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quinta-feira, 15 de maio de 2014

Bolero en El Ateneo Grand Splendid

El Ateneo Grand Splendid - não encontrada referência autoral da imagem


Sempre foste meu espelho,
quero dizer que para me ver, tinha que olhar-te. 
(Julio Cortázar in Bolero - tradução livre)


Buenos Aires, janeiro de um ano qualquer.
   A mulher estava no café da livraria, alojado no palco do que antes fora o teatro homônimo, atestando se aquela de fato era a segunda mais bela loja de livros de todo o mundo. Há o aspecto subjetivo, pensou. Sentou-se à mesa no canto segurando uma antologia de Cortázar, edição de luxo, capa dura em dedos macios.

   Sorvia o café meio-forte, folheando-a aleatoriamente ao deixar que o destino e seus sortilégios elegessem um futuro mais claro, como quem se esquece da bola de cristal, mas ainda crê nos reflexos das bolhas de sabão. Com os aromas do café, de seu perfume preferido e da tinta fresca na parede lateral, abriu à página 44:
   “Fui uma letra de tango
   para tua indiferente melodia.” *

   Depois de ler, a mulher apertou com o indicador direito as duas gotas de café que, indisciplinadas, caíram para fora da xícara. Entre suas digitais, sonhos furtivos, impossibilidades e toda a eternidade, disse-lhe o poeta o que não ousou contestar. Estava ali, na El Ateneo Grand Splendid, onde na plateia há livros sentados e amor na próxima página, na de número quarenta e cinco.

*Julio Cortázar in Siempre empezó a llover


Fito Paéz - Un vestido y un amor

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Uma valsa para Viena

Fotografia de Ana Cecília Romeu

... nunca seremos
o casal perfeito, o cartão postal,
se não formos capazes de aceitar
que somente na aritmética
o dois nasce do um mais um.
(Julio Cortázar in Bolero - tradução livre minha)


Viena, Áustria, num outono qualquer.
   Recordas de quando tentamos dançar uma valsa em Viena, na frente daquele palácio no centro...? Teus pés sambavam de um lado a outro, parecia que usavas os sapatos de Aladim. Algo na ponta dos teus calçados chegava às minhas canelas, ainda que um tanto suave, mas era incômodo. Um blues desafinado, uma descoordenação em sintonia. Sim, fui ao chão, mas me levantaste, recordas?
   Estávamos em Viena na frente daquele palácio no centro, não, nunca vou me lembrar do nome do palácio..., mas sei que escutei a Two uf us do Supertramp, e estou te dizendo isso agora, depois de anos. Há músicas compostas para todas as ocasiões, e essa foi minha canção de queda, do nosso rodopio que não deu volta alguma. Nos acordes, falsetes atrevidos; nas letras, dislexia. Algo do fim para o início interrompeu nosso andamento e não processou senha de permissão, mas prosseguimos. (Des)valsamos os dois, mas sempre estaremos juntos. 



Two of us - Supertramp
 Interpretação de Roger Hodgson, ex-integrante da banda


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Nova publicação no blog a partir de maio.
Abraço imenso a todos!