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quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Jénifer, a controversa

imagem retirada da internet
A pequena Jénifer ficou sem esperar, conquanto fosse uma sonhadora, no centro das atenções. Nos Açores e, ainda que com menos impacto, pela capital deste triste país que continua a produzir pobres e emigrantes.

Houve quem gostasse e quem não gostasse do livro de Joel Neto que deu à estampa com o título: “Jénifer, ou a princesa de França – As ilhas (realmente) desconhecidas”; é o que normalmente acontece quando é lê um livro, se visita uma exposição de pintura ou fotografia, se visiona um filme, se assiste a um concerto, enfim é natural e não tem nada de estranho a diversidade de opiniões é saudável e contribui para enriquecer o debate público. 

No caso de “Jénifer, ou a princesa de França – As ilhas (realmente) desconhecidas” as opiniões divergentes geraram alguma polémica no espaço público regional. Os contornos são conhecidos e, sobre eles, nada tenho a opinar.

Este texto não intenta, desde logo, alimentar qualquer polémica que é como quem diz atirar achas para a fogueira, já não tenho idade nem paciência para essas estéreis disputas e, por outro lado não pretende ser uma crítica literária, nem poderia, pois, não estou habilitado a fazê-lo. A leitura de “Jénifer, ou a princesa de França – As ilhas (realmente) desconhecidas”, aconteceu apenas por estes primeiros dias de setembro e não tendo sido estimulado pela controvérsia que gerou, não posso negar que essa foi, também, uma motivação, embora mais tarde ou mais cedo chegasse lá. Tenho uma longa lista de livros que aguardam a leitura e este ultrapassou alguns devido à polémica que a sua publicação gerou e que, sem dúvida, ajudou a popularizá-lo. 

Pode gostar-se mais, ou menos, das construções literárias e das narrativas de Joel Neto, mas quem tem por hábito a leitura reconhece valor à sua estética e não lhe fica indiferente. Não li toda a obra do Joel, mas li todos os seus livros publicados desde que regressou aos Açores e, apesar do que politicamente nos separa, reconheço o seu valioso contributo para as letras açorianas, como, no passado, tive oportunidade de tornar público.

Li, reli, e fiquei sem compreender algumas das reações negativas ao livro. A estória é apenas a constatação de uma realidade que afeta um número considerável de açorianos, sem acusações diretas a esta ou àquela formação partidária, a este ou a outro governo regional, aliás o “pecado” do Joel, a existir, está ancorado nas generalizações, quando atribui aos políticos a responsabilidade por uma situação que nos envergonha e que a autonomia regional não resolveu. Nem todos os partidos e protagonistas políticos têm responsabilidade direta pelo retrato dramático, mas pouco conhecido, que o Joel Neto procura dar a conhecer, em forma de novela, e que tanto alvoroço provocou.

imagem retirada da internet
A situação de pobreza, a exclusão, os bairros sociais que albergam os marginalizados que o poder político esconde do olhar da classe média e do postal ilustrado que vende o destino Açores. A iliteracia, o abandono escolar, a gravidez precoce, e nos últimos anos o crescimento exponencial de consumo e dependências de novos psicotrópicos, não são responsabilidade direta do atual governo, ainda que alguns dos seus membros sejam militantes e dirigentes de um dos partidos que governou os Açores durante 20 anos, por outro lado importa, se quisermos ter uma visão holística do problema, olhar para a história e para a origem ancestral da pobreza e da exclusão nos Açores. O modelo de povoamento, o anacrónico sistema da posse da terra, o fascismo português e, só depois para o regime autonómico que se tem mostrado incapaz de resolver esta, como outras questões estruturais da sociedade açoriana, como seja a excessiva sujeição externa da nossa economia e a insistência, historicamente errada, de promover apenas uma atividade económica em detrimento dos necessários equilíbrios dos diferentes setores da economia regional. Mas voltemos às responsabilidades na incapacidade, ou opção política consciente, do período autonómico. A responsabilidade, como já disse, não é do atual governo que está no poder há menos de três anos, embora considere que a Região ao fim deste ciclo político, que se espera e deseja curto, estará ainda mais pobre e com os indicadores sociais e económicos a afundarem. Não é com o assistencialismo e caridadezinha que se resolvem os graves problemas que nos afligem, não é derramando dinheiro público sobre o setor privado que a atividade económica do segundo setor se fortalece, aliás com a dimensão dos apoios ao setor privado é legítimo afirmar-se que: a Região é “acionista” da generalidade das empresas privadas regionais; deve ser por isso que os liberais e outros que tais se querem livrar do peso do setor público na economia.  

Com a revolução de abril e a consagração do sistema autonómico os indicadores sociais e económicos nos Açores melhoraram consideravelmente, é indiscutível. Não vou comparar os dados do princípio da década 70 do século anterior, com os atuais indicadores sociais e económicos, hoje vive-se melhor, muito melhor, nos Açores. A evolução foi significativa nas áreas da saúde, da educação, das infraestruturas, das acessibilidades, de entre outras, mas estamos muito longe de se terem resolvido algumas das questões estruturais que caraterizam a sociedade açoriana. 

Já referi que alguns dos atuais protagonistas do poder executivo pertencem a um partido que governou durante vinte anos, mas aquele que é hoje o maior partido da oposição fofinha governou vinte e quatro. É, por conseguinte, legítimo inferir que nestes quarenta e sete anos de autonomia constitucional a responsabilidade pela dramática situação social e económica de muitos milhares de açorianos vai por inteiro para o PSD e para o PS.

Não há uma varinha de condão para resolver, no curto tempo da governação do atual governo, os problemas que o retrato escrito Joel Neto expõe. As medidas para a resolução do problema, se é que se quer resolver, deveriam ter sido tomadas há muito.

foto Aníbal C. Pires
A narrativa de Joel Neto situa-se em 2020, quiçá prolongando-se para 2021, as alusões ao grave problema de saúde pública que, por essa altura, nos afetou permite ao leitor inferir essa conclusão, ou seja, a novela narra as vivências de uma comunidade marginalizada na fase de transição do último governo do PS para a híbrida solução do governo atual. Outros motivos, que desconheço por completo, poderão estar na origem da polémica à volta do livro e do seu autor, mas não encontro nas páginas de “Jénifer, ou a princesa de França – As ilhas (realmente) desconhecidas”, nenhuma razão que possa justificar, por si mesmo, a polémica que se instalou.

Ignorar e esconder a pobreza e a exclusão remetendo para as periferias as populações e afetar algumas migalhas do erário público, como se de esmolas se tratasse, não é solução. Não tenho soluções milagrosas, mas a intervenção multidisciplinar, a educação parental, a formação e a educação, o acesso ao trabalho com direitos (sem precariedade e com salários dignos), o fim da utilização indevida e generalizada dos “programas ocupacionais”, transformando-os no que realmente são: postos de trabalho efetivos; talvez se constituam como um bom princípio. É mais caro e, mais difícil viver nos Açores, os tais custos da insularidade que o discurso político abandonou, por isso foram criados complementos remuneratórios e apoios fiscais no princípio do século. Os custos do viver insular são permanentes, o que se esfumou foi o discurso político que sustentou a criação de apoios específicos que urgem em ser atualizados. Não é tudo, mas é uma prioridade.

Ponta Delgada, 05 de setembro de 2023 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 6 de setembro de 2023

sábado, 15 de setembro de 2018

A demanda de José Filemom - Crónicas radiofónicas






Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM

Esta crónica foi para a antena a 23 de Junho de 2018 que pode ser ouvida aqui








A demanda de José Filemom

Foto by Aníbal C. Pires
Tenho para comigo que pouco acrescentarei ao muito que os leitores, do mais recente romance de Joel Neto, têm dito e tornado público sobre o “Meridiano 28”, mas ainda assim e correndo o risco de não acrescentar rigorosamente nada às apreciações já feitas. Ainda assim, e, porque não tenho temor de arriscar, aqui fica a minha opinião. Opinião que é apenas mais uma, entre muitas outras.
Para quem não conhece a história dos Açores e, neste particular, a história do Faial do século XX ficará com curiosidade em saber mais depois de ler o “Meridiano 28”, se já antes a baleação e a presença dos Dabney tinham contribuído para a transformação social e económica desta ilha açoriana, a instalação dos cabos submarinos e a fixação de uma significativa comunidade alemã e inglesa, mas também o início da operação aérea dos clippers da Pan Americam, em 1939 e que se prolongou durante o período da II Guerra Mundial, fixaram, naturalmente muitos americanos. A cidade da Horta acolhia, ainda, uma diversidade de outras nacionalidades menos numerosas, é certo, mas que lhe conferiam caraterísticas únicas. É neste ambiente cosmopolita e de interação entre as diferentes comunidades estrangeiras e algumas famílias faialenses que se desenrola a teia urdida pelo Joel Neto e que os leitores vão, sofregamente, acompanhando ao passar de cada página.
Apesar do que ficou dito e o que mais me aprouver dizer, o “Meridiano 28” não é um romance de época, Digo eu, salvaguardando melhores e doutas opiniões. O mais recente romance de Joel Neto é intemporal como o é o amor e o ciúme, a amizade, a convivência pacífica e a solidariedade, mesmo em tempo de guerra, como é o sonho e a fantasia, a natureza tranquila e bela, mas também uma natureza capaz de enormes cataclismos que podem transformar (transformou) as fronteiras de uma pequena ilha do Atlântico Norte.
Se o centro desta urdidura de Joel Neto é a cidade da Horta e o período da II Guerra Mundial a estória não se confina nem ao espaço, nem ao tempo, outra coisa não se podia esperar pois, os açorianos nunca se deixaram espartilhar pelo horizonte. O horizonte é logo ali e para lá dele ficam os sonhos e outros Mundos, outras verdades. E é a demanda de José Filemom, por outros lugares outros tempos, que acompanhamos ao longo da teia que o Joel urdiu.
Sendo de um tempo de guerra este não é um livro sobre os horrores da guerra. Este será, também, um aspeto que diferencia este romance de outros cujo tema se centra neste período negro da história da humanidade que foi a II Guerra Mundial.
Depois de ter lido o “Meridiano 28”, e mesmo conhecendo razoavelmente o Faial e a sua história o meu olhar sobre a cidade da Horta e a ilha do Faial nunca mais será o mesmo.
Obrigado Joel.

Quanto a si que esteve comigo, Fique bem.
Eu voltarei, assim o espero, no próximo sábado

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 30 de Junho de 2018

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Sobre “A Vida no Campo” de Joel Neto

Foto - Aníbal C. Pires
Aqui há tempos o Joel brindou-nos com o “Arquipélago”, Gostei e afirmei-o publicamente numa pequena publicação que fiz neste blogue (sim, cliquem AQUI).
“A Vida no Campo” não é um romance, nem sequer um livro de contos, diria eu que, como não sou expert nestas coisas da literatura, ou gosto ou não gosto. “A Vida no Campo” reúne assim como uma espécie de crónicas da ruralidade (re)descoberta por quem um dia foi ao encontro das oportunidades que a cidade tem para oferecer. Não uma cidade qualquer, foi para uma cidade única e fascinante para a maioria dos portugueses, mas também de muitos estrangeiros que procuram a luz única de Lisboa e tudo o que as vielas dos bairros populares que descem pelas colinas ou, as avenidas novas desenhadas pela modernidade têm para oferecer a quem por ali vive, trabalha ou simplesmente está de visita.
Na “Vida no Campo” as estórias sucedem-se ao ritmo do calendário, ora mergulhando nas memórias, ora relatando o quotidiano do lugar dos “Dois Caminhos” e as idas a Angra, sempre questionando e induzindo à reflexão do leitor. E o leitor sente-se parte, reconhece-se e pergunta-se se valerá a pena, quando tudo pode ser tão mais simples, sem ser simplista. Quando tudo pode ser melhor, muito melhor do que vaguear entre tantas outras personagens construídas pela vida na cidade. Personagens urbanas despojadas de humanidade e tantas vezes, despojadas da própria urbanidade que lhe devia ser intrínseca.
Costuma dizer-se que o bom filho a casa volta, o Joel em boa hora regressou à vida no campo.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 16 de Agosto de 2016

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Sobre o "Arquipélago" de Joel Neto

Na noite do passado sábado concluí a leitura do romance de Joel Neto que dá pelo nome de “Arquipélago”.
Não sou um crítico literário e, como tal não vou invadir um espaço que, de todo, não é meu, ou seja, deixo para os especialistas as análises formais e estéticas.
Poderia ficar apenas pelo “gosto” que já deixei na página do Facebook do autor mas era pouco face ao prazer que me proporcionou a leitura do “Arquipélago” e, por isso, ficam algumas palavras que mais não pretendem do que deixar uma breve apreciação sobre a viagem que o Joel Neto me proporcionou ao âmago da ilha Terceira.
Quem conhece a ilha Terceira sente-a nas páginas do “Arquipélago”, sente os seus odores e as brumas a entranharem-se no corpo, percorre trilhos e pastos, mergulha nos “mistérios” da ilha, os da noite justiceira ou, os mistérios dos sinais escavados nas pedras ou com pedras erigidos.
Mas a ilha vive também outras estórias, estórias de abaladas e regressos, estórias de antes e depois de Abril, antes e depois do terramoto de 1 de Janeiro de 1980.
Depois de acabar a viagem pelo romance do Joel Neto e para quem conhece a ilha Terceira instala-se uma incontornável vontade de a redescobrir, nem que seja apenas numa revisitação à orgia de sabores da sua original gastronomia, para quem a não a conhece a curiosidade instala-se e, mais tarde ou mais cedo virá até à ilha central de um arquipélago que dá pelo nome de Açores, virá sentir o viver de um povo que concilia, como nenhum outro, o trabalho com a festa. Vivendo a festa como se não houvesse amanhã. E os terceirenses lá sabem porquê.

Aníbal C. Pires, Horta, 27 de Julho de 2015