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quarta-feira, 13 de maio de 2026

duas Europas

imagem retirada da internet
A União Europeia (UE) celebra-se a si própria envolta numa narrativa de paz, integração e democracia, a cada 9 de maio. Estrelas douradas em fundo azul, num espaço onde o discurso da paz convive, cada vez mais, com a lógica do rearmamento, se cerceiam liberdades e onde a qualidade da democracia é, direi, duvidosa. A 9 de maio celebra-se a chamada “ideia europeia”, nascida da Declaração Schuman de 1950, apresentada como resposta civilizacional às ruínas da guerra. Contudo, na mesma data em que as instituições da UE evocam o nascimento da Europa comunitária, esbate-se progressivamente outra memória: a da vitória do Exército Vermelho sobre o nazifascismo, em 1945.

Não se trata de um preciosismo ou de um detalhe simbólico. As datas nunca são inocentes. São instrumentos de memória, e a memória é sempre um território político.

A derrota do nazifascismo não pode ser compreendida sem o papel decisivo da União Soviética (URSS). Foi na frente oriental que a máquina militar hitleriana sofreu as suas perdas mais devastadoras. Foram cidades soviéticas arrasadas, populações inteiras sacrificadas, mais de 25 milhões de mortos civis e militares. Nomes como Stalingrado, Kursk ou Leninegrado permanecem inscritos na história não apenas como batalhas, mas como lugares de resistência absoluta perante a barbárie nazi.

imagem retirada da internet

Durante décadas, porém, o Ocidente construiu uma narrativa da Segunda Guerra Mundial cada vez mais centrada em si próprio. O desembarque da Normandia tornou-se o grande símbolo cinematográfico e político da libertação da Europa, enquanto o contributo soviético foi sendo remetido para um plano secundário ou tratado com desconforto ideológico. A Guerra Fria ajudou a consolidar essa leitura. Tornava-se difícil reconhecer plenamente o papel histórico da URSS ao mesmo tempo que ela era apresentada como principal inimigo do mundo ocidental.


Após o colapso da URSS, a questão tornou-se ainda mais complexa e foi-se consolidando o apagamento da memória e a reescrita da história numa tentativa de distorcer o essencial, ou seja, sem o sacrifício dos povos soviéticos, a derrota do nazismo teria sido incomparavelmente mais difícil e certamente se prolongaria mais no tempo.

A UE prefere hoje construir a sua legitimidade histórica a partir da reconciliação franco-alemã, da integração económica e dos valores liberais do pós-guerra. É uma escolha política que na prática se traduz no empobrecimento da memória quando a história é reduzida ao que convém ao presente. A Europa institucional celebra-se a si própria enquanto se afasta da memória concreta daqueles que pagaram o preço mais elevado para derrotar o Terceiro Reich.

A Federação Russa celebra o legado da União Soviética e utiliza-o para que a memória não seja apagada e a história reescrita, contrariando a relativização ou mesmo o silenciamento do papel da URSS, pela UE, na derrota da barbárie nazifascista. Como se o presente pudesse reescrever retroativamente o passado. A história exige mais rigor do que alinhamentos conjunturais. Não é necessário glorificar o sistema político da União Soviética para reconhecer a dimensão decisiva do Exército Vermelho na derrota do fascismo europeu. 

No fundo, o 9 de maio revela duas Europas: a que se celebra a si própria e a que foi construída sobre milhões de mortos que, pouco a pouco, parecem desaparecer na memória oficial no Ocidente.

Ponta Delgada, 11 de maio de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 13 de maio de 2026

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Autonomia: nome e caminho

A Constituição de 1976 deu nome ao que já existia em surdina: a autonomia. Não como concessão, mas como conquista. Uma conquista filha direta do mesmo gesto que devolveu aos portugueses a palavra e o direito de a usar. Antes disso, os Açores viviam encostados ao limite. Uma economia de subsistência, ancorada na terra e no mar; uma indústria quase ausente, e a emigração como destino repetido, tantas vezes a única saída possível. Partia-se como quem respira, por necessidade.

As ilhas estavam distantes. A escola era curta, a saúde escassa, as ligações incertas. E havia um país, que nem sempre, ou quase nunca, chegava.

Depois, veio o tempo da construção. A autonomia abriu caminhos, a Europa trouxe meios, e o arquipélago começou a desenhar outro retrato de si. Mais escolas, mais hospitais, mais portos e aeroportos. Uma economia que, devagar, se vai soltando das amarras antigas. Mas crescer não é o mesmo que equilibrar.

imagem retirada da internet

As ilhas continuam desiguais entre si, como se o mar que as devia unir as desagregasse. A dependência persiste, agora menos visível, mas não menos real, nos fluxos de financiamento que condicionam escolhas e adiam decisões próprias. E a emigração, embora menos intensa, não desapareceu, mudou de forma e de destino, mas continua a empurrar os jovens para lá do horizonte.


Vivemos melhor. É inegável. Mas não vivemos ainda como poderíamos e, sobretudo, como deveríamos. A autonomia, afinal, não é um ponto de chegada. É um exercício contínuo, um modo de habitar o território e o tempo. As leis definem o contorno, o conteúdo depende de nós. Depende da capacidade de imaginar um futuro que não seja apenas prolongamento do presente, nem reflexo de vontades externas e subserviências internas.

Abril abriu a porta. Mas atravessá-la continua a ser tarefa inacabada. Há uma autonomia que existe nos textos, outra que vive nos discursos, e uma terceira, esta mais exigente, que só ganha forma na prática quotidiana, nas decisões que não se adiam, nas escolhas que não se delegam. É essa autonomia que ainda falta cumprir por inteiro. Talvez porque a autonomia não se decreta: constrói-se. E constrói-se devagar, como tudo o que importa, com memória, com consciência, com conflito também.

foto de Aníbal C. Pires
O desígnio inicial, o de um desenvolvimento harmonioso de todas as ilhas permanece, em parte, por realizar. E é nesse desfasamento, entre o que fomos capazes de fazer e o que ainda não ousámos ser, que a autonomia se revela, não como herança, mas como responsabilidade.

No fundo, a pergunta permanece simples e difícil: o que queremos fazer com a liberdade que conquistámos?  O verdadeiro sentido da liberdade conquistada em Abril realiza-se quando a autonomia deixa de ser apenas estatuto político e se converta em projeto coletivo, um projeto de cidadania consciente, solidariedade entre ilhas e afirmação plena da açorianidade no espaço português e atlântico.

A autonomia conquistada após o 25 de Abril foi um marco decisivo: deu forma institucional a uma identidade que até então era mais cultural e afetiva, contudo, podemos argumentar que essa autonomia política ainda não se traduziu plenamente numa consciência cívica e cultural consolidada. A identidade açoriana, dir-se-ia, está afirmada no discurso, na simbologia e na afetividade, mas menos consolidada na prática política e no projeto de desenvolvimento, muitas vezes dependente de lógicas externas e de subserviências internas.

Ponta Delgada, 27 de abril de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 29 de abril de 2026

domingo, 19 de abril de 2026

para além do índice

imagem retirada da internet
O mais recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) volta a colocar em evidência as assimetrias estruturais que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) tende a suavizar, por ser um indicador que não pode ser lido apenas a partir da tabela que ordena os países conforme o seu IDH. O exemplo dos Estados Unidos e do Irão é, a este respeito, particularmente revelador.

Os Estados Unidos mantêm uma posição cimeira no IDH, sustentada por um elevado rendimento nacional bruto per capita, níveis médios de escolaridade relativamente elevados e uma esperança média de vida, igualmente alta, contudo, esta posição deve ser lida com cautela. O coeficiente de Gini, que mede a desigualdade na distribuição do rendimento, revela um país marcado por profundas clivagens sociais. A concentração de riqueza distorce o impacto real do rendimento médio, criando uma imagem de prosperidade que não se traduz de forma homogénea nas condições de vida da população. Acresce que, em indicadores como a esperança média de vida, os Estados Unidos têm registado estagnações e até retrocessos, em parte associados a desigualdades no acesso à saúde, fenómenos de exclusão e crises sociais persistentes.

O Irão, por seu lado, apresenta um IDH inferior, ainda que seja considerado pelo PNUD, como sendo “Alto”, penalizado por um rendimento per capita significativamente mais baixo que o dos Estados Unidos, porém, quando se analisam isoladamente as componentes da educação e da saúde, o quadro revela maior complexidade. Apesar de mais de quatro décadas de sanções económicas internacionais, o país conseguiu desenvolver sistemas de educação e cuidados de saúde com resultados relativamente no contexto regional e, em alguns indicadores, comparáveis a padrões internacionais de desenvolvimento elevado. A taxa de literacia, a expansão do ensino superior e indicadores de saúde pública demonstram uma capacidade de lidar de forma positiva com as condições adversas que lhe foram impostas externamente que o IDH, centrado numa média agregada, tende a subvalorizar.

sem abrigo em LA - imagem retirada da internet

É aqui que o coeficiente de Gini introduz um elemento crítico de leitura: o Irão apresenta níveis de desigualdade inferiores aos dos Estados Unidos. Tal não significa ausência de desigualdades, mas indica uma distribuição relativamente menos concentrada do rendimento. Assim, embora sem um rendimento comparável aos Estados Unidos, a sociedade iraniana revela maior coesão interna no acesso a bens essenciais.


A questão das sanções é incontornável. Durante mais de quarenta anos, o Irão tem enfrentado restrições severas ao comércio internacional, ao investimento e ao acesso a tecnologias. Estas limitações tiveram impactos diretos no crescimento económico e, por consequência, no rendimento per capita uma das variáveis centrais no cálculo do IDH, frequentemente decisiva na diferenciação entre países. Ainda assim, o país conseguiu manter níveis razoáveis de desenvolvimento humano em áreas-chave, o que sugere que políticas públicas orientadas para a educação e a saúde mitigaram os constrangimentos externos.

Em suma, a comparação entre Estados Unidos e Irão evidencia os limites do IDH enquanto medida isolada de avaliação do desenvolvimento. Quando complementado pelo coeficiente de Gini e contextualizado por fatores históricos e políticos, como o regime de sanções, emerge uma leitura mais densa e menos linear: a de que desenvolvimento não é apenas riqueza média, mas também a sua distribuição e a capacidade de resistência perante constrangimentos externos.

Ponta Delgada, 13 de abril de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 15 de abril de 2026

sexta-feira, 3 de abril de 2026

regresso

foto de Madalena Pires
Após um interregno neste espaço, ditado por razões de ordem pessoal, oportunamente comunicadas à direção do jornal, regresso agora a estas páginas e aos leitores.

Ausente, mas não desligado. Há ausências que são apenas um outro modo de permanecer. Regresso, portanto. E regresso a um mundo que não esperou, que não suspendeu o seu curso, que não concedeu tréguas. Um mundo que, entretanto, se adensou no pior de si. Estamos hoje pior, mais expostos, mais frágeis, mais próximos de um limite que, por vezes, fingimos não ver, do que em fevereiro passado.

A agressão sionista e estado-unidense ao Irão está a ter efeitos devastadores no chamado, médio oriente, mas as consequências não se confinam àquele espaço geográfico, os efeitos sentem-se por todo o planeta e vão-se prolongar no tempo. E não é apenas a questão energética, quem assim pensa desconhecerá que daquela região do planeta são exportados outros bens tão importantes como o petróleo e gás, como sejam alguns metais e muitos fertilizantes, ou seja, o que está em causa é segurança alimentar, a indústria e a tecnologia. Não me quero alongar sobre o assunto, apenas recordo que o estreito de Ormuz, agora com o trânsito naval condicionado, estava aberto antes agressão. Apesar do Irão estar sempre na mira do sionismo e dos Estados Unidos, e sujeito a sanções desde 1979, sanções que se foram ampliando e endurecendo ao longo do tempo, o comércio fluía e os efeitos estavam confinados ao Irão. País que, ainda assim, conseguiu sobreviver e desenvolver-se em termos científicos e tecnológicos. A este facto não será estranho tratar-se de um povo herdeiro de uma civilização milenar, ao contrário dos agressores um dos quais uma invenção recente, sendo que os dois assentaram a sua construção no genocídio das populações autóctones e no assentamento de colonatos.

Irão - uma civilização milenar

Preferiria outro começo para este regresso. Uma palavra mais leve, talvez. Um tema que não trouxesse consigo este peso do mundo. Mas há momentos em que a realidade nos escolhe e, escrever é apenas uma forma de não recuar.

E, ainda assim, no meio deste ruído espesso, procurei um sinal contrário. Não um grande gesto, não um feito que se imponha. Apenas um indício. Um quase nada que, por instantes, suspenda a evidência do desastre. Encontrei-o numa história singular.

Chamam-lhe “Boneca”. Uma cadela que deixou a casa. Sem alarde. Sem rotura visível. Passou um rancho de romeiros, homens em passo demorado, carregando nos ombros promessas antigas, rezas sussurradas, silêncios partilhados, e ela seguiu-os. Não porque a mandassem. Não porque precisasse. Seguiu. Há decisões que não se explicam. Há movimentos que nascem antes da razão, mesmo vindos de um animal.


E talvez seja isso que ali se revela, nesse gesto sem importância aparente: a possibilidade de sair. De romper o círculo estreito do conhecido. De abandonar, por um instante, o lugar onde tudo está definido, o nome, o dono, o caminho, e responder a um chamamento sem voz.

Num tempo em que quase tudo se organiza em torno da força e do interesse, em que o mundo parece inclinar-se para a dureza e para a imposição, há gestos ínfimos que persistem. Não fazem manchetes. Não alteram o curso da história. Mas abrem pequenas brechas no que parece fechado.

Como o de uma cadela que deixa a casa para acompanhar um caminho. Talvez seja por aí, por esses desvios sem cálculo, por essa fidelidade ao inexplicável, que ainda subsiste qualquer coisa de essencial. Uma ideia de mundo que não se constrói sobre o domínio, mas sobre o reconhecimento da diferença.

Ponta Delgada, 30 de março de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 1 de abril de 2026

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

humanidade à deriva

Francesca Albanese - imagem retirada da internet
Não é de hoje esta sensação, não é possível precisar quando, mas o mundo, tal como o lia e compreendia, deixou de fazer sentido. E não falo apenas de mudanças geopolíticas ou de ciclos históricos previsíveis, mas de algo mais profundo: uma inversão dos valores. A mentira ganhou estatuto de narrativa oficial, e a impunidade, antes camuflada, apresenta-se agora como norma. 

Um dos casos mais brutais desta deriva é o projeto colonial do estado sionista na Palestina, sustentado política, militar e moralmente pelo chamado mundo ocidental, esse mesmo que se proclama guardião dos direitos humanos. Em nome desses “valores”, legitima-se o genocídio do povo palestiniano, enquanto se tenta silenciar quem denuncia o inominável. A Relatora Especial das Nações Unidas para a Palestina, Francesca Albanese, uma das vozes mais consequentes na denúncia da barbárie sionista, é agora alvo de sanções e pedidos de afastamento por países como França e Alemanha. Não se pune o crime contra a humanidade, tenta silenciar-se a mensageira.

Mas este não é um caso isolado. Há décadas que Cuba vive sob um embargo ilegal, condenado repetidamente pela comunidade internacional, mas mantido, com requintes de crueldade, pelos Estados Unidos. Hoje, a asfixia chega ao ponto de se tentar impedir o envio de petróleo para a ilha. Cuba, que exporta médicos e não bombas, que pratica a solidariedade como política externa, é tratada como ameaça. Não por aquilo que faz, mas pelo exemplo que representa: o de um país pequeno que insiste em viver fora da lógica do medo e da submissão e que não abdica da sua soberania.

imagem retirada da internet

A impunidade manifesta-se também no silêncio cúmplice em torno do caso Jeffrey Epstein. Perante o que é público e amplamente documentado, torna-se incompreensível que figuras centrais daquele sistema de abuso e poder continuem intocáveis. Entre democracias que se dizem exemplares, apenas a Noruega ousou prender um antigo primeiro-ministro ligado ao escândalo. O resto do mundo desvaloriza e tende a passar uma esponja sobre a “a ilha dos horrores”, talvez porque a verdade incomoda demasiados salões, sejam eles empresariais, políticos ou da cultura mainstream. É inaceitável e incompreensível que após os ficheiros serem tornados públicos, nenhuma das personalidades que deles constam esteja indiciada judicialmente.

O caso Epstein tem uma dimensão global e a humanidade deve exigir o cabal esclarecimento da rede de influências, do tráfico de seres humanos e dos abusos de cariz sexual que foram perpetrados sobre crianças e jovens. A humanidade deve exigir que os culpados sejam levados a juízo e penalizados pelas atrocidades que cometeram.

imagem retirada da internet
A normalização do absurdo é aceite sem nos questionarmos. Veja-se a Síria e o processo acelerado de lavagem de imagem de Al Julani, ontem classificado como terrorista, hoje recebido como chefe de Estado em respeitáveis chancelarias por esse mundo fora. A memória é curta, a conveniência é longa, e a ética tornou-se descartável.

Tudo isto aponta para um mesmo lugar: um mundo onde a força substituiu o direito, onde a narrativa venceu os factos, onde a lei se aplica apenas aos frágeis. Um mundo em que a exceção passou a ser a justiça. Talvez o mais inquietante não seja a barbárie em si, mas a forma serena, quase burocrática, com que é administrada. Como se tudo isto fosse normal. Como se tudo isto fosse aceitável. Estes são apenas alguns exemplos, mas julgo que deveriam ser suficientes para nos preocuparem e nos fazerem agir. 

Ponta Delgada, 16 de fevereiro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 18 de fevereiro de 2026

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

as palavras não resolvem

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Não é a primeira vez que abordo o assunto. Num outro contexto grafei a minha opinião como se fora uma breve introdução a um assunto distinto, porém foi suficiente para que a minha posição ficasse percebida e motivasse algumas reações de discordância. Hoje volto ao tema com mais vagar, consciente de que se trata de um terreno sensível, onde as boas intenções convivem, muitas vezes, com equívocos difíceis de desconstruir, pois, o tema vai muito para além das palavras com que compomos o discurso. Tenho consciência que, uma vez mais, serei alvo de desacordo o que é salutar, pois, estes textos pretendem isso mesmo: a reflexão e a divergência.

Falo da chamada linguagem inclusiva ou neutra. Um debate que ganhou espaço público, atravessou salas de aula, documentos oficiais, discursos políticos e até conversas banais, dessas que podem começar com um simples: “boa noite”.

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Confesso que, em determinado momento, cheguei a recorrer a algumas dessas fórmulas. Não por convicção profunda, mas por pragmatismo: evitava apartes, olhares reprovadores, discussões laterais que desviavam a atenção do essencial. Era uma espécie de taxa de portagem discursiva, eu pagava e seguia caminho.


A questão tem a sua génese quando a linguagem, em vez de abrir, complica; em vez de incluir, fragmenta. Dizer “boa noite a todos e a todas” parece, à primeira vista, um gesto de cuidado e de respeito pelos géneros. Contudo, se o argumento for levado até às últimas consequências, ele revela uma armadilha: ao nomear explicitamente o masculino e o feminino, acabam por ficar de fora as pessoas que não se reconhecem em nenhum desses géneros, ou seja, a expressão que pretendia ser inclusiva, exclui. A solução que se vai vulgarizando é, então, acrescentar mais uma camada: “… a todos, a todas e a todes.”, ou optar simplesmente por “boa noite a todes”, como se a palavra, por si só, pudesse resolver uma questão que é social, cultural e profundamente humana.

É aqui que a língua começa a tropeçar em si própria. Do ponto de vista linguístico, a palavra “todos” já cumpre a função de incluir sem discriminar. Não por ser perfeita, mas por ser uma convenção funcional, construída ao longo do tempo, que não pergunta pelas identidades nem exige explicações. “Todos” não exclui, integra. Não classifica, é abrangente. A língua portuguesa, como tantas outras, funciona com géneros gramaticais que não coincidem, necessariamente, com géneros identitários. Confundir uma coisa com a outra é exigir à gramática aquilo que pertence ao campo da ética, da política e do respeito social.

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Há, neste debate, uma tentação recorrente: acreditar que mudar as palavras é suficiente para mudar o mundo. Como se as injustiças se corrigissem por decreto linguístico, como se a exclusão se resolvesse pela introdução de uma vogal alternativa. O risco é evidente: substitui-se a reflexão profunda por um exercício formal, quase como um ritual, que tranquiliza consciências, mas pouco altera a realidade que exclui.

A inclusão não nasce da sílaba, mas do gesto. Não da palavra reinventada, mas da escuta real. Não da imposição de um novo código, mas da capacidade de conviver com a diferença sem a transformar num problema gramatical. A língua é um organismo vivo, sim, mas não é um campo de batalha onde cada frase tenha de provar a sua virtude moral. Quando a linguagem se torna excessivamente auto consciente, perde fluidez, perde clareza e, paradoxalmente, perde humanidade.

Talvez valha a pena regressar ao essencial: falar com respeito, agir com dignidade, reconhecer o outro na sua singularidade, ou seja, sem exigir à língua aquilo que cabe à sociedade transformar. Porque, para todos os efeitos, um cumprimento dito com atenção e verdade inclui sempre mais do que qualquer fórmula cuidadosamente ensaiada. E isso, curiosamente, a língua já sabia antes de nós. Não são as palavras, é a atitude e o respeito pela diferença que verdadeiramente importa.

Ponta Delgada, 2 de fevereiro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 4 de fevereiro de 2026

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

a personalização

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Não sendo de agora, mas é no tempo presente que a perceção da História contemporânea se reduz até caber apenas num rosto. Um rosto para odiar, outro para reverenciar. Um nome próprio basta para explicar guerras, crises económicas, colapsos democráticos ou atentados que abalam consciências. Ao reduzir processos complexos a um protagonista simplificam-se os acontecimentos, acelera-se o consumo mediático e presenteia-se a opinião pública com uma figura clara para amar ou odiar. Tudo isto pode ser confortável, mas é profundamente ardiloso e, sobretudo, induz a perceção de uma falsa realidade.

A personalização dos acontecimentos é uma tendência para concentrar responsabilidades em indivíduos e tornou-se numa das grandes estratégias contemporâneas de ocultação política. Ao reduzir processos complexos a protagonistas isolados, o discurso público ganha rapidez narrativa, mas perde inteligência histórica.

Os super-heróis ensinaram-nos cedo essa pedagogia da exceção: o mundo só se salva graças a indivíduos extraordinários, dotados de capacidades fora do comum, enquanto a comunidade permanece passiva, expectante, agradecida. Como refere Guy Debord, o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. O super-herói reduz o mundo a um duelo simples, quase infantil, entre o bem e o mal. Dispensa contexto, apaga causas, acelera o juízo. Tudo cabe num rosto, tudo se resolve num gesto. Enquanto isso, o sistema respira de alívio. Invisível, sem nome próprio, sem culpa atribuível. O super-herói é uma dessas mediações eficazes, simplifica o conflito e anestesia a ação coletiva. Mas nem esta lógica ficou confinada à ficção, nem a sua criação e divulgação é inócua. O super-herói saiu do papel, atravessou o ecrã e instalou-se na política como se sempre lá tivesse estado. Mudou apenas o modelo: trocou a capa pelo fato escuro, o discurso inflamado pelo slogan fácil, o raio laser pela promessa redentora.

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Desde então, habituámo-nos a esperar. Esperamos pelo líder forte, pelo salvador improvável, pelo homem providencial que, sozinho, resolverá o que milhões não conseguiram sequer discutir. A comunidade observa, sentada, agradecida, convencida de que o seu papel é aplaudir no final, se houver um final feliz o que, como a História nos mostra, não é bem assim.

Não vai a tribunal, não concede entrevistas, não pede desculpa. Permanece, intacto, enquanto trocamos protagonistas como quem inicia mais uma temporada de uma série televisiva. Em tudo isto há uma cruel ironia, melhor dizendo, quanto mais se exalta o indivíduo excecional, mais se educa a impotência coletiva. Quanto mais se celebra o herói, mais se normaliza a ideia de que nada depende de nós. A ação coletiva parece sempre insuficiente, lenta, enfadonha e incapaz de competir com o brilho do salvador solitário.

E, assim, a política foi-se transformando em entretenimento, a cidadania em plateia, e a democracia num género narrativo instável, sujeito a audiências. Já não se pergunta: como vamos mudar o mundo, mas quem será o próximo a tentar fazê-lo por nós!? Os super-heróis ensinaram-nos muitas coisas. Treinaram-nos, sobretudo, a olhar para cima, enquanto nos mantemos inertes abdicando de exercer os direitos e deveres de cidadania, e deixando de participar na vida coletiva das nossas comunidades.

Donald Trump tornou-se, para muitos, a explicação total da degradação democrática dos Estados Unidos. Como se antes dele não existisse um complexo militar-industrial, uma financeirização extrema da política, as grandes corporações, um sistema eleitoral disfuncional ou uma longa tradição de ingerência externa. O resultado está à vista de todos: critica-se o personagem e preserva-se o que realmente está na origem da deterioração da democracia. Isto é válido para os Estados Unidos, como para outros países. 

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Por outro lado, Maduro cumpre uma função semelhante. A crise venezuelana é frequentemente apresentada como produto exclusivo de um homem, apagando décadas de dependência estrutural do petróleo, bloqueios económicos, sanções internacionais e disputas geopolíticas que excedem largamente qualquer figura individual. O líder transforma-se no bode expiatório conveniente: concentra a culpa e absolve o contexto.

Hannah Arendt lembrava que o mal, muitas vezes, não nasce de monstros, mas da normalização de estruturas que funcionam sem pensamento crítico. A personalização, ao contrário do que parece, não combate essa banalidade, reforça-a. Porque desloca o olhar do sistema para o indivíduo, do processo para o gesto isolado.

O mesmo mecanismo reaparece nos grandes crimes políticos. O assassino de Kennedy, ou o autor do atentado de Oklahoma, são apenas dois exemplos do “lobo solitário” de cada época. A figura do indivíduo perturbado encerra rapidamente a narrativa, transforma o trauma político em caso policial e impede perguntas mais incómodas. Não se investiga o clima, as redes, as cumplicidades, os discursos que prepararam o terreno. O crime é tratado como um desvio, nunca como sintoma do sistema. Não se trata de negar a responsabilidade pessoal. Trata-se de reconhecer a sua insuficiência. A responsabilização individual, quando isolada, funciona como técnica de contenção: oferece indignação, punição e catarse moral, mas deixa intactas as engrenagens que tornam os acontecimentos repetíveis. Muitos outros exemplos poderiam ser referenciados, mas fiquemo-nos por aqui.

Como escreveu Michel Foucault, o poder raramente se concentra num ponto; circula, infiltra-se, reproduz-se. Dar-lhe um rosto é uma forma eficaz de o tornar invisível. Direi eu, que é a forma mais eficaz, perante uma opinião pública cada vez mais atomizada e acrítica, de conferir invisibilidade aos mandantes. Enquanto insistirmos em procurar protagonistas, continuaremos a mudar os nomes próprios e a manter os mecanismos. E o sistema, esse, seguirá tranquilo, sem rosto e sem culpa.  Apontamos o dedo ao indivíduo e o sistema continua a escrever a História com mãos invisíveis.

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Uma leitura marxista ajuda a compreender por que razão esta personalização é, não apenas recorrente, mas funcional. O capitalismo, enquanto modo de produção, precisa de ocultar as relações sociais que o sustentam. Precisa de esconder a exploração atrás da troca, a dominação atrás do contrato, o poder atrás da aparência de escolha individual. A figura do protagonista, herói ou vilão, cumpre aqui um papel central: desloca a análise da estrutura para o sujeito, da classe para o indivíduo, das relações de produção para o comportamento pessoal.

Marx lembrava que os homens fazem a sua própria História, mas não o fazem em circunstâncias escolhidas por si. A narrativa dominante inverte esta formulação: apresenta as circunstâncias como neutras, inevitáveis, naturais, e, os indivíduos como causa última de tudo o que acontece. Assim, o sistema económico deixa de ser histórico e passa a ser paisagem; deixa de ser questionável e passa a ser um dado adquirido. Criticam-se líderes, governantes ou executores, mas raramente se questiona a lógica que os produz, os seleciona e, quando necessário, os descarta. Nesta perspetiva, a personalização é uma poderosa ferramenta ideológica. Ela fragmenta a consciência social, impede a leitura de classe, dissolve a noção de interesse coletivo. Cada crise aparece como exceção, cada abuso como desvio, cada tragédia como erro humano e nunca como uma consequência previsível de um sistema organizado em torno da acumulação, da desigualdade e da mercantilização da vida. O capital permanece anónimo, difuso, irresponsável. Não tem rosto porque não deve tê-lo.

Talvez por isso a crítica verdadeiramente incómoda continue a ser aquela que insiste em desviar o olhar do indivíduo para as estruturas, do gesto isolado para a engrenagem que o torna possível. Enquanto apontarmos o dedo a protagonistas, continuaremos a errar o alvo. A História contemporânea não é escrita por heróis solitários, mas por sistemas concretos, interesses materiais e correlações de força que raramente se deixam ver, não sobem ao palco, não pedem aplauso nem absolvição. Limitam-se a continuar, silenciosos, a escrever a História, com mãos invisíveis e contando com a nossa alienação. Mas não é inevitável que assim seja, a História também é escrita pelos povos.

Ponta Delgada, 20 de janeiro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 21 de janeiro de 2026

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

o limiar do Ano Novo

do arquivo pessoal
A madrugada de 3 de janeiro, no limiar do tal Feliz Ano Novo, foi o momento escolhido pela administração estado-unidense para concretizar o que já vinha a adivinhar-se: a agressão militar, mais uma, a um país soberano. Desta vez foi a Venezuela. 

Por mais que se procure justificar este ato, e não faltarão vozes a dar-lhe cobertura, sendo que todas as fundamentações irão esbarrar no direito internacional, na Carta da Nações Unidas, ou seja, no respeito pela soberania e autodeterminação dos povos. Também internamente subsistem dúvidas sobre a legalidade constitucional da iniciativa da administração Trump, pois, o Congresso não foi informado e, como tal, não se pronunciou.

A argumentação a favor da agressão dos Estados Unidos da América (EUA) ficará sempre ferida de uma paradoxal dualidade de critérios, mas que importa isso aos comentadores encartados e aos putativos candidatos ao exercício dessa função que proliferam nas redes sociais, é tão mais fácil regurgitar a cartilha alicerçada no consenso neoliberal, nos chavões atlantistas e eurocêntricos que a caraterizam, do que defender o direito dos povos à sua soberania. 

A verborreia está ancorada em construções mediáticas como sejam: ditadura sanguinária, também tem a versão ditadura comunista, o narcotráfico, a legitimidade democrática do Presidente e do seu governo, todas estas imagens fabricadas sobre a Venezuela e os seus governantes escondem um interesse pouco nobre: o acesso sem limites às, comprovadas, maiores reservas de petróleo do mundo. É disto que se trata, ou principalmente disto, pois, se assim não fosse as intervenções militares dos Estados Unidos já teriam acontecido noutros países do globo e, nem é necessário enumerá-los, porquanto são sobejamente conhecidos. Quanto às questões ideológicas são apenas um viés, pois, como está amplamente demonstrado o motivo real é económico, neste caso chama-se petróleo, mas também de sobrevivência da dominação imperial que se encontra em declínio. A crescente desdolarização no comércio internacional não é despiciente quando se quer analisar o quadro das relações internacionais.

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Podia, mas não vou fazê-lo, comparar a qualidade do regime democrático dos EUA com outros regimes e, quiçá, o farol ocidental da liberdade, da democracia e da defesa dos direitos humanos não ficaria muito bem classificado. Vejam-se e comparem-se os indicadores socioeconómicos como, por exemplo, o Índice de Gini e com facilidade se percebe que os EUA não são exemplo que se siga. Fico-me por aqui, pois, tenho como princípio não me ingerir nos assuntos internos dos países e, muito menos nas escolhas eleitorais dos povos, goste ou não goste dos protagonistas eleitos.

A Venezuela não é um acaso na história recente; é apenas mais um capítulo de uma narrativa antiga, onde o direito internacional é invocado quando convém e descartado quando incomoda. Esta continua a ser a retórica dominante nos comentários e tomadas de posição pública dos representantes institucionais e de alguns protagonistas políticos que papagueiam o mantra do ditador e do narcotráfico, chegando mesmo ao desplante de afirmar que foi uma ação cirúrgica para capturar o presidente, como se isso, só por si, não representasse uma violação do direito internacional. Esta agressão à soberania de um povo, como já referi, não é uma novidade e deixo aqui apenas alguns exemplos de intervenções dos EUA que violaram o direito internacional: Panamá, Jugoslávia, Iraque e Líbia, de entre muitas outras. É sempre bom lembrar que, como diz Eduardo Galeano: cada vez que os EUA ‘salvam’ um povo, deixam-no transformado em manicômio ou cemitério. 

O que eu penso dos EUA e da Venezuela, pouco importa, diria até que não importa nada, mas já em relação aos acontecimentos recentes tenho opinião sustentada na Carta das Nações Unidas. E é face ao direito internacional que condeno a agressão que foi perpetrada sobre um país soberano e, espero, que essa condenação seja inequívoca e veemente por Portugal e pela União Europeia. Embora pelo que já foi dito não irá acontecer, pois, nos primeiros dias as declarações oficiais do governo português e da presidência da República foram caraterizadas pela ambiguidade, pelos silêncios e pela tibieza diplomática, nada que se estranhe, mas não se desculpa.

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A posição da União Europeia pode ser caracterizada da mesma forma, a alusão de Kaja Kallas à falta de legitimidade de Maduro, é no mínimo ridícula. Esta afirmação vinda de uma personalidade que não foi sufragada popularmente, ou seja, não foi eleita, não deixa de ser burlesca, aliás esta senhora tem vindo a demonstrar que o seu antecessor, Josep Borrel, não era tão boçal quanto, por vezes, parecia.

O que verdadeiramente está em causa não é apenas mais uma violação do direito internacional, mas a sua redução a letra morta sempre que colide com os interesses estratégicos dos EUA. A agressão à Venezuela não resulta de um erro de cálculo nem de um excesso pontual, esta ação bélica é expressão de um sistema que opera com total impunidade, convencido de que já não precisa sequer de fingir respeito pelas normas que diz defender. Quando o agressor é um Estado hegemónico, o crime transforma-se em procedimento, a ilegalidade em método e a violência em política externa.

A chamada ordem internacional “baseada em regras” revela-se, assim, uma ficção útil. As regras existem, mas não são universais; são instrumentos de dominação aplicados seletivamente, conforme a correlação de forças. Aos aliados tudo é permitido, aos adversários nada é tolerado. A mesma ação que, praticada por um inimigo, justificaria sanções, bloqueios ou intervenções armadas, quando executada pelos EUA é rapidamente branqueada por um coro de justificações técnicas, eufemismos militares e silêncios diplomáticos cúmplices.

A União Europeia, que tanto gosta de se apresentar como bastião do multilateralismo e dos direitos humanos, confirma uma vez mais a sua irrelevância política e a sua subserviência estratégica. Incapaz de uma posição autónoma, limita-se a aguardar, para depois repetir a linguagem de Washington, mesmo quando isso implica trair os princípios que proclama. O caso da Venezuela é exemplar: perante uma agressão clara a um país soberano, a UE prefere discutir a legitimidade do governo atacado em vez de condenar o ataque. É uma inversão moral e jurídica que diz muito sobre o estado da política da UE.

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Portugal, como tem vindo a ser habitual, confirma o seu papel de figurante obediente. A ambiguidade das declarações oficiais, os silêncios calculados e a ausência de uma condenação firme não resultam de prudência diplomática, mas de alinhamento acrítico. Não é neutralidade, é submissão. Não é cautela, é abdicação. Um país que se reclama do direito internacional não pode escolher quando ele importa e quando deve ser ignorado.


Os meios de comunicação social e a opinião publicada completam este quadro de degradação política. Em vez de questionarem o essencial, a legalidade e a legitimidade da agressão, perdem-se em debates laterais, reproduzindo a cartilha do ditador, do narcotráfico e da ameaça regional. O agressor desaparece do enquadramento, substituído por uma narrativa onde a vítima é transformada em culpada. A guerra deixa de ser um crime e passa a ser um tema de comentário, avaliado em função da eficácia, da oportunidade ou do impacto mediático.

Esta normalização da violência imperial não é apenas perigosa, é corrosiva. Corrói o direito internacional, esvazia o multilateralismo e legitima um mundo onde a força substitui a lei. Quando as agressões deixam de ser condenadas pelo que são e passam a ser avaliadas em função de quem as pratica, abre-se caminho para um sistema global assente na arbitrariedade e na lei do mais forte. 

O início do ano, com o seu ritual de votos de paz e esperança, torna-se assim uma encenação cínica. Enquanto se fala de futuro, perpetuam-se práticas que pertencem ao passado mais sombrio. Enquanto se evocam valores universais, nega-se a povos inteiros o direito básico à soberania e à autodeterminação.

O ano de 2026 iniciou-se com os habituais votos de paz e brindes ao futuro que queremos melhor, mas a dura realidade chegou ainda ecoava o tilintar das celebrações. Este ano nem nos deram tempo de chegar ao Dia de Reis.

Ponta Delgada, 4 de janeiro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 7 de janeiro de 2026

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

a véspera

foto de Aníbal C. Pires
Nos dias que antecedem a celebração do Natal e do Ano Novo ecoa um ritual de palavras que formulam votos de futuros melhores, promessas de harmonia e proclamações de paz no mundo. Como outros rituais, também este é cíclico: aos primeiros dias de janeiro, digamos depois da celebração do Dia de Reis, lá se vai o espírito da época. Quero crer que fica sempre uma réstia de esperança, mas começo a duvidar. Questiono-me se ainda sobejará algum alento após décadas e décadas de espera por uma mudança que nunca chega. Alterações tem-nas havido, e continuam a acontecer a ritmos alucinantes, mas não correspondem, de todo, aos desejos repetidamente formulados.

Esta talvez não seja a melhor abertura para um texto em véspera de Natal, nem garanto que, daqui para a frente, venha a conseguir apropriar-me do espírito da época. Não está fácil, mesmo com as decorações nos espaços públicos iluminados a anunciar uma qualquer boa nova num plano de compra a prestações, sem juros.

Não posso negar que a encenação da época natalícia traz consigo algo que conforta, que anima. Mas traz também algo de profundamente insuficiente perante a complexidade do tempo e do espaço que habitamos, algo que não se concilia com a leviandade rotineira dos votos formulados. Não quero ser injusto e abro uma exceção para quem, de forma genuína e com espírito solidário, celebra as festas de Natal, Ano Novo e Dia de Reis. Sei que assim é, e tenho por esses meus concidadãos o maior respeito.

Não é possível escapar aos apelos das Festas que se querem boas. Ninguém fica indiferente, e a celebração, do que quer que seja, acaba por se consumar. Para não perder tempo, já dei início ao ciclo de festividades assinalando o Solstício de Inverno, que no hemisfério Norte é ancestralmente saudado como o início de um novo ciclo natural.

foto de Aníbal C. Pires

A evocação do Solstício de Inverno não é um detalhe folclórico, nem um mero abrigo simbólico. Remete para uma noção de tempo que precede a retórica do progresso linear e das promessas adiadas. Os ciclos naturais ensinam que não há crescimento infinito, nem hegemonias eternas, nem luz sem atravessar a noite. A história humana, apesar de todas as tentativas de a domesticar, obedece à mesma lógica.

É precisamente numa fase de declínio de um ciclo que nos encontramos, ainda que isso seja sistematicamente negado. O mundo organizado em torno da supremacia ocidental, do domínio financeiro e militar dos Estados Unidos e da submissão política dos seus aliados europeus mostra sinais claros de desgaste, senão mesmo de rutura. Em vez de reconhecer esse esgotamento e procurar novas formas de cooperação, a resposta tem sido a radicalização do confronto.

A Palestina continua a ser palco da barbárie, nas Caraíbas, o reaparecimento de atos de pirataria no contexto do conflito entre os Estados Unidos e a Venezuela não é um anacronismo preocupante. É a prova de que o recurso à força, à intimidação e ao bloqueio económico continua a ser uma ferramenta central da política internacional, em particular da praticada pelos Estados Unidos. A linguagem muda, os métodos adaptam-se, mas a lógica colonial permanece.

Na União Europeia, a opção pela guerra deixou de ser tabu e é hoje assumida como caminho. Um caminho que se adivinha desastroso para a própria União. Depois dos 800 mil milhões destinados a alimentar a corrida armamentista, surge agora, face à ilegalidade que constituiria a utilização dos ativos russos, o financiamento da Ucrânia em dezenas de milhares de milhões de euros, apresentado sob a forma de um recente empréstimo. Como se não bastasse todo o financiamento anterior, com o destino que conhecemos, acrescenta-se mais este absurdo que compromete as gerações futuras. Tudo isto acontece sem debate público sério, sem referendo, sem verdadeiro escrutínio democrático. A economia de guerra instala-se como normalidade, enquanto se corta, se adia e se sacrifica tudo o que não contribua para esse esforço.

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Na Europa, assiste-se assim a uma corrida armamentista apresentada como inevitável, quase natural. Em nome da segurança, aceita-se a lógica da guerra como horizonte permanente, enquanto se aprofunda uma subjugação estratégica e política aos ditames dos Estados Unidos. A ideia de soberania europeia dissolve-se entre alinhamentos automáticos e silêncios convenientes.

Em paralelo, os protestos dos agricultores europeus expõem a falência de um modelo que se diz sustentável, mas que destrói quem produz. Bruxelas, símbolo do poder tecnocrático, reage com surdez e cinismo. A agricultura é invocada nos discursos, mas abandonada na prática, vítima de políticas que favorecem grandes interesses económicos e mercados globais em detrimento da soberania alimentar e do bem-estar dos cidadãos.

Vivemos um momento histórico marcado por tensões que se normalizam. O recrudescimento de discursos e práticas fascizantes deixou de ser exceção para se tornar método. Aceita-se como uma necessidade o autoritarismo. Reabilitam-se símbolos e ideias que julgávamos enterradas. O medo volta a ser um instrumento político legítimo. A liberdade de expressão está cerceada. 

Em paralelo, a história é reescrita com mão pesada. Apagam-se responsabilidades, diluem-se crimes, relativizam-se violências. Culturas inteiras são empurradas para as margens ou diretamente silenciadas, como atualmente está a acontecer à cultura russa. Não é um processo novo, mas ganha hoje uma eficácia renovada através dos meios e das narrativas produzidas por uma União Europeia subserviente, repetidas com veemência por algumas famílias políticas até se tornarem, aos olhos dos cidadãos, aparentes verdades absolutas. É lamentável e constrangedor ver e ouvir deputados portugueses eleitos para o Parlamento Europeu a regurgitar o discurso do perigo russo e a defender o financiamento da guerra.

Enquanto isso, o eixo do mundo desloca-se. China, Rússia, Índia, Indonésia e outros países fora da órbita atlântica reforçam a sua autonomia económica, diversificam alianças e reduzem a dependência do dólar no comércio internacional. Não se trata de uma ameaça, mas de uma mudança estrutural que altera o equilíbrio global, mais que uma premonição é um facto. Ainda assim, esta realidade é sistematicamente desvalorizada ou ocultada no espaço público europeu, também com a cumplicidade de alguns parlamentares europeus eleitos pelos portugueses.

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A maioria dos cidadãos da União Europeia permanece afastada destas discussões. Não por desinteresse, mas por efeito de uma máquina de propaganda que simplifica o mundo em blocos morais, reduz a complexidade a slogans e transforma qualquer dissidência ao pensamento único em suspeita. Pensar fora do guião eurocêntrico tornou-se um exercício desconfortável e, por vezes, perigoso.

Neste quadro, o Natal surge como uma suspensão artificial do tempo histórico. Um intervalo emocional que permite continuar sem questionar. Mas os ciclos não se interrompem por decreto, nem pela iluminação festiva. Tal como no Solstício, a escuridão não é um acidente: é parte do processo.


Reconhecer o fim de um ciclo não é ceder ao fatalismo. É, pelo contrário, condição para que algo diferente possa emergir. A recusa em ver, em nome do conforto ou da conveniência, apenas prolonga a noite. Talvez seja essa a verdadeira inquietação que esta época deveria provocar, em vez de votos leves e promessas recicladas.

É neste contexto que chega o Natal. Não como refúgio inocente, mas como interrogação. Que sentido têm as palavras de paz quando se investe na guerra? Que valor têm os apelos à tolerância quando se normaliza a exclusão? Que memória celebramos quando tantas outras são ativamente apagadas?

Se o Natal ainda pode significar algo, talvez seja isto: um momento de pausa crítica e de responsabilidade. Uma recusa da anestesia que nos é oferecida como conforto. Um compromisso ativo com a dignidade humana, para além das fronteiras, das narrativas oficiais e das conveniências do poder, mesmo quando esse compromisso tem custos.

Ponta Delgada, 23 de dezembro de 2025 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 24 de dezembro de 2025

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Espelhos da (des)humanidade

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O Mediterrâneo é, sempre foi, mais do que um mar. Este espaço marítimo foi berço de civilizações, comércio, guerra, encontro e fuga. Hoje, tornou-se numa ferida exposta no mundo ocidental. Nele convergem os escombros das guerras, o rasto das ditaduras, a pobreza gerada por décadas de saque económico e a violência das políticas externas ocidentais. É o mar onde naufraga diariamente uma certa ideia de Europa que se proclama guardiã dos direitos humanos, mas ergue muros, patrulha fronteiras, financia milícias e assiste, não como um cúmplice em silêncio, mas como mandante ativo, à morte de milhares de migrantes que tentam apenas sobreviver ao caos herdado do colonialismo e aos efeitos do neocolonialismo.

O Mediterrâneo é a metáfora perfeita da hipocrisia europeia: chama “crise” ao que ela própria produz e alimenta, chama “ameaça” aos que fogem das ameaças que semeou, chama “choque civilizacional” àquilo que é, na essência, um encontro desigual entre mundos violentados e um projeto de bem-estar construído sobre séculos de um colonialismo que teima em persistir sob formas de dependência neocolonial.

Um outro mar, o Atlântico, mais vasto e aparentemente mais pacífico, mas não menos gerador de conflitualidades, ou pelo menos de instrumento para alimentar projetos políticos e bélicos de um domínio hegemónico em ruínas. Foi no Atlântico que Portugal se habituou a ver a sua projeção marítima, ora como ponte, ora como eco de interesses que não são verdadeiramente seus. O Atlântico é a rota estratégica dos cabos submarinos, do tráfego energético, do posicionamento militar estado-unidense, das rotas comerciais que unem continentes e da crescente militarização que visa a defesa de projetos imperiais pouco recomendáveis e aos quais urge por termo, o espetro de uma guerra generalizada está desenhado, saibamos utilizar a diplomacia como instrumento nas relações internacionais e abandone-se, de uma vez por todas, a guerra. 

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É nesse Atlântico que se situam as ilhas açorianas. O arquipélago é o ponto estratégico no xadrez geopolítico sobre o qual Portugal tem cada vez menos soberania. A base das Lajes, o posicionamento no Atlântico médio, os corredores militares e tecnológicos, tudo isso faz dos Açores um centro instrumental para Washington e Bruxelas, mas continua a ser uma periferia para Lisboa. A capital raramente percebe a dimensão do que tem entre mãos ou, se percebe, não tem sabido potenciar este ativo. Não como plataforma para a guerra, mas como suporte para a paz e cooperação e um ponto de encontro entre mundos. 

Portugal encontra-se entre estes dois mares, não só geográfica, mas histórica e politicamente.

Essa condição poderia ser potenciada, mas tem sido depreciada. Poderia ser ponte, mas tem sido, apenas, um posto avançado de interesses externos que o usam e descartam, consoante os contextos políticos e os proveitos para os poderes que alimentam a hegemonia ocidental.

Portugal nunca soube aproveitar este seu ativo natural e continua a ser mero espetador. Não pense o leitor que existe aqui algum saudosismo do colonialismo e do imperialismo português, nem se pense, ainda que por um instante, que defendo uma posição portuguesa mais interventiva no apoio a ações políticas de carácter bélico dos Estados Unidos e da OTAN, nada disso. A posição geográfica dos Açores, a meio caminho, entre o continente europeu e americano (Sul e Norte), a Macaronésia, mas também o continente africano, ou seja toda a bacia atlântica, conferem ao arquipélago uma centralidade que importaria valorizar. Mas o país insiste em posicionar-se como “aluno aplicado” da estratégia atlantista, no mau sentido da palavra, mesmo quando essa estratégia reforça desigualdades, alimenta conflitos e normaliza a guerra.

Veja-se como a pena corre, quando a deixamos ir sem controle para assuntos complexos, quiçá interessantes, mas que não faziam parte do meu propósito. Quando me sentei trazia comigo a ideia de abordar uma das condições humanas do nosso tempo: as migrações. Estou a meio caminho do fim do texto e ainda ando à deriva entre o Mediterrâneo e o Atlântico. Se bem que estes dois mares serviram e servem para a deslocação de pessoas, uns compulsivamente, outros por vontade própria, mas sempre em resultado da violência e de sistemas políticos e económicos predatórios. Foi assim com a escravatura, é-o agora com a guerra, com a pobreza e com o esgotamento das economias locais, entendidas aqui como regiões onde por diferentes motivos a fome e a negação de uma vida digna impelem cidadãos para percursos migratórios nos quais não há nenhum romantismo, apenas desespero. A maioria não são nómadas digitais, nem têm vistos gold.

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Ao contrário do que tantas narrativas oficiais tendem a caraterizar, migrar não é escolha, migrar é uma fuga à morte. E não é uma sentença natural, inscrita no destino, mas fabricada por um sistema económico global que transforma regiões inteiras em zonas de extração, dependência e desespero. A Europa e os Estados Unidos, tão rápidos a proclamar valores e direitos, são igualmente rápidos a negar qualquer ligação entre o seu bem-estar e o sofrimento alheio. Fingem não perceber que cada barco que atravessa o Mediterrâneo com destino á costa europeia transporta, além de vidas, um inventário de responsabilidades históricas. Cada pessoa que atravessa a fronteira mexicana leva consigo as marcas de décadas de ingerência económica, militar e política.

O que impressiona não é apenas a dureza das trajetórias migratórias, mas a brutalidade crescente com que o Ocidente decide “defender-se” daqueles a quem chama ameaça. A Europa transformou as suas fronteiras em laboratórios de desumanização: centros de detenção, arame farpado, tecnologia de vigilância, drones, acordos com Estados-fantasma convertidos em canis humanos. A retórica política, ora sussurrada, ora gritada, tenta convencer-nos de que esta violência é necessária para preservar o nosso modo de vida. Mas ninguém diz, pelo menos com honestidade, que esse modo de vida é insustentável sem a destruição sistemática das economias do Sul global e sem a exploração barata, invisível e descartável de imigrantes que, uma vez cá dentro, são úteis, mas nunca bem-vindos.

Os Estados Unidos, que durante décadas se apresentaram como “nação de imigrantes”, fazem hoje da fronteira sul uma zona militarizada onde se testam tecnologias de exclusão dignas de ficção distópica. Muralhas, sensores térmicos, vigilância permanente, milícias privadas, a fronteira mexicana tornou-se palco de uma guerra não declarada contra civis desarmados. E, tal como na Europa, a violência é legitimada por discursos que classificam os migrantes como invasores, criminosos ou, uma ameaça cultural. 

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O que me inquieta não é apenas a violência visível nas fronteiras, mas a perseguição crescente dentro dos próprios países de acolhimento. Na Europa multiplicam-se as leis que restringem direitos, as campanhas mediáticas que diabolizam comunidades inteiras, as agressões que passam impunes, os partidos que ascendem ao poder prometendo “limpar”, “repatriar”, “proteger” quem é “de cá”. Nos Estados Unidos, o clima é semelhante: criminalização, deportações massivas, exploração do trabalho, comunidades inteiras a viver na sombra, sem direitos ou voz. A xenofobia e o racismo, que se escondia sob capuzes, hoje desfila à luz do dia com uma arrogância triunfal.

Mas se observarmos com atenção, veremos que esta violência dirigida aos migrantes tem uma função precisa: desviar o olhar. A imagem do migrante é construída como sendo o inimigo externo para ocultar o verdadeiro inimigo interno, o modelo económico que precariza, empobrece e abandona a maioria da população. É mais fácil culpar quem chega do que enfrentar quem detém o poder. É mais fácil construir muros do que questionar o porquê de tantas pessoas quererem atravessá-los.

Talvez falte ainda a consciência plena de que o Mediterrâneo e o Atlântico não são apenas geografias: são espelhos onde nos vemos, ou deveríamos ver. São mares que transportam histórias que também são nossas. 

O que está em causa, no fundo, não são as migrações, mas a humanidade. E talvez seja esse o futuro que ainda nos resta: escolher entre a barbárie das fronteiras e a humanidade das pontes.

Ponta Delgada, 9 de dezembro de 2025 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 10 de dezembro de 2025

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Abril e não novembro

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As tentativas de rescrição da história não são um fenómeno da atualidade, nem derivam diretamente das infindas possibilidades da Inteligência Artificial ou, da replicação de opinião não sustentada, nas redes sociais.

O cinema, a televisão e, ainda antes, a comunicação social escrita, foram (e são) suportes para a criação de narrativas que, ancoradas, em acontecimentos reais nem sempre correspondem à realidade factual.

Recentemente acabei de ler do livro “A Linguagem Secreta do Cinema”, de Jean-Claude Carrière, um reconhecido argumentista e cinéfilo francês. A leitura, da qual darei mais destaque num outro suporte, foi enriquecedora pois trata-se de uma personalidade que não só domina a “linguagem” como conheceu por dentro a indústria cinematográfica. Não sendo uma novidade esta experiência e as aprendizagens que daí decorreram permitiram-me consolidar uma ideia sobre a qual já tinha opinião formada e que hoje partilho com os leitores da Sala de Espera: O cinema muitas vezes reescreve, simplifica, higieniza ou romantiza acontecimentos e processos sociais que foram tudo menos limpos. Algumas produtoras especializaram-se nessa arte subtil da indução narrativa criando versões épicas de conflitos, apagando contradições, transformando derrotas em vitórias morais ou convertendo dramas coloniais em aventuras redentoras. 

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A forma como a câmara se posiciona, o herói que escolhe, o inimigo que fabrica é, bastas vezes, mais do que garantir sucesso de bilheteira, vender uma visão do mundo muitas vezes distante da verdade histórica. Algumas das narrativas hollywoodescas estão aí para o provar, não só, mas também.   

Como certamente concluíram não se trata de nenhuma novidade e muito menos de uma descoberta assombrosa. Os leitores que por aqui estão terão consciência disto, mesmo que como eu, não tenham experiência ou conhecimentos aprofundados sobre a sétima arte. As narrativas cinematográficas moldam estados de perceção que nos preparam para aceitar a ficção como se fosse realidade. 


Em Portugal temos uma variedade de construções míticas que foram fazendo fé como realidades, mas que não passam disso mesmo: efabulações. A própria fundamentação da criação do reino de Portugal está ligada a uma dessas lendas, o “Milagre de Ourique”.

Hoje (ontem) o calendário diz-nos que é o vigésimo quinto dia do mês de novembro e alguns cidadãos procuram celebrar o cinquentenário desta data como um acontecimento digno de registo na história recente do nosso país, chegando mesmo a conferir mais importância a este dia do que ao dia fundacional da democracia portuguesa: o dia 25 de Abril de 1974.

Juízos e opiniões há muitos, mas, tal como o algodão, os factos não enganam. E, vou apenas recorrer a alguns que demonstram, de forma clara, que os acontecimentos de há cinquenta anos não sustentam as narrativas da direita, nem da extrema-direita, ou seja, dos saudosistas de um regime torcionário:  i) não houve alterações na composição do VI Governo Provisório liderado pelo Almirante Pinheiro de Azevedo. O Governo do dia 24 de novembro manteve-se em funções no dia 26; ii) o Presidente da República não foi deposto; a Assembleia Constituinte continuou em funcionamento e aprovou a CRP no dia 2 de Abril de 1976; iii) a CRP consagrou as conquistas da Revolução de Abril de 1974; iv) a CRP foi aprovada com uma larga maioria, mas poderia ter sido apenas aprovada por maioria simples. Não houve unanimidade devido ao voto contra do então CDS.

Os acontecimentos do dia 25 de novembro de 1975 são, no essencial, de ordem militar não tendo havido, ao contrário do dia 25 de Abril de 1974 mobilização popular. Os cidadãos ficaram expetantes e não participaram. Foi um dia tristonho que contrastou com a alegria e aura de felicidade que pairou sobre os portugueses no dia 25 de Abril de 1974 e nos dias que se lhe seguiram.

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O 25 de novembro de 1975 tem, contudo, um cariz contrarrevolucionário, no sentido preciso com que o termo é usado na historiografia, isto é, de travar o aprofundamento da revolução. Os protagonistas militares pertenciam a um grupo, dito, de moderados cujo propósito era a liquidação do papel do MFA, e conseguiram-no com o afastamento e prisão de muitos dos oficiais do MFA. O movimento revolucionário sofreu um duro golpe, mas estas alterações não foram suficientes para travar o ímpeto transformador que se tinha impregnado no povo e nos trabalhadores portugueses o que garantiu que as conquistas de Abril, como já referi, fossem consagradas na CRP.

Se o episódio de 25 de novembro de 1975 travou setores revolucionários que queriam aprofundar o processo socialista, também é verdade que não inverteu de imediato o rumo iniciado a 25 de Abril. Pelo contrário, a força popular acumulada ao longo de mais de um ano de mobilização é o que explica que as conquistas sociais não tenham sido desmanteladas pelas autoridades civis ou militares que emergiram posteriormente.

As primeiras eleições legislativas, realizadas em 25 de abril de 1976, foram o momento de “institucionalizar” a democracia representativa. A correlação de forças foi clara: o PS venceu, seguido muito de perto pelo PPD/PSD, com o PCP a afirmar-se como terceira força e a extrema-direita a não ter expressão eleitoral. A direita, organizada sobretudo no CDS, teve uma fraca representação institucional. Este quadro não corresponde à narrativa de uma alegada vitória da direita em novembro de 1975. Não existe qualquer evidência histórica que sustente essa leitura. Se alguém venceu politicamente foram as forças que defendiam o socialismo democrático, a economia mista, os direitos laborais e sociais conquistados desde 1974.

Pouco depois, em 27 de junho de 1976, tiveram lugar as primeiras eleições presidenciais. A vitória do general Ramalho Eanes, apoiado sobretudo pelo PS e pelo CDS, mas com uma imagem popular de uma personalidade equilibrada. Eanes não sendo um revolucionário, não era um saudosista dos tempos do Estado Novo.

A partir daqui, porém, começa um processo que importa compreender com detalhe. A Constituição de 1976 consagra princípios que resultam diretamente do ímpeto transformador do povo português em 1974 e 1975: o caminho para o socialismo, a irreversibilidade das nacionalizações, a reforma agrária, os direitos laborais avançados, o papel das comissões de trabalhadores, o sistema de saúde universal, a educação como direito e dever fundamental. Mas a partir do início dos anos 1980, com a revisão constitucional de 1982 e sobretudo com a de 1989, inicia-se o longo processo de erosão das conquistas de Abril.

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Este desmantelamento não foi súbito: foi gradual, negociado externamente e legitimado institucionalmente pelos órgãos de soberania nacional. Começou pela retirada do poder político do MFA, que ainda tinha presença constitucional, continuou com a eliminação do Conselho da Revolução, prosseguiu com a liberalização económica e culminou nas privatizações em massa que inverteram a lógica da economia mista. As revisões constitucionais transformaram a CRP de um texto orgânico, coerente e ousado, numa peça adaptada aos ventos ideológicos dominantes no espaço europeu e atlântico. É a partir daí que Portugal entra, definitivamente, na rota neoliberal que marcou as décadas seguintes. Rota essa que hoje nos coloca, de novo, perante desigualdades, precariedade e fragilização dos serviços públicos.

E é por isso que revisitar esta data exige rigor e memória crítica. Nenhuma narrativa épica, nenhum revisionismo de ocasião e nenhuma simplificação jornalística consegue apagar o essencial: Portugal tornou-se uma democracia graças ao 25 de Abril; consolidou-a graças à participação popular e às conquistas sociais de 1974–1976, e, só anos mais tarde, muito depois dos acontecimentos de novembro de 1975, se iniciou o processo político que progressivamente amputou da CRP e da vida dos portugueses algumas das conquistas de Abril. A História é muito mais complexa do que os enredos fabricados. E quando a narrativa se sobrepõe ao real, o melhor antídoto continua a ser o mais simples: fatos, memória e espírito crítico.

Ponta Delgada, 25 de novembro de 2025 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 26 de novembro de 1025