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segunda-feira, 5 de julho de 2021

Cabo Verde

foto by Aníbal C. Pires


Hoje comemora-se o Dia da Independência de Cabo Verde. Para assinalar esta data republico um texto escrito e publicado em julho de 2004.





Cabo Verde visto de fora

foto by Aníbal C. Pires
Seja pela imensidão dos espaços continentais, pela peculiaridade e beleza das regiões insulares, da cultura e encantamento dos seus povos, pela guerra colonial com que, mesmo sem a viver, com ela cresceu, ou, apenas, pelo mítico magnetismo que exerce sobre quem a sonha. Quem sente os sons, cheiros e sabores desta terra fascinante a que ninguém fica indiferente e que todos os portugueses da minha geração, independentemente dos seus percursos de vida, têm no seu imaginário, África, Quem a sente não lhe fica indiferente.

O meu fascínio por África, e em particular por Cabo Verde, surgiu e foi-se desenvolvendo durante a minha infância, vá-se lá saber porque é que uma criança nascida e criada em terras do interior do continente português, e de onde só saiu quando jovem adulto, se sentia atraída por uma terra, um povo e uma cultura tão distantes, não disse diferente, nem digo, porque sempre senti pelo povo de Cabo Verde e pela sua cultura uma grande proximidade, talvez mesmo identificação, ainda que, por ser uma criança do interior, me faltasse o azul do mar e a sua imensidão.

Não sei se pela dolência das mornas, se pela harmonia das mazurkas, se foi a alegria do funaná e da coladeira, ou os ritmos alucinantes da tabanca e do batuque que o fascínio por esse povo, moldado pelo vento Leste, pelo imenso Atlântico, pela chuva que não cai e pela dor da hora di bai, foi crescendo e ganhando uma cada vez maior admiração.

foto by Aníbal C. Pires
Só muito recentemente o sonho de menino se concretizou, conhecer Cabo Verde. A afeição reforçou-se e, ainda que embargado pelos sentidos, compreendi porque, desde sempre, senti grande identificação com este povo e a sua cultura. A interioridade onde nasci e cresci, a insularidade e o viver ilhéu, de mais de vinte anos, facilitaram a compreensão e o estabelecimento de paralelismos, semelhanças e vivências que unem, e de diferenças que não afastam, antes se complementam e me aproximam mais do povo de Cabo Verde.

A estabilidade política, a consolidação do regime democrático e um exemplar aproveitamento da ajuda externa e, sobretudo, a dignidade e a vontade de um povo, catapultaram Cabo Verde para o grupo de países com um Índice de Desenvolvimento Humano médio. O percurso trilhado nos últimos vinte nove anos por este pequeno país africano, insular e arquipelágico e, a que os técnicos do Banco Mundial vaticinaram a inviabilidade económica, é exemplar para África e, em particular, para os restantes Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

Cabo Verde, micro estado insular, arquipelágico e Atlântico, comemorou, no passado dia 5 de Julho, o vigésimo nono aniversário da sua independência, em vez de apreciações sobre percurso trilhado ou, de uma análise prospetiva sobre o futuro deste jovem país no quadro da Macaronésia, das relações com os Açores e da estratégia de aproximação à União Europeia, e para além do que já ficou dito, gostaria de deixar algumas linhas de homenagem à comunidade transnacional cabo-verdiana – os cabo-verdianos da terra-longe.

foto by Aníbal C. Pires
Para os cabo-verdianos, o que hoje parece ser fruto das modernas tecnologias e da globalização, o transnacionalismo, tem sido um modo de vida desde o século XV. As comunidades cabo-verdianas encontram-se dispersas por quatro continentes e 18 países, sendo que, a comunidade da Nova Inglaterra é considerada a mais antiga e maior. As semelhanças da emigração cabo-verdiana com a emigração açoriana, para os Estados Unidos, estão descritas em estudos académicos, na história da baleação e na literatura. Dias de Melo, em Pedras Negras, não por mero acaso ou qualquer razão de ordem literária, coloca no convés da barca baleeira que levaria o Francisco Maroco e o João Peixe-Rei para a aventura americana um cabo-verdiano, “(…) António, Tony me chamam aqui a bordo, e nasci em Cabo Verde. É melhor vocês mudarem também os nomes p’ra americano. John… Frank…. Venham comigo. (…)

A dispersão dos cabo-verdianos pelo mundo tem origem nas clássicas motivações da emigração, comuns a muitos outros povos. E, também, como muitos outros povos o ideário de retorno à terra-mãe está sempre presente, embora, como se sabe, poucos retornem. A coesão e pujança da comunidade transnacional cabo-verdiana assentam em dois pilares, que foram, igualmente, basilares na construção da própria cabo-verdianidade e identidade nacional. O crioulo, língua nacional, e a representação coletiva do território, a relação com a terra-mãe, que nos cabo-verdianos tem um acentuado carácter mágico-religioso.

Para os cabo-verdianos da terra-longe e, em particular aos que vivem e trabalham na Região Autónoma dos Açores, aqui fica a minha homenagem e os votos de que Cabo Verde possa continuar na senda do progresso e do desenvolvimento.


Ponta Delgada, 08 de Julho de 2004


quarta-feira, 5 de julho de 2017

... de Cabo Verde

Foto by Aníbal C. Pires (ilha do Sal, Cabo Verde)









Porque hoje se comemora a independência de Cabo Verde ficam, em jeito de homenagem ao povo cabo-verdiano, estes pequenos trechos, separados por um vídeo, de um texto escrito em Julho de 2004.




(…) O meu fascínio por África, e em particular por Cabo Verde, surgiu e foi-se desenvolvendo durante a minha infância, vá-se lá saber porque é que uma criança nascida e criada em terras do interior do continente português, e de onde só saiu quando jovem adulto, se sentia atraída por uma terra, um povo e uma cultura tão distante.
Não sei se pela dolência das "mornas", se pela harmonia das "mazurkas", se foi a alegria do "funaná" e da "coladeira", ou os ritmos alucinantes da "tabanca" e do "batuque" que o fascínio por esse povo, moldado pelo vento Leste, pelo imenso Atlântico, pela chuva que não cai e pela dor da "hora di bai", foi crescendo e ganhando uma cada vez maior admiração. (…)





(…) A dispersão dos cabo-verdianos pelo mundo tem origem nas clássicas motivações da emigração e o ideário de retorno a "nos terra" está sempre presente. A coesão e pujança da comunidade transnacional assentam em dois pilares, que foram, igualmente, basilares na construção da própria caboverdianidade e identidade nacional: O crioulo – língua nacional; e a representação coletiva do território, a relação com a "terra mãe/nos terra", que nos cabo-verdianos tem um acentuado carácter mágico-religioso.
Para os cabo-verdianos da terra-longe e, em particular aos que vivem e trabalham na Região Autónoma dos Açores, aqui fica a minha homenagem e os votos de que Cabo Verde possa continuar na senda do progresso e do desenvolvimento. (…)

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Mulheres de Cabo Verde - a abrir Novembro

Foto by Anibal C. Pires






Em qualquer latitude e longitude as mulheres são as principais responsáveis pela transmissão da cultura e tradição. São as mulheres que cuidam, são as mulheres que lutam. Lutam pela família, lutam pela sua afirmação, lutam contra a discriminação.









Foto by Aníbal C. Pires






Em Cabo Verde é assim, sempre foi assim. As mulheres cabo-verdianas são bonitas, São mulheres que lutam. Lutam aqui em “nós terra” e nas comunidades diaspóricas espalhadas pelo Mundo.

Santa Maria (Sal, Cabo Verde), 01 de Novembro de 2016

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Lugares da morabeza

Foto by Madalena Pires
Passados 7 anos, Santa Maria, como todos os lugares de Sol e praia, pacíficos e acolhedores, cresceu. Desenvolveu-se, ou não, depende do ponto de vista. Não sei qual o efeito sobre a economia desta pequena ilha cabo-verdiana, não sei qual o efeito deste crescimento no rendimento dos trabalhadores e das famílias, mas a cintura de hotéis e resorts que uma larga faixa de areia dourada e fina separa das cálidas e límpidas águas do Atlântico Médio, cresceu. Cresceu e envolve toda a magnifica baía de Santa Maria. Impactos ambientais muitos, mas como parar a imparável indústria do turismo de Sol e praias de águas quentes e cristalinas num país que cultiva a “morabeza” (bem acolher, a “morabeza” é um pouco mais do que isso, mas há palavras e expressões do crioulo cabo-verdiano que não têm tradução, ou se sentem, ou não).O turismo para algumas das ilhas cabo-verdianas está como água para a agricultura, é uma bênção.
Não vou, não é o momento nem o lugar para fazer apreciações sobre impactos económicos, sociais, ambientais e mesmo migratórios do turismo na ilha do Sal, nem em Cabo Verde.


Foto by Madalena Pires
O momento e o lugar aconselham a falar das gentes que tornam este pequeno país insular e arquipelágico, flagelado pelos longos estios e pelo vento Leste, tão peculiar e acolhedor.A caboverdianidade não é, apenas, resultado de uma miscigenação genética de mais de cinco séculos, diria, socorrendo-me de um trabalho de João Lopes Filho, que o substrato básico da cultura deste povo, sendo fortemente individualizada, resulta da interpenetração e recriação das regras, tradições e costumes herdados, durante mais de meio milénio, dos povos europeus e africanos.
De outros povos se poderá dizer o mesmo, mas os cabo-verdianos desenvolveram uma cultura fundada na tradição, ainda observável nas comunidades rurais e piscatórias, que os individualiza no contexto das novas nações que emergiram de processos de descolonização. Não posso, nem devo generalizar, até porque às generalizações falta, por vezes, rigor. Mas Cabo Verde será, no contexto mundial, um caso, não direi único, mas um não tenho dúvida em afirmar que é, pelo menos, um caso de estudo.
Foto by Aníbal C. Pires
Sem recursos naturais, mas com um povo dotado de uma perseverança notável Cabo Verde soube aproveitar todas as oportunidades da ajuda internacional para se infraestruturar e desenvolver. Este processo não está imune de críticas, mas também não é este nem o momento, nem o lugar para as tecer. Na verdade, Cabo Verde conseguiu distanciar-se de outros países com histórias semelhantes, veja-se o caso de São Tomé e Príncipe, e afirmar-se no contexto africano sem deixar, contudo, de manter e reforçar as ligações com a Europa, designadamente, com a União Europeia com quem tem um acordo de cooperação que lhe confere um estatuto especial.
Mas se a cultura cabo-verdiana, como atrás ficou dito, tem uma raiz fortemente individualizada não é menos verdade que existem elementos transversais que fazem deste povo uma nação tão singular, desde logo, os aspetos culturais comuns, onde a língua materna, o crioulo, assume um papel preponderante, mas também a relação de amor com o seu chão, “nós terra”.
Santa Maria, (ilha do Sal, Cabo Verde), 30 de Outubro de 2016

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário e Azores Digital, 31 de Outubro de 2016

sábado, 5 de julho de 2014

Assinalar a independência de Cabo Verde - 39.º aniversário

Amílcar Cabral - imagem retirada da ineternet 
A independência de Cabo Verde está para todo o sempre associada a Amílcar Cabral. Ele foi o seu ideólogo, ele foi o líder presente na luta que travou, junto do seu povo, até ao seu assassinato em 1973.
O "momentos" tem vindo a recordar e a divulgar a nação crioula e a sua cultura.
Aqui, aqui e aqui podem verificar isso mesmo.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

35 anos a repetir dia-a-dia a criação do mundo

Foto by Aníbal C. Pires (Santa Maria, Sal, Cabo Verde)
Comemoram-se hoje, 5 de Julho, os 35 anos da independência de Cabo Verde. O registo da efeméride é, em si mesmo, um facto que como outros acontecimentos pode, ou não merecer algumas palavras de circunstância dependendo da importância que cada um de nós dá à sucessão de datas que assinalam nascimentos, mortes, vitórias, derrotas, avanços, retrocessos, solstícios, equinócios, inaugurações, lançamentos da 1.ª pedra, enfim qualquer data que mereça, por razões diversas, a atenção individual e coletiva. 
Hoje comemora-se, também, o 2.º aniversário das “Portas do Mar”, que como se sabe foi construída com o objectivo de se assumir como uma inesgotável fonte de oportunidades de negócio que emergem das profundezas marinhas ali para as bandas da zona nascente de Ponta Delgada. Sobre esta efeméride nem sequer com palavras de circunstância perderei o meu tempo para não maçar os leitores.
Os 35 anos da independência de Cabo Verde merecem-me um pouco mais do que palavras de conjuntura, desde logo porque nutro por aquele país e povo insular uma profunda admiração, embora, talvez por isso, também já tenha tecido, lá de quando em vez, algumas críticas às opções políticas que o Governo cabo-verdiano tem tomado quer ao nível da política interna, quer ao nível do seu posicionamento na cena internacional.
Sobre aquele pequeno país insular e arquipelágico onde a natureza não foi muito pródiga disse José Saramago: “Cabo Verde fabrica o seu próprio chão, inventa a sua própria água, repete dia a dia a criação do mundo”. Lindo não é!? E quem conhece Cabo Verde e os cabo-verdianos não pode deixar de subscrever estas palavras de Saramago.

Foto by Aníbal C. Pires (pintura de Kiki Lima, Aeroporto Amílcar Cabral)
O Presidente da República de Cabo Verde, Pedro Pires, pronunciou-as hoje, durante as cerimónias oficiais do dia da independência, perante o Presidente da República de Portugal, Cavaco Silva. As cerimónias do 35.º aniversário de Cabo Verde foram marcadas por uma homenagem a José Saramago e à língua portuguesa, não faço ideia do que sentiu aquele ser “pequenino” que está em Cabo Verde a representar Portugal nesta efeméride, não sei sequer se, Cavaco Silva, terá compreendido o profundo significado da frase com que Saramago caracterizou Cabo Verde e os cabo-verdianos pois são, sobejamente, conhecidas as suas limitações na leitura dos textos do Nobel da Literatura que faleceu recentemente e a cujas exéquias fúnebres o Presidente, de alguns portugueses, achou por bem não comparecer uma vez que não conhecia o falecido, de entre outros motivos analogamente prosaicos.
Mas voltemos a Cabo Verde e à sua diáspora para referir que no âmbito das comemorações do 35.º aniversário da independência o Governo cabo-verdiano vai abrir, no âmbito do projecto a Casa do Cidadão, balcões de atendimento no Porto, Coimbra, Setúbal e Açores, sendo que na Região este balcão da Casa do Cidadão vai funcionar nas instalações da Associação de Imigrantes nos Açores (AIPA), em Angra do Heroísmo.
O projecto Casa do Cidadão funciona desde 2008 em Odivelas e tem por objectivo aproximar os cidadãos da diáspora da governação com recurso às novas tecnologias de informação e comunicação.
Para terminar não resisto a citar António Monteiro, líder parlamentar do partido da oposição cabo-verdiana, que não deixou de homenagear e citar Saramago durante as cerimónias evocativas da independência de Cabo Verde utilizando a seguinte frase do Nobel da Literatura: "os fortes deviam ser mais justos e os justos deviam ser mais fortes".
A ida de Cavaco Silva terá valido pela lição que os dirigentes cabo-verdianos lhe proporcionaram sobre a universalidade da lusofonia. Assim o espero, embora tenha muitas dúvidas e me engane bastas vezes!
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 07 de Julho de 2010, Angra do Heroísmo