Mostrar mensagens com a etiqueta fotosTiago Redondo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fotosTiago Redondo. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

descortesias, não

foto by Tiago Redondo




Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.







(...) Os ritos pagãos que estão na origem do Carnaval têm antigas e diversas origens, mas fique o leitor descansado que não é da evolução histórica da celebração do Carnaval que este texto vai tratar, ou talvez sim. Eu ainda não sei qual será o tema, mas alguma coisa se vai arranjar. Não entenda “alguma coisa se vai arranjar” como uma leviandade minha. Não. Se assim entendeu, entendeu mal. Mesmo sabendo das caraterísticas da celebração do Carnaval, tempo em que ninguém leva a mal, mas, ainda assim, nunca teria qualquer atitude menos responsável e respeitosa para consigo que aqui entrou. Provocações, admito que sim. Descortesias, não. (...)


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

envelhecer

foto by Madalena Pires
Eh senhor Aníbal! Tás ficando velhinho. Foi assim que fui saudado, há 2 ou 3 anos, durante um dos passeios de fim de tarde junto ao mar, passeios que tanto gosto de fazer. Esta genuína apreciação de um amigo, com quem já não me cruzava há muito tempo, tem sido motivo de algumas gargalhadas quando a partilho com outros amigos. 

Não me sinto – ainda - um velhinho, mas estou a envelhecer e considero que isso é bom. Nem todos chegamos a envelhecer, mas quem tem esse privilégio deve aceitá-lo com a consciência de que com o prolongar da vida chegam algumas limitações de ordem fisiológica. Faz parte do processo, não vale a pena ignorá-lo, mas também não deve assumir a centralidade das nossas inquietações, sob pena de se tornar mais doloroso do que as dores nas costas e articulações que, mais tarde ou mais cedo, nos tentam a calçar os chinelos e a acomodarmo-nos no sofá.

Não pretendo, longe disso, deixar receitas nem conselhos, sobre o que fazer e como fazer para envelhecer sem que isso se torne num pesadelo. Mas, aceitar as limitações, potenciar as faculdades que ainda dispomos e usufruir do tempo que agora é, apenas, nosso, será uma boa opção para continuar a percorrer a vida, apesar de naturais receios e inseguranças, sem nunca deixar de sonhar.  O medo e a insegurança podem privar-nos de sonhar, mas sem sonhos não há caminho para andar. Sem sonhos deixamos que o tempo passe e se transforme, apenas, em espera. E esperar é desesperar.

Em outubro de 2013 publiquei, no meu blogue, um pequeno texto que passo a transcrever: - O tempo só é importante porque a vida é finita e, por isso tão excitante. A eternidade seria entediante. Que fazer com tanto tempo, se agora com o tempo contado e com fim à vista deixamos que ele, o tempo, passe por nós. Por vezes até desejamos que passe depressa, o tempo, até inventamos passatempos, para iludir o tempo. O tempo não tem tempo, mas a vida tem, um tempo. Usa o tempo que a vida te der. Não faças do tempo e da vida, um passatempo.

foto by Tiago Redondo
Se há quase nove anos era, para mim, um modo de pensar a vida e a sua relação com o tempo. Hoje continua a ser tão válido como quando o escrevi, penso da mesma forma. A diferença é que agora, com a aposentação, tenho todo o tempo para mim, mas continuo, como sempre fiz, a dar utilidade ao tempo. Ainda que o meu tempo, com o seu passar, seja menos do que era ontem.

As alterações sociais, económicas e políticas que se verificaram a partir da década de 70, do século passado, com o renascimento e expansão do velho liberalismo, travestido de modernidade, contribuíram para o crescimento e diversificação das atividades do “terceiro setor”. Esse incremento tem a sua origem na delegação de competências dos Estados em instituições privadas, de solidariedade social ou não, para atender a necessidades crescentes de apoio social às populações mais fragilizadas e vítimas da barbárie liberal. Este é um tema sobre o qual vale a pena refletir profundamente, mas não será hoje. Esta referência justifica-se por que o “terceiro setor” tem no envelhecimento da população um dos mais importantes segmentos da sua atividade no âmbito da economia social.

O envelhecimento da população portuguesa tem contribuído para o crescimento dos “negócios” do “terceiro setor”, os centros geriátricos abundam e ainda assim, ao que ouço dizer, são insuficientes para fazer face à enorme procura dos familiares que necessitam de um local, tal como de creches para as crianças, onde possam entregar os seus idosos para que sejam apoiados e cuidados. 

foto by Madalena Pires
A uniformidade das soluções para os cuidados geriátricos, tal como o pensamento único, inquieta-me, tal como me angustia a infantilização das atividades que são promovidas para ocupar o tempo dos cidadãos entregues ao cuidado destas organizações, durante o dia ou a tempo inteiro. Ora aqui está uma, ou mais variações sobre o tema e acerca das quais importa refletir. 

A padronização da oferta favorece os promotores, mas não responde às necessidades dos cidadãos mais idosos que, naturalmente, são diversas, nem das famílias que querem participar e acompanhar o envelhecimento dos seus familiares, assim sejam libertadas da sobrecarga do seu horário de trabalho, e disponham de apoios para estar e cuidar dos seus. Outras alternativas, sem aumentar o financiamento público, são possíveis, assim haja vontade e coragem para as instituir.

Como ficou claro, desde a abertura desta “Sala de Espera”, este é um espaço onde procuro partilhar, mais do que opinião, algumas inquietações sobre o que nos rodeia e, sobretudo, contribuir para que a leitura induza à reflexão e ao contraditório. O texto de hoje, esse foi o objetivo, deixa em aberto algumas questões que afetam os nossos concidadãos que estão a envelhecer, ou seja, um assunto que interessa a todos.

Ponta Delgada, 22 de fevereiro de 2022

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 23 de fevereiro de 2022


quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

o bem mais precioso

foto by Tiago Redondo
Quem passou pela “Sala de Espera” do dia 12 de janeiro entrou, leu e conversou. Sim, conversou.

Uma querida amiga e leitora teve a amabilidade de me recordar que as antigas salas de espera eram, também, locais onde se conversava, por vezes em surdina, mas igualmente de forma a que todos ouvissem e pudessem participar no diálogo, se assim o entendessem. O meu regresso às colunas do jornal e a leitura do texto que abriu esta “Sala de Espera” gerou algumas conversas, umas públicas outras privadas (em surdina), o que me deixou satisfeito, permitam-me este registo, pois, quando conseguimos atingir o propósito só podemos ficar animados e com redobrada vontade de continuar a conversar convosco e a ouvir o que têm para dizer. 

Estamos a poucos dias de eleger 230 deputados para a Assembleia da República, cinco são eleitos pelo círculo dos Açores. Não sendo uma obrigação referir a questão eleitoral é, contudo, incontornável que neste espaço, sem fronteiras nem verdades absolutas, e neste momento, não deixe um registo que pretendo seja, apenas, um pequeno contributo para irmos votar. Votar onde cada um entender por bem, mas votar. 

foto by Madalena Pires

A abstenção sendo uma opção não serve nenhum intento pois, não retira legitimidade formal às eleições e não contribui, em nada, para mudar o que quer que seja. Quem se abstém delega a sua responsabilidade, valida os resultados eleitorais e certifica as políticas e os políticos que, os abstencionistas, tanto criticam. Por outro lado a liberdade, a autonomia e a democracia precisam de cuidados diários, como fazemos com um jardim que queremos sempre florido e viçoso. E participar é cuidar! Cuidar do presente e do futuro que queremos para nós e para os Açores, para o nosso país e para o mundo.


O voto útil, só é útil para o partido ou coligação que o recebe, ou seja, todas as opções são úteis. Importante mesmo é perceber a utilidade que cada partido ou coligação dá ao voto dos eleitores. Essa sim é a grande questão que os cidadãos devem considerar quando constroem a sua opção de voto.

E por aqui me fico no que diz respeito às eleições de 30 de janeiro. Depois do ato eleitoral é provável que venha a tecer algumas considerações sobre os resultados e os seus efeitos no nosso futuro próximo.

Não é de agora, sempre fui assim. Quando os lugares que intimam à quietude, naturais ou não, se enchem de ruído escapo-me furtivamente e procuro lugares do silêncio. Quando quero ruído e multidões, o que raramente acontece, procuro e vou, mas não gosto que me os imponham. Não faltam por aí lugares cheios de gente e onde a música e as palavras, numa amálgama de sons, abafam e anestesiam os sentidos. Não me dá prazer não sentir, ou ser induzido artificialmente em estados de euforia. 

foto by Aníbal C. Pires
Evito, mas nem sempre consigo furtar-me a umas idas para o seio da confusão de palavras gritadas e música muito acima dos decibéis aceitáveis para o ouvido humano. Raramente me divirto ou retiro algum prazer deste tio de atividade, digamos, lúdica. Há quem goste e se divirta, eu nem por isso. Respeito esta como outras opções de vida, mas na procura de dar utilidade ao tempo, o bem mais precioso da vida, prefiro os lugares do silêncio. Ler, escrever, ouvir música, uma amena cavaqueira numa roda de amigos, cinema, caminhar no verde e respirar azul, estar comigo (faz-me tão bem), procurar informação alternativa às “verdades” do mainstream (fundamental para a minha sanidade mental). Estas são algumas formas com que ocupo o meu tempo, não para que ele passe depressa, mas para lhe dar utilidade e com as quais me deleito.

Não pretendo impor formas de ser e estar na vida. Cada um de nós deve escolher, a cada momento, o que mais lhe aprouver para dar utilidade ao seu tempo e o caminho que quer percorrer, sem por em causa o bem-estar e as opções de terceiros. Eu continuo a escolher o meu caminho procurando, sempre, somar momentos de prazer à vida. Ou dito de outra forma procuro ser feliz pelo caminho e não no fim da caminhada.

Não esperem pela chegada ao destino para encontrarem a felicidade, sejam felizes durante o percurso. A felicidade é mais o que colhemos durante o caminho do que algo que encontramos no fim da caminhada.

Ponta Delgada, 25 de janeiro de 2022

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 26 de janeiro de 2022