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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Vanessa Redgrave - a abrir abril

Vanessa Redgrave em 1978

A vida e obra de Vanessa Redgrave não se esgota no brilho do palco ou na consagração do cinema. Há, nesta mulher, uma coerência rara, quase intempestiva, entre a arte e a consciência. Desde os anos 1970, quando a causa palestiniana era ainda mais marginalizada no espaço mediático ocidental, Redgrave recusou o conforto da neutralidade. Fê-lo com a frontalidade de quem sabe que certas causas não admitem meias-palavras: ou se está do lado da dignidade de um povo ou se consente, por omissão, na sua negação.

A sua defesa intransigente da Palestina custou-lhe ostracismo, críticas ferozes e até ameaças, sobretudo após o documentário The Palestinian e o célebre discurso nos Óscares, em 1978, onde denunciou o que chamou de “intimidação sionista”. Mas, ao contrário de tantos que modulam o discurso ao sabor das circunstâncias, Redgrave manteve-se firme, não por provocação, mas por convicção ética. A sua voz, tantas vezes isolada, tornou-se um testemunho incómodo: lembra-nos que o silêncio, quando se torna regra, é também uma forma de cumplicidade.

Aos 88 anos numa manifestação 

Em Vanessa Redgrave há qualquer coisa de antigo, quase trágico, no sentido clássico: a fidelidade a uma verdade interior que não se negoceia, mesmo quando o preço é elevado. A sua posição face à Palestina não é apenas política, é, sobretudo, a recusa frontal de aceitar que a injustiça possa ser normalizada. E talvez por isso a sua voz, ainda hoje, ressoe não como um eco do passado, mas como uma pergunta persistente dirigida ao presente.


domingo, 22 de fevereiro de 2026

a normalização da barbárie

imagem retirada da internet

A Palestina não é um lugar distante.

É um nome que arde no mapa e um corpo ferido no tempo.

Não é apenas Gaza, esse fragmento de mundo cercado por muros e números; é toda a terra palestiniana, atravessada por décadas de violência metódica. Uma violência que não grita apenas quando cai a bomba, mas que sussurra todos os dias, quando uma casa é tomada, uma oliveira arrancada, um nome apagado.

O que ali acontece não é excesso nem desvio. É um projeto colonial.

Como tantos outros na história, nasceu do gesto inaugural do colonialismo: ocupar, substituir, reescrever. Onde havia aldeias, erguem-se cidades coloniais; onde existia memória, instala-se a amnésia forçada. O mapa vai sendo cartografado como se a terra não tivesse já voz, como se os mortos não deixassem vestígios.

Durante demasiado tempo, o mundo escolheu não ver. A barbárie prolongada foi tratada como fundo de cenário, ruído distante, tragédia repetida até se tornar tolerável. Mesmo quando os olhos globais se voltaram para Gaza, foi por instantes breves, sob a ilusão de um cessar-fogo anunciado e nunca cumprido. Bastou que outras ameaças ocupassem o ecrã para que a Palestina regressasse ao lugar que o mundo lhe tem reservado: o da dor invisível.

imagem retirada da internet
Mas nem tudo é silêncio. Há vozes que persistem, como pequenas fogueiras acesas na noite escura. A relatora especial das Nações Unidas, Francesca Albanese, tem recusado a linguagem neutra que absolve o crime. Há figuras públicas que, sabendo o custo da palavra, escolhem dizê-la, como Pepe Guardiola, Susan Sarandon, e fazem-no não como celebridades, mas como cidadãos que recusam o conforto do silêncio. Há ainda milhões de anónimos que marcham, escrevem, boicotam, lembram. A dignidade, por vezes, sobrevive assim: em gestos dispersos, mas obstinados.

Ainda assim, uma narrativa insiste em impor-se: a de que a Palestina é palco de um conflito religioso ancestral, insolúvel, quase mítico. Uma história conveniente, que transforma a ocupação em destino e a violência em desígnio divino. Segundo essa versão, um povo “eleito” reclamaria a terra como herança sagrada, da Palestina aos territórios limítrofes, invocando a promessa antiga da “terra prometida”.

Mas esta não é uma guerra de deuses.

É uma disputa de poder.

O sionismo não é fé, é ideologia. Não é religião, é programa político. E como todos os programas de supremacia, funda-se na ideia de que uns têm direito pleno à terra, à vida e à história, enquanto outros devem aceitar a condição de sobra, de obstáculo, de erro a corrigir. Não por acaso, muitos judeus, crentes e não crentes, recusaram e recusam este projeto, precisamente por reconhecerem nele uma traição ética à sua própria tradição e religião.

“Israel” não é um Estado judaico.

“Israel” é um Estado sionista.

imagem retirada da internet
Confundir judaísmo com sionismo é um ato de violência simbólica. Serve para legitimar a ocupação e, ao mesmo tempo, para silenciar a dissidência judaica. Serve para chamar conflito ao que é dominação, segurança ao que é cerco, defesa ao que é massacre. Serve, sobretudo, para tornar aceitável o inaceitável.

E assim, entre palavras gastas e eufemismos bem polidos, o mundo vai aprendendo a conviver com o intolerável. A Palestina permanece ali, ferida e presente, como um espelho incómodo. Não pede piedade. Exige justiça. E enquanto essa exigência for tratada como excesso, o verdadeiro escândalo não será apenas o que acontece na Palestina, mas aquilo em que o mundo se transforma ao permitir que a barbárie seja um novo normal.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 22 de fevereiro de 2026


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Fadwa Tuqan - a abrir fevereiro

imagem retirada da internet

Fadwa Tuqan (1917–2003) foi uma das vozes maiores da poesia palestiniana e árabe do século XX. Nascida em Nablus, numa sociedade profundamente patriarcal, fez da escrita um gesto de libertação pessoal e coletiva. A sua poesia nasceu do silêncio imposto às mulheres e transforma-o em palavra clara, íntima, muitas vezes dolorosa, onde o eu e o mundo se refletem mutuamente.

Com o passar dos anos, a sua obra evoluiu para uma poesia de resistência, profundamente marcada pela ocupação da Palestina. Sem abandonar a delicadeza do tom, Fadwa Tuqan soube dar forma poética à perda, ao exílio e à persistência de um povo, recusando tanto o grito fácil como a retórica vazia.


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Hanan Awwad - a abrir janeiro

imagem retirada da internet
Hanan Awwad escreve a partir de um lugar onde a palavra é casa provisória e resistência silenciosa. Na sua escrita, a Palestina não surge como abstração política, mas como corpo ferido, memória perseverante, gesto quotidiano de sobrevivência. Cada frase carrega a gravidade da perda e, ao mesmo tempo, a recusa em desaparecer.

A sua voz é contida e firme, sem concessões. Escreve para permanecer, para contrariar a tentativa de apagamento, para lembrar que a literatura pode ser uma forma de respirar sob ocupação e de lutar, mesmo na noite mais escura, a dignidade humana.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Malak Mattar - a abrir dezembro

imagem retirada da internet

Malak Mattar, pintora palestiniana nascida em Gaza, transformou a sua arte num lugar de respiração num território onde o ar é constantemente roubado. A cada tela, a cada figura feminina que emerge com olhos grandes e luminosos, ela celebra a vida apesar do cerco, da ocupação colonial e do apartheid. O seu trabalho é um gesto de afirmação num mundo que insiste em negar a existência do seu povo. Na sua obra a resistência é tornada cor e os silêncios em gritos de denúncia. Nas suas pinturas há uma espécie de permanência obstinada, prova de que a identidade palestiniana não se apaga e que a vontade de um povo não se extingue nas ruínas da sua cidade natal.



As mulheres palestinianas sempre estiveram no centro desta resistência, não apenas como vítimas da violência colonial, mas como agentes da sua própria história. Elas sustentam comunidades, protegem memórias, educam os filhos para reconhecerem a injustiça e levantarem a cabeça. São presença nos protestos, nas cozinhas, nos hospitais de campanha, nas escolas improvisadas, nas casas que renascem após cada bombardeamento. Malak Mattar representa-as: firmes, dignas, inteiras, mesmo quando o mundo as quer quebradas.

a colheita da azeitona - Malak Mattar

E talvez seja esta a força maior da sua obra, ou seja, mostrar que, na Palestina, a cultura é mais do que herança, é continuidade. As mulheres transmitem canções, sabores, gestos, histórias de raízes profundas, projetam no futuro aquilo que a ocupação tenta arrancar ao presente. A pintura de Malak Mattar prolonga esse fio antigo, levando-o para além das fronteiras impostas, declarando ao mundo que a identidade palestiniana resiste porque vive, e vive porque é passada de mão em mão, de mãe para filha. Na obra de Malak Mattar, a arte torna-se o gesto que preserva a herança cultural e, ao mesmo tempo, afirma a luta contra a ocupação colonial e o genocídio.


sábado, 1 de novembro de 2025

Rafeef Ziadah - a abrir novembro

Há mulheres cuja voz nasce da ferida e floresce na resistência, na luta e na esperança. Rafeef Ziadah é uma delas. Filha da Palestina, carrega na respiração a poeira das casas destruídas e o perfume das oliveiras que teimam em renascer. Fala com a força de quem aprendeu que cada palavra pode ser um muro contra o esquecimento e contra a barbárie genocida, um abrigo para um povo exilado na sua própria terra.

Quando diz “Ensinamos a vida, senhor”, é a vida inteira que se levanta, as mães que choram, semeiam e lutam, as crianças que brincam entre ruínas, os homens que sonham com o regresso. A sua voz não suplica: afirma. Faz da dor matéria de beleza, do amor à terra uma forma de dignidade e de luta.

Em Rafeef Ziadah, a poesia é fronteira, travessia e luta. É ferida e bálsamo. A sua palavra tem a limpidez da água e o peso da memória. E enquanto houver uma mulher palestiniana a dizer o nome da sua terra com esta clareza, a Palestina continuará viva, não apenas no mapa, mas no coração de quem escuta - viva no coração da humanidade.

“Ensinamos a vida, senhor — ensinamos a vida, mesmo depois de nos terem roubado o último céu.”

Rafeef Ziadah


quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Heba Zagout - a abrir outubro

imagem retirada da internet

(…) calaram as tuas mãos
não apagaram a tua arte
nas tuas telas respira a Palestina
das oliveiras
dos rostos
das crianças
da memória (…)

Aníbal C. Pires





imagem retirada da internet

Heba Zagout pintava com as cores da terra e do exílio, como quem bordava na tela a memória coletiva de um povo. Cada traço era resistência, cada figura uma afirmação de existência contra o apagamento. Na sua arte cabiam as oliveiras, as mulheres, as casas teimosamente reerguidas sob as ruínas.

No dia 13 de outubro de 2023, as bombas genocidas da ocupação sionista calaram-lhe as mãos, mas não o seu legado. As suas telas sobrevivem como gritos silenciosos, como faróis no meio das trevas, lembrando que a Palestina não é só dor, mas também beleza e vida perseverante.

A sua morte não é apenas ausência é, sobretudo, presença transformada em luz. Heba permanece no gesto de cada criança que desenha o céu sobre Gaza, na voz de cada mulher que resiste, no sopro de cada artista que ousa criar sob o jugo colonial sionista e dos seus cúmplices. 


segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Mariam Abu Daqqa - a abrir setembro

A chacina de jornalistas e o genocídio continua na Palestina ocupada pelo estado colonial e sionista.

Mariam Abu Daqqa, repórter internacional, foi morta junto de colegas por um bombardeio sionista ao Hospital Nasser de Khan Younis, no sul de Gaza. O assassinato de Mariam ocorreu no dia 25 de agosto pp, com ela morreram mais 20 pessoas.

O estado colonial sionista já assassinou mais de 200 jornalistas, mas por cá (a ocidente) os jornalistas e comentadeiros avençados continuam a justificar o injustificável com o 7 de outubro e o Hamas, como se tudo não tivesse começado há mais de um século.

O silêncio é cúmplice.


sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Heba Abu Nada - a abrir agosto

Heba estudou na Universidade Islâmica de Gaza, onde obteve o diploma de bacharelato em bioquímica e, em seguida, o mestrado em nutrição clínica pela Universidade Al-Azhar de Gaza, também em Gaza.Em 2017, ganhou o Prémio Sharjah de Criatividade Árabe (segundo lugar) pelo seu romance intitulado: "O oxigênio não é para os mortos"

Em 20 de outubro de 2023, Heba foi morta durante um ataque aéreo perpetrado pela Força Aérea sionista contra a sua casa. Heba tinha 32 anos.

É mais um rosto de mulher a abrir o mês no blogue momentos. É mais um nome com rosto a juntar aos milhares e milhares de assassinatos que, desde 1948, os ocupantes sionistas perpetraram contra o povo palestiniano. Vítimas com rosto e nome.

Fica um poema desta mulher palestiniana.


O ÚLTIMO POEMA

A noite na cidade é escura, 
exceto pelo brilho dos mísseis; 
silenciosa, exceto pelo som do bombardeio; 
aterradora, exceto pela promessa lenitiva da oração; 
tenebrosa, exceto pela luz dos mártires.

Heba Abu Nada

domingo, 22 de junho de 2025

mapas de sangue

composição de João Pires com imagens retiradas da internet
analogia do terror


a terra vermelha 
de Oklahoma
o chão rasgado da Palestina 
manchados de sangue
molhados com lágrimas
dos povos colonizados

Trail of Tears 
Nakba
nomes diferentes 
a mesma fome
o mesmo luto
o mesmo silêncio
culturas apagadas
a mesma indiferença

Nakba
Trail of tears
marchas forçadas
pelo colonialismo
destinos forjados
traçados em
mapas de sangue

Trail of tears
Nakba
a mesma fome
o mesmo olhar vazio
a mesma violência
a repetir-se
como uma punição
por existir
apenas por existir

e a humanidade!?
onde foi que se perdeu?
talvez na poeira do caminho
com os corpos
que ninguém reclama
por não haver quem

domingo, 1 de junho de 2025

mulheres da Palestina - a abrir junho

imagem retirada da internet
Podia trazer uma outra imagem de mulheres palestinianas para marcar o início do mês de junho. Imagens de morte e terror, optei por uma imagem de heroísmo, luta e resistência.

São mulheres palestinianas, são mulheres que lutam e resistem. São lindas como todas as mulheres que lutam.


terça-feira, 27 de maio de 2025

o mundo em mudança e... a Palestina

imagem retirada da internet



Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.




(...) Fora da bolha euro-atlântica, o mundo já começou a reagir. Em África, especialmente no Sahel e entre os países da CEDEAO, assistimos a um levantamento contra o neocolonialismo e as elites locais aliadas às antigas potências coloniais. Em alguns casos foram Golpes de Estado? Talvez. Mas também sinais claros de que uma nova geração rejeita o papel de marioneta num teatro montado em Paris, Londres ou Washington.

Na América Latina, o mapa político mudou. México, Colômbia, Venezuela e Brasil estão a afirmar soberania e a questionar décadas de submissão ao Fundo Monetário Internacional e aos interesses estado-unidenses, não são mais o quintal do seu vizinho do Norte. O Sul Global está a criar as suas próprias alianças, os seus próprios fóruns, a sua própria linguagem política, e veja-se o despropósito, não está à espera da aprovação de ninguém.

Mas talvez o exemplo mais gritante da falência moral do Ocidente seja a Palestina. O que está a acontecer em Gaza é um genocídio transmitido em direto. E mesmo assim, os líderes ocidentais hesitam, relativizam, justificam. O direito internacional, que durante décadas foi brandido como argumento de superioridade civilizacional, tornou-se irrelevante quando os aliados do Ocidente o pisam com as botas cardadas do sionismo. A hipocrisia é total. A humanidade, ausentou-se e os direitos humanos suspenderam-se. (...)


domingo, 18 de maio de 2025

Nakba - a catástrofe.

imagem retirada da internet
No discurso dominante ocidental, o conflito na Palestina parece ter nascido a 7 de outubro de 2023. Desde essa data, os noticiários e o mainstream passaram a repetir análises simplificadas e simplistas, retratando Israel como uma democracia alvo de ataques por forças bárbaras. Muitas imagens foram instrumentalizadas e algumas, no mínimo, manipuladas para induzir repulsa seletiva, desumanizar os palestinianos, legitimar uma campanha militar genocida em Gaza e um silêncio cúmplice, fez-se ouvir no Mundo, perante os crimes de guerra, perante a barbárie. Mas quem olha para o mundo para além da espuma mediática reconhece outra realidade. A narrativa dominante é falsa e serve para legitimar um processo colonial e genocida promovido pelo sionismo. A génese deste conflito não começou em 2023, nem em 2000, nem em 1967. O conflito não começou com o Hamas. O conflito começou com a Nakba, a Catástrofe palestiniana, e a origem deste projeto colonial é muito anterior a 1948, remonta ao fim do século XIX.

A Palestina era, no final do século XIX, uma terra habitada maioritariamente por árabes palestinianos (muçulmanos, cristãos e judeus). Era parte do Império Otomano e, apesar das dificuldades inerentes à época e ao contexto político e económico, vivia-se ali com relativa estabilidade e harmonia inter-religiosa. Essa realidade começou a mudar com o surgimento do sionismo político, um movimento europeu que defendia a criação de um Estado judeu (leia-se: estado sionista, pois existem diferenças substantivas, diria mesmo incompatíveis, entre a religião judaica e a ideologia sionista).

No Congresso Sionista Mundial de 1897, em Basileia, Theodor Herzl lançou as bases desse projeto. A ideia era simples, mas a sua concretização brutal: resolver a questão judaica na Europa (perseguições, pogroms, discriminação) através da fundação de um Estado exclusivamente judeu, leia-se sionista. A Palestina, de entre outros que foram equacionados, foi o território escolhido, sem ter em devida conta que ali vivia um povo pacífico e com uma cultura secular. 

imagem retirada da internet

Esta proposta foi ganhando apoio nas potências europeias, culminando na Declaração Balfour de 1917, quando o Império Britânico se comprometeu expressamente a apoiar a criação de um lar nacional para o povo judeu na Palestina. Tudo isto à margem do povo palestiniano, o destino daquele território e daquele povo foi decidido em Londres. A Palestina transformou-se, a partir daí, num território arquitetado para ser colonizado, com suporte político e militar de uma potência imperial, com os mesmos contornos e os mesmos efeitos de outros projetos coloniais. Este projeto colonial vem embrulhado numa mal disfarçada redenção europeia face às seculares perseguições aos judeus e ao Holocausto 

Durante o Mandato Britânico da Palestina (1920–1948), dezenas de milhares de judeus europeus migraram para a Palestina, na sua maioria financiados por organizações sionistas. Muitas dessas migrações foram pacíficas, mas outras envolveram compra forçada de terras, expropriação de camponeses e construção de enclaves fechados. As tensões foram-se avolumando. A população árabe resistia, organizava greves, revoltas e boicotes, mas era sufocada e reprimida com violência.

Foi neste contexto que ocorreu um episódio pouco conhecido e debatido, vá-se lá saber porquê, mas revelador da natureza sionista e do seu projeto colonial. Refiro-me ao Acordo de Haavara, assinado em 1933 entre o regime nazi alemão e alguns líderes sionistas. O objetivo era facilitar a emigração de judeus alemães para a Palestina, transferindo parte dos seus bens, o propósito alemão era contornar o boicote económico contra o nazismo, embora este boicote, ou sanções, tivesse sido incumprido por muitas empresas europeias e estado-unidenses. O Acordo de Haavara é sintomático da estratégia sionista, ou seja, longe de ser apenas uma resposta à perseguição do povo judeu, a migração de judeus para a Palestina era parte de um projeto sem valores nem princípios, pois, dispunha-se a fazer alianças moralmente questionáveis para alcançar o seu objetivo colonial.

Com o fim do mandato britânico e da Resolução 181/1947 das Nações Unidas, que criou dois estados, o movimento sionista, em 1948, deu corpo à criação do Estado de Israel (sionista), com a oposição dos países árabes. O nascimento desse estado aconteceu com a destruição de um território, de uma cultura e de uma sociedade onde muçulmanos, cristão e judeus tinham vivido, até então, em harmonia. Mais de 700 mil palestinianos foram expulsos, centenas de aldeias foram destruídas e apagadas do mapa, e massacres como o de Deir Yassin deram início ao regime de apartheid e do genocídio do povo palestiniano. Os bárbaros acontecimentos de 1948 ficaram conhecidos como Nakba, a Catástrofe. Que os palestinianos recordam e assinalam no dia 15 de maio.

Israel não nasceu num vazio. Nasceu sobre as ruínas de outra sociedade. Os refugiados palestinianos foram impedidos de regressar às suas casas, contra todas as resoluções das Nações Unidas, configurando um crime internacional. A sua terra, as suas casas, os seus campos foram apropriados pelo novo Estado, que se autodefiniu como judeu, excluindo assim os nativos não judeus, ou seja, a maioria da população antes de 1948.

No seu início o movimento sionista era um movimento político laico, mas rapidamente incorporou a religião como legitimador do projeto colonial. A ideia de que Deus prometeu esta terra ao povo judeu foi, e tem sido, usada para justificar a expulsão de palestinianos. Os colonos armados na Cisjordânia, continuam a usar essa lógica messiânica para atacar, queimar, desalojar e matar palestinianos, com o apoio e a complacência do exército sionista.

Mas não são apenas os sionistas judeus a alimentar essa ideia. O sionismo cristão, especialmente no mundo evangélico dos EUA, é uma força determinante no apoio incondicional ao estado sionista de Israel. Ancorados em interpretações bíblicas apocalípticas, os sionistas cristãos, acreditam que o regresso dos judeus à Terra Santa é uma condição essencial para o retorno de Cristo à Terra. Os sionistas cristãos contribuem para o financiamento militar, influenciam decisões políticas, promovem vetos diplomáticos e promovem o silêncio cúmplice dos crimes de guerra e de lesa humanidade perpetrados pelo estado sionista. 

Chamar conflito ao que se passa na Palestina é, por si só, uma falsificação. Não se trata de dois lados iguais em guerra. Trata-se de um povo colonizado e ocupado, e de um Estado que exerce dominação militar, territorial e legal sobre milhões de pessoas. Israel controla fronteiras, água, ar, eletricidade, deslocações, nascimentos, agricultura, comércio. Implementou um regime de apartheid denunciado por diferentes organizações internacionais e por alguns Estados.

A Nakba não foi um evento do passado. A Nakba é um processo em curso. A cada demolição de casa em Jerusalém Oriental, a cada colono que se apropria de terras na Cisjordânia, a cada veto dos EUA no Conselho de Segurança, a cada bomba em Gaza, a cada veto ao retorno dos refugiados, a cada criança palestiniana morta, a cada oliveira arrancada, é a Nakba a perpetuar-se com o silêncio cúmplice do Mundo.

Ignorar a história e reduzir a atual situação que se verifica em Gaza e nos territórios da Palestina ocupada a um evento do calendário recente é aceitar a opressão, o apartheid, o colonialismo e o genocídio, é aceitar a desumanização de um povo, é ser cúmplice do colonialismo, do apartheid e do genocídio. Datar o 7 de outubro de 2023 como o início do conflito é construir uma narrativa que mais não serve do que apagar décadas de colonização e de barbárie. A memória da Nakba não é apenas uma questão histórica, a Nakba é do presente e trazê-la para a discussão pública é lutar por justiça e pela humanidade. E a justiça exige que a verdade histórica seja reposta: a violência teve o seu início muito antes de 7 de outubro, a violência começou com a colonização da Palestina.

Ponta Delgada, 13 de maio de 2025 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 14 de maio de 2025

domingo, 20 de abril de 2025

dos silêncios cúmplices

do que resta


felicidade e prosperidade 
palavras volúveis
ecos na penumbra do quotidiano
extintos com o brilho dos fogos de artifício

restam os gestos
ao fim da tarde
o pão partilhado
as palavras livres
as mãos que afagam
cumplicidades

resta a luz que alimenta
a esperança
o olhar que anima
não pede desculpa
não diz obrigado
nem cansa

resta a esperança
a renascer dia após dia
na perene luta
pela humanidade
perdida na Palestina
dos silêncios cúmplices

Ponta Delgada, 6 de janeiro de 2025

sábado, 22 de março de 2025

poesia portuguesa contra o massacre na Palestina

A Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP) convidou mais de quatro dezenas de autores portugueses a responder a uma dúvida: «E depois de Gaza, é possível ainda a poesia?».

São exatamente quarenta e quatro os/as poetas que responderam ao desafio contribuindo para a coletânea de poemas que a AJHLP acaba de editar na colecção «explicação das árvores» com o título o silêncio dos meninos mortos e o subtítulo poemas portugueses contra o massacre do povo palestiniano.


Este foi o meu contributo:


guardam sonhos

no jardim das oliveiras 
guardam sonhos
de paz

do rio até ao mar
guardam sonhos
de liberdade


Aníbal C. Pires, novembro de 2023

sábado, 4 de janeiro de 2025

Rosa de Jericó - poesia para a Palestina

imagem retirada da internet
rosa de Jericó

no pomar das laranjeiras
as tuas lágrimas
molham o chão sagrado

no horto das oliveiras
o teu pranto
ecoa no tempo

as lágrimas
inundam corações
despertam consciências

o pranto
retumba como apelo
de humanidade

as lágrimas
fertilizam
o teu chão sagrado

o pranto
é o grito surdo
que brada por liberdade

choro e luto por ti
Palestina
viverás livre do rio até ao mar

das tuas cinzas
vão florir rosas de Jericó

as-salamu alaikum 
aalaikum as-salaam

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 4 de janeiro de 2025

sábado, 21 de dezembro de 2024

do tempo que vivemos

imagem retirada da internet
(...) Os leitores devem ter ficado algo perplexos. Estamos na época natalícia e eu trago para a “Sala de Espera” um assunto pouco adequado à quadra festiva. É verdade, mas as crianças palestinianas continuam a ser massacradas e não olvido que Jesus nasceu na Palestina. (...)



quinta-feira, 21 de novembro de 2024

poesia da Palestina (4)

imagem retirada da internet
Eu todo povo


Naquela noite
Sem lua
Sequestrado
Amarrado
Vendado os olhos
Espancado
Torturado
Jogado nu ao frio
De uma cela
Solitária.

Ao ouvir os sons da noite
Sorri…
Nunca estou só
Em mim
Todo meu povo.

Yasser Jamil Fayad

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

poesia da Palestina (3)

As tonalidades da ira

Deixem-me falar na minha língua árabe
antes que também ocupem minha língua.
Deixem-me falar na minha língua materna
antes que também colonizem sua memória.
Sou uma mulher árabe de cor
e viemos em todas as tonalidades da ira.
Tudo o que meu avô sempre quis fazer
foi levantar-se ao alvorecer e observar
a avó prostrar-se a rezar
numa aldeia escondida entre Jafa e Haifa.

Minha mãe nasceu sob uma oliveira
num chão que, dizem, já não é meu;
mas vou cruzar as barreiras, o checkpoint,
os muros loucos do apartheid e voltarei para casa.

Sou uma mulher árabe de cor
e viemos em todas as tonalidades da ira.
Ouviram ontem os gritos da minha irmã,
quando dava à luz num checkpoint
com soldados israelitas olhando entre as suas pernas a próxima ameaça demográfica?
à filha nascida chamou-lhe, Jenin.
E ouviram alguém gritar
«estamos de voltando à Palestina!»
atrás das grades da prisão,
enquanto disparavam gás lacrimogéneo para a cela?
Eu sou uma mulher árabe de cor
e viemos em todas as tonalidades da ira.

Mas dizes-me que esta mulher que há dentro de mim
só te trará o teu próximo terrorista:
barbudo, armado, lenço na cabeça, negro.
dizes-me que mando os meus filhos para morrer?
mas esses são os teus helicópteros,
os teus F-16 no nosso céu.

E falemos um pouco sobre esta questão do terrorismo...
Não foi a CIA que matou Allende e Lumumba?
E quem primeiro treinou Osama?
Meus avós não corriam em círculo, como palhaços,
com capas e capuzes brancos na cabeça
linchando negros.

Eu sou uma mulher árabe de cor
e viemos em todas as tonalidades da ira.
«Quem é essa mulher morena gritando na
manifestação?»
Desculpe. Não deveria gritar?
Esqueci de ser todos os teus sonhos orientais?
O génio da garrafa,
bailarina da dança do ventre,
mulher do harém,
voz suave,
mulher árabe,
Sim, senhor.
Não, senhor.
Obrigado pelas sandwiches de amendoim
que nos atiras dos teus f-16, gosto.

Sim, os meus libertadores estão aqui para matar os meus filhos
chamando-lhe «dano colateral.»

Eu sou uma mulher árabe de cor
e viemos em todas as tonalidades da ira.
Assim, deixa-me dizer-te, que esta mulher que há dentro de mim
só te trará teu próximo rebelde.
Terá uma pedra numa mão e uma bandeira palestina na outra,
Sou uma mulher árabe de cor...
Tem cuidado, tem cuidado,
com a minha ira.

Rafeef Ziadah



sábado, 16 de novembro de 2024

poesia da Palestina (2)

imagem retirada da internet

O DILÚVIO E A ÁRVORE

Quando a tempestade satânica chegou e se espalhou
No dia do dilúvio negro lançado
Sobre a boa terra verdejante
“Eles” contemplaram.
Os céus ocidentais ressoaram com explicações de regozijo:
“A Árvore caiu!
O grande tronco está esmagado! O dilúvio deixou a Árvore sem vida!”

Caiu realmente a Árvore?
Nunca! Nem com os nossos rios vermelhos correndo para sempre,
Nem enquanto o vinho dos nossos membros despedaçados
Saciar nossas raízes sequiosas
Raízes árabes vivas
Penetrando profundamente na terra.

Quando a Árvore se erguer, os ramos
Vão florir verdes e viçosos ao sol
O riso da Árvore desfolhará
Debaixo do sol
E os pássaros voltarão
Sim, os pássaros voltarão com certeza
Voltarão.

FADWA TUQAN