedade global.

As mulheres e as suas lutas contra a misoginia e a sociedade patriarcal continuam a ser o objeto da sua intervenção literária, intervenção sim, escolhi a palavra. Henrique Levy dá um propósito interventivo á sua ficção. Diria, como Henry Miller: “If you can’t make words fuck, don’t masturbate them”, assim é, na minha opinião, a escrita de Henrique Levy, as palavras atingem o âmago, não escorrem por entre os dedos das mãos que folheiam as páginas dos seus livros.

Mas se o Henrique é um escritor que dá propósito à sua obra ficcional, e também um autor que domina a linguagem com uma mestria invejável, seja a linguagem popular, sejam os códigos mais eruditos.

Como exemplos deixo-vos algumas passagens que, procurarei não contrariem a promessa que há pouco vos fiz, ou seja, não vos retirar o prazer da descoberta destas Memórias, assim e para ilustrar o que atrás ficou dito sobre o estilo, a criatividade e o domínio da língua portuguesa, leio-vos estes excertos das Memórias de Madre Aliviada da Cruz:

(…) A sala de música pareceu pequena para o arredondado silêncio que a percorreu (…)

(…) Escusado será dizer que nessa noite me senti como Deus. Escrevi direito por linhas tortas. Os leitores que me perdoem, se este texto vos parecer um enviesado. É o que dá, escrever como Deus. (…)

(…) Misturávamos as línguas e a saliva com o mesmo ímpeto com que se amassa o pão. (…)

(…) A madre meteu esse homem na conversa e eu fiquei baratinada. Mas que homem, Diabo-a-Sete!? Que homem! Mulher de Deus! Esse tal Advérbio (…)

(…) Juro não mais pronunciar o nome desse tal seu eleito e, quem sabe, para sempre amado, senhor Advérbio (…)

(…) Daí ter-me entregado à clausura monástica feminina, pensada por homens e destinada a mulheres. (…)

(…) Vestia um luto que de tão negro era assustador. Não lembrava uma andorinha. As andorinhas são leves, frágeis e esvoaçantes. Minha mãe era pesada, nunca levantando voo. Assemelhava-se mais a uma panela bojuda, assente na trempe da cozinha, tisnada pelo fogo. (…)

Estes pequenos excertos exemplificam, em minha opinião, a dimensão literária deste novo romance de Henrique Levy. Livro sobre o qual muito mais virá a ser dito por quem, devidamente qualificado, venha a avaliá-lo através de recensões e ensaios de crítica literária, por mim sempre direi, como já o fiz em outras ocasiões que: a prosa literária de Henrique Levy é surpreendentemente provocadora e a sua leitura um prazer indizível.

Para terminar apenas mais duas breves notas. 

Estas memórias estão depositadas, segundo nos diz Benedita de Portugal e Castro, na Biblioteca Pública e Arquivo Histórico de Ponta Delgada dando até a referência à cota para mais fácil pesquisa.

Pode, ainda, o leitor endereçar correspondência a Madre Aliviada da Cruz pois encontrará no livro o endereço para tal. Se o fizer espero que venha a ter a sua resposta.

Obrigado pela Vossa atenção!

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 25 de Abril de 2021


sábado, 9 de janeiro de 2021

Segredo da Visita Régia aos Açores, de Henrique Levy


Texto que serviu de base à apresentação do livro:

SEGREDO DA VISITA RÉGIA AOS AÇORES, Henrique Levy(*), Plátano Editora, 2020“

20h Açores, 21 h Lisboa, de 7 de janeiro de 2021 

live streaming no Facebook e no Youtube da Plátano Editora

Quero, antes de mais, agradecer ao Henrique Levy o convite para fazer a apresentação pública do seu mais recente romance, Segredo da Visita Régia aos Açores. Agradeço, também, à Plátano Editora que nos proporciona a plataforma virtual para esta informal troca de impressões. Não será uma apresentação nos moldes habituais, os tempos ditam que nos adaptemos e, como tal, também o formato desta apresentação será adequada ao suporte de comunicação que estamos a utilizar.

Agradeço e desejo que estes momentos sejam do agrado de quem acompanha este live streaming. Espero que não deem o vosso tempo por mal empregue e, sobretudo, que esta conversa possa vir a despertar interesse na leitura deste novo livro de Henrique Levy e, quiçá por toda a sua obra literária.

Ainda antes de deixar algumas notas sobre o Segredo da Visita Régia aos Açores quero deixar uma declaração de princípio: Não sou um especialista em literatura, sou tão-somente um leitor, nada mais do que um leitor que, de vez em quando, torna pública a sua opinião sobre alguns dos livros que lê. Dito isto, não esperem uma análise de critica literária, o que por mim ficar dito é apenas a opinião de um cidadão que gosta de ler e que acompanha a atividade editorial nacional, em particular o que se vai fazendo, e não é pouco, nos Açores. Entenda-se a atividade editorial dos autores açorianos, como é o caso do Henrique Levy.

O Segredo da Visita Régia aos Açores é uma narrativa minuciosa e aliciante que retrata um tempo histórico atribulado, o limiar do século XX português, visto pelo olhar de uma jovem mulher que, por via do seu casamento com um par do reino integra a comitiva régia na visita à Madeira e aos Açores.

O novo romance de Henrique Levy tem, uma vez mais, uma mulher como narradora, mas também como figura central desta estória.

O Henrique pelas “palavras” desta mulher, de quem nem sequer viremos a saber o nome, brinda-nos com uma prosa elegante, mas plena de intenção. Pode constatar-se ao longo do livro, mas deixo esta citação (pp 30 e 31) para ilustrar o que acabo de dizer: “(…) Nunca, como naquele dia, havia reparado na quantidade de crianças subnutridas que proliferavam pela cidade, nos velhos miseráveis sentados de mão estendida nas esquinas das ruas, nas jovens varinas descalças com um rancho de filhos ranhosos à cintura, nos rostos esfaimados dos explorados operários, nos tisnados vendedores de carvão e limpa-chaminés, nas carroças de ciganos, no chiar dos choras puxados por mulas esquálidas. (…)”, ou ainda, “(…) Nesta cidade, que se diz capital de um império, nem todos têm água canalizada, obrigando-se muitos a mergulhar no tejo para o banho semanal. Está imunda. As doenças proliferam, e são poucos os cuidados de saúde com os mais pobres, os excluídos pela sociedade na qual me incluo em lugar cimeiro. Este pensamento envergonhou-me como mulher e portuguesa. Durante algum tempo tentei afastá-lo, arrumá-lo escondido num lugar que não afetasse o meu quotidiano burguês. (…)”, ou seja, o autor, não se circunscreve aos salões da aristocracia e vem para a rua para nos dar conta de uma outra realidade. Realidade que envergonhou a narradora. Realidade que não sendo central no desenrolar da estória e, como tal, dispensável, o autor quis dar-lhe visibilidade, ou seja, é o autor a dar um propósito à sua prosa.

Neste romance Henrique Levy continua a brindar-nos com uma prosa meticulosa, aliciante e envolvente onde o papel da mulher é valorizado, ainda que a narrativa se refira a um tempo histórico em que o papel da mulher era secundarizado e as mulheres estavam desprovidas de direitos cívicos e políticos. O pai da narradora, um proprietário agrícola do Alentejo, traduz bem o pensamento dominante à época, quando se dirige às filhas, a propósito da sua formação e instrução, nestes termos: “(…) Uma casa de mulheres instruídas é pior que uma república! (…)”. 

Um dos momentos mais desafiantes desta meticulosa narrativa será a profunda e filosófica reflexão da mulher que regressa sozinha a Lisboa depois do drama que se abateu sobre ela em Ponta Delgada. E da qual vos deixo estas passagens: “(…) Sou mulher, esta condição toca as asserções de várias fantasias e certezas, aos homens incompreensíveis. Nós distinguimo-nos pela constância dos sentimentos. Pelo surgimento de realidades míticas próprias. Pela turbulência a regular desejos calados, aniquilados pela sociedade masculina que nos disciplina atitudes, pensamentos e forma de amar. (…), ou ainda: “(…) Desde jovem apercebi-me do poder que a sociedade conferiu ao homem e da vida subjugada das mulheres. Não fomos nós, mulheres, quem forjou esse poder Ele tem vindo a ser-nos imposto, sem deixar expressar outras vontades. Os homens parecem estar tão inseguros do seu poder que temem a vida em plenitude de uma mulher sem homem. Para mim, por nada ter que me oponha ao masculino, essa é a maior de todas as virtudes (…)”. 

São assim as mulheres de Henrique Levy: fortes, determinadas, esclarecidas e independentes, sem que essas qualidades femininas, tal como ficou dito pela narradora desta estória, se constituam com base numa opção de ordem sexual.

Este romance, como todos os romances do autor, não deixa de aflorar a sexualidade e o erotismo. Veja-se logo na pp 8, “(…) Esse jovem mancebo, moço de estrebaria, era mais atraente do que um precipício numa tarde de vertigens. (…)”. Sem vulgarizar nem chocar as almas mais suscetíveis, Henrique Levy descreve algumas cenas da intimidade da narradora com a mestria que nos tem vindo a habituar, veja-se a pp 45: “(…) Vem, senta-te na cama, afasta as pernas. Ordenei, enquanto lhe despia as calças. Ignorava se conseguiria realizar o que alvitrara. Acrescentando com voz meiga. Verás que observar as estrelas no firmamento não será comparável à viagem que te proponho inaugurar. Prometi. (…)”

A prosa literária de Henrique Levy é surpreendentemente provocadora e a sua leitura um prazer indizível.

Quanto ao segredo que dá mote ao romance, por respeito aos potenciais leitores, não será por mim desvendado.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 7 de janeiro de 2021


(*) Henrique Levy

Poeta e romancista, é portador de uma identidade com várias pertenças. Cidadão português, nascido em Lisboa, com nacionalidade cabo-verdiana. Viveu em diversos países da Europa, Ásia, África e América. Reside, por opção, na ilha de S. Miguel. É autor de três romances, Cisne de África (2009), Praia Lisboa (2010), Maria Bettencourt – Diários de Uma Mulher Singular (2019), e de seis livros de poesia, Mãos Navegadas (1999), Intensidades (2001), O silêncio das almas (2015), Noivos do Mar (2017), O Rapaz de Lilás (2018), Sensinatos (2019). Editou em coautoria com Ângela Almeida, em 2020, o livro de poemas Estado de Emergência. Editou e anotou A Sibylla – Versos Philosophicos, 2020, de Mariana Belmira de Andrade, cuja primeira edição data de 1884.

Tem vários poemas dispersos por diferentes Antologias, sendo, também coordenador da editora açoriana Nona Poesia.


sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Há um ano. "Um Natal à Viola", de Rafael Carvalho

 



Texto de apresentação do CD

Um Natal à Viola, de Rafael Carvalho

Teatro Micaelense

Ponta Delgada, 27 de Novembro de 2019





E do velho se faz novo

Minhas senhoras e meus senhores, 

Caros amigos,

Se outros motivos não houvesse a vossa presença, que muito agradeço, diz bem da importância e da ligação que diferentes gerações outorgam às nossas raízes culturais. Só por isso, pela Vossa presença, diria que é já motivo de grande satisfação este novo trabalho musical que o Rafael Carvalho partilha connosco. Não fossem a Viola da Terra, o novo disco e o Rafael Carvalho, motivos mais do que suficientes para este serão de encontros e reencontros com a sonoridade única da viola de arame.

Sim. A razão primeira pela qual estamos aqui, o Rafael que me desculpe, não é por ele. Estamos por ele, mas estamos, sobretudo, pela viola que nos toca. Estamos pela sonoridade de um instrumento musical popular com o qual nos identificamos e que faz parte da nossa memória coletiva. Claro que estamos pelo Rafael e, é a ele que dirijo um agradecimento especial pelo convite que me endossou para fazer a apresentação do seu último trabalho discográfico. Um convite que aceitei sem reservas e me honra, mas que me surpreendeu, pois, sendo um melómano, não sei uma nota musical que seja.

O Rafael não devia saber disto, se o soubesse teria procurado quem pudesse, com propriedade, falar da qualidade da execução e dos arranjos que fez para que, só com a viola da terra, percorrer temas tradicionais de Natal com origens populares tão diversas, aos quais acrescentou duas canções de autor e, ainda, um tema original.

Não sei quem corre o maior risco, se eu, se o Rafael. Eu, por vir meter a foice em seara alheia, o Rafael por colocar aqui um leigo a falar da sua música e, de alguma forma, a servir de suporte para a promoção e divulgação do seu trabalho enquanto músico e compositor. Mas vou tentar, lá isso vou.

Ainda antes de uma abordagem ao novo disco do Rafael Carvalho, permitam-me algumas referências ao instrumento musical em que este músico, professor e difusor da viola da terra, de dois corações, ou de arame, se exprime de forma exímia. Para o instrumento adotem a designação que preferirem, importante mesmo é que falamos do único instrumento musical típico dos Açores (A Viola de Arame nos Açores, João Alfredo Ferreira Almeida, Publiçor, 2.ª ed., 2010).

Trata-se de um cordofone que tem a sua origem nas violas de mão ou Vihuelas* e que em Portugal, consoante o gosto, os materiais disponíveis, mas também as técnicas de execução, adotou diferentes formas. As violas de arame serão, pela sua história e pela apropriação popular, até à introdução da guitarra clássica, ou viola, e da vulgarização da guitarra portuguesa** com a sua associação ao fado, os instrumentos musicais da classe dos cordofones, verdadeiramente portugueses. Sendo que, segundo alguns autores, estes instrumentos musicais são uma rara sobrevivência das violas que existiam no continente europeu (A Viola de Arame nos Açores, João Alfredo Ferreira Almeida, Publiçor, 2.ª ed., 2010)

As violas de arame em Portugal são conhecidas pelas seguintes designações: Braguesa, Amarantina, Toeira, (estas do Norte e litoral), a Beiroa e a Campaniça (do centro e Sul), e ainda, na Madeira a Viola Madeirense e o Machete, vulgo Braguinha (assim como uma espécie de cavaquinho, que terá sido o cordofone português mais disseminado pelo Mundo. O mais conhecido será o seu parente ukelele do Hawai. Mas a viola de arame também atravessou o Atlântico e viajou. No Brasil a Viola Caipira ou Sertaneja é, também, uma viola de arame que terá sido levada, quiçá dos Açores, para o sertão brasileiro.

Nos Açores as violas de arame, sim são duas, a Viola de Corações, talvez a mais divulgada e conhecida, e a Viola de Boca Redonda, da ilha Terceira. A Viola de Dois Corações, esta que o Rafael Carvalho maneja com uma mestria admirável, ainda tem algumas variações no tamanho e na afinação. Mas essas questões ficarão para os especialistas.

Estarão, caros amigos, a perguntar-se porque estou a dedicar tanto tempo ao instrumento musical!? Têm razão, mas existe uma justificação, ou várias, para eu dedicar esta parte da apresentação do disco Um Natal à Viola à história das violas de arame. Passo a explicar.

A Viola da Terra, mas também a Beiroa, foram caindo em desuso por razões diversas, esta última de forma quase dramática (a Viola Beiroa esteve preste a tornar-se um objeto museológico não fossem alguns músicos e instituições a recuperar-lhe o uso). Com a Viola da Terra também se assistiu ao declínio do seu uso e no final da década de 90, do século passado, o número de violas e de mestres violeiros era quase residual. Em S. Miguel, diz-nos José Alfredo Ferreira Almeida, e cito: “(Não é exagero afirmar-se que, atualmente e pelo menos em S. Miguel – que melhor conhecemos – a viola da terra, como é habitualmente designada, é quase uma raridade, algumas vezes convertida em relíquia de família, com funções meramente decorativas, confinada a museus, coleções particulares, grupos folclóricos e a uns quantos apreciadores, apaixonados pelo seu timbre. (…)”. Fim de citação.

É certo que alguns mestres violeiros dos quais destaco, Carlos Quental e, em particular Miguel Pimentel desenvolveram um ciclópico trabalho, através do seu ensino e consequente difusão das técnicas de execução, para contrariar o declínio do uso da Viola da Terra. O mestre Miguel Pimentel durante parte das décadas de 80 e 90 manteve no Conservatório de Ponta Delgada cursos livres apara aprendizagem deste instrumento musical.

E o Rafael Carvalho a par de outros exímios executantes de viola da terra, como o Ricardo Melo, são exemplos vivos desse legado de Carlos Quental e Miguel Pimentel. 


Sobre Proteção e Valorização do Património Material e Imaterial, afinal também é disso, ou sobretudo disso, que estamos a falar, diria que  não sou um conservacionista apenas pelo valor simbólico do património, seja ele móvel ou imóvel, seja ele material ou imaterial, embora considere que a sua salvaguarda apenas na perspetiva conservacionista assume, em si mesmo, grande relevância e, diria mesmo que relativamente a alguns desses bens a intervenção e salvaguarda, não poderá ir além disso, Preservar e conservar. Defendo uma perspetiva de preservação e conservação do património cultural ligado ao seu uso e fruição pelos cidadãos. E é possível modernizar e adequar aos nossos tempos sem perder a alma. Deixo-vos dois exemplos de preservação, de valorização e até de recuperação de património cultural regional, sem nenhuma adulteração às suas formas originais, conseguidas e julgo que bem conseguidas, por uso diverso do original num dos casos e, no outro caso mantendo o uso que lhe conferiu valor, mas dando-lhe novos palcos.

Depois do declínio da caça à baleia e da sua total proibição, os botes baleeiros, tendo-se-lhe acabado o uso, estavam predestinados a serem meras peças estáticas de museus e núcleos museológicos, a assim foi durante um largo período de tempo. Hoje e, devido à introdução de um novo uso, as regatas e o turismo, damos conta que muitos deles foram totalmente recuperados e é com agrado que os vemos de velas enfunadas a sulcar o mar das nossas baías. A viola da terra, de arame ou de dois corações nunca tendo estado em verdadeiro perigo de desuso pois as festas populares, os ranchos folclóricos e outras manifestações populares assim o garantiriam, todavia verifica-se uma evolução no seu uso, ou seja, continuando a marcar a sua indispensável presença nas festas populares este instrumento musical, sem que tivesse tido nenhuma alteração é hoje ensinado nos conservatórios regionais de música, procura novas sonoridades, novos instrumentos parceiros, atrai novos aprendizes e, por consequência, atrai novos públicos.

E esse tem sido o trabalho inexcedível de Rafael Carvalho. Este rapaz da Ribeira Quente tem dado um valioso contributo, não só para a salvaguarda da Viola da Terra, mas sobretudo para a reafirmação do instrumento musical que melhor traduz a alma açoriana. 

O Rafael para além de ser um exímio executante de viola da terra, tem desenvolvido um trabalho complementar no ensino formal e informal, conseguindo o reconhecimento oficial do ensino de Viola da Terra no Conservatório Regional, promove encontros anuais da Viola da Terra com as violas de arame, do território continental, da Madeira e do Brasil, dinamiza orquestras, concertos, encontros de músicos de Viola da Terra de toda a Região, criou a Associação de Jovens Viola da Terra, e, por fim, embora não seja só, tem promovidos e participado em momentos musicais onde seria impensável a entrada deste instrumento de música popular. Um dos últimos, para não referir outros, foi a sua participação num espetáculo que, como disse Vânia Dilac, mais parecia uma improbabilidade, juntar o Soul com a Viola da Terra. E era uma improbabilidade, até acontecer. Este é apenas um exemplo de que a Viola da Terra, pelas mãos do Rafael, tem vindo a fazer. Ou seja, um percurso de afirmação em palcos que até há alguns anos lhe estavam vedados.

Mas se o Rafael Carvalho é tudo isto, é também, um autor de livros didáticos sobre o ensino da viola da terra, tem três livros publicados, uma coleção que tem por título Método para a Viola da Terra, níveis Iniciação, Básico e Avançado.

Como qualquer outro músico instrumentista o Rafael Carvalho é também um compositor. Tem cinco discos disponíveis. Estamos aqui, embora até agora não pareça, para conhecer o seu mais recente disco, Um Natal à Viola. Os trabalhos que antecedem este, são: Origens, 2012, Paralelo 38, 2014, Relheiras, 2017, e, 9 Ilhas 2 Corações, 2018. Com exceção do quarto trabalho discográfico, 9 Ilhas 2 Corações que percorre exclusivamente o cancioneiro tradicional açoriano, todos os outros integram temas originais da autoria do Rafael Carvalho. Com especial destaque para Relheiras que não sendo exclusivamente de originais é-o, na sua essência, dos dez temas de Relheiras, sete são originais da autoria do Rafael Carvalho.

A composição de temas originais faz parte, em minha opinião, da constante procura de novas sonoridades para a viola da terra e resulta da apuradíssima técnica de execução, de domínio e de conhecimento de todas as potencialidades deste instrumento musical. Os originais de Rafael Carvalho são experimentais, exploratórios, revelam todo o seu virtuosismo e contribuem para a criação de um novo e elaborado reportório para a Viola da Terra.

Um Natal à Viola, foi o pretexto para nos juntarmos neste magnífico espaço cultural de Ponta Delgada. São 14 temas executados pelo Rafael Carvalho onde apenas se ouve o som da Viola da Terra, a viola de arame dos Açores da qual se libertam sons que se ouvem no Alentejo, na Beira Baixa, em Trás os Montes, na Madeira e, naturalmente, nos Açores. Todos estes temas são alusivos à quadra natalícia e provêm do cancioneiro popular.  Mas o Rafael que não deixa os seus créditos por mãos alheias, não se fica apenas pelo cancioneiro popular e presenteia-nos com a interpretação de dois temas de autor, Noite Feliz, de Franz Gruber e, Adeste Fideles, de John Wade. E, na minha humilde opinião, isto não acontece por acaso. O Rafael Carvalho, na sua permanente ação de valorização da Viola da Terra, serve-se destes dois temas clássicos e sobejamente conhecidos para nos dizer, a nós e ao Mundo, que a Viola da Terra não está confinada a ser um mero repositório da música tradicional.

Continua a sê-lo, e ainda bem, mas pelas mãos do Rafael e dos seus jovens alunos, a Viola da Terra já caminha por outros territórios musicais e isso só pode ser objeto da nossa satisfação e louvor. Por fim uma breve referência ao original que dá o nome ao quinto CD do Rafael Carvalho, ou seja, música que encerra este trabalho do Rafael Carvalho, Um Natal à Viola. Este original confirma o que tenho vindo a dizer sobre os novos caminhos da Viola da Terra e o trabalho exploratório e experimental que o Rafael tem vindo a desenvolver. Tem o timbre inconfundível da Viola da Terra e uma toada que nos faz viajar pela quadra natalícia, mas esta música está liberta dos sons tradicionais. Mesmo para um ouvido duro como o meu é possível encontrar diferenças substantivas, entre as duas músicas tradicionais do Natal micaelense que integram este disco, e por consequência adaptadas à Viola da Terra, e o original que o Rafael Carvalho compôs para fechar o seu quinto trabalho discográfico. Certamente teremos oportunidade de verificar isso mesmo quando o autor executar esse tema. Não sei se está no alinhamento, mas conto com isso.

Resta-me agradecer, uma vez mais a vossa presença, mas também a atenção que me dispensaram. Obrigado!

* Instrumento de cordas ibérico. A primeira menção a estes cordofones data do Século XV.

**Resulta da evolução e adaptação do “cistre europeu renascentista”. O cistre, ao contrário da cítara, tem as cordas esticadas para além da sua caixa de ressonância.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 27 de Novembro de 2019


domingo, 22 de novembro de 2020

Há um ano. Contos Bizarros, de João Pedro Porto

 

Escrita incomum, Leitura estimulante (*)

Antes de vos falar do livro e do autor, razão maior que nos mobilizou para, nesta tarde quase noite, nos juntarmos neste espaço que, sendo novo, é um lugar recuperado à nossa memória coletiva, permitam-me algumas palavras de agradecimento.

E agradeço, desde logo, a Vossa presença. Presença sem a qual pouco sentido faria este momento. Os livros cumprem a sua finalidade por via dos leitores e, neste caso, os leitores não faltaram à chamada.

Estamos num lugar de livros, de leitores, de escritores, de editores e livreiros e, por isso, quero deixar um agradecimento, na pessoa do Senhor Ernesto Resendes, ao Grupo Publiçor/Nova Gráfica/editora LetrasLAVAdas que hoje inaugura oficialmente  esta livraria, num espaço retomado para o presente da cidade de Ponta Delgada e que, permitam-me a ousadia, é um contributo para nos devolver a alma da cidade. Não só, mas também por isso, fica o meu reconhecimento público à LetrasLAVAdas.

Ao João Pedro Porto, não sei se agradeça o convite para esta empreitada, afinal eu gosto muito mais de estar do Outro Lado, gosto muito mais de ouvir do que falar. Mas sim, agradeço convicta e sinceramente o convite do João Pedro para fazer, em partilha com a Leonor Sampaio, a apresentação pública do seu livro Contos Bizarros

Convite que me surpreendeu, mas que me muito me honra e ao qual acedi sem reservas, mas com a consciência de que pendia sobre mim uma enorme responsabilidade. Ainda assim aceitei o desafio pois, não sou pessoa de recuar perante os reptos que me colocam, sejam eles de que natureza forem.

O João Pedro Porto e a sua obra não necessitam de apresentações, contudo, não posso deixar de referir que este jovem escritor, sendo micaelense de nascimento, é antes de mais e depois de tudo um autor do Mundo, com vasta obra já publicada. Este é o seu sétimo título, e é tido no contexto nacional como um dos autores de referência da nova geração de escritores portugueses. 

O João Pedro tem quatro romances publicados. O Rochedo que Chorou, 2011, O 2egundo M1nuto, 2012, Porta Azul para Macau, 2014, A Brecha, 2017.

O João Pedro publica agora o seu terceiro livro de contos, para trás ficam O Homem da Mansarda, 2014, e Fruta do Chão, 2018, este último em versão bilingue, traduzido para o espanhol por Blanca Martin-Calero. Mas as experiências literárias do João Pedro não se ficam por aqui, são, também, suas as letras dos álbuns musicais Terra do Corpo e Sol de Março, de Medeiros e Lucas. A produção literária do João Pedro Porto não se esgota apenas nos seus títulos, mas avancemos.

O seu último romance A Brecha, de 2017, foi finalista do Prémio Casino da Póvoa, Correntes d'Escritas. O blogue literário “Somos Livros”, referencia João Pedro Porto como um dos cinco autores portugueses a conhecer, sobre João Pedro e o seu último romance disse Valter Hugo Mãe: “Reverberam séculos nas suas construções. Um invasor absoluto, um denunciador. João Pedro Porto é cénico, performativo, esdrúxulo, temperamental, mas sem arrogância. Apenas luxuoso, desse luxo de poder fazer.”

Também por cá foram produzidas algumas opiniões sobre o último romance de João Pedro Porto de entre as quais destaco o magnífico texto de Leonardo Sousa, “Atrelai o pensamento à popa destes navios – uma abordagem ao universo d’A Brecha”, publicado no blogue “um elefante na loja de cerâmica”.

E foi com a Brecha, ainda antes dos concursos e das opiniões oriundas dos meios literários regionais e nacionais que conheci o João Pedro Porto escritor e cidadão, ou seja, esta é uma relação que nasceu da leitura do seu último romance. Foi o gosto pela leitura e pela escrita que nos aproximou. Essa será, quem sabe, a razão pela qual estou aqui para vos apresentar Contos Bizarros.

Mas, ainda antes de vos falar destes contos, e assim como uma espécie de aperitivo, permitam-me citar A Brecha e Fruta do Chão para se perceber de que escrita laboriosa e densa, mas encantadora, estamos a falar.

(…) A terra terá sido sempre lida com as páginas e as cabeças erigidas a Norte, salvo pelos povos da meia-lua. Desse Norte se disse, por anos, ser o hemisfério superior, que é como quem diz: de superior condição. O Sul será sempre algo selvático, onde se dançam os tangos e se matam os homens por ninharias. A futilidade é mortal, no Sul. Será por isso que lá vamos. Não há banalidade no Sul. Se o mistério tiver esconderijo, esse será sempre austral. Até o órgão mais carnal e o pórtico mais recôncavo de todo o éden moram no lugar sulino do corpo dos homens e das mulheres. (…)

Dirão que bem podia ser dito de uma outra e simples forma. Sim podia, mas, para nosso deleite, a linearidade não é uma caraterística da escrita de João Pedro Porto.

A propósito deste trecho de A Brecha, do qual gosto particularmente, acrescento da minha lavra: O meu Norte é o Sul. 

Fica um outro fragmento da escrita de João Pedro, agora de um dos contos de Fruta do Chão.

(…) A filha da lavadeira, essa, era cereja-brava, embrulhada em alfazema. Dançavam-lhe as bordas da saia num vento que não fazia. Parei de olhar sem modéstia nem tempo. Ela olhou também, e sorriu vermelha. Como uma cereja, pensei, e olhei mais um pouco. Oh quantas glórias trocariam beligerantes guerreiros por uma vida de alfazema. (…)

Há, certamente, muitas formas de descrever e cantar o balancear do corpo feminino. Vinicius de Moraes aborda esse balancear na conhecida canção A Garota de Ipanema quando diz: “(…) o seu balançado é mais que um poema (…)”, mas João Pedro Porto fá-lo de um jeito inigualável e sem recurso à utilização de uma referência, que seja, à anatomia feminina, e recordo: 

(…) Dançavam-lhe as bordas da saia num vento que não fazia (…). Esta é uma escrita que não está ao alcance de todos. Valter Hugo Mãe tem razão quando afirma que o João Pedro Porto é: (…) “cénico, performativo, esdrúxulo, temperamental, mas sem arrogância. Apenas luxuoso, desse luxo de poder fazer.” (…).

Depois desta breve introdução à escrita de João Pedro Porto vamos então ao que nos traz e junta aqui, os Contos Bizarros.

Este livro tem algumas peculiaridades que importa, antes de mais, referir. 

É uma edição bilingue, mas não tem tradutor. Pois é, o João Pedro Porto escreveu, também, em inglês. Não faço outras considerações sobre esta, julgo que, invulgaridade pois, para isso temos aqui a Leonor Sampaio. Mas sempre direi que este é um ato de coragem, quer do autor, quer do editor.

A ilustração da capa é do João Pedro Porto.

Estes dois aspetos de pormenor dizem, só por si, muito do espírito inquieto, culto, criativo e corajoso deste miúdo, sim um miúdo de 35 anos, que hoje partilha connosco os seus Contos Bizarros.

À semelhança dos que o precederam, também, este livro necessita de tempo. Estes contos não são para leitores apressados, cada uma das onze estórias que o compõem são para ser saboreadas. Se preferem uma refeição rápida então peguem num policial, se pelo contrário se deleitam com um repasto de degustação, então leiam os Contos Bizarros

Não será a melhor abordagem para divulgar um produto!? Talvez não. Vivemos num tempo de pressas e de imediatismo e eu estou a pedir-vos tempo. Tempo que é o nosso bem mais precioso. Mas é por isso, por o tempo ser escasso e precioso que não o devemos desperdiçar com o lixo mediático e virtual descartável, mas que degrada, tal como a fast food danifica o nosso equilíbrio fisiológico. Regressemos, pois, à dieta mediterrânica que é como quem diz: à literatura, ao pensamento crítico e ao equilíbrio entre a razão e a emoção.

Quando acabei a leitura de Contos Bizarros publiquei, em diferentes redes sociais, uma foto da capa com a seguinte legenda: Escrita incomum, Leitura estimulante. E assim é a escrita de João Pedro Porto, diria que esta forma de escrever, goste-se ou não, é um ato de rebeldia que poderá afrontar os clássicos cânones literários, E eu gosto, e admiro, quem não se resigna.

Uma outra ideia que retive foi a de que, neste como em outros livros, o autor utiliza uma criativa paleta de cores para construir ambientes. Eu diria, se me permitem, que estes contos são, também, uma construtiva orgia cromática, vejamos: cor de cimboa, avioletada, azul prussiano, um turquesa, e o outro de areia-molhada-a-seca, azul meia noite, hialinos e esbranquiçados, cabelos cor de vime ratã, azul cobalto a caribenho, veneno e morte anil, fato pardo a gris, caravelas garrafa-azul, avermelhar a cor lívida da morte, um mar malhado de céu, cor de cardo, exangue e alabastrino, cor de gamboge-a-tangelo-vivo, um céu daquele azul que não faz fronteira com o mar. 

Estas são algumas das cores dos Contos Bizarros, outras há, sendo que os gradientes de azul são criativamente infindáveis.

Estes contos, não sendo só, são estórias que se aproximam muito de notas autobiográficas. Se em todas as narrativas e em todas as geografias se pode encontrar muito do que foi, e é, o seu autor, nestes contos deparamos com o João Pedro ao virar de cada página. Nem sempre será fácil encontrá-lo, mas ele está por aqui, nestas páginas, ou pelo menos um pouco de si. O que já é muito. Nem todos os escritores, aos 35 anos terão coragem para se desnudar perante os seus leitores.

O primeiro dos contos, a Torre de Palha, tem um protagonista. Um daqueles seres que não encaixa no padrão com que os Homens costumam categorizar tudo, e todos. Catalogação que está na origem dos muitos males que se perpetuaram à sombra da medieva ignorância e da pós-moderna estupidificação global.

Anton Moller assim se chama o jovem que tinha “sede por torcer o pescoço ao mundo”, ia a Sorenga pelas madrugadas sublimar a “dor jovem do desprezo” nadando nas águas frias do fiorde no estreito de Skagerrak, talvez assim como o equivalente ao nosso Pesqueiro.

Não vou dissecar, nem este, nem os restantes contos, isso seria retirar-vos um pouco do prazer da vossa leitura, mas Torre de Palha despertou o meu interesse particular pelo facto de se iniciar com a saída de um navio cargueiro do porto norueguês de Narvik que trazia no bojo minério e hulha, e, no convés o protagonista que viaja clandestinamente, com a cumplicidade do imediato do navio. Narvik fica no Noroeste da Noruega, no círculo polar ártico, e por aí se escoa o minério de ferro extraído nas minas suecas de Kiruna e Gallivare.

Mas se estes territórios são bem reais, outros como Halm destino temporário de Anton Moller, quer outras geografias, são lugares criados pelo autor, territórios imaginados e descritos, como se de lugares reais se tratassem para servirem o objeto de cada uma das estórias.

Os Contos Bizarros, não serão tão estranhos como título nos pode fazer crer. O nascimento, a infância e a juventude mais ou menos invulgar, a descoberta da leitura e as viagens que esse e outros novos nasceres nos permitem, que Oleandro Sandoz, faz e cito: “Montado no dorso dos verbos mais corridos. Aos ombros de adjetivos alados”. Ou a tentativa do médico legista de fugir à morte porque, e volto a socorrer-me das palavras do autor, “viver era a coisa mais importante das coisas importantes” e “demasiada morte estava a matá-lo”.

Mas Contos Bizarros também nos fala do drama dos escritores quando são atormentados por momentos de bloqueio criativo, ou como diz o autor “… um embargo da imaginação.” Não vai, caro leitor, encontrar a solução, porque receitas não existem, mas ficam muitas pistas para vencer o bloqueio, desde logo não desistir, lutar contra o embargo ainda que seja escrever às escuras, de costas ou com a mão esquerda. Fazer o pino pode ser uma hipótese, não muito aconselhável, está bom de ver, porque lhe farão falta as mãos.

O autor de uma forma mais ou menos explícita não deixa a sua ilha e cidade fora destes contos e surpreende-nos com a “crónica de um futuro ido” onde nos fala do passado, não muito distante. Mas também do presente e do futuro, assim, com esta formulação, e cito, 

“Se o presente já durava pouco, agora também o futuro é vivido com a urgência de o tornar passado”.

Sobre o “Guardador de Ondas”, pouco direi. Ou melhor direi muito utilizando, ainda que parcas, mas, eloquentes palavras do autor.

E cito da página 69, o parágrafo que encerra este conto: “(…) Como se recebesse uma visita que esperava há muito, o homem arregaçou o linho e roçou a face. Sentiu o pêlo do fim do dia. Abandonou Úrsula com um único beijo nas obras mortas. A grande alforreca estendeu-lhe os galhos venenosos. O velho também. E naquele abraço, a noite surgiu e o sol desceu também abaixo das ondas.”

Entenderão agora razão pela qual eu estava reticente em agradecer ao João Pedro o convite para apresentar este livro, ainda que partilhando essa responsabilidade com a Leonor Sampaio. O que é que eu, um leitor comum, é o que sou, nem mais nem menos, tem para dizer de um autor que trabalha a escrita como o artesão lapida a forma alotrópica do carbono até obter dele um diamante.

Que falar de um autor que escreve desta forma sublime!? Mas cá estou a fazer o melhor que posso, afinal não sou homem de voltar as costas aos amigos e, muito menos de fugir perante as dificuldades que a vida nos apresenta.

O medo da mudança no quotidiano pacato, mas qualitativamente bom e os erros que podem ser cometidos na luta contra as alterações ao nosso modo de vida. São, digo eu, o mote do conto “Águas Assopradas”.

Já alguma vez pensaram como se deitam os Canários. Como será!? E o que isso poderá ter a ver com a feira de livros de Calcutá, uma porta que não abria, mas que depois do canário se deitar facilmente se franqueou para a libertação de uma jovem aprisionada e dependente de um certo modo de vida e de pensar. É no bizarro conto “Como se deitam os Canários” que encontrarão as respostas, se é que o são, ou tudo não passará de um conjunto de evidências que por serem tão visíveis nem nos damos conta delas. 

A procura da eternidade, o fim da vida na terra, um pinhão que já foi um homem, mas que sendo agora um pinhão cumpre o seu fim, ou seja, e volto a utilizar as palavras do autor, “Todos os pinhões fazem propósito em ir longe, e chegar sem saber aonde.”

Não resisto, e devia fazê-lo, para não vos privar do prazer da descoberta, quando lerem, mas aqui vai o trecho que encerra o conto “A cintura de Vénus”, “Agora a esfera de Collodi roda na imensidão com a sua incessante barriga brunida. Aproxima-se de um Vénus solitário. E sonha com gente.”

E estamos a chegar ao fim. Contos Bizarros encerra com o Homem de Andas. Aqui o autor fala-nos de alguém que caminhava, desde que tinha adquirido a verticalidade, sobre umas andas que um tio, “amante de todos os cumes”, lhe fez em madeira de pau santo. Olhar de cima, para gente rasa que habitava o chão, Talvez. Talvez denote uma atitude de superioridade e distanciamento, um afrontamento. Mas não é assim que o entendo. Prefiro outra leitura deste conto e que poderei referir como olhar de um outro ponto de vista. Uma opinião que contraria o pensamento e a cultura dominante. Alguém a quem é pedida uma opinião alternativa, uma justificação do que não se entende, mas na qual se acredita piamente. É claro que o destino final do Homem de Andas, irá ser o mesmo de todos os Homens e Mulheres que ousam ser diferentes, a pira onde se queimam os que ousam.  

Para terminar e a propósito, mas também com um propósito, diria numa adaptação livre dos primeiros versos da canção Manifesto de Vítor Jara que rezam assim: 

Yo no canto por cantar/Ni por tener buena voz/Canto porque la guitarra/Tiene sentido y razón

Diria que, João Pedro Porto/não escreve por escrever/escreve porque a escrita/tem de ter sentido e razão.

E a produção literária de João Pedro Porto, para além de muitos outros atributos, tem sentido e tem razão.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 22 de Outubro de 2019

(*) texto que serviu de base à apresentação pública de Contos Bizarros/Odd Tales), de João Pedro Porto, na Livraria Letras LAVAdas, Ponta Delgada, 22 de Novembro de 2019.