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domingo, 6 de julho de 2025

Álamo Oliveira - 1945-2025

Álamo Oliveira partiu hoje para uma viagem que todos temos anunciada.
O poeta, dramaturgo e ficcionista disse num contexto de celebração:
(…) gostaria mais de ser lido que lembrado (…)

O Álamo Oliveira será sempre lembrado enquanto for lido. Digo eu, que de vontades e letras pouco entendo.



olhares

toda a manhã a vida esteve cinzenta 
com a alma molhada e uma tristeza 
duvidosa escorrendo do olhar.
a tarde chegou de cabelos escorridos prometendo 
deitar-se na cama da preguiça 
sem vontade de se despir nem de tirar 
os sapatos da angústia.
a vida sabe que não pode abrir a porta 
e fugir para o outro lado do etéreo.
pobres e ricos caem como soldados vagabundos 
na vala da vida.    o catrapiler dos sonhos 
cobrirá     com pesadelos     o mundo inteiro.
por isso    vai amanhecer outra vez 
com a vida cinzenta    a alma molhada 
e um olhar triste caindo como 
as telhas da casa    partindo-se.


Álamo Oliveira

domingo, 22 de junho de 2025

mapas de sangue

composição de João Pires com imagens retiradas da internet
analogia do terror


a terra vermelha 
de Oklahoma
o chão rasgado da Palestina 
manchados de sangue
molhados com lágrimas
dos povos colonizados

Trail of Tears 
Nakba
nomes diferentes 
a mesma fome
o mesmo luto
o mesmo silêncio
culturas apagadas
a mesma indiferença

Nakba
Trail of tears
marchas forçadas
pelo colonialismo
destinos forjados
traçados em
mapas de sangue

Trail of tears
Nakba
a mesma fome
o mesmo olhar vazio
a mesma violência
a repetir-se
como uma punição
por existir
apenas por existir

e a humanidade!?
onde foi que se perdeu?
talvez na poeira do caminho
com os corpos
que ninguém reclama
por não haver quem

sábado, 21 de junho de 2025

morada de infância

 
foto de Aníbal C. Pires
memórias de S. Vicente da Beira 


da infância na beira serra

por aqui
na sombra protetora da Gardunha
com tempo
brinquei com o tempo
medido nos ponteiros sonolentos
do relógio do campanário

por aqui
aprendi as primeiras letras
como quem descobre velhos segredos
decifrados nas ardósias 
e outros sedimentos do tempo

por aqui
aprendi a contar e a decifrar 
os sinais do tempo
observei a azáfama das formigas
e o voo frutífero das abelhas

por aqui
perdi medos
gritei aos quatro ventos
soube calar e ouvir
o peso dos silêncios

por aqui
fui criança e aprendi a olhar
a vastidão do Mundo
para além dos altos cumes
    rasguei horizontes

por aqui
ganhei amigos
dispersos pelos trilhos da vida
mas presentes na memória

por aqui
foi morada de infância
em recantos graníticos e pinheirais
em ruas ladeadas de muros
onde crescia musgo e esperança

as veredas do passado
permanecem na lembrança
como ecos de um lugar da infância
distante no tempo e no espaço
mas sempre presente

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, junho de 2025

sábado, 14 de junho de 2025

aprender

Aníbal C. Pires - do arquivo pessoal
olhando o Mundo


não aprendi nos quadros
nem nos manuais gastos 
por verdades prontas a servir

aprendi no chão que piso
nos passos que me levam pelo Mundo
que a cartografia coloca à margem
e a história cobre de brumas

a vida não tem currículo fixo
tem perguntas sem resposta
tem tardes de vento e silêncio
tem o rumor da água
tem outras verdades

a escola que me molda
é feita de um tempo lento
de escutar o voo dos pássaros
de sentir o coração das pedras
que guardam memórias

aprendi com o peito aberto
e a ver para lá do olhar
aprendo com o mundo
sento-me nas margens 
ouço os silêncios
aprendo

educar não é repetir
é questionar
é acordar
é saber que a cidadania
não se escreve a giz
nem se digita
a cidadania vive-se
nos caminhos da vida 
na luta 
no sonho que é esperança

Aníbal C. Pires, junho de 2025

quinta-feira, 12 de junho de 2025

da memória do tempo

foto Aníbal C. Pires
geografias da pele


os rostos contam histórias

e gosto

das histórias que os rostos me contam
são imagens 
traçadas a carvão
na memória do tempo

olhos que guardam histórias
carregam a poeira dos caminhos
e brilham como o lume
que aquece
ilumina 
e aconchega

não imploro por nomes
nem datas
nem lugares
só quero as memórias
e as histórias
que os rostos me contam

leio as geografias da pele
como um livro
feito de histórias
silenciadas

são narrativas
que contam sem dizer
a história dos rostos
que só o silêncio
sabe ler

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 12 de junho de 2025

domingo, 20 de abril de 2025

dos silêncios cúmplices

do que resta


felicidade e prosperidade 
palavras volúveis
ecos na penumbra do quotidiano
extintos com o brilho dos fogos de artifício

restam os gestos
ao fim da tarde
o pão partilhado
as palavras livres
as mãos que afagam
cumplicidades

resta a luz que alimenta
a esperança
o olhar que anima
não pede desculpa
não diz obrigado
nem cansa

resta a esperança
a renascer dia após dia
na perene luta
pela humanidade
perdida na Palestina
dos silêncios cúmplices

Ponta Delgada, 6 de janeiro de 2025

sábado, 22 de março de 2025

poemas com propósito

renovar


da verde árvore
cai a folha morta
renova-se a árvore
putrefaz a folha


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 15 de Outubro de 2016, (in Esperança Velha e outros poemas, Letras Lavadas, 2020)



perfídia


o poeta 
trocou o futuro
pelo passado

o poeta
trocou o sonho
pelo pesadelo

o poeta
acabou só
só, como um prostituto
num quarto vazio de ideias

o poeta
acabou só
só, como um prostituto
num quarto lotado pela perfídia

o poeta
acabou só
só, como um prostituto
num quarto sem palavras      nem poesia


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 19 de Outubro de 2016, (in Destroços à Deriva, Letras Lavadas, 2024)




poesia portuguesa contra o massacre na Palestina

A Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP) convidou mais de quatro dezenas de autores portugueses a responder a uma dúvida: «E depois de Gaza, é possível ainda a poesia?».

São exatamente quarenta e quatro os/as poetas que responderam ao desafio contribuindo para a coletânea de poemas que a AJHLP acaba de editar na colecção «explicação das árvores» com o título o silêncio dos meninos mortos e o subtítulo poemas portugueses contra o massacre do povo palestiniano.


Este foi o meu contributo:


guardam sonhos

no jardim das oliveiras 
guardam sonhos
de paz

do rio até ao mar
guardam sonhos
de liberdade


Aníbal C. Pires, novembro de 2023

sábado, 4 de janeiro de 2025

Rosa de Jericó - poesia para a Palestina

imagem retirada da internet
rosa de Jericó

no pomar das laranjeiras
as tuas lágrimas
molham o chão sagrado

no horto das oliveiras
o teu pranto
ecoa no tempo

as lágrimas
inundam corações
despertam consciências

o pranto
retumba como apelo
de humanidade

as lágrimas
fertilizam
o teu chão sagrado

o pranto
é o grito surdo
que brada por liberdade

choro e luto por ti
Palestina
viverás livre do rio até ao mar

das tuas cinzas
vão florir rosas de Jericó

as-salamu alaikum 
aalaikum as-salaam

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 4 de janeiro de 2025

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

ciclos

desenho de João Pires
jardins do tempo

chego com a luz
da Primavera 
e os rosmaninhos em flor

regresso no Verão
ao mar
do meu contentamento

no Outono 
passeio pelas tardes
coloridas de nostalgia

contemplo as árvores desnudas
memórias nas folhas caídas 
aconchego-me nos livros de Inverno


Ponta Delgada, 4 de dezembro de 2024

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

poesia da Palestina (4)

imagem retirada da internet
Eu todo povo


Naquela noite
Sem lua
Sequestrado
Amarrado
Vendado os olhos
Espancado
Torturado
Jogado nu ao frio
De uma cela
Solitária.

Ao ouvir os sons da noite
Sorri…
Nunca estou só
Em mim
Todo meu povo.

Yasser Jamil Fayad

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

poesia da Palestina (3)

As tonalidades da ira

Deixem-me falar na minha língua árabe
antes que também ocupem minha língua.
Deixem-me falar na minha língua materna
antes que também colonizem sua memória.
Sou uma mulher árabe de cor
e viemos em todas as tonalidades da ira.
Tudo o que meu avô sempre quis fazer
foi levantar-se ao alvorecer e observar
a avó prostrar-se a rezar
numa aldeia escondida entre Jafa e Haifa.

Minha mãe nasceu sob uma oliveira
num chão que, dizem, já não é meu;
mas vou cruzar as barreiras, o checkpoint,
os muros loucos do apartheid e voltarei para casa.

Sou uma mulher árabe de cor
e viemos em todas as tonalidades da ira.
Ouviram ontem os gritos da minha irmã,
quando dava à luz num checkpoint
com soldados israelitas olhando entre as suas pernas a próxima ameaça demográfica?
à filha nascida chamou-lhe, Jenin.
E ouviram alguém gritar
«estamos de voltando à Palestina!»
atrás das grades da prisão,
enquanto disparavam gás lacrimogéneo para a cela?
Eu sou uma mulher árabe de cor
e viemos em todas as tonalidades da ira.

Mas dizes-me que esta mulher que há dentro de mim
só te trará o teu próximo terrorista:
barbudo, armado, lenço na cabeça, negro.
dizes-me que mando os meus filhos para morrer?
mas esses são os teus helicópteros,
os teus F-16 no nosso céu.

E falemos um pouco sobre esta questão do terrorismo...
Não foi a CIA que matou Allende e Lumumba?
E quem primeiro treinou Osama?
Meus avós não corriam em círculo, como palhaços,
com capas e capuzes brancos na cabeça
linchando negros.

Eu sou uma mulher árabe de cor
e viemos em todas as tonalidades da ira.
«Quem é essa mulher morena gritando na
manifestação?»
Desculpe. Não deveria gritar?
Esqueci de ser todos os teus sonhos orientais?
O génio da garrafa,
bailarina da dança do ventre,
mulher do harém,
voz suave,
mulher árabe,
Sim, senhor.
Não, senhor.
Obrigado pelas sandwiches de amendoim
que nos atiras dos teus f-16, gosto.

Sim, os meus libertadores estão aqui para matar os meus filhos
chamando-lhe «dano colateral.»

Eu sou uma mulher árabe de cor
e viemos em todas as tonalidades da ira.
Assim, deixa-me dizer-te, que esta mulher que há dentro de mim
só te trará teu próximo rebelde.
Terá uma pedra numa mão e uma bandeira palestina na outra,
Sou uma mulher árabe de cor...
Tem cuidado, tem cuidado,
com a minha ira.

Rafeef Ziadah



sábado, 16 de novembro de 2024

poesia da Palestina (2)

imagem retirada da internet

O DILÚVIO E A ÁRVORE

Quando a tempestade satânica chegou e se espalhou
No dia do dilúvio negro lançado
Sobre a boa terra verdejante
“Eles” contemplaram.
Os céus ocidentais ressoaram com explicações de regozijo:
“A Árvore caiu!
O grande tronco está esmagado! O dilúvio deixou a Árvore sem vida!”

Caiu realmente a Árvore?
Nunca! Nem com os nossos rios vermelhos correndo para sempre,
Nem enquanto o vinho dos nossos membros despedaçados
Saciar nossas raízes sequiosas
Raízes árabes vivas
Penetrando profundamente na terra.

Quando a Árvore se erguer, os ramos
Vão florir verdes e viçosos ao sol
O riso da Árvore desfolhará
Debaixo do sol
E os pássaros voltarão
Sim, os pássaros voltarão com certeza
Voltarão.

FADWA TUQAN

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

poesia da Palestina (1)

 

Oh crianças malcriadas de Gaza





Oh crianças malcriadas de Gaza.
Vocês que me perturbavam o tempo todo
com seus gritos debaixo da minha janela.
Vocês que enchiam de caos e correria
todas as minhas manhãs.
Vocês que quebraram meu vaso
e roubaram a flor solitária em minha varanda.
Voltem,
e gritem o quanto quiserem
e quebrem todos os vasos.
Roubem todas as flores.
Voltem.
Apenas voltem.

Khaled Juma



sexta-feira, 8 de novembro de 2024

da poesia


A propósito do VII Encontro Internacional de Poesia da Macaronésia. 


a poesia é o lugar das palavras que mudam o mundo

Aníbal C. Pires


Ponta Delgada, 08 de novembro de 2024




sábado, 1 de junho de 2024

mulheres da Palestina - a abrir junho

Mulher palestina: coragem, luta, resistência, mãe, poesia. 

E é com a poesia de Mahmoud Darwish que o “momentos” abre junho.







À MINHA MÃE

Tenho saudades do pão da minha mãe,

Do café da minha mãe,

Do carinho da minha mãe...

Estou a crescer,

De dia para dia,

E amo a vida, porque

Se morresse,

Teria vergonha das lágrimas da minha mãe!

Se um dia voltar, faz de mim

Uma sombrinha para as tuas pálpebras.

Cobre os meus ossos com a erva

Baptizada sob os teus pés inocentes.

Ata-me

Com uma mecha dos teus cabelos,

Um fio caído da orla do teu vestido...

E serei, talvez, um deus,

Talvez um deus,

Se tocar o teu coração!

Se voltar, esconde-me,

Lenha, na tua lareira.

E pendura-me,

Corda da roupa, no terraço da tua casa.

Falta-me o ânimo

Sem a tua oração diária.

Envelheci. Faz renascer as estrelas da infância

E partilharei com os filhos das aves,

O caminho do regresso...

Ao ninho onde me esperas!


Mahmoud Darwish


terça-feira, 16 de abril de 2024

a ocidente da ultraperiferia

Uma feliz coincidência que resulta de um convite da Área Sindical das Flores (SPRA), ao qual as Câmaras Municipais das Flores se associaram, vai acontecer a primeira apresentação pública do livro “Destroços à Deriva”. 

Apresentar o meu último livro de poemas na ilha das Flores tem, para mim, um profundo significado. Numa Região como os Açores onde, por força das circunstâncias geográficas, mas também pela vontade dos homens, existe uma tendência para a centralização. Promover a apresentação de um livro de poemas numa das ilhas periféricas da ultraperiferia é, só por si, um acontecimento que não posso deixar de realçar.




Hoje (16 de abril), pelas 20h30mn, no Museu das Lajes das Flores, vou dinamizar uma conversa/tertúlia sobre os “50 anos do 25 de Abril”. Seguindo-se a primeira apresentação pública, por Gabriela Silva (escritora), do livro “Destroços à Deriva”.


Amanhã (dia 17 de abril) durante a manhã e a tarde estarei com os alunos do 3.º CEB e Secundário da EBS das Flores para conversar sobre “Educação e o 25 de Abril”, mas também sobre livros e leitura. 




À noite (dia 17 de abril), pelas 20h30mn, no Centro Cultural de Santa Cruz, terá lugar uma conversa/tertúlia sobre os “50 Anos do 25 de Abril” e a apresentação pública, por Lília Silva (professora), do livro “Destroços à Deriva”.

Agradeço à Área Sindical das Flores (SPRA), à Câmara Municipal das Lajes das Flores e à Câmara Municipal de Santa Cruz das Flores.

Bem hajam!

Aníbal C. Pires, Santa Cruz das Flores (Hotel Servi Flor), 16 de abril de 2024


quarta-feira, 10 de abril de 2024

a caminho das livrarias

É chegada a hora de desvendar alguns pormenores do livro de poemas “Destroços à Deriva”.

Um novo projeto com a habitual parceria de Ana Rita Afonso, autora da capa e das ilustrações concebidas para os poemas.

Fica a capa e um pequeno excerto do texto introdutório.

(…) A Ana Rita Afonso, companheira de viagem nas minhas incursões literárias, junta-se, de novo, a este projeto editorial. A fusão das palavras com as artes plásticas valoriza, diversifica e atrai novos públicos. As palavras chegam mais longe em virtude da arte pictórica e, esta, por sua vez chega a outros públicos, ainda que as ilustrações, por si só tenham um valor intrínseco e possam constituir-se como uma expressão artística autónoma, ou mesmo independente dos poemas, o mesmo se poderá dizer das palavras. (…)


sexta-feira, 1 de março de 2024

Amira Al-Assouli - a abrir março

Amira Al-Assouli - imagem retirada da internet

Amira Al-Assouli, médica no Hospital Nasser em Gaza, arriscou a vida para socorrer pessoas em Khan Younis com a sua equipa, debaixo do fogo israelita. Perdeu familiares, amigos e a casa, mas continua o seu trabalho em Gaza, Palestina.

Lindas são as mulheres que lutam.

Os olhos do civilizado mundo “ocidental” fecham-se agora, como se fecharam em 1948, perante as atrocidades dos sionistas que ocupam a Palestina.

Até quando vamos continuar a permitir este genocídio!? Só não ouve e não vê quem não quer.

 



"Vemos, ouvimos e lemos

Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos

Não podemos ignorar"

 

(...)

"Nada pode apagar

O concerto dos gritos

O nosso tempo é

Pecado organizado."

 

Excertos do poema Cantata da Paz de Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 20 de janeiro de 2024

Amílcar Cabral, pelos 51 anos da sua morte

foto retirada da internet
Passam hoje 51 anos sobre a morte de Amílcar Cabral. O "momentos" assinala esta data prestando assim tributo ao líder que conduziu a luta armada, para a qual foi empurrado, pela independência da Guiné e Cabo Verde (quem fecha as portas à revolução pacífica abre as portas à revolução violenta).

Os caminhos do pós-independência foram diversos para estes dois países para os quais Amílcar sonhava paz, prosperidade, justiça social e económica. 

Os herdeiros políticos de Amílcar Cabral destruíram, quer em Cabo Verde, quer na Guiné-Bissau, o seu projeto político e defraudam a cada dia o sonho e a utopia que mobilizou aqueles povos para se libertarem do colonialismo português.

"Se alguém me há de fazer mal, é quem está aqui entre nós. Ninguém mais pode estragar o PAIGC, só nós próprios."

Amílcar Cabral

foto de Madalena Pires (2016)

O insurgente Amílcar, como todos os revolucionários, era um humanista e uma personalidade sensível às artes e à libertação pela cultura.

A minha poesia sou eu

… Não, Poesia:
Não te escondas nas grutas de meu ser,
não fujas à Vida.
Quebra as grades invisíveis da minha prisão,
abre de par em par as portas do meu ser
— sai…
Sai para a luta (a vida é luta)
os homens lá fora chamam por ti,
e tu, Poesia és também um Homem.
Ama as Poesias de todo o Mundo,
— ama os Homens
Solta teus poemas para todas as raças,
para todas as coisas.
Confunde-te comigo…
Vai, Poesia:
Toma os meus braços para abraçares o Mundo,
dá-me os teus braços para que abrace a Vida.
A minha Poesia sou eu.

Amílcar Cabral, em “revista Seara Nova”, 1946.