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sexta-feira, 3 de abril de 2026

regresso

foto de Madalena Pires
Após um interregno neste espaço, ditado por razões de ordem pessoal, oportunamente comunicadas à direção do jornal, regresso agora a estas páginas e aos leitores.

Ausente, mas não desligado. Há ausências que são apenas um outro modo de permanecer. Regresso, portanto. E regresso a um mundo que não esperou, que não suspendeu o seu curso, que não concedeu tréguas. Um mundo que, entretanto, se adensou no pior de si. Estamos hoje pior, mais expostos, mais frágeis, mais próximos de um limite que, por vezes, fingimos não ver, do que em fevereiro passado.

A agressão sionista e estado-unidense ao Irão está a ter efeitos devastadores no chamado, médio oriente, mas as consequências não se confinam àquele espaço geográfico, os efeitos sentem-se por todo o planeta e vão-se prolongar no tempo. E não é apenas a questão energética, quem assim pensa desconhecerá que daquela região do planeta são exportados outros bens tão importantes como o petróleo e gás, como sejam alguns metais e muitos fertilizantes, ou seja, o que está em causa é segurança alimentar, a indústria e a tecnologia. Não me quero alongar sobre o assunto, apenas recordo que o estreito de Ormuz, agora com o trânsito naval condicionado, estava aberto antes agressão. Apesar do Irão estar sempre na mira do sionismo e dos Estados Unidos, e sujeito a sanções desde 1979, sanções que se foram ampliando e endurecendo ao longo do tempo, o comércio fluía e os efeitos estavam confinados ao Irão. País que, ainda assim, conseguiu sobreviver e desenvolver-se em termos científicos e tecnológicos. A este facto não será estranho tratar-se de um povo herdeiro de uma civilização milenar, ao contrário dos agressores um dos quais uma invenção recente, sendo que os dois assentaram a sua construção no genocídio das populações autóctones e no assentamento de colonatos.

Irão - uma civilização milenar

Preferiria outro começo para este regresso. Uma palavra mais leve, talvez. Um tema que não trouxesse consigo este peso do mundo. Mas há momentos em que a realidade nos escolhe e, escrever é apenas uma forma de não recuar.

E, ainda assim, no meio deste ruído espesso, procurei um sinal contrário. Não um grande gesto, não um feito que se imponha. Apenas um indício. Um quase nada que, por instantes, suspenda a evidência do desastre. Encontrei-o numa história singular.

Chamam-lhe “Boneca”. Uma cadela que deixou a casa. Sem alarde. Sem rotura visível. Passou um rancho de romeiros, homens em passo demorado, carregando nos ombros promessas antigas, rezas sussurradas, silêncios partilhados, e ela seguiu-os. Não porque a mandassem. Não porque precisasse. Seguiu. Há decisões que não se explicam. Há movimentos que nascem antes da razão, mesmo vindos de um animal.


E talvez seja isso que ali se revela, nesse gesto sem importância aparente: a possibilidade de sair. De romper o círculo estreito do conhecido. De abandonar, por um instante, o lugar onde tudo está definido, o nome, o dono, o caminho, e responder a um chamamento sem voz.

Num tempo em que quase tudo se organiza em torno da força e do interesse, em que o mundo parece inclinar-se para a dureza e para a imposição, há gestos ínfimos que persistem. Não fazem manchetes. Não alteram o curso da história. Mas abrem pequenas brechas no que parece fechado.

Como o de uma cadela que deixa a casa para acompanhar um caminho. Talvez seja por aí, por esses desvios sem cálculo, por essa fidelidade ao inexplicável, que ainda subsiste qualquer coisa de essencial. Uma ideia de mundo que não se constrói sobre o domínio, mas sobre o reconhecimento da diferença.

Ponta Delgada, 30 de março de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 1 de abril de 2026

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Resiliência e outras dormências

foto Aníbal C. Pires
Há poucos dias, numa viagem de avião de Lisboa para Ponta Delgada, depois de ter feito uma sesta, peguei na revista de bordo da Azores Airlines e fui lendo alguns dos artigos. Notei então que um dos vocábulos que os entrevistados mais utilizavam era resiliência. Palavra que entrou, de rompante, no vocabulário erudito e popular e com a qual eu mantenho uma relação difícil, talvez por não saber muito bem o que significa, ou talvez por suspeitar que, significando tudo, não significa porra nenhuma.

A palavra resiliência foi-se instalando como se de uma virtude universal se tratasse. Aplica-se às pessoas, às empresas, às ilhas, às comunidades, às economias e até ao clima. É uma palavra elástica, maleável, sempre pronta a servir. Dobra-se ao discurso de quem fala e regressa intacta, como se nada a afetasse. Talvez seja esse o seu maior mérito lexical, mas que de humano nada tem e, eu não gosto da desumanidade das palavras que adjetivam humanos.

Originalmente, diz-se, da física dos materiais e da propriedade de um corpo resistir ao choque e recuperar a forma original. O problema começa quando se exige o mesmo às pessoas. Espera-se que sofram o impacto, absorvam o dano, e regressem à forma anterior, como se o choque não tivesse deixado marcas, fissuras, cansaço. Como se viver não fosse, justamente, o contrário disso, ou seja, não regressar nunca ao ponto de partida.

No uso corrente, resiliência tornou-se uma palavra de conforto para quem observa e de exigência para quem suporta, para mim já não há paciência para tanta resiliência. Diz-se a alguém que seja resiliente quando, na verdade, se lhe pede que aguente mais um pouco, que se adapte à adversidade sem fazer muito ruído, que aceite como inevitável aquilo que talvez não o seja. É uma palavra que desloca a responsabilidade: do contexto para o indivíduo, do sistema para a pessoa, da injustiça para o carácter.

foto Madalena Pires
E talvez seja por isso que o vocábulo me incomoda. Porque quase nunca vem acompanhada das perguntas essenciais: resiliente para quê? resiliente até quando? resiliente a favor de quem? Não questiona as causas, apenas celebra a capacidade de sobrevivência. E sobreviver, convenhamos, pode ser pouco quando se confunde com resignação.

Prefiro outras palavras, menos vistosas e menos úteis ao discurso motivacional. Prefiro resistência, que implica atrito e oposição. Prefiro dignidade, que não se mede pela capacidade de aguentar, mas pela recusa em aceitar tudo. Prefiro até fragilidade, quando assumida, porque ela não finge força nem promete milagres.

Talvez a vida não nos peça resiliência, mas lucidez. Não a capacidade de voltar à forma original, mas a coragem de mudar de forma, quando necessário. E isso não cabe numa palavra fácil, repetida até à exaustão numa revista de bordo, entre destinos paradisíacos e entrevistas sensaboronas. Cabe, isso sim, no desconforto de pensar, mesmo a 37 mil pés de altitude.

Esta minha aversão à palavra não é de ordem semântica, é uma recusa ética e, diria mesmo, até política. Que se foda tanta resiliência.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 28 de janeiro de 2026


domingo, 16 de novembro de 2025

Ornamento de cabeça, ou poesia.

foto de Madalena Pires
Há livros que nascem como objetos culturais; outros, como testemunhos vivos. O Lenço de Cabeça, de José Marcelino Kongo, pertence a essa segunda linhagem, a dos livros que guardam memória, identidade e dignidade numa página de papel e num gesto de olhar. Editado pela Letras Lavadas Edições, este trabalho fotográfico e poético é uma homenagem às mulheres angolanas e ao simbolismo que carregam, visível no lenço que tantas vezes reveste a cabeça como coroa, escudo, linguagem ou território afetivo. E não…  não é um simples ornamento; é um mapa íntimo da história e da resistência no feminino.

José Marcelino Kongo vive em Portugal há meio século, exatamente o mesmo tempo que dura a independência de Angola, celebrada a 11 de novembro. Este paralelismo não é mero acaso temporal, há uma afinidade biográfica, cultural e emocional que o atravessa.

Radicado nos Açores, o autor construiu o seu percurso académico como investigador na área da Biotecnologia, doutorado pela Universidade Católica Portuguesa. Mas o rigor científico nunca anulou o olhar sensível, poético e atento às raízes. O Lenço de Cabeça é prova disso: apresenta-se como documento visual e poético que ecoa como uma declaração de pertença.

foto de Madalena Pires

Conheço o Marcelino desde o início deste século e guardo, com particular estima, o momento em que li, pela primeira vez um poema em público, durante a apresentação do seu livro Notícias da Lua. Talvez por isso, cada novo trabalho seu me soe sempre a reencontro. Reencontro com a palavra, com a memória e com o gesto artístico que nasce do coração e regressa ao povo.

Celebrar cinquenta anos de independência é também resgatar o rosto feminino dessa liberdade: mães, filhas, avós, estudantes, vendedoras, camponesas, artistas, combatentes, tantas vezes invisibilizadas pela história, mas imprescindíveis à humanidade.

Este livro não é apenas sobre um acessório feminino: é sobre as mulheres angolanas, os rostos que retrata, os corpos que o sustentam e a vida que, apesar de tantas cicatrizes, continua a erguer-se, com dignidade, beleza e futuro.



Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 16 de novembro de 2025


terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

dos poderes e do circo

foto Madalena Pires

Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.



(...) As ordens executivas, para que se entenda um pouco da “democracia” estado-unidense, só podem ser assinadas pelo presidente se decorrerem dos poderes constitucionais que lhe estão atribuídos, ou se tiverem como base leis aprovadas anteriormente pelo Congresso. Ainda assim as ordens executivas podem ser contestadas se o entendimento for de que o presidente ultrapassou essas bases legais, ou os poderes que lhe estão atribuídos, aliás como já se passou com a questão da nacionalidade. Apesar do presidente dos Estados Unidos ter “decretado” o fim do “jus solis”, princípio que consiste na atribuição da nacionalidade de acordo com o lugar do nascimento, ou seja, é cidadão estado-unidense qualquer cidadão nascido em território dos Estados Unidos, mas, como dizia, apesar de Donald Trump ter decretado o fim deste princípio ele foi invalidado tendo por base a 14.ª emenda (1868). O entendimento legal e político nos Estados Unidos é que o fim do “jus solis” só é possível com uma alteração constitucional e, por outro lado, este ato fere o princípio da separação de poderes que, neste caso, é uma competência do Congresso. Embora Donald Trump tenha manifestado a intenção de acabar com o princípio a Constituição e o poder judicial impedem, de facto, qualquer mudança real. (...)


quarta-feira, 13 de novembro de 2024

a terra é plana, a vida é eterna e são felizes.

imagem retirada da internet
O mundo é um lugar pouco aconselhável para viver. Nunca terá sido, mas, ainda assim, já foi um pouco melhor, ou então era eu, do alto da minha ingenuidade, que assim o considerava. 

Já não sou um crédulo, conquanto a momentos possa parecer que não deixei de o ser. Pode o leitor pensar, com o pouco já dito, que vá encaminhar este texto para uma análise aos resultados das eleições nos Estados Unidos, mas não. Podem estar tranquilos não vou por aí, nem considero que o mundo tenha ficado pior do que já estava por ter havido alterações, se é que houve, nas cadeiras do poder estado-unidense. Não me sinto órfão nem rasguei as vestes pois, o resultado não me surpreendeu, a não ser pela dimensão da vitória “republicana”, nem há razões para crer que os Estados Unidos alterem, por vontade própria, a sua política externa a não ser que os problemas internos ou a construção, em curso, de um mundo multipolar e, por conseguinte, as razões de ordem económica assim obriguem a administração estado-unidense a arrepiar caminho. 

Estamos mal e assim vamos continuar, não só, mas também, pelos Estados Unidos. A subserviência da União Europeia à vontade hegemónica de um parceiro que não tem amigos, só interesses, é bem mais preocupante que a ascensão de um “republicano”, em alternância a um “democrata”, na presidência da administração estado-unidense.

foto de Madalena Pires
Pode também parecer, pelo que já foi dito, que deixei cair os braços e abandonei a defesa de transformações que possam edificar um mundo diferente, um mundo onde se possa viver melhor e a humanidade seja, apenas isso, humana. Só aparenta, pois, continuo a alimentar os meus dias com essa utopia.

As narrativas hollywoodescas deixaram, faz muito tempo, de me comover e há muito que super-heróis e vilões não me entusiasmam. Não sei se isso foi bom ou mau, mas sei que depois dessa epifania me sinto muito melhor, aliás foi um pouco como quando concluí que as prendas de Natal não eram deixadas pelo Menino Jesus ou o Pai Natal, conforme as geografias, o contexto social e os costumes de época. Houve alguma deceção, não pela autodescoberta, mas por sentir que me tinham enganado, ainda que as razões pudessem ser as mais nobres o que não é o caso das narrativas do mainstream de onde a ética e a opinião alternativa estão ausentes. 

Há muito que, para não ser surpreendido, tenho o cuidado quando olho ao meu redor de ver com o meu olhar e questionar o que exibem e, quando me dizem: a realidade é esta; vou verificar as diferentes fontes o que convenhamos, num mundo de artifícios digitais e outros que tais, é aconselhável fazer para não cairmos no ridículo de papaguearmos verdades construídas e, como tal, representações distorcidas da realidade. Não fica bem a quem devia estar informado, é intelectualmente desonesto e é dececionante ver algumas personalidades a regurgitar narrativas que já foram objeto de desconstrução por entidades independentes, como por exemplo os acontecimentos de 7 de outubro de 2023 na Palestina ocupada. As investigações forenses e documentais, realizadas por organizações independentes, contrariam tudo aquilo que serviu para intoxicar a opinião pública mundial, com particular ênfase no ocidente, mas que acabou por não fazer vencimento pois, as manifestações populares nas cidades europeias e estado-unidenses que mobilizam milhões de cidadãos em defesa da causa palestiniana e contra o estado sionista de ocupação, assim o confirmam.

Nakba (1948)
Não falta por aí quem continue a acreditar no Pai Natal e nas construções mediáticas das corporações dominadas pela Black Rock e pela Vanguard, depois quando confrontados com a realidade procuram as justificações mais espúrias para que os seus egos não fiquem indelevelmente feridos, os seus desejos não se transformem em desilusões e a fé numa qualquer patologia, ou então continuam a acreditar que a terra é plana, que a vida é eterna e, assim, são felizes.

Ao longo deste texto tenho vindo a conjeturar, ainda que superficialmente, sobre algumas realidades, mitos e poderes que pelo domínio que exercem na opinião pública, particularmente no chamado mundo ocidental, aparentam ser imutáveis, eu diria que também o poder absoluto dos monarcas parecia firme como uma rocha, e desmoronou-se. Também o fim do capitalismo, do neocolonialismo, dos fascismos e da unipolaridade parece uma impossibilidade, mas no que a mim diz respeito gosto de pensar, reconforta-me diria, que a humanidade, em devido tempo, lhe colocará um ponto final.

Não sendo tudo e estando longe do que seria desejável há alguns sinais de que as velhas estruturas que dão sustentáculo a este sistema anacrónico estão a sofrer alguns abalos. Não é a primeira vez que me socorro de alguns dos países do Sahel (Mali, Burkina Fasso e Níger) como exemplo, recente, de libertação do neocolonialismo francês, movimento que se tende a alastrar a alguns dos países da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, como seja o caso do Senegal. Mas se estes são importantes sinais, não menos relevante é a associação dos países das economias emergentes e do Sul global que se estão a agregar no bloco dos BRICS e a criar um sistema financeiro autónomo, mormente, o sistema de pagamento alternativo ao SWIFT e o pagamento de transações comerciais nas moedas nacionais, abandonando o dólar estado-unidense como moeda de referência mundial. 

Como é fácil de concluir a desdolarização já está em curso e mais do que uma opção dos BRICS ela decorre da necessidade de encontrar uma solução para ultrapassar os efeitos das sanções ocidentais a alguns países desta organização. 

Este novo modelo é resultante da visão multipolar do mundo e só nessa medida se coloca como uma ameaça aos Estados Unidos e aos seus apêndices autodenominados “comunidade internacional”. Se esta é a solução para o fim do capitalismo, não será, mas não me restam muitas dúvidas que é o caminho para por um ponto final no colonialismo, no neocolonialismo e, por conseguinte, na sobranceria dos Estados Unidos e dos serventuários dirigentes da União Europeia (o jardim de Borrel) em relação ao chamado Sul global (a selva de Borrel).


Os efeitos desta nova arrumação geopolítica e económica já se fazem sentir nas economias da União Europeia, em particular na Alemanha, mas não são ainda suficientes para que o discernimento ilumine as decisões políticas e seja assumido que novos tempos estão a chegar, tempo de respeitar as soberanias nacionais, tempo de privilegiar a cooperação entre os povos e tempo de abandonar a sobranceria eurocêntrica a atlantista. Dito assim pode parecer caótico para o jardim de Borrel, mas não tem de o ser. Só será conturbado se as instâncias políticas da União Europeia continuarem a vergar a coluna vertebral aos donos do mundo e, quando estes últimos deixarem de necessitar de um parceiro que mais não tem feito que o papel de idiota útil.

Ponta Delgada, 12 de novembro de 2024 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 13 de novembro de 2024

terça-feira, 12 de novembro de 2024

(im)possibilidade

foto Madalena Pires




Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.







(...) Não falta por aí quem continue a acreditar no Pai Natal e nas construções mediáticas das corporações dominadas pela Black Rock e pela Vanguard, depois quando confrontados com a realidade procuram as justificações mais espúrias para que os seus egos não fiquem indelevelmente feridos, os seus desejos não se transformem em desilusões e a fé numa qualquer patologia, ou então continuam a acreditar que a terra é plana, que a vida é eterna e, assim, são felizes.

Ao longo deste texto tenho vindo a conjeturar, ainda que superficialmente, sobre algumas realidades, mitos e poderes que pelo domínio que exercem na opinião pública, particularmente no chamado mundo ocidental, aparentam ser imutáveis, eu diria que também o poder absoluto dos monarcas parecia firme como uma rocha, e desmoronou-se. Também o fim do capitalismo, do neocolonialismo, dos fascismos e da unipolaridade parece uma impossibilidade, mas no que a mim diz respeito gosto de pensar, reconforta-me diria, que a humanidade, em devido tempo, lhe colocará um ponto final. (...)



quarta-feira, 15 de maio de 2024

uma espécie de prólogo

imagem retirada da internet

A
o contrário do protagonista desta pequena estória sou um consumidor de informação televisiva e, quando vi e ouvi a pergunta e a resposta firme e seca a uma daquelas perguntas que roçam o acessório, mas que o público, sedento de um bom “enredo”, tanto gosta e os jornalistas alimentam para garantir audiências subvertendo o objeto da sua função, pensei para comigo: tenho de falar com ele pois, não me parece, face ao que veio a público, mas também ao que conheço dos factos que a resposta corresponda à realidade.   

Ele sabia que a dita pergunta não era inocente e, segundo as suas próprias palavras, estava de alguma forma à espera daquela questão.

Numa das muitas entrevistas para a imprensa, rádio e jornais em que foi o sujeito, perguntaram-lhe: Alguma vez se sentiu prejudicado pela sua opção ideológica e partidária? A resposta saiu pronta e limpa, não. 

Há uns dias num dos recantos paradisíacos deste arquipélago abençoado pelos deuses, para quem neles acredita, ou pela mãe Natureza como eu prefiro dizer pois, não creio em divindades, e, onde a amena cavaqueira pode tomar rumos diversos, confessou-me que aquilo que tinha afiançado com tanta firmeza, não era verdade, acrescentando, sabes a verdade tem o seu tempo e lugar e aquele não era nem o lugar nem e o tempo próprio para me deixar enredar em espúrias estratégias comunicacionais. E continuou: A resposta é, como pensas, sim. Sim fui prejudicado. Então porquê aquele perentório não, perguntei-lhe. 

foto de Madalena Pires

Coloquei a questão sem esperar que a resposta, conhecendo-o bem e sabendo que é uma pessoa reservada naquilo que a si diz respeito, não viesse eivada de subterfúgios, ou mesmo que dele obtivesse uma não resposta. Mas, para surpresa minha, assim não aconteceu e, talvez por ser Verão, respondeu de forma clara e objetiva tal como tinha respondido não durante aquela entrevista, mas desta vez sem qualquer fuga à verdade pois, no contexto de uma conversa de amigos tudo pode e deve ser dito sem rodeios.

Se eu tivesse respondido sim, como era esperado pelos jornalistas, a entrevista que não era pessoal, eu estava ali a representar uma organização política, passaria a centrar-se num tema que podendo ser importante para mim, não era relevante para cumprir o objetivo a que me propunha e ao que era expectável por quem eu estava a representar, ou seja, a partir daí, se eu tivesse respondido sim, as questões que me seriam colocadas passavam para o domínio do acessório e o essencial transitava para segundo plano.

Podes até, diz-me ele, considerar que optei pelo politicamente correto ou que tive medo, podes ajuizar como muito bem entenderes, mas o verdadeiro motivo foi aquele que acabo de te dizer e que nunca o tinha referido a ninguém, aliás, também como já te disse, estava à espera da pergunta o que facilitou aquele categórico não.

Sabes, diz-me ele, temos de nos preparar para todos os cenários e, ainda assim, nem sempre se consegue que tudo nos corra de feição, mas correrá sempre mal se não nos preparamos antes das entrevistas, ou mesmo quando se trata de fazer pequenas declarações à comunicação social, tantas e tantas vezes em cima do acontecimento. É sempre bom escolher as palavras e tentar não ser dirigido pelos nossos interlocutores, nem lhes deixar espaço para a especulação. Bem, esta premissa, como por certo concordarás comigo, aplica-se não só a esse contexto, mas a outros cenários. Não foi este o caso pois, como pudeste constatar não estou a fugir às tuas questões e nunca me passou pela cabeça, quando me convidaste para vir até aqui, que a nossa conversa viesse a tomar este caminho. Percebi perfeitamente, porque o conheço e, porque conheço, ainda que, superficialmente o funcionamento da organização política a que pertence desde a sua juventude. 

Sentindo que ele, talvez pelo cenário idílico, pelo calor do Verão ou pela confiança que em mim deposita, estava com disponibilidade para falar. Ganhei coragem e atrevi-me a continuar.

Ouve lá! Sabia, não precisava sequer que o confirmasses que, de uma forma ou outra, as tuas opções ideológicas, podendo deixar-te bem contigo mesmo, te prejudicaram ao longo da vida, mas em determinado momento foi claro que alguém o fez de forma deliberada. O teu bom nome foi posto em causa e atingiu direta ou colateralmente, como quiseres entender, a tua família. O que estranhei e, como eu, certamente, muitas outras pessoas que te conhecem, e que não duvidam da tua integridade moral e política, o que estranhei foi que não tivesses vindo a terreiro defender-te e esclarecer a opinião pública. Porquê!? Por que te remeteste ao silêncio.

Quando acabei, embora tivesse sido breve, estava com o suor a correr pelas costas e, não era do calor. Para lhe colocar, sem rodeios, esta questão foi preciso alguma coragem. Quem o conhece sabe que ele é afável, simpático e bem-humorado, mas também sabe que há questões sobre as quais ele não fala e se o tentam encurralar pode tornar-se num adversário temível.

Claro que enquanto lhe fiz a pergunta não deixei de olhar para ele, não só por uma questão da urbanidade que ele tanto cultiva, e eu também, mas sobretudo porque era importante ler os sinais corporais que ele ia, ou não, transmitindo. Ele sorria ainda que do seu olhar transbordassem um misto de sentimentos e algumas emoções antagónicas cujo espetro ia da tristeza à raiva, raiva que não chegava a ser ódio e vi, no seu olhar, a deceção. Sorrindo, respondeu-me.

E falou como eu nunca o tinha ouvido falar, falou de si, das suas angústias, dos seus sonhos, os sonhos que se cumpriram, os sonhos que continuam por cumprir, mas dos quais não abdica. E, com as lágrimas que de quando em vez lhe afloravam aos olhos, falou dos sonhos que sabe não poder ver realizados, sonhos que se perderam no tempo, ou porque o tempo, o seu tempo, é finito.

Queres mesmo saber!? Pois bem! Pede aí mais uma imperial e uns amendoins, e, presta atenção. Não só te vou dizer por que não vim a terreiro, mas também quem é que me tentou foder a vida.

foto de João Pires

Estupefacto perguntei: Sabes quem foi!? Claro que sei. Sei quem foram os autores, sei quem foi o mensageiro, sei quem foi instrumentalizado, sei quem foram os lacaios que deram corpo à difamação e, sobretudo, sei qual foi o objetivo que esteve associado a esta trama, que como verás, tem requintes de malvadez, diria mesmo que tem contornos maquiavélicos.

A tarde prolongou-se até noite dentro, muitas outras tardes e noites se lhe seguiram. Partilhou comigo mais do que alguma vez julguei ser possível, mas como ele próprio diz nem tudo pode ser contado e, também eu, me reservo a não divulgar mais do que já ficou dito, desde logo, pela reserva de confidencialidade que lhe assegurei, mas também para não vir a ser uma vítima colateral de uma certa forma de fazer “política”, muito em uso na Região e no País, e, por outro lado, cabe-lhe em primeira instância, a divulgação dos detalhes da estória que aqui foi aflorada.

Hoje não, mas amanhã talvez. Disse ele, com um sorriso nos lábios.


Ponta Delgada, 14 de maio de 2024 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 15 de maio de 2024

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Abril é mais futuro!

foto de Madalena Pires
O cinquentenário da Revolução de Abril continua a comemorar-se por todo o país. A manifestação de Lisboa, no dia 25, foi um sinal claro e inequívoco de identificação do povo português com os ideais e valores de Abril, por tudo quanto foi conquistado, por tudo o que é necessário defender e por tudo o que é necessário (re)conquistar e construir, pois, Abril é mais futuro!

As praças, ruas e avenidas de Portugal, com maior ou menor adesão dos cidadãos, juntaram gente, muita gente, para celebrar os 50 anos do 25 de Abril. Mais do que comemorar uma efeméride foi a afirmação da defesa dos valores de Abril e uma grande determinação, das vozes que ecoaram no espaço público, clamando pelos valores da Liberdade e da Democracia. Abril está vivo e a maioria dos portugueses reconhece as importantes transformações que a Revolução dos Cravos nos proporcionou, mas pelas quais é necessário (hoje e sempre) continuar a lutar. 

No contexto político e parlamentar que vivemos essa determinação e demonstração assumem um significado que vai muito além da celebração de uma data, foi um dia de luta. É um tempo de luta! Luta com os olhos postos no porvir e no sonho de um país mais justo onde a democracia política, económica, social e cultural sejam uma realidade.

As comemorações dos 50 anos do 25 de Abril têm assumido diferentes formatos e vão prolongar-se no tempo, durante este ano e nos anos vindouros. Os filhos e netos da Revolução aí estão para continuar esta construção, por agora, embargada e, para manter a memória de um tempo novo e transformador. 

Diz-se da Revolução de 25 de Abril que foi uma revolução de cravos e sem derramamento de sangue, não fossem os quatro cidadãos mortos (ao fim da tarde), pelos disparos provenientes da sede da PIDE/DGS, e assim teria sido. Em jeito de homenagem deixo aqui o nome dos cidadãos assassinados pela PIDE/DGS no dia 25 de Abril de 1974: Fernando Carvalho Giesteira, José James Harteley Barneto, João Guilherme Rego Arruda e Fernando Luís Barreiros dos Reis. Assim foi no dia 25 de Abril de 1974, mas este dia não aconteceu por acaso e durante os 48 anos da ditadura há uma longa história de sangue derramado que importa não seja olvidado em nome da memória dos que lutaram, foram presos, torturados e que morreram até ao dia do qual Sophia de Mello Breyner nos diz: “Esta é a madrugada que eu esperava/O dia inicial inteiro e limpo/Onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo.”

Até chegar “o dia inicial inteiro e limpo”, morreram às mãos do aparelho repressivo do fascismo português assassinados na rua, nas instalações prisionais, nas frentes de guerra os soldados portugueses, mas também os combatentes das lutas de libertação e as populações das colónias alvo das mais diversas sevícias e massacres. Desconheço os números na sua totalidade, mas atrevo-me a afirmar que são várias centenas de milhares os mortos provocados, diretamente, pelo regime instaurado a 28 de maio de 1926 em Portugal o qual, em 1933, pela mão de Salazar se estruturou num regime fascista. 

A Revolução portuguesa não aconteceu por acaso e há toda uma história de resistência, luta e sangue derramado que contribuiu para que o derrube do fascismo português tivesse acontecido. Se é verdade que a revolta militar teve na sua origem causas de ordem corporativa dentro das Forças Armadas, não é menos rigoroso afirmar que no seio do Movimento das Forças Armadas (MFA) existia um conjunto de oficiais (milicianos e do quadro) com consciência social e política, e que esse facto foi determinante para que o programa do MFA tivesse os contornos progressistas que o caraterizaram e aos quais o povo português aderiu massivamente, também não é menos verdade que a oposição organizada e clandestina, com particular destaque para o PCP, quer se goste ou não, mas factos são factos, foi uma das variáveis determinantes, de entre outras, para o derrube do regime fascista em Portugal.

O que ficou dito não pretende retirar os atributos que caraterizaram o dia em que o regime foi derrubado, a Revolução do 25 de Abril foi e continuará a ser uma revolução marcada pelos cravos que a Celeste Caeiro, num gesto simples e agradecido, deu aos soldados que se dirigiam para o Largo do Carmo, mas não podemos obliterar, ou branquear, tudo o que lhe esteve na origem. As lutas dos trabalhadores e do povo português, a resistência e as prisões do fascismo, a luta armada dos povos colonizados e a guerra colonial que sacrificou mais de 10mil jovens portugueses, estropiou mais de 30mil e afetou a generalidade das famílias portuguesas.

A maioria do povo português sentiu e viveu os acontecimentos do dia 25 de Abril de 1974 com alegria. Uma incomum aura de felicidade parecia envolver os cidadãos, mas ainda nesse dia houve quem se encarregasse de iniciar um processo, nem todos ficaram satisfeitos com o contentamento popular, que pretendia travar as transformações que se adivinhavam. Não é o lugar e o tempo para dissertar sobre o conservadorismo de alguns membros da Junta de Salvação Nacional, presidida pelo general António de Spínola, mas sempre deixo como sugestão: procurem apurar as razões pelas quais os presos políticos só foram libertados, dois dias depois do 25 de Abril e a sua libertação só se consumou devido à forte mobilização popular.

Com a Revolução dos Cravos Portugal sofreu profundas transformações e o poder político e económico passou a ter os trabalhadores e o povo como os principais protagonistas, daí resultaram melhorias substantivas para a vida da generalidade dos portugueses e algumas dessas conquistas que hoje temos como adquiridas foram consagradas na Constituição da República Portuguesa (aprovada a 2 de abril de 1976) que apesar de ter vindo a ser desvirtuada por sucessivas revisões mantém, no essencial, as principais conquistas de Abril.

A herança de Abril está bem viva e hoje faz parte das nossas vidas o que não significa que nos limitemos a celebrar sem lutar pois, em muitos aspetos da vida política, económica, social e cultural registam-se retrocessos preocupantes.  A precariedade, o desemprego, a pobreza, a exclusão social, a concentração da riqueza, o desinvestimento nos serviços públicos e a privatização dos setores públicos estratégicos não esgotam os recuos na construção de uma democracia avançada (política, económica, social e cultural) que quero para o meu país e para o meu povo, mas constituem-se como um conjunto de inquietações para as quais nos devemos mobilizar, sob pena, de nos afastarmos cada vez mais do espírito de Abril, com todos os perigos que isso encerra para a Liberdade e a Democracia. 

Manter um espírito crítico, de oposição e luta em relação às opções políticas dos sucessivos governos que são diretamente responsáveis pelo afastamento dos princípios constitucionais, é defender o espírito da Revolução e contribuir para que Abril seja mais futuro e não apenas uma data histórica que festejamos em dia de feriado.

Ponta Delgada, 30 de abril de 2024 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 1 de maio de 2024

terça-feira, 2 de abril de 2024

Ermitérios

imagem retirada da internet - farol Gonçalo Velho

Os faróis são lugares místicos com uma função bem terrena: sinalizar os caminhos do mar.

Os faróis convocam a imaginação e atraem-nos às mais altas falésias e alcantilados promontórios. São lugares invulgarmente sublimes, lugares de contemplação do mar imenso, lugares onde se chega pelos trilhos da beira terra, em direção à beira-mar, ou pelos atalhos do mar até uma pequena e arredada ilha onde se ergue, grandioso e robusto, um farol. 


Os faróis seduzem, deixamo-nos seduzir, e vamos. Vamos olhar o mar até à linha do horizonte, lá onde moram todas as utopias, vamos ver as aves marinhas no seu voejar planado, vamos observar as formas arquitetónicas e a sua capacidade de resistência às intempéries que, não poucas vezes, se abatem sobre aqueles belos, mas inóspitos lugares.

Se o sítio for visitável e o faroleiro um bom anfitrião não resistimos a entrar e a subir as íngremes e acanhadas escadas que nos levam ao topo onde a função do farol se cumpre.

A singularidade da arquitetura adaptada ao propósito, a beleza e a quietude da geografia onde se situam as luminárias que alumiam os caminhos do mar, constituem-se como os principais elementos que nos despertam interesse e atração, mas outras, subjetivas e indefinidas, razões, e talvez por isso, por serem do domínio do imaginário, sejam tão, ou mais, importantes no fascínio que os faróis e outros lugares de solidão exercem sobre nós. 

O magnetismo que emana dos faróis, dos moinhos, dos mosteiros e conventos, das ilhas desertas, cativa-nos e atrai-nos, e, tem sido objeto de variadas narrativas literárias, algumas adaptadas ao cinema, ou mesmo escritas com o propósito de argumentos para produções cinematográficas.

foto de Madalena Pires
Os ermitérios são uma inesgotável fonte para a criação de mitos e estórias sobre o isolamento, a solidão, o desterro, a loucura, o erotismo, o assombramento, ou mesmo de crimes macabros e irresolúveis.

O imaginário popular é fértil na criação de estórias e mitos sobre os lugares ermos, ou não o sendo se encontrem circunscritos por altos muros, mitos e reclusão forçada, ou não, aos quais se associam personagens com caraterísticas invulgares. Variam os lugares e os personagens consoante a função da estrutura edificada, ou mesmo, na inexistência dela, se o eremita se acomoda numa cavidade natural. O que não se altera é a narrativa fantasmagórica transmitida na tradição oral sobre esta gente e estes lugares. 

Quando criança, nas noites de inverno, ouvi muitas estórias, de lugares e pessoas, verdadeiramente assustadoras para as quais, só muito mais tarde, encontrei algumas explicações que justificavam os “fenómenos” e os comportamentos excêntricos de alguns cidadãos que viviam, por opção, por necessidade, pela fé, ou por razões de ordem profissional, afastados das comunidades que lhes estavam na proximidade.

As estórias fantasmagóricas que ouvi na minha infância sobre lugares ermos e sobre eremitas fizeram e continuam a fazer parte do meu imaginário, atualmente sem os temores que sobre mim exerceram na infância e retardavam a chegada do sono pois, qualquer ruído, das antigas casas da aldeia onde costumava passar algumas temporadas, para o qual se não encontrasse, de imediato, uma explicação plausível era relacionado com as estórias ouvidas ao serão e a sonolência transformava-se em vigília até que o sono se voltasse a instalar.

O passar do tempo e o conhecimento que vem com ele afastou os pavores, mas ficou a atração pelos ermitérios e pelos eremitas, quer estes o sejam por opção, ou por necessidade de ordem profissional. Este fascínio não será tanto pelo facto de se estar só, e entenda-se estar só não é necessariamente sinónimo de solidão, mergulhados em profunda solidão podemos estar rodeados da turba e a viver no centro de uma grande urbe. 

foto de Aníbal C. Pires

Se o isolamento, por ser inusual, desperta interesse em muitos de nós que consideramos esse comportamento fora dos padrões comportamentais e por vezes chegam a merecer a atenção da academia e a elevação à condição de objeto de estudo. Mas são os lugares, pela sua localização, pela sua arquitetura e pela função que me fascinam nos ermitérios, sejam eles lugares ermos, nas periferias, ou mesmo dentro da malha urbana de grandes cidades. Espaços fechados aos olhos do mundo e onde se enclausuram voluntariamente cidadãos que se afastam do mundo e dos seus concidadãos, não será como ir para uma ilha deserta, mas, nos tempos que correm, ir para uma ilha deserta não é, digamos, uma opção ao alcance de todos e quem pode, por norma, faz-se acompanhar não está nunca sozinho, conquanto possa carregar o peso da solidão.

Os moinhos de vento situam-se em colunas verdejantes, os moinhos de água, ou azenhas, junto dos cursos de água, os mosteiros e conventos podem até não se localizar em lugares ermos, mas a sua localização e arquitetura deslumbram. Os lugares naturais ou urbanos onde se edificam estruturas para acolher quem, por vontade própria ou pelo exercício de uma atividade profissional, está em isolamento, mesmo que acompanhado, encantam-me.

Outros ermitérios, como as prisões, por mais belos e singulares que sejam os lugares onde estão implantados provocam outros sentimentos, o interesse histórico e literário.

A prisão de Alcatraz, a ilha de Santa Helena, a ilha do Diabo, Robben Island, são conhecidas como temíveis prisões e territórios e sobre elas existem inúmeras narrativas ficcionadas com fundamento em acontecimentos reais, mas também estórias bem reais como seja o longo encarceramento de Nelson Mandela (Robben Island). 

Sobre as prisões e as inevitáveis fugas e tentativas de fuga existam estórias reais que pelos seus contornos não necessitam, sequer, de ser ficcionadas e romantizadas.

Menos conhecidas e fora do foco de escritores e cineastas são algumas das prisões do fascismo português por onde passaram milhares de homens e mulheres que lutaram pela democracia e pela liberdade para Portugal. O Tarrafal, o Aljube, Caxias, Peniche, e o Forte de S. João Baptista são, de entre outros, nomes que nos são familiares, embora nem sempre se conheça a história destes lugares de isolamento, tortura e morte. 

o Chrysler utilizado na fuga de Caxias
 Museu do Caramulo

A fuga solitária de Dias Lourenço da prisão de Peniche, a 17 de dezembro de 1954, a fuga preparada e concretizada, a 4 de dezembro de 1961 por um grupo de militantes do PCP, na qual António Tereso foi um elemento fundamental pois o carro utilizado para sair da prisão era de Salazar e, o Tereso teve de conquistar a confiança dos guardas e do Diretor da prisão, passando por traidor (rachado) junto dos seus camaradas, mas também a fuga de Peniche, de Álvaro Cunhal, a 3 de janeiro de 1960,  em conjunto com Álvaro Cunhal, Carlos Costa, Francisco Miguel, Francisco Martins Rodrigues, Guilherme Costa Carvalho, Jaime Serra, Joaquim Gomes, José Carlos, Pedro Soares e Rogério Carvalho além de um soldado da GNR. Muitas outras fugas das prisões do fascismo aconteceram e todas elas revelam audácia e coragem.

As prisões do fascismo não se esgotam nas referências já feitas a algumas delas, mas para percebermos que a dimensão do aparelho repressivo do fascismo português não se resume apenas às cadeias a que aludi outras, menos divulgadas, existiram nos territórios colonizados, apara além de Cabo Verde, já mencionado na referência ao Tarrafal, Guiné, Angola, Moçambique e Timor tiveram os seus funestos presídios. Estas cadeias eram em tudo semelhante ao Campo de Concentração do Tarrafal. A diferença, segundo o Dr. Luís Farinha, antigo diretor do Museu do Aljube é que: “os seus «habitantes» forçados não tiveram ninguém que lhes guardasse a memória.”

No ano em que se comemoram os 50 anos de Abril é nossa obrigação trazer para o presente as memórias de um passado obscuro, ditatorial e repressivo que alguns louvam e gostariam de ressuscitar, mas também se constitui uma obrigação afirmar os valores da liberdade e da democracia pela qual se lutou e luta.  

Ponta Delgada, 2 de abril de 2024 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 5 de abril de 2024

terça-feira, 12 de março de 2024

Abril é mais futuro

foto de Madalena Pires
Texto publicado na edição especial de "O Barbilho" que assinala o cinquentenário do 25 de Abril


Construção embargada - Abril é mais futuro


futuro adiado

não é este o futuro
que as portas de Abril abriram
este é o presente
fechado em novembro

In "Esperança Velha e outros poemas", Aníbal C. Pires, Letras Lavadas, 2020


“Abril” é uma quimera por cumprir que habita o sonho dos portugueses que mantêm bem viva a esperança num país novo. Um país mais justo, mais fraterno, mais livre. “Abril” é a utopia que nutre a luta e a caminhada que se iniciou no dia, em que felizes rolaram livres as lágrimas na face de um povo oprimido.

Falar do 25 de Abril e da Constituição, que consagrou os principais valores de Abril, não significa falar do passado ou assinalar as correspondentes efemérides, por mais importante e significativo que isso seja. Falar da Revolução de Abril, comemorar “Abril”, é falar do presente e projetar o futuro.

A Liberdade, a Democracia, a Justiça Social, a Paz e a Soberania conquistadas, em 1974, pelo Povo Português foram consagradas na Constituição da República, aprovada a 2 de Abril de 1976, uma das mais avançadas e progressistas do século XX, projetando os valores da Revolução de Abril, reconhecendo e dando suporte aos direitos, conquistas e às profundas transformações e mudanças que foram protagonizadas pelo Povo Português. Apesar das distorções que as sucessivas revisões constitucionais introduziram ao texto inicial, a Constituição continua a ser um suporte fundamental e indispensável na regulação da nossa vida democrática, e o garante de importantes direitos políticos, económicos sociais e culturais dos trabalhadores e do povo.

imagem retirada da internet
A Constituição assume um conceito holístico de democracia. A democracia por inteiro tem de ser política, económica, social e cultural. Na Constituição inscrevem-se os direitos dos trabalhadores como intrínsecos à democracia, desde os direitos sindicais aos direitos laborais e à justiça, à segurança no emprego, a uma redistribuição mais justa da riqueza com a efetivação do direito a salários mais justos, a horários de trabalho mais dignos. Nela se expressa o direito ao trabalho para todos e a execução de políticas económicas de pleno emprego. Nela se reconhece às mulheres o direito à igualdade no trabalho, na família e na sociedade e importantes direitos às crianças, aos jovens, aos reformados e aos cidadãos com deficiência. Nela se proclama a exigência da subordinação do poder económico ao poder político e a incumbência ao Estado de dar prioridade às políticas económicas e de desenvolvimento que assegurem o aumento do bem-estar social, a qualidade de vida das pessoas, a justiça social e a coesão económica e social de todo o território nacional. Nela estão consignadas as obrigações do Estado em relação a domínios tão importantes como os da educação e do ensino, da saúde, da segurança social, da cultura. Nela subsistem princípios fundamentais para a organização do Estado, como a independência dos tribunais e a autonomia do Ministério Público, mas também a autonomia do Poder Local democrático e consagrou a histórica aspiração dos Povos Insulares à Autonomia. Nela se estipulam os princípios que devem nortear as relações internacionais e pelas quais Portugal se deve reger – da igualdade entre os Estados, da solução pacífica dos conflitos e da não ingerência nos assuntos internos de outros Estados, o desarmamento e a dissolução dos blocos militares.

Apesar de “novembro” e das sucessivas revisões a Constituição da República Portuguesa consagra, ainda, o essencial do projeto político procedente da Revolução de Abril. No presente defender “Abril” é defender a Constituição e exigir o seu cumprimento.


foto Aníbal C. Pires

do 25 de Abril
 
abril é
um amor que resiste 
uma construção embargada 
uma lágrima de alegria
uma poesia por recitar

abril não é
passado
abril é
futuro
abril é
um sonho por cumprir

In “Esperança Velha e Outros Poemas”, Aníbal C. Pires, Letras Lavadas, 2020




Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 12 de novembro de 2023


sábado, 20 de janeiro de 2024

Amílcar Cabral, pelos 51 anos da sua morte

foto retirada da internet
Passam hoje 51 anos sobre a morte de Amílcar Cabral. O "momentos" assinala esta data prestando assim tributo ao líder que conduziu a luta armada, para a qual foi empurrado, pela independência da Guiné e Cabo Verde (quem fecha as portas à revolução pacífica abre as portas à revolução violenta).

Os caminhos do pós-independência foram diversos para estes dois países para os quais Amílcar sonhava paz, prosperidade, justiça social e económica. 

Os herdeiros políticos de Amílcar Cabral destruíram, quer em Cabo Verde, quer na Guiné-Bissau, o seu projeto político e defraudam a cada dia o sonho e a utopia que mobilizou aqueles povos para se libertarem do colonialismo português.

"Se alguém me há de fazer mal, é quem está aqui entre nós. Ninguém mais pode estragar o PAIGC, só nós próprios."

Amílcar Cabral

foto de Madalena Pires (2016)

O insurgente Amílcar, como todos os revolucionários, era um humanista e uma personalidade sensível às artes e à libertação pela cultura.

A minha poesia sou eu

… Não, Poesia:
Não te escondas nas grutas de meu ser,
não fujas à Vida.
Quebra as grades invisíveis da minha prisão,
abre de par em par as portas do meu ser
— sai…
Sai para a luta (a vida é luta)
os homens lá fora chamam por ti,
e tu, Poesia és também um Homem.
Ama as Poesias de todo o Mundo,
— ama os Homens
Solta teus poemas para todas as raças,
para todas as coisas.
Confunde-te comigo…
Vai, Poesia:
Toma os meus braços para abraçares o Mundo,
dá-me os teus braços para que abrace a Vida.
A minha Poesia sou eu.

Amílcar Cabral, em “revista Seara Nova”, 1946.

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

das linguagens

 

foto de Rui Lopes
Texto de Apresentação do livro:

“Por um Fio de Seda”, texto e ilustrações de Rui Lopes

Centro Cultural de Santa Clara, 24 de outubro de 2023, pelas 18h30mn

Minhas senhoras e meus senhores,

Caros amigos,

É, para mim, uma honra e também um prazer, estar aqui a convite do Rui Lopes, a quem aproveito para agradecer a confiança que em mim deposita para apresentar o seu primeiro livro que reúne, como terão oportunidade de constatar, um texto em que o autor narra uma história real e ilustra com a mestria que lhe reconhecemos, não só por esta nova experiência, mas por todo o trabalho gráfico que tem feito ao longo da sua vida profissional e que agora ganha novos e desafiantes contornos.

Agradeço a vossa presença com o compromisso de que não vos vou ocupar muito tempo, nem maçar com avaliações mais ou menos elaboradas sobre o texto, sobre as ilustrações, mas também sobre o protagonista desta história, que se encontra aqui entre nós e, a quem aproveito para endereçar um cumprimento especial pois, hoje, completa 92 anos de idade. 

Parabéns, Comandante Francisco da Encarnação Afonso! 

E bem-haja pelo seu exemplo de vida.


ilustração de Rui Lopes

Minhas senhoras e meus senhores,

Caros amigos,

Quando Rui Lopes me convidou para fazer a apresentação pública do seu livro, convite ao qual anuí sem qualquer reserva, e dei início à estruturação desta breve intervenção optei por dedicar o essencial do conteúdo deste registo ao autor, enquanto cidadão e ao potencial artístico que carrega consigo, mas por razões diversas não tem tido oportunidade de cultivar, para além da comunicação visual utilitarista. Ao contrário do que costumo fazer não separei as alusões à obra ao perfil do autor o que poderá contrariar os cânones, mas eu gosto de correr riscos e essa tem sido a minha opção de vida: navegar à bolina. Sinto-me confortável assim, a ir contraventos e marés.

“Por um fio de seda”, relata uma história, conhecida por muitos dos presentes, e por muitos outros que, estando ausentes conhecem, pois, esta história faz parte dos anais da aviação militar em Portugal e já foi descrita, de entre outros registos, no livro “Voando… A Unir O Que O Mar Separa”, promovido pela Associação Portuguesa de Pilotos de Linha Aérea (APPLA), da autoria do Professor Ermelindo Peixoto e publicado na sequência da atribuição do Prémio Carlos Bleck 2017, ao Comandante Afonso, e que o Rui Lopes referencia como uma das suas fontes.

Mas o reconhecimento à carreira, profissionalismo e dedicação não foi, apenas, pelos seus pares, como acabei de referir, aliás uma de entre muitas outras, mas também o Município de Ponta Delgada e a Região, através da ALRAA, prestaram uma justa homenagem ao Comandante Afonso, atribuindo-lhe respetivamente o “Diploma de Reconhecimento Municipal”, em 2011 e a “Insígnia Honorífica Açoriana de Dedicação”, em 2013.


Minhas Senhoras e meus senhores,

Caros amigos,

Numa epígrafe do livro do Professor Ermelindo Peixoto e que acabei de referenciar pode ler-se: “voar nas asas do sonho”; e esta é uma inscrição que, também, se ajusta, ao Rui Lopes. Por este livro e por este momento, pois, quem o conhece tem consciência que o presente acontecimento é um voo sonhado pelo Rui, e não me refiro ao livro em si mesmo, essa é apenas uma particularidade que não me surpreende, embora seja uma excelente mostra da arte e criatividade do Rui Lopes. Mas este momento é, também e, quiçá, sobretudo um grito que o liberta, ou pode libertar, do espartilho da publicidade e dos grafismos comerciais. 

O voo sonhado do Rui Lopes e que, para já deu este belo fruto, relaciona-se com tudo o que lhe está a montante, isto é, o recente, mas muito desejado percurso formativo, a sua concretização com sucesso, o reconhecimento dos seus mentores e, quiçá, a oportunidade tão ambicionada para o Rui Lopes poder dar expressão ao que lhe dá prazer e melhor sabe fazer: arte pela arte. Arte sem moralismos nem utilitarismos, a arte apenas pela estética.

Comandante Francisco Afonso (coleção particular)
Neste livro o autor ilustra e narra um episódio, por sinal dramático, da vida do Comandante Afonso que como sabem é o sogro do Rui. Permito-me fazer esta referência pois, a escolha do tema diz bem do homem que é o Rui Lopes.

A estória relata e ilustra um incidente ocorrido a 12 de outubro de 1955 protagonizado pelo Comandante Afonso, então com 23 anos, faria 24 passado 12 dias, e como piloto da Força Aérea Portuguesa. 

Era um voo noturno num jato monomotor da Esquadra 20, de caças F84-G, sedeada na base aérea da Ota. Dificuldade e alguma confusão nas comunicações, o afastamento da base, quando conseguiu determinar o local onde se encontrava, por ter avistado as luzes da procissão das velas em Fátima, concluiu que o combustível era insuficiente para chegar à base, quando assim é os manuais aconselham a ejeção, e foi o que o Comandante Francisco Afonso fez, apontou a aeronave ao mar e ejetou-se. O livro não é apenas a descrição deste episódio, mas é sobretudo esta estória do brilhante percurso profissional do Comandante Afonso que o autor de “Por um fio de seda” partilha connosco socorrendo-se das palavras do protagonista e brindando-nos com ilustrações que nos transportam para a carlinga do avião, para os procedimentos da ejeção, para a serenidade da descida em paraquedas e a chegada ao solo no meio de uma vinha, já vindimada, mas ainda assim os cães de guarda alertaram o proprietário para a presença de um intruso, o que contribuiu para que o seu resgate pela Força Aérea Portuguesa tivesse acontecido com celeridade.


Rui Lopes - foto de Madalena Pires

Senhora e senhores,

Caros amigos, 

Temas e estórias não faltam por aí, mas o Rui optou por esta, optou por homenagear uma figura familiar por quem tem muita admiração e respeito. 

Quem conhece o Rui sabe que ele é um homem de afetos e de emoções. 

Quem conhece o Rui Lopes identifica-o como arquétipo da generosidade. 

O Rui é um ativista na defesa do ambiente, da natureza e de modelos de desenvolvimento sustentáveis, o Rui preocupa-se com as injustiças sociais, o Rui coopera não compete, o Rui é um lutador contra a indiferença, o Rui dedica-se, direi, religiosamente à família e aos amigos, o Rui é o amigo com quem podemos sempre contar, o Rui está sempre disponível para quem o procura, o Rui é humildemente generoso como deviam ser os homens, mas o Rui é, sobretudo, um talentoso criativo que necessita espaço e oportunidades para se afirmar e mostrar toda a sua capacidade artística, de que este livro e, em particular, as ilustrações são uma pequena amostra do seu fértil universo de linguagens plásticas que é o seu território comunicacional de eleição.

Obrigado Rui, pelo convite e pela amizade! Obrigado pela vossa atenção!


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 24 de outubro de 2023


quarta-feira, 19 de abril de 2023

Dos pequenos ganhos tecnológicos à IA – 2/3

(continuação)

foto de Madalena Pires
O tema é vasto e complexo e não se esgota hoje, nem quando eu der por finda esta aproximação aos ganhos da revolução científica e tecnológica até chegarmos à Inteligência Artificial (IA) e à distribuição dos proveitos que daí resultam para a humanidade. Mas voltemos ao assunto e à tentativa de clarificar o que pretendia com o exemplo com que encerrei a última crónica.

2. Não levanto o tabuleiro na zona de restauração dos centros comerciais, pela mesma razão que me recuso a utilizar as caixas automáticas nos hipermercados, não faço o registro eletrónico de passageiro (check in) quando viajo de avião, continuo a adquirir as passagens numa agência de viagens, não encomendo alimentos pelas plataformas de entrega de comida em casa, não utilizo transportes ligados a plataformas eletrónicas, isto é, procuro não dar contribuições para a diminuição dos postos de trabalho e dos direitos dos trabalhadores, contudo, devo confessar que é difícil evitar todos os dispositivos de serviços eletrónicos colocados à nossa disposição e utilizo alguns, como por exemplo o sítio da “Autoridade Tributária”, para pagar impostos e submeter a declaração de IRS, ou ainda as caixas automáticas da banca.

imagem retirada da internet

As vantagens da automação para o cliente/consumidor ficam-se apenas pela comodidade, o que me parece muito pouco face aos enormes proveitos que, até agora, revertem integralmente para o capital. À diminuição do número de trabalhadores e, por consequência, dos custos do trabalho que resultam dos avanços científicos e tecnológicos deveria corresponder uma diminuição do preço pago pelos clientes/consumidores e/ou à diminuição dos horários de trabalho semanais e da idade para a reforma, mas o que verificamos é que nem os clientes/consumidores, nem os trabalhadores beneficiam, o desemprego aumenta, o rendimento do trabalho diminui, aumentam os apoios sociais e as teorias do excesso e controle da população ganham adeptos. 

Outros exemplos, quiçá, mais assertivos se podem encontrar, mas para exemplificar vou socorrer-me de uma alteração que se verificou há umas dezenas de anos e sobre a qual, à época, nada foi dito, ou terá sido e eu não dei a devida conta, mas induziu alguma reflexão nos cidadãos mais atentos e críticos tal como hoje continua a acontecer com as alterações sociais, económicas, políticas e culturais provocadas pelos avanços científicos e tecnológicos e pela IA. 

Alguns de nós lembram-se da existência nos transportes coletivos, urbanos ou suburbanos, de um motorista, um cobrador e por vezes a passagem de um fiscal. Quando criança os bilhetes eram retirados de um bloco de papel, cortados com auxílio de uma régua alinhada entre a partida e o destino, mais tarde os cobradores foram equipados com um instrumento que, mecanicamente, imprimia o título de transporte, passado pouco tempo a máquina foi fixada junto do motorista que, assim, passou a emitir os bilhetes, os fiscais continuavam a aparecer para fazer o controle da execução, os cobradores foram dispensados pois a sua função foi assumida pelo motorista. Neste pequeno salto tecnológico houve ganhos importantes e era esperado que os benefícios que daí advinham fossem redistribuídos. Os custos fixos de exploração da empresa diminuíram e a expetativa dos passageiros era que o preço diminuísse, e, os trabalhadores, naturalmente, esperavam que os seus salários aumentassem. Nem os preços das viagens diminuíram, nem a qualidade do serviço aumentou, nem os rendimentos dos trabalhadores cresceram em termos líquidos, ou ainda por outras compensações. O único beneficiário foi a empresa, perderam-se postos de trabalho, os clientes e os trabalhadores não beneficiaram com estas alterações. 

imagem retirada da internet
Neste, como em outros casos, não é a evolução da ciência e da tecnologia que me incomodam, o que verdadeiramente me preocupa são os efeitos sociais e económicos perversos provocados pelo aproveitamento unilateral dos benefícios. Quando este pequeno salto tecnológico aconteceu eu era um jovem adulto com alguma, pouca, consciência social e política, porém, percebi que o expetável talvez não viesse a acontecer e que os benefícios da revolução científica e tecnológica não seriam, como era esperado, para todos os intervenientes no processo económico que, se adivinhava, iria sofrer profundas alterações. 

A revolução científica e tecnológica, como era previsto, seguiu o seu curso ultrapassando as melhores expetativas que se previam nas juvenis discussões que no final dos anos 70 do século anterior mantinha com amigos e colegas. Facilitou a vida dos cidadãos (clientes/consumidores), melhorou as condições de acesso à informação, as comunicações com imagem em tempo real vulgarizaram-se. Os novos materiais, as tecnologias, a automação e a robótica introduziram alterações significativas nas condições de trabalho. Todo um mundo novo sonhado está aí, mas nem tudo o que era previsto se concretizou. A redistribuição dos benefícios não aconteceu e, uma vez mais, os trabalhadores foram as vítimas, lamentavelmente quem mais acreditava que a evolução dos processos de produção lhes traria vantagens nas relações laborais encontra-se hoje a resistir e a lutar para travar a barbárie liberal que provoca injustiças, retira direitos, escraviza e concentra, de forma pornográfica, a riqueza. 

Tenho a perceção que a maioria dos trabalhadores não tem consciência da globalidade do processo, e analisa estas transformações apenas e só na perspetiva do utilizador/consumidor e nas comodidades que daí lhe advêm, deixando de parte os aspetos perversos que a prazo o podem vir a afetar. Um breve olhar para o passado recente e para o presente é suficiente para nos apercebermos que não são só os trabalhadores indiferenciados e pouco qualificados que são descartados, cada vez mais assistimos à democratização da desgraça e os quadros técnicos e superiores são hoje os trabalhadores das praças de jorna onde se recruta mão-de-obra barata e disponível para trabalhar sem levantar ondas.

foto de Madalena Pires

A revolução científica e tecnológica excedeu as melhores previsões, mas os efeitos sociais, culturais e económicos não tiveram impactos positivos, salvo a comodidade na ótica do consumidor/utilizador, as relações de trabalho evoluíram, ao contrário do que era expetável, para a desregulamentação e aumento dos horários de trabalho, aumentou a idade limite para a reforma/aposentação, os rendimentos do trabalho diminuíram, o desemprego aumentou, a exclusão e a pobreza atingiram, de forma dramática, nas chamadas sociedades desenvolvidas, não só pelas alterações provocadas pela revolução científica e tecnológica, mas também pela desindustrialização e a transferência de capital para as periferias na busca de mão-de-obra sem direitos e a baixo custo.

Com a revolução científica e tecnológica esperavam-se, é certo, as comodidades de que estamos a usufruir, mas era expetável, mesmo nas democracias liberais, que os rendimentos do trabalho aumentassem e os horários fossem reduzidos, permitindo assim sustentabilidade para a Segurança Social pública (salários mais elevados, maiores contribuições), com a redução da idade da reforma e dos horários de trabalho permitia-se a entrada dos jovens mercado de trabalho, prevenia-se o desemprego estrutural.  A realidade é, porém, bem diferente a diminuição de custos com o trabalho (nos setores privado e público) foram canalizados, exclusivamente, para os empregadores. A extinção de postos de trabalho por via dos avanços científicos, técnicos e tecnológicos, a par da desregulação das leis laborais e da precariedade contribuiu para o aumento do desemprego (estrutural e conjuntural) e, por consequência, para a desvalorização do trabalho.

(continua)

Ponta Delgada, 18 de abril de 2023

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 19 de abril de 2023